19 março 2017

Canção para Roy e Pris

“Desilusão, desilusão, danço eu, dança você,
na dança da solidão.” (Paulinho da Viola)


Eram inconquistáveis. Nem música adiantava. Tinha cantado algumas para eles, puxava da memória as melodias mais macias, as palavras mais sedutoras, e nada. Sentava e cantava, o coração naquela expectativa de resposta.
Se lembra da fogueira
Se lembra do balão
Se lembra dos luares, do sertão...
Não, andróides não devem recordar esse tipo de lembrança, mesmo os de última geração. Procurava outra música.
Images of broken light which dance before me like a million eyes
They call me on and on across the universe
Thoughts meander like a restless wind inside a letterbox
Theys tumble blindly as they make their way across the universe
Jai guru deva. Om.
Nothing’s gonna change my world…
Não adiantou. Nem sax tocando Us and Them, nem Vangelis; eram imunes à música, também.
Olhava para eles de soslaio, eles a encarando muito direta e friamente como “perdeu alguma coisa aqui?”. Desviava o olhar, era insustentável o que via dentro daqueles dois pares de olhos tão claros, tão sombrios. De tanta luz refletida. Só entendia a acusação, a indiferença e um “vocês hão de me pagar”. Não sabia qual era a dívida, mas entendia a cobrança.
E se acenasse, pagasse o mico de acenar, rir para eles, jogar beijo, piscar, implorar amizade, mas assim tão diretamente espantaria os dois, melhor tentar aproximação lateral, continuar na conquista, mesmo que levasse milênios para isso. Tinha tempo de sobra. Tempo era tudo que restava, sempre.
Resolveu contar uma história, voz baixa, mas que desse para ouvir, passou a manhã se preparando, e à tardinha, quando a respiração fica mais lenta e tudo que queremos são histórias, começou.
Conta-se que quando se miraram, a jangadeira e o pirata, jangada e caravela ladeando-se, numa dança sobre as águas, numa sedução que já não se lembravam como fazia, conta-se que o sol cerrou os olhos, deixando espaço para que se mirassem sem se cegar.

A noite desceu ali mesmo, sobre o mar antes avermelhado, e fez-se grande silêncio, carregado de significados. Nos olhos dela ele viu a lua, e ela sonhou estrelas nos cabelos e barba do pirata, e decidiu que singraria os sete mares com ele.

Pois agora, mesmo havendo sol quente, sede nunca saciada, o suor escorrendo salgado na boca seca, a pele ressecando a cada dia, agora havia lua e estrelas. E a noite saberia se fazer para os dois.

Conta-se que ainda hoje, para quem saiba ver, na hora da penumbra, quando o sol desce as cortinas e a noite começa a subir, ainda se vê jangada e caravela ladeando-se no silêncio do Mar Oceano.
Também não se deixavam enredar pelas palavras. As teias que tentava tecer não serviam de laços, nem por momentos.
Pareciam tão seguros, indiferentes a tudo de fora, centrados em si mesmos, só ela era estranha, forasteira, sentia o sol ardendo a chuva gelada, tremia de frio, de calor, de solidão, era só ela?
Sentia uma inveja afiada daquele vínculo entre os dois, aquela lealdade e união que só os condenados e absolutamente desenraizados podem ter, estrangeiros em terra hostil. Um era tudo que restava ao outro. Melhor ficarem juntos.
Começou a inventar brincadeiras, fabricava balõezinhos coloridos, enchia de ar quente de fogueira, e soltava, o céu noturno ficava repleto deles, no lugar das estrelas que já não podiam enxergar, eram balões gritando socorro nas correntes de vento. Girava centenas de piões prateados dourados furta-cor, vai que andróides gostam de cores metálicas, futuristas, punha pra rodar e ficava horas olhando. Tempo era tudo que restava. Pulava corda na frente deles até cair de exaustão. Nem, também.
Um dia resolveu fazer comida para eles. Devia ser doce. E cremoso. Com café e chocolate. Acordou e começou a preparar, mãos pacientes de cozinheira alquimista. Cheiros cores sabores.
Ingredientes:
200 g de biscoitos champagne
3 ovos
250 g de queijo mascarpone
75 g de açúcar
50 g de chocolate amargo em pó
½ xícara (de café) de  rum
3 xícaras (de café) de café

Bater as claras em neve. Juntar o queijo mascarpone, misturando delicadamente. 

Em seguida, acrescentar as gemas, o rum e o açúcar, obtendo um creme denso e homogêneo.


Fazer o café e deixar esfriar. Banhar os biscoitos nesse café, um por um, e colocar numa forma de cerâmica, feita de argila apanhada de manhã nos rios, úmida e fria, e cozida ao meio dia num forno bem quente.

Quando tiver a primeira camada de biscoitos completa, cobrir com o creme, fazendo camadas de creme e biscoitos. A última camada deve ser de creme. Pulverizar a superfície com o chocolate em pó.

