27 maio 2017

Tsunami

Para o último dos moicanos. O último dos guaranis. O último dos maias, dos astecas, dos incas. E o último dos gebuseus, dos cananeus, dos filisteus, dos aveus, dos sidônios, dos amorreus, dos gibleus. Quando é água e terra, fogo e ar, dá pra entender. Mas e quando a onda é gente?


“Mil poderão cair ao teu lado, e dez mil à tua
direita; mas tu não serás atingido” (Salmo 91)


Veio a onda. Grandona, aquosa, nem espacinho entre as gotas, nem gota, aquela água enorme que engoliu tudo em minutos e voltou pro mar, arrastando a praia pro fundo, os pedaços de casas, paredes dos edifícios, mesas, colchões, bicicletas, carros, brinquedos, papéis, roupas, guarda-roupas, as fotos das crianças brincando na praia, as crianças, arrastando corpos de afogados e de se-afogandos. Depois veio um tremor, um suspiro prolongado e duro, desgraça pouca é bobagem, era o fundo do mar se assentando, reencaixando no depois, e o pouco que restava de pé acabou de ruir e os se-afogando morreram de vez.

No corre-corre, na gritaria do depois, por que no antes era só silêncio, barulho de água e explosões, mas nem pio de gato de gente de passarinho de cachorro, onde estavam os bichos?, onde tinham se metido.

Na gritaria na choradeira do agora tinha sangue-frio, sabia conter o terror e se levantar, saiu juntando gente, dando ordens, falando alto e firme, organizando ajuda. Primeiro os feridos, dos mortos e das coisas cuidamos depois, ninguém beba dessa água, vamos abrir espaço, criar um abrigo, começar os primeiros-socorros. Era voz bem-vinda, necessária, vai ficar tudo bem, vamos cuidar de todos, olha o mar, já tá voltando ao normal, vai ficar tudo bem, repetia, consolo e auxílio. Quando ela dizia, sorrindo com os olhos, por que só ela conseguia sorrir naquele meio do inferno, toda bondade de mãos firmes e sorrisos, ela dizia vai ficar tudo bem, isso tinha que ser assim, era hora de limpeza, de purificação, hora desses milhares desencarnarem, se ficassem, era só sofrer mais. Consolo. Era hora.

Se era hora deles e não a nossa, a nós nos restava viver e lutar, chacoalhar o corpo, enxugar a agüeira e secar as lágrimas. Nossa hora era continuar vivos. Era uma paz, aqueles sorrisos, olhos de céu azul, mãos de criança de unhas roídas, uma firmeza que sossegava.

Veio a onda, grandona, aquosa, sem espaço entre as gotas, nem gota, arrastando tudo, os restos do que tinha sido antes, abrigo derrubado, os feridos afogados ou se afogando, e o pequeno grupo de socorro não tinha quem socorresse mais. Tanta água. Decerto era hora dos bons, também. Ou quem sabe, pensei, antes de também afundar, hora não era, nunca foi, as coisas acontecem por que acontecem, e onda ou não onda chega e vai, e quem tá por perto se idem, tem hora pra nada, não. 

Um silêncio de mundo sem habitantes, de mar primordial. O azul dos olhos dela afundou no mar escuro. Ainda vi.


Eloisa Helena Maranhão.

18 maio 2017

Oração

Para Lou Salomé, minha irmã, onde nunca poderá me ouvir.


"Em verdade, em verdade vos digo:
 se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vô-la
concederá em meu nome."

Era uma estrada longa e estreita, cheia de curvas, tortuosamente difícil de caminhar. De uma paisagem bela e dolorosa de faltar a respiração: árvores debruçadas sobre o caminho de terra, vários rios passando sobre pontes frágeis de madeira recobertas de limo nos trechos mais escuros e úmidos, ou ressecadas e estalando onde o sol batia sem comiseração.

Serena gostava de andar por ela; aprendera desde criança a amar os caminhos difíceis que levam à salvação, e larga é a porta da perdição; mesmo adulta, e ateia, continuou a preferir aquela estrada a qualquer outra larga, asfaltada, de pistas duplas e todo tipo de infraestrutura como telefones, guinchos e pedágios.

Se o carro quebrava, Serena consertava, improvisava peças, mas sempre dava um jeito de continuar sua caminhada na sua estrada, aquela preparada para ela desde antes dos tempos terem início, desde a pré-história das épocas; se havia obstáculos na estrada, Serena retirava os entulhos, colocava galhos sobre a lama, correntes nas rodas, e mesmo em casos mais sem esperança, como uma grande árvore atravessada na sua frente e abismos dos lados, ela havia pacientemente cortado a árvore em pedaços, durante meses, até desimpedir o seu caminho estreito.

Mas uma vez foi diferente; num período anormal de chuvas e ventos seu carro atolou no leito lamacento de um riacho, quando a ponte se fendeu sob si com um ruído de fim dos tempos.

Seu coração assustou-se, quieto e sem respirar, como um passarinho ameaçado, e ela percebeu que desta vez teria que buscar ajuda. Suas próprias forças não seriam suficientes para levantar o carro do meio da lama e continuar o que tinha de ser continuado.

Pôs-se a andar à pé até a estrada principal, a larga com infraestrutura, onde poderia pedir e obter auxílio.