Levar a repousar por duas horas antes de servir.
Bateu chantilly fresco perfumado com vagem de baunilha sem sementes, quando começou a cair a noite e esfriar, para colocar em cima. Duendes costumam vir de noite se alimentar de papa de aveia. Vai que andróides também se atrairiam por aquele doce.
Não vieram. Ela dormiu de tanto cansaço e sonhou.
Estavam em cima de uma montanha tão alta, imensa, com neve no pico, solitários na companhia que faziam um ao outro, olhando o horizonte lá de cima. Ela começou a construir uma escada na encosta da montanha, degrau por degrau, uma torre de babel que a levasse a eles, mas escorregava, respirava com dificuldades conforme subia, o coração disparava, não ia agüentar. Precisava tanto daquele contato, um olhar, uma palavra, um sorriso, não tinha nada, nem a viam ali, eles eram eles e deles. Ela não existia.
Quando acordou, cheia de gemidos enroscados, viu que estavam dormindo, lambuzados do doce que tinham roubado durante o sonho dela.
Resolveu radicalizar. Ficava deitada na linha do trem, de olhos fechados, embaixo do sol. Ou andando por ela, equilibrando nos trilhos. Se o trem viesse eles haveriam de avisá-la, dar um grito, até andróides aprendem a amar a vida. Avisaram nada. O trem também nunca veio.
Uma manhã tudo escureceu. Nuvens cinzas negras, ia cair chuva forte. Construiu uma cabana, deixou espaço para eles, um caramanchão bem seguro, passou o dia erguendo paus, cobrindo telhado, fechando fendas. Entrou lá quando a chuva começou, e eles ao relento. Nem aí. Ensopados, lado a lado, impassíveis, esperando a chuva passar. Gelados.
Amanheceram pingando água da chuva, dependurados de ponta-cabeça numa árvore, como morcegos cegos, braços cruzados, deixando secar. Ela dependurou-se, também. Braços cruzados. Era dia verdinho, recém-nascido da chuva anterior, sol novinho, quase recém-nascido da explosão primordial. Deu uma sensação de que aquele era seu dia, ia enfim conseguir contato.
Ficou ali de ponta-cabeça, cantando mandingas, desejando e esperando.
Foi a primeira vez que ouviu a voz de um deles.
Hora de morrer, Roy declarou em voz alta. Caíram dissolvidos, os dois.
Ela continua dependurada na árvore.

18 fevereiro 2017

Cabrito

"Tem o infinito, tem o além, tem o além dos além. O além dos além é um transbordo." (Estamira)

Perna de cabrito, orelha de cabrito, barriga de cabrito, entranhas de cabrito espalhadas, olhos de cabrito fora do cabrito, pedaços de cabrito por todo lado, ensanguentados, cabritos estraçalhados. Carneiros, vacas, galinhas, porcos, aves, árvores e outras vegetações, humanos também.  
Pedaços, sangue, lama, sujeira e escombros em todo lugar, nada inteiro, tudo arrebentado, o planeta à beira da destruição, água, fogo, terra, ventanias, maremotos, terremotos, furacões. Guerras e revoluções. Devastação. Meu cabrito retalhado, carneiros também, ai mataro meu carneiro, ai, cortaro os quatro pé, não quero saber de nada, quero meu carneiro em pé.
Cabritos e carneiros são espécies diferentes, cabritos são caprinos e carneiros, ovinos, mas da mesma subfamília caprinae. São, portanto, diferentes, mas parecidos, o que significa que posso querer meu cabrito em pé, por que os carneiros representam os cabritos, e são representados por estes.
Meu cabrito representa não só os carneiros, mas todos os seres vivos, animais, vegetais, e, ao mesmo tempo, não é representado por nada nem ninguém, meu cabrito é. Apenas é.
É nada e tudo, meu cabrito é a vida, é o universo, é deus. É passado, presente, futuro; é o tempo e é o espaço, meu cabrito é a deusa mãe primordial. Meu cabrito é o transbordo.
Deus e deusa, despedaçados a si mesmos no altar dos sacrifícios inúteis; nem redime nem salva; nada salva, por que não há nada a ser salvo nem de que salvar. Meu cabrito é um deus infeliz, todo fragmentado, coitado do meu cabrito. Mas é livre, meu cabrito, justamente por que não representa nem é representado.
Como num caleidoscópio, as inúmeras partes do meu cabrito se ajeitam de também inúmeras formas diferentes, dependendo de como se olha; as porções do meu cabrito se unem, na tentativa de remontar o cabrito original, ideal, reconstruir o meu cabrito fragmentado numa coisa una que se imagina já ter sido. Mas não é possível isso, e consigo apenas um frankensbrito todo monstruoso.
Sim, por que essa ideia fixa no meu cabrito? Por que ele importa tanto? No que eu estaria pensando, se não fosse no meu cabrito? Na vida? Nos sonhos sacrificados no altar dos deuses infelizes? Na morte? Mas meu cabrito é a vida e é a morte, é deus e são os sonhos, e é a realidade e a abstração, eu já disse, meu cabrito é.
E, sendo dessa importância absoluta, num universo de relativos, meu cabrito se torna literatura. Oh, dizem, então, resplandecentes de esperança e euforia, tudo está salvo, por que a literatura salva! A arte salva! A religião salva! A psicologia salva! O signo salva, o simbólico salva. O bééé salva. Alguma coisa há de salvar.
Mas não, retruco, destituída de resplandescência, vazia de esperança, oca de euforia, nada salva. A literatura também não salva, pois a literatura é uma cabrita despedaçada, ensanguentada e abandonada no campo de guerra.
O que salva, então? Não sei nem quero saber. De nada. Só quero meu cabrito em pé. Meu totem e minha deusa, meus, que sou órfã desde antes do nascimento, órfã de concepção. Meu cabrito é tudo que tenho, e é tudo que não tenho. Meu cabrito é meu nada absoluto.
Deixem-me em paz com meu cabrito.
Eloisa Helena Maranhão.

10 junho 2016

Stultifera navis

“Eu quero ser da legião dos grandes mitos, transformando a juventude num exército de aflitos.”  (Sueli Costa e Abel Silva, “Cordilheiras”)

Era música. Hallelujah. Um rei confuso tocando louvores. Um rei ruivo, de cabelos encaracolados, encharcado de dor e sensibilidade. Atolado nas difíceis decisões do poder. Lutando contra seus instintos, tentando dominar-se, mas que domínio pode ter sobre um povo alguém tão intenso e tão radical. Ela ouvia aquela voz grossa, suave e rouca que dava uma vontade insana de chorar. Se ele um dia cantasse uns versos que fosse para ela, não precisava ser uma música inteira, ela começaria a chorar e não pararia nunca mais. Não, nunca não é tempo demais nem exagero nem hipérbole. Ela desataria a chorar devagarinho e para sempre, um fio de aguinha de lágrimas que formaria um riacho dos pequenos, mas profundo, e esse igarapé de lágrimas contínuas viria do presente para o futuro, pelas vidas que ela já teve e teria, uniria todas suas vidas, molharia seu carma, ensoparia o cosmos, o éter, sabe-se lá como se chama o onde ficam os espíritos, aprendendo e ensinando, dizem, mas não sabendo nunca. Se soubessem, meu Deus!, não teriam de voltar tantas e tantas vidas mais. Mas ela nunca mais pararia de chorar. E também nunca mais voltaria, se recusava a manter rodando essa roda da fortuna, esse ciclo indiano, me deixem em paz, baby, leave me alone. Como Ava Gardner.
E tanta água seria, como tanta luz havia naqueles lugares, no onde dos seres espirituais, que são mestres na navegação na luz, mas nada sabem de água, e muitos, inclusive, já se afogaram em outras vidas, e por tempos ficaram presos nas águas revoltas e escuras dos mares, e nas águas lamacentas de rios, e nas águas paradas de piscinas domésticas, até que uma empregada, gritando feito surtada, ai, meus jesus, maria, josé, acudam que o bebê está boiando!
E uma noivinha sem graça, de buço e roupas pretas, lamentava-se, tem piedade, senhor, meu Manoel se afogou.
Uma menina de tranças e pernas fortes de pelos dourados, ele não voltou, mas vai voltar, sei que vai, tem que voltar, e morreu cuidando do horizonte, perscrutando o mar com olhos baços de velha virgem, ele não voltou. Deve estar navegando em oceanos de luz, e ela, onde?, onde estará a menina velha de olhos baços rosto enrugado olhos espremidos de busca frustrada cabelos amarelados e enfraquecidos que deixou a vida passar de amor fracassado e tanta espera.
Ela escutava músicas dentro de si. Alucinações auditivas, diria um psiquiatra. Como as do apóstolo Paulo, escutando um profeta judeu recém-crucificado falando em seu ouvido. Para outros, eram as almas dos ancestrais que lhe ensinavam músicas... Para ela, era só música. Hallelujah. Um rei confuso tocando louvores. Em sua confusão ela (ou ele?) procurava cabeças perdidas... Todo mundo vivia perdendo a cabeça... Andava rolando as cabeças perdidas que achava, numa rodinha, como pneu rolado num arame...
Teceu seus cabelos num tear, queria um tecido castanho-avelã da cor de cabelos e de crina de cavalos, uma manada de cavalos galopando em debandada, conseguiu... Fez uma mortalha com ele e guardou, um dia poderia precisar de uma mortalha de cabelos cheirosos de cascas de cebolas fervidas, que usava para torná-los avermelhados...
Um dia podia precisar de tanta coisa, sempre essa carência, esse desejo insatisfeito, essa necessidade nunca sabia de que.
Nunca atravessava o portal, tinha anjos guardiões lá, inflexíveis em sua rigidez de guardiões, sua monstruosidade de funcionários públicos incorruptíveis, não se entra e não se sai, não antes da hora. A hora nunca era. A hora não existe. A hora é invenção humana, não vale no cosmos, ou fora dos humanos. Nunca podia atravessar o portal. Estavam condenados ali mesmo, sempre, até chegar a hora. Que nunca chegava. Que não podia chegar, por que não era, por que não existia, por que é constructo.
Queria extrair o infinito do finito, exaurir a polpa do finito até sobrar só a casca, mas finito e infinito também são constructos humanos, invenções psíquicas, ilusões da mente, mente também é invenção do corpo e ilusão humana, estavam condenados. Só a exaustão era real, a condenação, e o portal que não se atravessa nunca.
Era vagar de porto em porto, nunca descer, não se pode atravessar os portais, há arcanjos guardiões em todos os portais, rígidos em sua incorruptibilidade, monstruosos em sua inflexibilidade, era navegar e se manter à tona nos rios, nos mares, nas águas dos igarapés, ninguém desce, os humanos não suportariam a visão do caos daquela música, daqueles cabelos de mortalha, daquela manada de cavalos em debandada, rei confuso tocando louvores inúteis.
Os sinos tocavam, só se podia ouvi-los e vê-los de longe, não há guardiães de sons nem de olhos, não há arcanjos que nos guardem das sensações, estavam condenados a sentir e ouvir e olhar e suportar, vagando e navegando, stultifera navis.
Uma velha índia queimada olhava a nave, uns olhos amarelos de ave, um deus hindu e uma orixá africana de tranças rastafari dançavam tango aos rodopios, uma herege com os cabelos ensopados de tempestades voando nua, um cruzado enterrado sob uma árvore, uma cafuza batendo compulsivamente no seu atabaque, uma mulher que lia galopava um centauro no caramanchão, um pirata enlouquecido olhava tudo sem nada compreender, uma sereia cobria os olhos com os cabelos e desviava o olhar, uma aranha subia e descia na teia, tecendo e tentando, um soldadinho de chumbo tentava fugir no primeiro trem, uma bailarina fazia piruetas desengonçadas, milhões de crianças corriam desenfreadas e gritando, Lou Salomé acenando seu lenço na estrada, sem obter resposta, um filósofo abraçava um cavalo, da manada em debandada, chorando desconsolado, um pastor vagava nas praias e desertos buscando, nenhum profeta nem redenção, Sísifo rolando pedras, um bicho do mato abraçado num urso, espiando da orla da floresta, uma mulher e um homem cavando em volta de um carvalho, um autista pra frente e pra trás num ritmo agonizante, um almirante negro, uma puta, um louco e um cão olhavam espantados, um menino na árvore e um mico-leão dourado no chão, Pã tocando sua flauta, o Minotauro exaurindo força da juventude grega condenada, Ícaro voando alto demais sob o angustiado olhar impotente do pai, um matemático espantado com catenárias, uma revolucionária olhando tudo sem nada fazer, afogada, pedra amarrada no pescoço, apodrecendo entre as algas, moída das mesquinharias e covardias dos normais. O corvo com suas asas estendidas, e uma colcha de retalhos que nunca ficava pronta. Stultifera navis.
Colchas de retalhos são invenções, artesanato, como teias, ferro-guza, altos-fornos, forjas, teares, agulhas, fábricas, palavras, teclados, tranças rastafari, as horas, nada era, só restava a música. Hallelujah. Um rei confuso tocando louvores. Cabeças perdidas roladas em pneus, enroscadas em arames.
Ninguém morreu, morte é invenção humana, ninguém viveu, vida é ilusão da mente que é ilusão do corpo.
Só existem a música, cabeças perdidas e um rei confuso tocando louvores inúteis. Hallelujah. A nau dos insensatos.