Na caminhada que levou dias, Serena se lembrou dos filmes de África que assistia quando criança, quando o Mal se atolava em areias movediças e afundava se debatendo, agitando os braços e gritando com cara de pavor; mas o Bem sabia que era preciso se manter chafurdando sem nenhum movimento, e esperar pelo socorro que chegaria no momento oportuno. De nada adiantava agitar-se, isso só piorava a situação; a espera tranquila era mais sábia e eficaz nesses casos. O socorro viria, sempre vinha, num rabo de um macaco dependurado numa árvore, num cipó lançado por um providencial alguém, ou nos braços musculosos do Tarzan.

Serena não duvidava: sabia em quem tinha crido e estava certa que Ele a salvaria quando fosse realmente preciso. Tinha uma fé firme e sólida, no bojo de seu ateísmo charmoso, bem fundamentada nas experiências e promessas dos antigos; afinal, não era à toa que Zaratustra jurara, de pés juntos, que na Batalha Final, no frigir dos ovos, o Bem venceria o Mal. 

Andando, lembrou-se também da história dos sapos que caíram em barris de leite na fazenda, e o primeiro - que sempre assistia Tarzan, decerto assistia - morreu afogado sem se debater e sem se cansar. O segundo gritou - coaxou, sejamos rigorosos! - esperneou, e quando, já sem forças, desistiu para se entregar à sorte, percebeu que, enquanto se havia debatido "inutilmente", o leite fresco tinha se transformado em manteiga, dando-lhe apoio para saltar e escapar para a vida.

Mas essa história indigesta Serena preferiu ignorar, há casos e casos, leite fresco e areia movediça, um dia depois do outro, cada um cada um, e seja o que Deus quiser em Sua infinita sabedoria amém.

De alma leve, Serena postou-se à beira da estrada, acenando com seu colete como um lenço, como uma pequena estranha que lança apelos da beira da mais extrema de uma grande solidão em direção ao incrivelmente distante.

De início, confiante, fazia movimentos alegres, saltava, gritava, de seu posto de espera, pelo socorro, para os carros que passavam e nunca pararam.

Com o tempo os acenos foram escasseando, e os carros estranhamente também; apenas balançava seu improvisado lenço de leve, o coração arranhado pela esperança.

Recusou-se a sentar, a desistir. Continuaria ali de pé para sempre, no sol e no vento, sob a chuva e as estrelas, o colete desbotado e dissolvido pelos tempos, mas ali, amarrado onde era possível a qualquer um vê-lo pedindo socorro.

Debaixo do silêncio - a estrada larga havia se convertido no mundo quieto de antes da criação, silenciosa e amolecida como um pântano salobro - Serena esperava. O socorro viria. O Bem sempre vence o Mal.

Se Deus ouviu, não respondeu.

Eloisa Helena Maranhão.

19 março 2017

Canção para Roy e Pris

“Desilusão, desilusão, danço eu, dança você,
na dança da solidão.” (Paulinho da Viola)


Eram inconquistáveis. Nem música adiantava. Tinha cantado algumas para eles, puxava da memória as melodias mais macias, as palavras mais sedutoras, e nada. Sentava e cantava, o coração naquela expectativa de resposta.
Se lembra da fogueira
Se lembra do balão
Se lembra dos luares, do sertão...
Não, andróides não devem recordar esse tipo de lembrança, mesmo os de última geração. Procurava outra música.
Images of broken light which dance before me like a million eyes
They call me on and on across the universe
Thoughts meander like a restless wind inside a letterbox
Theys tumble blindly as they make their way across the universe
Jai guru deva. Om.
Nothing’s gonna change my world…
Não adiantou. Nem sax tocando Us and Them, nem Vangelis; eram imunes à música, também.
Olhava para eles de soslaio, eles a encarando muito direta e friamente como “perdeu alguma coisa aqui?”. Desviava o olhar, era insustentável o que via dentro daqueles dois pares de olhos tão claros, tão sombrios. De tanta luz refletida. Só entendia a acusação, a indiferença e um “vocês hão de me pagar”. Não sabia qual era a dívida, mas entendia a cobrança.
E se acenasse, pagasse o mico de acenar, rir para eles, jogar beijo, piscar, implorar amizade, mas assim tão diretamente espantaria os dois, melhor tentar aproximação lateral, continuar na conquista, mesmo que levasse milênios para isso. Tinha tempo de sobra. Tempo era tudo que restava, sempre.
Resolveu contar uma história, voz baixa, mas que desse para ouvir, passou a manhã se preparando, e à tardinha, quando a respiração fica mais lenta e tudo que queremos são histórias, começou.
Conta-se que quando se miraram, a jangadeira e o pirata, jangada e caravela ladeando-se, numa dança sobre as águas, numa sedução que já não se lembravam como fazia, conta-se que o sol cerrou os olhos, deixando espaço para que se mirassem sem se cegar.

A noite desceu ali mesmo, sobre o mar antes avermelhado, e fez-se grande silêncio, carregado de significados. Nos olhos dela ele viu a lua, e ela sonhou estrelas nos cabelos e barba do pirata, e decidiu que singraria os sete mares com ele.

Pois agora, mesmo havendo sol quente, sede nunca saciada, o suor escorrendo salgado na boca seca, a pele ressecando a cada dia, agora havia lua e estrelas. E a noite saberia se fazer para os dois.

Conta-se que ainda hoje, para quem saiba ver, na hora da penumbra, quando o sol desce as cortinas e a noite começa a subir, ainda se vê jangada e caravela ladeando-se no silêncio do Mar Oceano.
Também não se deixavam enredar pelas palavras. As teias que tentava tecer não serviam de laços, nem por momentos.
Pareciam tão seguros, indiferentes a tudo de fora, centrados em si mesmos, só ela era estranha, forasteira, sentia o sol ardendo a chuva gelada, tremia de frio, de calor, de solidão, era só ela?
Sentia uma inveja afiada daquele vínculo entre os dois, aquela lealdade e união que só os condenados e absolutamente desenraizados podem ter, estrangeiros em terra hostil. Um era tudo que restava ao outro. Melhor ficarem juntos.
Começou a inventar brincadeiras, fabricava balõezinhos coloridos, enchia de ar quente de fogueira, e soltava, o céu noturno ficava repleto deles, no lugar das estrelas que já não podiam enxergar, eram balões gritando socorro nas correntes de vento. Girava centenas de piões prateados dourados furta-cor, vai que andróides gostam de cores metálicas, futuristas, punha pra rodar e ficava horas olhando. Tempo era tudo que restava. Pulava corda na frente deles até cair de exaustão. Nem, também.
Um dia resolveu fazer comida para eles. Devia ser doce. E cremoso. Com café e chocolate. Acordou e começou a preparar, mãos pacientes de cozinheira alquimista. Cheiros cores sabores.
Ingredientes:
200 g de biscoitos champagne
3 ovos
250 g de queijo mascarpone
75 g de açúcar
50 g de chocolate amargo em pó
½ xícara (de café) de  rum
3 xícaras (de café) de café

Bater as claras em neve. Juntar o queijo mascarpone, misturando delicadamente. 

Em seguida, acrescentar as gemas, o rum e o açúcar, obtendo um creme denso e homogêneo.


Fazer o café e deixar esfriar. Banhar os biscoitos nesse café, um por um, e colocar numa forma de cerâmica, feita de argila apanhada de manhã nos rios, úmida e fria, e cozida ao meio dia num forno bem quente.

Quando tiver a primeira camada de biscoitos completa, cobrir com o creme, fazendo camadas de creme e biscoitos. A última camada deve ser de creme. Pulverizar a superfície com o chocolate em pó.

Levar a repousar por duas horas antes de servir.
Bateu chantilly fresco perfumado com vagem de baunilha sem sementes, quando começou a cair a noite e esfriar, para colocar em cima. Duendes costumam vir de noite se alimentar de papa de aveia. Vai que andróides também se atrairiam por aquele doce.
Não vieram. Ela dormiu de tanto cansaço e sonhou.
Estavam em cima de uma montanha tão alta, imensa, com neve no pico, solitários na companhia que faziam um ao outro, olhando o horizonte lá de cima. Ela começou a construir uma escada na encosta da montanha, degrau por degrau, uma torre de babel que a levasse a eles, mas escorregava, respirava com dificuldades conforme subia, o coração disparava, não ia agüentar. Precisava tanto daquele contato, um olhar, uma palavra, um sorriso, não tinha nada, nem a viam ali, eles eram eles e deles. Ela não existia.
Quando acordou, cheia de gemidos enroscados, viu que estavam dormindo, lambuzados do doce que tinham roubado durante o sonho dela.
Resolveu radicalizar. Ficava deitada na linha do trem, de olhos fechados, embaixo do sol. Ou andando por ela, equilibrando nos trilhos. Se o trem viesse eles haveriam de avisá-la, dar um grito, até andróides aprendem a amar a vida. Avisaram nada. O trem também nunca veio.
Uma manhã tudo escureceu. Nuvens cinzas negras, ia cair chuva forte. Construiu uma cabana, deixou espaço para eles, um caramanchão bem seguro, passou o dia erguendo paus, cobrindo telhado, fechando fendas. Entrou lá quando a chuva começou, e eles ao relento. Nem aí. Ensopados, lado a lado, impassíveis, esperando a chuva passar. Gelados.
Amanheceram pingando água da chuva, dependurados de ponta-cabeça numa árvore, como morcegos cegos, braços cruzados, deixando secar. Ela dependurou-se, também. Braços cruzados. Era dia verdinho, recém-nascido da chuva anterior, sol novinho, quase recém-nascido da explosão primordial. Deu uma sensação de que aquele era seu dia, ia enfim conseguir contato.
Ficou ali de ponta-cabeça, cantando mandingas, desejando e esperando.
Foi a primeira vez que ouviu a voz de um deles.
Hora de morrer, Roy declarou em voz alta. Caíram dissolvidos, os dois.
Ela continua dependurada na árvore.

18 fevereiro 2017

Cabrito

"Tem o infinito, tem o além, tem o além dos além. O além dos além é um transbordo." (Estamira)