18 janeiro 2016

Se eu fosse morrer amanhã

"Posto que hades não existe, seguramente estás lá
último hotel, último sonho,
passageira obstinada da ausência
Sem bagagens nem papéis,
Dando por pagamento um caderno
ou um lápis de cor.
- Aceite-os, barqueiro: ninguém pagou mais caro
o ingresso aos Grandes Transparentes
ao Jardim onde Alice a esperava."
(poema de Júlio Cortázar para Alejandra Pizarnik)

“Não me pergunte por quem os sinos dobram.
Eles dobram por ti e por mim”. (John Donne)


Se eu fosse morrer amanhã eu não iria tomar banho de mar pela última vez, nem comeria manga madura, nem me entupiria de musse de chocolate, ou sentaria debaixo de um ipê pra sentir o cheiro das flores, nem deitaria na terra molhada ou tomaria chuva. Mas tomaria leite batido com chocolate e olharia com meus bigodes de espuma pro gato – que nunca tive – e lhe diria: “foi um prazer, gato, não ter tido você”. Também não leria um trecho do meu livro preferido, aquele que fala das formigas ruivas e do saco de ossos. Também não escutaria “Bicho de Sete Cabeças”, se eu fosse morrer amanhã. Porque eu já teria feito tudo isso a vida inteira, e não sentiria nenhum arrependimento do que não fiz.

Eu abraçaria e beijaria muito cada um dos meus filhos, e repetiria mais várias vezes quanto eu os amo, e como fui feliz por tê-los na minha vida, e como sem eles ela teria sido tão pobre; e faria isso para que eles aprendessem desde cedo que a gente morre porque tem de morrer e não por que quer. Gostaria que eles entendessem que minha morte não foi um abandono, nem falta de amor.

Eu também ligaria para cada pessoa que amo e que estivesse longe (e são tão raras essas hipotéticas pessoas), só para ouvir a voz delas, e levar esse som de amizade comigo. E para que elas também soubessem que morri por necessidade, e não por opção.

Se eu fosse morrer amanhã eu não pediria perdão por nada a ninguém, por estar implícito que tudo que fiz foi por amor, e se errei – e quanto errei!- foi sem intenção alguma de magoar, de ferir, muito menos, e nem mesmo de errar. Ou seja, quem erra com fé acerta até no erro, porque o processo é tão ou mais importante que o resultado, e ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão; eu gosto dessas frases, são um consolo pros vis como eu.

Também não escreveria uma carta-testamento - nem sou Getúlio Vargas - e nem deixaria bilhetes de despedida. Morreria e tchau. Hasta la nunca, baby. Talvez, num lapso de sentimentalismo brega, eu escreveria algo como “se eu fosse morrer amanhã”, e entraria pela última vez no meu e-mail para enviar aos conhecidos. Ou deixaria para enviar depois de morta, seria um e-mail das esferas, psicografado em bits e bytes.

Não pagaria dívidas de bancos, nem financeiras nem outros agiotas, que seguro só serve para isso, mesmo, evitar que herdeiros paguem esse tipo de dívida. Também não compraria caixão nem terreno em cemitério, nem lavaria a louça acumulada de semanas, enquanto me preparava para morrer, nem faria nada prático, que bom mesmo é morrer encantada, o corpo desaparecido ou levado por pássaros ou borboletas para um lugar muito longe e inacessível.

E minha morte nunca pareceria um suicídio - ainda que fosse - pra não deixar rastros de destruição sobre os, poucos, que amo.

Mas eu, se fosse morrer amanhã, pegaria o violão, nessa última noite, e cantaria baixinho para você “Gracias a la vida”, e faria amor essa noite quase inteira, sentindo de novo todos os gostos, os cheiros, experimentando todas as posições que porventura tivessem ficado perdidas, só para me deixar marcada em você. Pra que você chorasse e me chamasse, de saudades de mim. E que quando você me substituísse por outra – e eu desejaria de todo coração que isso acontecesse e você fosse de novo muito feliz -, então que você se lembrasse de mim de vez em quando, sem dor, por essa última noite. E por todas as outras também. E essa noite também me serviria para me fazer tão, mas tão feliz, que eu até gostaria que existissem outras vidas, e faria questão de voltar só para te reencontrar e te amar outra vez. Ou não.

Depois, dormiria o resto da noite só para sonhar, mesmo que fosse algum pesadelo, pra eu saber, no meio do sonho, que estava viva, ainda, e poderia acordar a qualquer momento. Morrer só é bom quando não se morreu de verdade. Ou não².

Por fim, se eu fosse morrer amanhã, gostaria de me abraçar ao Serra, ao Maluf, ao Sarney, ao Aécio, Bolsonaro, Alckmin - nossa, a lista é tão grande! - morrer abraçada ao Obama seria a glória, se tivesse esta oportunidade; porque teria bombas ou granadas amarradas no meu corpo, e levaria pelo menos um bastardo comigo, na minha morte. E morreria feliz, e acharia que minha morte foi menos inútil - assim como minha vida - por ter limpado o mundo de pelo menos esse imbecil.

Isso se eu fosse morrer amanhã.

Ah, se eu morresse amanhã...

30 outubro 2015

Aracne, a tecelã de (falsas) teias.

"Ai, tecelã sem memória,
de onde veio esse algodão?