Perna de cabrito, orelha de cabrito, barriga de cabrito, entranhas de cabrito espalhadas, olhos de cabrito fora do cabrito, pedaços de cabrito por todo lado, ensanguentados, cabritos estraçalhados. Carneiros, vacas, galinhas, porcos, aves, árvores e outras vegetações, humanos também.  
Pedaços, sangue, lama, sujeira e escombros em todo lugar, nada inteiro, tudo arrebentado, o planeta à beira da destruição, água, fogo, terra, ventanias, maremotos, terremotos, furacões. Guerras e revoluções. Devastação. Meu cabrito retalhado, carneiros também, ai mataro meu carneiro, ai, cortaro os quatro pé, não quero saber de nada, quero meu carneiro em pé.
Cabritos e carneiros são espécies diferentes, cabritos são caprinos e carneiros, ovinos, mas da mesma subfamília caprinae. São, portanto, diferentes, mas parecidos, o que significa que posso querer meu cabrito em pé, por que os carneiros representam os cabritos, e são representados por estes.
Meu cabrito representa não só os carneiros, mas todos os seres vivos, animais, vegetais, e, ao mesmo tempo, não é representado por nada nem ninguém, meu cabrito é. Apenas é.
É nada e tudo, meu cabrito é a vida, é o universo, é deus. É passado, presente, futuro; é o tempo e é o espaço, meu cabrito é a deusa mãe primordial. Meu cabrito é o transbordo.
Deus e deusa, despedaçados a si mesmos no altar dos sacrifícios inúteis; nem redime nem salva; nada salva, por que não há nada a ser salvo nem de que salvar. Meu cabrito é um deus infeliz, todo fragmentado, coitado do meu cabrito. Mas é livre, meu cabrito, justamente por que não representa nem é representado.
Como num caleidoscópio, as inúmeras partes do meu cabrito se ajeitam de também inúmeras formas diferentes, dependendo de como se olha; as porções do meu cabrito se unem, na tentativa de remontar o cabrito original, ideal, reconstruir o meu cabrito fragmentado numa coisa una que se imagina já ter sido. Mas não é possível isso, e consigo apenas um frankensbrito todo monstruoso.
Sim, por que essa ideia fixa no meu cabrito? Por que ele importa tanto? No que eu estaria pensando, se não fosse no meu cabrito? Na vida? Nos sonhos sacrificados no altar dos deuses infelizes? Na morte? Mas meu cabrito é a vida e é a morte, é deus e são os sonhos, e é a realidade e a abstração, eu já disse, meu cabrito é.
E, sendo dessa importância absoluta, num universo de relativos, meu cabrito se torna literatura. Oh, dizem, então, resplandecentes de esperança e euforia, tudo está salvo, por que a literatura salva! A arte salva! A religião salva! A psicologia salva! O signo salva, o simbólico salva. O bééé salva. Alguma coisa há de salvar.
Mas não, retruco, destituída de resplandescência, vazia de esperança, oca de euforia, nada salva. A literatura também não salva, pois a literatura é uma cabrita despedaçada, ensanguentada e abandonada no campo de guerra.
O que salva, então? Não sei nem quero saber. De nada. Só quero meu cabrito em pé. Meu totem e minha deusa, meus, que sou órfã desde antes do nascimento, órfã de concepção. Meu cabrito é tudo que tenho, e é tudo que não tenho. Meu cabrito é meu nada absoluto.
Deixem-me em paz com meu cabrito.
Eloisa Helena Maranhão.

10 junho 2016

Stultifera navis

“Eu quero ser da legião dos grandes mitos, transformando a juventude num exército de aflitos.”  (Sueli Costa e Abel Silva, “Cordilheiras”)

Era música. Hallelujah. Um rei confuso tocando louvores. Um rei ruivo, de cabelos encaracolados, encharcado de dor e sensibilidade. Atolado nas difíceis decisões do poder. Lutando contra seus instintos, tentando dominar-se, mas que domínio pode ter sobre um povo alguém tão intenso e tão radical. Ela ouvia aquela voz grossa, suave e rouca que dava uma vontade insana de chorar. Se ele um dia cantasse uns versos que fosse para ela, não precisava ser uma música inteira, ela começaria a chorar e não pararia nunca mais. Não, nunca não é tempo demais nem exagero nem hipérbole. Ela desataria a chorar devagarinho e para sempre, um fio de aguinha de lágrimas que formaria um riacho dos pequenos, mas profundo, e esse igarapé de lágrimas contínuas viria do presente para o futuro, pelas vidas que ela já teve e teria, uniria todas suas vidas, molharia seu carma, ensoparia o cosmos, o éter, sabe-se lá como se chama o onde ficam os espíritos, aprendendo e ensinando, dizem, mas não sabendo nunca. Se soubessem, meu Deus!, não teriam de voltar tantas e tantas vidas mais. Mas ela nunca mais pararia de chorar. E também nunca mais voltaria, se recusava a manter rodando essa roda da fortuna, esse ciclo indiano, me deixem em paz, baby, leave me alone. Como Ava Gardner.
E tanta água seria, como tanta luz havia naqueles lugares, no onde dos seres espirituais, que são mestres na navegação na luz, mas nada sabem de água, e muitos, inclusive, já se afogaram em outras vidas, e por tempos ficaram presos nas águas revoltas e escuras dos mares, e nas águas lamacentas de rios, e nas águas paradas de piscinas domésticas, até que uma empregada, gritando feito surtada, ai, meus jesus, maria, josé, acudam que o bebê está boiando!
E uma noivinha sem graça, de buço e roupas pretas, lamentava-se, tem piedade, senhor, meu Manoel se afogou.
Uma menina de tranças e pernas fortes de pelos dourados, ele não voltou, mas vai voltar, sei que vai, tem que voltar, e morreu cuidando do horizonte, perscrutando o mar com olhos baços de velha virgem, ele não voltou. Deve estar navegando em oceanos de luz, e ela, onde?, onde estará a menina velha de olhos baços rosto enrugado olhos espremidos de busca frustrada cabelos amarelados e enfraquecidos que deixou a vida passar de amor fracassado e tanta espera.
Ela escutava músicas dentro de si. Alucinações auditivas, diria um psiquiatra. Como as do apóstolo Paulo, escutando um profeta judeu recém-crucificado falando em seu ouvido. Para outros, eram as almas dos ancestrais que lhe ensinavam músicas... Para ela, era só música. Hallelujah. Um rei confuso tocando louvores. Em sua confusão ela (ou ele?) procurava cabeças perdidas... Todo mundo vivia perdendo a cabeça... Andava rolando as cabeças perdidas que achava, numa rodinha, como pneu rolado num arame...
Teceu seus cabelos num tear, queria um tecido castanho-avelã da cor de cabelos e de crina de cavalos, uma manada de cavalos galopando em debandada, conseguiu... Fez uma mortalha com ele e guardou, um dia poderia precisar de uma mortalha de cabelos cheirosos de cascas de cebolas fervidas, que usava para torná-los avermelhados...
Um dia podia precisar de tanta coisa, sempre essa carência, esse desejo insatisfeito, essa necessidade nunca sabia de que.
Nunca atravessava o portal, tinha anjos guardiões lá, inflexíveis em sua rigidez de guardiões, sua monstruosidade de funcionários públicos incorruptíveis, não se entra e não se sai, não antes da hora. A hora nunca era. A hora não existe. A hora é invenção humana, não vale no cosmos, ou fora dos humanos. Nunca podia atravessar o portal. Estavam condenados ali mesmo, sempre, até chegar a hora. Que nunca chegava. Que não podia chegar, por que não era, por que não existia, por que é constructo.
Queria extrair o infinito do finito, exaurir a polpa do finito até sobrar só a casca, mas finito e infinito também são constructos humanos, invenções psíquicas, ilusões da mente, mente também é invenção do corpo e ilusão humana, estavam condenados. Só a exaustão era real, a condenação, e o portal que não se atravessa nunca.
Era vagar de porto em porto, nunca descer, não se pode atravessar os portais, há arcanjos guardiões em todos os portais, rígidos em sua incorruptibilidade, monstruosos em sua inflexibilidade, era navegar e se manter à tona nos rios, nos mares, nas águas dos igarapés, ninguém desce, os humanos não suportariam a visão do caos daquela música, daqueles cabelos de mortalha, daquela manada de cavalos em debandada, rei confuso tocando louvores inúteis.
Os sinos tocavam, só se podia ouvi-los e vê-los de longe, não há guardiães de sons nem de olhos, não há arcanjos que nos guardem das sensações, estavam condenados a sentir e ouvir e olhar e suportar, vagando e navegando, stultifera navis.
Uma velha índia queimada olhava a nave, uns olhos amarelos de ave, um deus hindu e uma orixá africana de tranças rastafari dançavam tango aos rodopios, uma herege com os cabelos ensopados de tempestades voando nua, um cruzado enterrado sob uma árvore, uma cafuza batendo compulsivamente no seu atabaque, uma mulher que lia galopava um centauro no caramanchão, um pirata enlouquecido olhava tudo sem nada compreender, uma sereia cobria os olhos com os cabelos e desviava o olhar, uma aranha subia e descia na teia, tecendo e tentando, um soldadinho de chumbo tentava fugir no primeiro trem, uma bailarina fazia piruetas desengonçadas, milhões de crianças corriam desenfreadas e gritando, Lou Salomé acenando seu lenço na estrada, sem obter resposta, um filósofo abraçava um cavalo, da manada em debandada, chorando desconsolado, um pastor vagava nas praias e desertos buscando, nenhum profeta nem redenção, Sísifo rolando pedras, um bicho do mato abraçado num urso, espiando da orla da floresta, uma mulher e um homem cavando em volta de um carvalho, um autista pra frente e pra trás num ritmo agonizante, um almirante negro, uma puta, um louco e um cão olhavam espantados, um menino na árvore e um mico-leão dourado no chão, Pã tocando sua flauta, o Minotauro exaurindo força da juventude grega condenada, Ícaro voando alto demais sob o angustiado olhar impotente do pai, um matemático espantado com catenárias, uma revolucionária olhando tudo sem nada fazer, afogada, pedra amarrada no pescoço, apodrecendo entre as algas, moída das mesquinharias e covardias dos normais. O corvo com suas asas estendidas, e uma colcha de retalhos que nunca ficava pronta. Stultifera navis.
Colchas de retalhos são invenções, artesanato, como teias, ferro-guza, altos-fornos, forjas, teares, agulhas, fábricas, palavras, teclados, tranças rastafari, as horas, nada era, só restava a música. Hallelujah. Um rei confuso tocando louvores. Cabeças perdidas roladas em pneus, enroscadas em arames.
Ninguém morreu, morte é invenção humana, ninguém viveu, vida é ilusão da mente que é ilusão do corpo.
Só existem a música, cabeças perdidas e um rei confuso tocando louvores inúteis. Hallelujah. A nau dos insensatos.