Muito embora nada tenhas,

estás tecendo o que é teu.
Teces tecendo a ti mesma
na imensa tearia..."
(Mauro Mota)

"Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo." (Cecília Meireles)


Aracne era tecelã. Era seu ofício e seu saber. Não fazia outra coisa a não ser tecer. Te-ser. Te-ser-se. Teias, muitas teias. Regulares, bem organizadas, mas, muitas vezes, absolutamente irregulares, e isso dependia do seu estado momentâneo. Aracne produzia o que conseguia, e não o que considerasse melhor, ou que desejassem para ela.
Algumas teias ela deixava incompletas, outras terminava e nelas habitava até que se desintegrassem. De outras tantas, mudou-se quando enjoou daquelas formas. Aracne gostava de experimentar formas. De experimentar a flexibilidade ou a viscosidade dos fios. Ela gostava de tentar.
O problema de Aracne (afinal, humanos, todos têm algum problema, ninguém é um solucionado completo, e Aracne não escapava dessa sina), o problema é que o tentar de Aracne não tinha um fim, uma finalidade, algo a ser conseguido... Era, simplesmente, tentar, mesmo, continuar tecendo enquanto aguentasse...
Pobre Aracne (ou rica, se se pensar que, pelo menos, ela perdendo as ilusões, ganhava experiência). Ficamos assim, para evitar injustiças: Aracne era pobre e rica. Provavelmente como todos os humanos. Mesmo ela não sendo humana, mas isso não vem ao caso, já que na Terra vivia, e com os humanos convivia. E, às vezes, também tentava ser como eles, mas só às vezes, e cada vez menos vezes.
Ela nunca havia pensado nisso antes, mas foi percebendo que a maioria das pessoas tem uma finalidade que persegue, faz planos, tem projetos de vida... Aracne nunca teve... Nem queria ter... Talvez até quisesse, ou tivesse querido um dia, mas com essa coisa de perder as esperanças, de dar adeus às ilusões (Aracne e Elizabeth Taylor), talvez fosse mais simples, mais cômodo e menos doloroso pensar que ela própria não queria ter uma finalidade. Talvez. Por que talvez, também, fosse mais complexo, mais incômodo e muito mais doloroso pensar que não tinha finalidade por que essa nunca tinha existido, pra ninguém. Ou por que ela era incapaz de conseguir isso. De qualquer forma, não querendo, ou querendo, a dor estava ali.
Aracne não se importava muito com isso de não ter finalidade na vida, de não tecer objetivos, mas só as teias, que eram extensões de si própria. Não era uma coisa que fazia diferença pra ela...
A sensação que tinha é que tudo que fazia e já tinha feito havia sido instintivo, uma necessidade básica e absolutamente impostergável na ocasião em que as fizera, como as opções seguidas, as decisões que tomou – e se responsabilizava por todas elas, não porque se sentisse moralmente obrigada a essas responsabilizações, mas porque se sabia socialmente chamada a se responsabilizar pelo que acontecia com ela; fazia parte do jogo. Não podendo retirar-se do jogo no momento, Aracne jogava como podia.
Ela, realmente, não se sentia responsável no sentido de escolhas, de ter optado por algo, mas no sentido de aquilo ter acontecido em sua vida; e ponto. Cada ocasião ou situação ou acontecimento tinha sido apenas uma entre as tantas opções que poderiam ter sido... Aracne nunca se sentia andando ou tecendo "um" caminho que levasse a algum lugar específico... Era adepta (Aracne e Antonio Machado) por opção, ou falta dela, do “caminhante, não há caminho, faz-se o caminho ao caminhar”.
Outro possível problema de Aracne, ou não, é que nossa tecelã preferida (não é sua tecelã preferida? A minha, é), é que Aracne não confiava em nada nem ninguém. Oh, diziam os incautos, os julgadores, os cheios de pedras nas mãos pra tudo que escapulisse um tiquinho que fosse ao senso comum, que horror ser desconfiada assim, que terrível um ser tão sem confiança! Confie, diziam, confie, Aracne, que sem confiança você não chega a lugar algum. Mas como lugar algum não existia, que diferença fazia se confiava ou não?
Mas ela era assim (vou defendê-la, tá, já que é minha tecelã predileta, e é muito triste só ter algozes, promotores e juízes, e nenhum advogado), ela era assim, sem confiança, porque sabia, perfeitamente, que não existia algo como Absoluto, ou Verdade, para que se confiasse... Ou seja, Aracne não era desconfiada, ela, simplesmente, não tinha confiança. Confiança não era um conceito dentro dela, nem tinha significado no seu dicionário. Para ajudar a compreensão dos difíceis de compreender, é como ser imoral ou amoral. Aracne, no caso da confiança, era uma não-confiada, e não desconfiada. Entendeu? Não? Sinto muito. Ou melhor, não sinto muito nada. A questão, aqui, é falar de Aracne.
Confiança, esperança são conceitos ligados a algo concreto (ou abstrato, mas concreto no sentido de existir) que alguém sabe, conhece, e pode ser partilhado... Para Aracne, esse saber (do Outro, nem dela mesma) nunca existiu, era tudo construções, era como uma imensa rede infinita, fluida, sem bordas, sem limites, uma rede onde ponto algum era central, ou Absoluto, ou se podia colocar como ponto de partida... Mesmo tecendo sua teia a partir do centro, Aracne sabia que centro também é constructo social, conceito abstrato, para poder se partir de algum lugar. De algum lugar tinha que partir, e não importava que lugar fosse esse, desde que fosse tecendo suas teias, que esse era seu único mister.
Além disso, ela também sabia que nada podia ser partilhado, que a esmagadora maioria das experiências e sentimentos é incomunicável... Qualquer comunicação era da superfície, nunca de algo mais profundo, que as profundezas eram o lugar do inacessível e, portanto, do não transferível, do não compartilhável... Os abismos, precipícios, as fossas abissais onde se situava o seu centro – inventado – nunca vinham à superfície.
Aracne já havia nascido nessa rede sem ponto central, e sabia que esse ponto não era real, era apenas uma ilusão para se situar, se sentir firmada em algo... Ela vivia sentindo os pés sem chão, o chão, inexistente, jogada sobre algo sempre móvel, escorregadio, que mudava constantemente ao sabor do nada... Seus deuses, por isso mesmo, eram apenas o Acaso e a consorte dele, Aleatória...
Tanto fazia, para ela, se era dia ou noite, sol ou chuva, frio ou calor, férias ou trabalho exaustivo, tanto fazia o que quer que fosse, porque tudo ia passar – tudo já era passado, mesmo sendo presente ou parecendo futuro... E tanto fazia porque tudo era imutável, inclusive ela. Aracne vivia num presente contínuo, num embuste repetitivo, ad nauseam.
Para ela não havia um lugar, um topos definido, ela vivia literalmente na utopia, era a sem-lugar. Também não tinha um tempo cronológico ou organizado, nem coordenada alguma que a situasse, que servisse para lhe segurar na vida, para lhe dar um ponto de partida ou de chegada... Vivia solta num espaço amplo demais, hostil demais, vertiginoso demais, eternamente dependurada, e se prendia apenas por um fio, num ponto de tangência que, a qualquer momento, poderia jogá-la pra fora desse universo em que vivia... Um universo sem sentido, sem nexo, sem vinculação, sem encadeamento, sem conexão, sem liame, sem relação, sem associação, sem junção, não era elo de cadeia alguma. Era uma sem-link, Aracne.
Também era a sem-futuro, a sem-noção... Sem noção do que quer que fosse, apesar de parecer mais ou menos lúcida, bem orientada, de conseguir viver razoavelmente – por algum tempo, ou em algumas fases – na tal da “realidade” em que via os humanos viverem.
Mas não se afobem incautos, porque essa realidade, para ela, não era absoluta nem tinha valor algum, era apenas o lugar onde ela se encontrava no momento... E de onde não saía, tanto por ser cômodo quanto por não ver outra opção... Sair de onde, e para onde?  Buscar o quê? Buscar... Nunca buscou nada, as coisas simplesmente aconteciam, e eram aceitas com naturalidade... O que era, era, e ela não via como mudar as coisas, porque as mudanças também lhe pareciam tolas, já que mudar era apenas mudar circunstâncias, e nunca o “cerne” – justamente porque cerne, centro, miolo, medula, essência não existiam. Tudo era tudo e era nada.
Aracne, por isso, se apegava muito a uma rotina qualquer que fosse, rotina esta, obviamente, inventada, como todas as rotinas de todos os humanos, e tinha uma necessidade – que pareceria doentia, talvez – de tornar coisas em absolutos: seus amores, sua casa, suas teias, seus animais de estimação (entre eles um elefante fabricado por ela mesma, com seus parcos recursos, e um unicórnio azul que encontrou na rua e resolveu ficar com ele. O dono que o procurasse e lamentasse sua perda, se quisesse, por que ela não o iria devolver, nunquinha).
Inventava esses absolutos por extrema necessidade desse ponto de amarração de sua vida, que não existia (a amarração nem a vida), e era a fonte de seu total desespero... Odiava viajar, por exemplo, pois qualquer lugar no mundo era um lugar qualquer, e como não tinha pra onde ir, nem pra onde voltar, preferia não sair... Preferia não, não tinha condições de sair, de buscar nada, porque sabia que nada havia a ser buscado, e nenhuma saída levava a lugar algum... Além disso, para onde quer que fosse ela se levaria a si mesma, o que não servia de fuga, pelo contrário. Era prisioneira de si mesma e de suas teias.
Era uma mulher-aranha, Aracne, sempre tecendo e tecendo e tecendo, e se protegendo dentro de seus tecidos, de sua teia, criando casulos em volta de si com sua própria secreção. Aracne se protegia da hostilidade ao seu redor com seu próprio corpo e fabricando, ela mesma, essa proteção. A única que podia surtir efeito.
Ela pensava, e pensava muito, em tudo, em todos, em si mesma, na vida... Mas era um pensar a partir de nada, um pensar sem medula, sem esqueleto que o mantivesse de pé... Pensava em tudo que lhe passasse pela cabeça, ou diante dos olhos, ou que lhe entrasse pelos ouvidos...
Mas não era um pensamento com referências, eram pensamentos aleatórios, variados, coloridos, varados de tons, sons, cores, formas diversas... Seus pensamentos nunca formavam uma teoria, mesmo porque ela nunca acreditou em qualquer teoria... Uma teoria exige vínculos, nós, ligações entre pontos, contato... E os pensamentos dela eram impossíveis de ligações, de conexões, de causas e efeitos, de consequências... Seus pensamentos poder-se-iam chamar de puros, solitários, unitários... Cada pensamento era único, desencadeado, sem possibilidade de encontrar um par... Aracne era ímpar em tudo...
Mas sosseguem os empáticos, os sensíveis, os que conseguem colocar-se no lugar do outro, e que estão sofrendo ou preocupados com Aracne e seus desvarios. Pois ela acabou se dando bem, acreditam?
Foi quando se encontrou com Átropos, a Moira, e, enfim, teve seu fio cortado. Abençoada Átropos, que, finalmente, soltou a linha de Aracne, desfazendo sua sina de tecer e tecer e tecer. Não mais fios, não mais teias, não mais Aracne.
Assim terminam, verdadeiramente, todas as histórias reais, como a de Aracne. A de Aracne, a minha e a sua, também.
Eloisa Helena Maranhão