18 janeiro 2016

Se eu fosse morrer amanhã

"Posto que hades não existe, seguramente estás lá
último hotel, último sonho,
passageira obstinada da ausência
Sem bagagens nem papéis,
Dando por pagamento um caderno
ou um lápis de cor.
- Aceite-os, barqueiro: ninguém pagou mais caro
o ingresso aos Grandes Transparentes
ao Jardim onde Alice a esperava."
(poema de Júlio Cortázar para Alejandra Pizarnik)

“Não me pergunte por quem os sinos dobram.
Eles dobram por ti e por mim”. (John Donne)


Se eu fosse morrer amanhã eu não iria tomar banho de mar pela última vez, nem comeria manga madura, nem me entupiria de musse de chocolate, ou sentaria debaixo de um ipê pra sentir o cheiro das flores, nem deitaria na terra molhada ou tomaria chuva. Mas tomaria leite batido com chocolate e olharia com meus bigodes de espuma pro gato – que nunca tive – e lhe diria: “foi um prazer, gato, não ter tido você”. Também não leria um trecho do meu livro preferido, aquele que fala das formigas ruivas e do saco de ossos. Também não escutaria “Bicho de Sete Cabeças”, se eu fosse morrer amanhã. Porque eu já teria feito tudo isso a vida inteira, e não sentiria nenhum arrependimento do que não fiz.

Eu abraçaria e beijaria muito cada um dos meus filhos, e repetiria mais várias vezes quanto eu os amo, e como fui feliz por tê-los na minha vida, e como sem eles ela teria sido tão pobre; e faria isso para que eles aprendessem desde cedo que a gente morre porque tem de morrer e não por que quer. Gostaria que eles entendessem que minha morte não foi um abandono, nem falta de amor.

Eu também ligaria para cada pessoa que amo e que estivesse longe (e são tão raras essas hipotéticas pessoas), só para ouvir a voz delas, e levar esse som de amizade comigo. E para que elas também soubessem que morri por necessidade, e não por opção.

Se eu fosse morrer amanhã eu não pediria perdão por nada a ninguém, por estar implícito que tudo que fiz foi por amor, e se errei – e quanto errei!- foi sem intenção alguma de magoar, de ferir, muito menos, e nem mesmo de errar. Ou seja, quem erra com fé acerta até no erro, porque o processo é tão ou mais importante que o resultado, e ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão; eu gosto dessas frases, são um consolo pros vis como eu.

Também não escreveria uma carta-testamento - nem sou Getúlio Vargas - e nem deixaria bilhetes de despedida. Morreria e tchau. Hasta la nunca, baby. Talvez, num lapso de sentimentalismo brega, eu escreveria algo como “se eu fosse morrer amanhã”, e entraria pela última vez no meu e-mail para enviar aos conhecidos. Ou deixaria para enviar depois de morta, seria um e-mail das esferas, psicografado em bits e bytes.

Não pagaria dívidas de bancos, nem financeiras nem outros agiotas, que seguro só serve para isso, mesmo, evitar que herdeiros paguem esse tipo de dívida. Também não compraria caixão nem terreno em cemitério, nem lavaria a louça acumulada de semanas, enquanto me preparava para morrer, nem faria nada prático, que bom mesmo é morrer encantada, o corpo desaparecido ou levado por pássaros ou borboletas para um lugar muito longe e inacessível.

E minha morte nunca pareceria um suicídio - ainda que fosse - pra não deixar rastros de destruição sobre os, poucos, que amo.

Mas eu, se fosse morrer amanhã, pegaria o violão, nessa última noite, e cantaria baixinho para você “Gracias a la vida”, e faria amor essa noite quase inteira, sentindo de novo todos os gostos, os cheiros, experimentando todas as posições que porventura tivessem ficado perdidas, só para me deixar marcada em você. Pra que você chorasse e me chamasse, de saudades de mim. E que quando você me substituísse por outra – e eu desejaria de todo coração que isso acontecesse e você fosse de novo muito feliz -, então que você se lembrasse de mim de vez em quando, sem dor, por essa última noite. E por todas as outras também. E essa noite também me serviria para me fazer tão, mas tão feliz, que eu até gostaria que existissem outras vidas, e faria questão de voltar só para te reencontrar e te amar outra vez. Ou não.

Depois, dormiria o resto da noite só para sonhar, mesmo que fosse algum pesadelo, pra eu saber, no meio do sonho, que estava viva, ainda, e poderia acordar a qualquer momento. Morrer só é bom quando não se morreu de verdade. Ou não².

Por fim, se eu fosse morrer amanhã, gostaria de me abraçar ao Serra, ao Maluf, ao Sarney, ao Aécio, Bolsonaro, Alckmin - nossa, a lista é tão grande! - morrer abraçada ao Obama seria a glória, se tivesse esta oportunidade; porque teria bombas ou granadas amarradas no meu corpo, e levaria pelo menos um bastardo comigo, na minha morte. E morreria feliz, e acharia que minha morte foi menos inútil - assim como minha vida - por ter limpado o mundo de pelo menos esse imbecil.

Isso se eu fosse morrer amanhã.

Ah, se eu morresse amanhã...

30 outubro 2015

Aracne, a tecelã de (falsas) teias.

"Ai, tecelã sem memória,
de onde veio esse algodão?

Muito embora nada tenhas,

estás tecendo o que é teu.
Teces tecendo a ti mesma
na imensa tearia..."
(Mauro Mota)

"Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo." (Cecília Meireles)


Aracne era tecelã. Era seu ofício e seu saber. Não fazia outra coisa a não ser tecer. Te-ser. Te-ser-se. Teias, muitas teias. Regulares, bem organizadas, mas, muitas vezes, absolutamente irregulares, e isso dependia do seu estado momentâneo. Aracne produzia o que conseguia, e não o que considerasse melhor, ou que desejassem para ela.
Algumas teias ela deixava incompletas, outras terminava e nelas habitava até que se desintegrassem. De outras tantas, mudou-se quando enjoou daquelas formas. Aracne gostava de experimentar formas. De experimentar a flexibilidade ou a viscosidade dos fios. Ela gostava de tentar.
O problema de Aracne (afinal, humanos, todos têm algum problema, ninguém é um solucionado completo, e Aracne não escapava dessa sina), o problema é que o tentar de Aracne não tinha um fim, uma finalidade, algo a ser conseguido... Era, simplesmente, tentar, mesmo, continuar tecendo enquanto aguentasse...
Pobre Aracne (ou rica, se se pensar que, pelo menos, ela perdendo as ilusões, ganhava experiência). Ficamos assim, para evitar injustiças: Aracne era pobre e rica. Provavelmente como todos os humanos. Mesmo ela não sendo humana, mas isso não vem ao caso, já que na Terra vivia, e com os humanos convivia. E, às vezes, também tentava ser como eles, mas só às vezes, e cada vez menos vezes.
Ela nunca havia pensado nisso antes, mas foi percebendo que a maioria das pessoas tem uma finalidade que persegue, faz planos, tem projetos de vida... Aracne nunca teve... Nem queria ter... Talvez até quisesse, ou tivesse querido um dia, mas com essa coisa de perder as esperanças, de dar adeus às ilusões (Aracne e Elizabeth Taylor), talvez fosse mais simples, mais cômodo e menos doloroso pensar que ela própria não queria ter uma finalidade. Talvez. Por que talvez, também, fosse mais complexo, mais incômodo e muito mais doloroso pensar que não tinha finalidade por que essa nunca tinha existido, pra ninguém. Ou por que ela era incapaz de conseguir isso. De qualquer forma, não querendo, ou querendo, a dor estava ali.
Aracne não se importava muito com isso de não ter finalidade na vida, de não tecer objetivos, mas só as teias, que eram extensões de si própria. Não era uma coisa que fazia diferença pra ela...
A sensação que tinha é que tudo que fazia e já tinha feito havia sido instintivo, uma necessidade básica e absolutamente impostergável na ocasião em que as fizera, como as opções seguidas, as decisões que tomou – e se responsabilizava por todas elas, não porque se sentisse moralmente obrigada a essas responsabilizações, mas porque se sabia socialmente chamada a se responsabilizar pelo que acontecia com ela; fazia parte do jogo. Não podendo retirar-se do jogo no momento, Aracne jogava como podia.
Ela, realmente, não se sentia responsável no sentido de escolhas, de ter optado por algo, mas no sentido de aquilo ter acontecido em sua vida; e ponto. Cada ocasião ou situação ou acontecimento tinha sido apenas uma entre as tantas opções que poderiam ter sido... Aracne nunca se sentia andando ou tecendo "um" caminho que levasse a algum lugar específico... Era adepta (Aracne e Antonio Machado) por opção, ou falta dela, do “caminhante, não há caminho, faz-se o caminho ao caminhar”.
Outro possível problema de Aracne, ou não, é que nossa tecelã preferida (não é sua tecelã preferida? A minha, é), é que Aracne não confiava em nada nem ninguém. Oh, diziam os incautos, os julgadores, os cheios de pedras nas mãos pra tudo que escapulisse um tiquinho que fosse ao senso comum, que horror ser desconfiada assim, que terrível um ser tão sem confiança! Confie, diziam, confie, Aracne, que sem confiança você não chega a lugar algum. Mas como lugar algum não existia, que diferença fazia se confiava ou não?
Mas ela era assim (vou defendê-la, tá, já que é minha tecelã predileta, e é muito triste só ter algozes, promotores e juízes, e nenhum advogado), ela era assim, sem confiança, porque sabia, perfeitamente, que não existia algo como Absoluto, ou Verdade, para que se confiasse... Ou seja, Aracne não era desconfiada, ela, simplesmente, não tinha confiança. Confiança não era um conceito dentro dela, nem tinha significado no seu dicionário. Para ajudar a compreensão dos difíceis de compreender, é como ser imoral ou amoral. Aracne, no caso da confiança, era uma não-confiada, e não desconfiada. Entendeu? Não? Sinto muito. Ou melhor, não sinto muito nada. A questão, aqui, é falar de Aracne.
Confiança, esperança são conceitos ligados a algo concreto (ou abstrato, mas concreto no sentido de existir) que alguém sabe, conhece, e pode ser partilhado... Para Aracne, esse saber (do Outro, nem dela mesma) nunca existiu, era tudo construções, era como uma imensa rede infinita, fluida, sem bordas, sem limites, uma rede onde ponto algum era central, ou Absoluto, ou se podia colocar como ponto de partida... Mesmo tecendo sua teia a partir do centro, Aracne sabia que centro também é constructo social, conceito abstrato, para poder se partir de algum lugar. De algum lugar tinha que partir, e não importava que lugar fosse esse, desde que fosse tecendo suas teias, que esse era seu único mister.