02 agosto 2015

Flauta de Pã

“O harpista largou sua Flauta de Pã e com 
a voz humana cantou suas melodias infinitas”. 
(Borges, "O Aleph" )


Andava pela floresta como quem conhece cada trecho dela; conhecia as curvas dos pequenos e raros riachos, conhecia cada pedra do solo, e as folhas de cada árvore, cada arbusto que crescia nos buracos mais ocultos; conhecia as luzes por entre as folhagens, e as sombras de cada momento do dia; vivia ali, sozinho, desde tempos que não podia contar, e o mais longe que tinha ido era até a orla, naquele limite onde a vegetação escasseava e o descampado se fazia ver.


Naquele dia não andava como sempre, automaticamente, pulando à procura de alimentos, ou apenas sentindo o ar morno na pele grossa e nos cabelos encaracolados; naquele dia procurava bambus, de várias espessuras e tamanhos, sem rachaduras, da madeira mais macia, mas mais resistente também. Na noite anterior, enquanto dormia, havia sonhado; e aquele era o dia de colocar seu sonho em prática.


Sonhara que tocava uma flauta de bambus, amarrados entre si com cipó, uma flauta em forma de um pequeno trapézio; e em seu sonho sua música despertava o que estava adormecido, trazia à existência o que era oculto... em seu sonho tocava sua flauta e todos os seres dele se aproximavam, encantados, e dançavam felizes em roda por estarem trazendo à tona o que jazia submerso nas suas profundezas.


Movido por esse sonho, o deus-menino procurava os bambus que serviriam para fabricar sua flauta, a primeira e única de sua longuíssima existência, que o acompanharia, envelheceria e ficaria escura como sua pele tostada ao sol, a cada ano que passasse.


Reunidos os bambus, depois de experimentar cada som, Pã sentou-se numa pedra da clareira e começou a unir os tubos; tudo estava em silêncio ao redor dele, e apenas sua voz se ouvia na floresta, sussurrando aos deuses, pedindo que conseguisse completar sua missão, dada por eles mesmos em seu sonho.

O ar estava parado, como nuvem sobre a clareira, nenhum animal olhando, era Pã e sua solidão, absoluta; os deuses haviam-lhe voltado as costas, para que ficasse só e construísse o instrumento que serviria para fazer emergir o que cada pessoa tinha de melhor dentro de si; e para isso Pã precisava estar sozinho, sem olhos que o espiassem, sem sons que atrapalhassem seu intento, sem luzes que iluminassem antecipadamente o que tinha momento certo para ser revelado.

Já era noite, e sem lua, quando o deus terminou sua flauta... experimentou os sons dela, mas sabia que o lugar certo era fora da floresta, na cidade dos humanos, e que eles lhe agradeceriam por seu esforço e missão.

Foi caminhando lentamente, contando os passos, sentindo nos dedos a textura da madeira, seus contornos, e antecipando a reação dos mortais quando a tocasse perante eles.

Logo que o sol nascia Pã entrou na cidade; as pessoas saíam de suas casas, as ruas estavam apinhadas, a praça central cheia de gente em seus afazeres; mulheres enchiam cântaros de água, homens negociavam em pequenos grupos, crianças corriam e brincavam entre cachorros, mulas, aves e cabras...

Pã saiu da floresta com sua flauta, parou em frente aos humanos e tocou.

Logo que aquela música dissonante começou a ser tocada, os ouvidos humanos passaram a zumbir, o ar tornou-se irrespirável, as cabeças doíam terrivelmente, e os sons que deveriam remexer as pessoas por dentro, que deveriam ecoar dentro delas, agitou-as por fora, fazendo-as correr desesperadamente.

Em pânico puseram-se em fuga da presença daquele deus híbrido, metade homem metade cabra, aquela figura tosca que lhes despertava as consciências; atropelavam-se até caírem exaustas, gritando e tapando os ouvidos, enquanto Pã olhava surpreendido, sem entender por que motivo os mortais tinham tanto medo de ouvirem a si próprios.

Eloisa Helena Maranhão

13 julho 2015

Mar oceano


"Contar-se-á talvez, um dia, que também nós,
marchando para o oeste,
esperávamos atingir uma Índia, - mas que
o nosso destino foi encalhar perante o Infinito?"
(Nietzsche)

“Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio?”
(Vasco Gato)


Conta-se que naqueles dias o sol nunca deixava de brilhar. Alaranjava as águas do Mar Oceano, avermelhava ao meio-dia, amarelava levemente quando era inverno... Mas não se punha nunca, o sol. Quem saísse a singrar naquelas águas havia de estar preparado, e não se queixar das dores de cabeça, nem da sede nunca saciada, o suor escorrendo salgado na boca seca, a pele ressecando a cada dia. Sempre era dia. Ainda não havia noites, ali.


Ele não tinha perna-de-pau. Nem olho-de-vidro. Nem cara-de-mau. Pelo contrário, tinha olhos tranqüilos, fluidos, de longos cílios negros, que olhavam com doçura. Mas era pirata. Dos bons. Ou melhor, dos maus. Hão de ser maus, muito maus, os piratas. Até o próprio nome – bíblico – havia mudado. Escolhera uma letra que o identificava naqueles mares.

E passavam por ele navios, e aviões que o sobrevoavam, e naus e embarcações de todo tipo, e os navios maiores que faziam cruzeiros eram os que mais o enchiam de espanto e furor. Aquela gente toda sem saber para onde ia, dançando nos convés, nadando nas piscinas, refestelando-se em jantares cujas sobras jogavam no mar, que nem para os peixes serviam, estavam já podres. E quantos náufragos boiando ficavam por ali, acompanhando os navios com seus olhos famintos, tentando sobreviver dos restos. Atirava com seus canhões, queria afundar aqueles navios abarrotados de gente inútil.

Ninguém via os escombros todos por baixo da superfície. Nem sentiam o cheiro da podridão dos navios. Não notavam as manchas de óleo no mar. Nem os navios fazendo água. Do ninguém exclua nosso pirata. Ele sabia.

Passava a vida navegando e escrevendo. Era pirata escritor. Vivia de naufragar navios oficiais, dos saques que conseguia roubar das caravelas apinhadas com ouro e prata das Américas, das moedas e patacões que readquiria dos corsários, sempre tão bem remunerados, com suas cartas de reis e rainhas. 