Além disso, ela também sabia que nada podia ser partilhado, que a esmagadora maioria das experiências e sentimentos é incomunicável... Qualquer comunicação era da superfície, nunca de algo mais profundo, que as profundezas eram o lugar do inacessível e, portanto, do não transferível, do não compartilhável... Os abismos, precipícios, as fossas abissais onde se situava o seu centro – inventado – nunca vinham à superfície.
Aracne já havia nascido nessa rede sem ponto central, e sabia que esse ponto não era real, era apenas uma ilusão para se situar, se sentir firmada em algo... Ela vivia sentindo os pés sem chão, o chão, inexistente, jogada sobre algo sempre móvel, escorregadio, que mudava constantemente ao sabor do nada... Seus deuses, por isso mesmo, eram apenas o Acaso e a consorte dele, Aleatória...
Tanto fazia, para ela, se era dia ou noite, sol ou chuva, frio ou calor, férias ou trabalho exaustivo, tanto fazia o que quer que fosse, porque tudo ia passar – tudo já era passado, mesmo sendo presente ou parecendo futuro... E tanto fazia porque tudo era imutável, inclusive ela. Aracne vivia num presente contínuo, num embuste repetitivo, ad nauseam.
Para ela não havia um lugar, um topos definido, ela vivia literalmente na utopia, era a sem-lugar. Também não tinha um tempo cronológico ou organizado, nem coordenada alguma que a situasse, que servisse para lhe segurar na vida, para lhe dar um ponto de partida ou de chegada... Vivia solta num espaço amplo demais, hostil demais, vertiginoso demais, eternamente dependurada, e se prendia apenas por um fio, num ponto de tangência que, a qualquer momento, poderia jogá-la pra fora desse universo em que vivia... Um universo sem sentido, sem nexo, sem vinculação, sem encadeamento, sem conexão, sem liame, sem relação, sem associação, sem junção, não era elo de cadeia alguma. Era uma sem-link, Aracne.
Também era a sem-futuro, a sem-noção... Sem noção do que quer que fosse, apesar de parecer mais ou menos lúcida, bem orientada, de conseguir viver razoavelmente – por algum tempo, ou em algumas fases – na tal da “realidade” em que via os humanos viverem.
Mas não se afobem incautos, porque essa realidade, para ela, não era absoluta nem tinha valor algum, era apenas o lugar onde ela se encontrava no momento... E de onde não saía, tanto por ser cômodo quanto por não ver outra opção... Sair de onde, e para onde?  Buscar o quê? Buscar... Nunca buscou nada, as coisas simplesmente aconteciam, e eram aceitas com naturalidade... O que era, era, e ela não via como mudar as coisas, porque as mudanças também lhe pareciam tolas, já que mudar era apenas mudar circunstâncias, e nunca o “cerne” – justamente porque cerne, centro, miolo, medula, essência não existiam. Tudo era tudo e era nada.
Aracne, por isso, se apegava muito a uma rotina qualquer que fosse, rotina esta, obviamente, inventada, como todas as rotinas de todos os humanos, e tinha uma necessidade – que pareceria doentia, talvez – de tornar coisas em absolutos: seus amores, sua casa, suas teias, seus animais de estimação (entre eles um elefante fabricado por ela mesma, com seus parcos recursos, e um unicórnio azul que encontrou na rua e resolveu ficar com ele. O dono que o procurasse e lamentasse sua perda, se quisesse, por que ela não o iria devolver, nunquinha).
Inventava esses absolutos por extrema necessidade desse ponto de amarração de sua vida, que não existia (a amarração nem a vida), e era a fonte de seu total desespero... Odiava viajar, por exemplo, pois qualquer lugar no mundo era um lugar qualquer, e como não tinha pra onde ir, nem pra onde voltar, preferia não sair... Preferia não, não tinha condições de sair, de buscar nada, porque sabia que nada havia a ser buscado, e nenhuma saída levava a lugar algum... Além disso, para onde quer que fosse ela se levaria a si mesma, o que não servia de fuga, pelo contrário. Era prisioneira de si mesma e de suas teias.
Era uma mulher-aranha, Aracne, sempre tecendo e tecendo e tecendo, e se protegendo dentro de seus tecidos, de sua teia, criando casulos em volta de si com sua própria secreção. Aracne se protegia da hostilidade ao seu redor com seu próprio corpo e fabricando, ela mesma, essa proteção. A única que podia surtir efeito.
Ela pensava, e pensava muito, em tudo, em todos, em si mesma, na vida... Mas era um pensar a partir de nada, um pensar sem medula, sem esqueleto que o mantivesse de pé... Pensava em tudo que lhe passasse pela cabeça, ou diante dos olhos, ou que lhe entrasse pelos ouvidos...
Mas não era um pensamento com referências, eram pensamentos aleatórios, variados, coloridos, varados de tons, sons, cores, formas diversas... Seus pensamentos nunca formavam uma teoria, mesmo porque ela nunca acreditou em qualquer teoria... Uma teoria exige vínculos, nós, ligações entre pontos, contato... E os pensamentos dela eram impossíveis de ligações, de conexões, de causas e efeitos, de consequências... Seus pensamentos poder-se-iam chamar de puros, solitários, unitários... Cada pensamento era único, desencadeado, sem possibilidade de encontrar um par... Aracne era ímpar em tudo...
Mas sosseguem os empáticos, os sensíveis, os que conseguem colocar-se no lugar do outro, e que estão sofrendo ou preocupados com Aracne e seus desvarios. Pois ela acabou se dando bem, acreditam?
Foi quando se encontrou com Átropos, a Moira, e, enfim, teve seu fio cortado. Abençoada Átropos, que, finalmente, soltou a linha de Aracne, desfazendo sua sina de tecer e tecer e tecer. Não mais fios, não mais teias, não mais Aracne.
Assim terminam, verdadeiramente, todas as histórias reais, como a de Aracne. A de Aracne, a minha e a sua, também.
Eloisa Helena Maranhão