Escrevia e lançava ao mar. Em garrafas arrolhadas, ou soltas ao vento, suas idéias e palavras eram lançadas ao mar. Sempre haveria quem as encontrasse e aí poriam brotos dentro desses, terreno fértil para palavras e idéias de um pirata sonhador.

Conta-se que, por vezes, sua caravela ia apinhada de gente. Toda sorte de gente encontrada naqueles mares, e eram náufragos, e eram putas procurando outro destino, e eram pobres e condenados do continente procurando a América e as ilhas do Pacífico, e eram escravos jogados pelos navios negreiros ainda com resto de vida, e eram velhos sem destino, abandonados, e eram crianças também abandonadas ou fugitivas, e eram amores passageiros, mas que pareciam duradouros, e eram amores duradouros, pelos quais não se daria um tostão, de tão instáveis que pareciam.

Mas por outras vezes sua caravela, navio-fantasma, vagava solitária, como solitário ele estava, sem ninguém, e sem comida, e sem água, e sem pássaros que o acompanhassem, e sem lua nem estrelas. Ainda eram tempos sem noite, aqueles. Ele suportava o sol e a solidão, sem opção.

Sempre escrevendo, em quantas línguas soubesse e inventasse, vai que alguém que não sabe língua nenhuma, ou que, de tanto sabê-las, esqueceu-as, e elas já não lhe fazem sentido, vai que esse alguém encontra sua mensagem e entende. Vai que alguém no Mar Oceano precisa dessa mensagem em alfabeto inventado. Urgia encontrar esse alguém.

Ela não tinha nome. Colocavam-lhe os nomes que queriam, quando passava em sua jangada perto das praias. Atracava, pegava água doce, consertava a jangada, passava uns tempos na terra e voltava ao mar. 

Era jangadeira. Nascera em terra firme - era o que diziam -, mas tinha-se lançado ao mar desde que notara que a terra não trazia segurança alguma. 

Conta-se que, quando notou que também o mar não era garantido, era tarde. Já estava ao sol, pele ressecando a cada dia, o suor salgado escorrendo na boca sedenta. Não se queixava. Não tinha opção. Navegar é preciso, viver não é preciso. Bendita Escola de Sagres, que constrói embarcações e sabe que navegar é preciso. Lançou-se a navegar.

Era tudo que sabia fazer. Ou que precisava fazer. Navegar. Manter-se flutuando, mesmo que à deriva. Aprendeu a fazer jangadas, pois caravela era coisa de corsários, tripulação oficial ou piratas. Não era uns nem outros. Era jangadeira. Nem nome tinha.

Também recolhia náufragos, putas, loucos, pobres, condenados, velhos, fugitivos, cães sarnentos e gatos doentes em sua jangada, que logo deixava nos portos, ou em outras embarcações que a abordassem. Não sabia o que fazer com gente. Não gostava de seguidores. Nem de seguir. Melhor que cada um encontrasse seu caminho. Ou inventasse um. 

Tocava flauta andina embalando-se a si mesma, e atabaque para espantar os peixes grandes, os tubarões que se aproximavam perigosamente da jangada, índia e negra de cultura iletrada, só sons, se fizeram dentro dela. Cafuza dos mares.

Nem sabia a urgência que sentia de uma mensagem, quando achou uma garrafa com um papel dentro. Abriu e leu. Não estava em língua nenhuma conhecida, mas ela leu. Aquela era sua linguagem, que havia inventado há tanto tempo, para se comunicar consigo mesma. Tudo que escrevia era tentativa de falar consigo, e depois virava fogueira para assar peixes. Papéis serviam para isso, assar peixes saborosos. Ou virar colagens para enfeitar a jangada. Jangada colorida era essencial.

A mensagem tomou conta dela. Falava dos navios oficiais, dos jantares desperdiçados, e de pirataria, e dos escombros que ninguém via – só ela -, e do cheiro de podridão do Mar Oceano. Ela também sentia aquele cheiro, e vagava no meio daqueles escombros. Tinha passado a vida tentando manter-se à tona, desviar deles, e ajudar náufragos.

Outras mensagens chegavam à jangada. Tornou-se emergencial ler aqueles textos, respondê-los, saber de onde vinham. Era sua língua, desconhecida de todos, mas alguém sabia! Quando se tornou aléxica de tanta palavra que tinha dentro de si, de tanta leitura, perdeu a capacidade de se comunicar, e nem mais lia e nem conseguia escrever, também, e nem falar, tudo que soubesse a linguagem perdeu o sentido, e era uma surda-muda-analfabeta solta no Mar Oceano, e nem sinais já conseguia reconhecer, e quanto mar havia para entender, mas estava sem significação alguma. 

Aquelas mensagens restituíram nela a leitura e a compreensão do mundo. E a escrita. E a fala. Sentiu novamente a urgência da comunicação.

Conta-se que quando se miraram, a jangadeira e o pirata, jangada e caravela ladeando-se, numa dança sobre as águas, numa sedução que já não se lembravam como fazia, conta-se que o sol cerrou os olhos, deixando espaço para que se mirassem sem se cegar.

A noite desceu ali mesmo, sobre o mar antes avermelhado, e fez-se grande silêncio, carregado de significados. Nos olhos dela ele viu a lua, e ela sonhou estrelas nos cabelos e barba do pirata, e decidiu que singraria os sete mares com ele. Que tinha costas largas e braços compridos bons de abraçar, peito firme que dava sustento a uma cabeça cansada de navegar.

Ele continuou pirata. Ela manteve-se jangadeira. Mas tinham-se um ao outro, agora. Isso bastaria por uns tempos. 

Pois agora, mesmo havendo sol quente, sede nunca saciada, o suor escorrendo salgado na boca seca, a pele ressecando a cada dia, agora havia lua e estrelas. E a noite saberia se fazer para os dois. 

Conta-se que ainda hoje, para quem saiba ver, na hora da penumbra, quando o sol desce as cortinas e a noite começa a subir, ainda se vê jangada e caravela ladeando-se no silêncio do Mar Oceano.

Eloisa Helena Maranhão