09 outubro 2010

Cafuza de Iansã

Para Stedile, companheiro de luta. Que sabe o que significa ser filho de Ogum e Iansã.
“A mão que toca um violão, se for preciso
 faz a guerra, mata o mundo, fere a terra.
A voz que canta uma canção, se for preciso
canta um hino, louva a morte...
O mesmo pé que dança um samba, se preciso
 vai à luta, capoeira.” (“Viola Enluarada”)
Ela não passava ainda de um bebê de fraldas, tentando se equilibrar nos pezinhos trôpegos, cabelos começando a crescer, ondulando pelos ombros, muito pretos, pele morena avermelhada, o que lhe rendeu o apelido de Urucum, olhos negros de boi bravo, boi marruá indomável, fugido pros matos quando se tentou domesticá-lo, olhinhos pequenos, sempre ardendo em mil febres diferentes, sempre em busca.
Pois ela não tinha ainda dois anos, e nem mais era amamentada, pois recusava aquele leite e aquele colo que a deixavam inquieta de vontade de andar e correr pelos terreiros – e que depois passaria o resto da vida procurando, não os terreiros, território doméstico, mas leite materno e colo que a fizessem sossegar, procurando e nunca encontrando -, e num desses dias quaisquer entre o primeiro e o segundo aniversário o pai de santo jogou os búzios e declarou, cerimonioso, “é filha de Iansã, essa menina”. A mãe calou-se, desejava uma filha menos guerreira, filha de Oxum, talvez, de Iemanjá, de algum santo mais tranqüilo, mas a escolha não era dela, e a filha era o que deveria ser, Epa Hei Iansã!
Mas o ajuntó da menina era Oxóssi, senhor das florestas virgens, das matas verdes não cultivadas, e quem conhece de santos de cabeça e ajuntós pode imaginar o que será dessa cafuzinha.
Pra quem não conhece, conto eu.
Foi crescendo inquieta, explosiva, indomável, diziam os vizinhos, onde já se viu uma criança tão estourada, e tão briguenta, e tão apimentada, parece um vatapá cheio de dendê, que boca suporta?, salve Exu!, ô meu pai, deixe a menina em paz, já não basta ser filha de Iansã e Oxóssi?
Ainda pequena quantas vezes havia fugido pras matas, depois de ataques de cólera por coisas mínimas, ou aberto os currais, os chiqueiros, os galinheiros, espantando os animais domésticos de volta à selva de onde não deveriam ter sido retirados. Quem quiser comer que cace, respondia em sua lógica irrefutável quando perguntada se deixaria sua aldeia passar fome, e então se podia ouvir a gargalhada de Oxóssi balançando as folhas das árvores, e o pai de santo meneava a cabeça.
Enquanto as outras meninas miravam-se nos espelhos e teciam saias coloridas, Cafuza fabricava arcos e flechas para a caça, e mirava-se nas águas dos rios e lagoas, e era ali que conversava com Oxum e a Iara, e conseguiu o milagre de vê-las juntas, penteando-se os cabelos uma da outra, e ensinaram a menina a tecer tranças e enfeitar-se com búzios e conchas coloridas, e flores e penas, e borboletas vivas e pequenas pererecas, e era o ser mais atraente e mais estranho, aquela mocinha andando na aldeia com brincos de borboletas, colares de besouros e joaninhas, e pulseiras de pererecas ou cobras enroladas nos pulsos e tornozelos.
Quando queria desculpar-se ou agradar alguém ela trazia alguma ave caçada e depositava aos pés da pessoa, e saía feliz por ter dado o melhor de si a quem amava. Nem percebia que seu melhor de si não era compreendido nem acatado, ao menos enquanto era jovem. Depois passou a perceber isso, e ficar mais furiosa ainda quando não a aceitavam como era. Que culpa podia ter de ser o que era, e não o que desejavam de si.
Crescia também cheia de charme a cafuza, sensual, aquele rebolado deixava os homens loucos, os negros, os índios, os cafuzos, até os brancos que por ali passavam para negociar em lombo de burros, primeiro, depois nos trens, enlouqueciam de desejo pela cafuza, imaginavam que domá-la na cama seria o que de melhor podia haver na vida.
Homens. Sem comentários. Todos sabemos como são os homens. Mas ninguém sabe quem são realmente as mulheres.
Principalmente uma mulher cafuza, filha de Iansã e Oxóssi, que não nascera para ser domada, para viver domesticada, para seguir os caminhos dos homens que a queriam para si, sim, quem resistia a tanto furor e tanta vida, mas a queriam submissa, seguindo os caminhos que eles escolhessem.
Cafuza nunca aceitaria isso. Nunca, vírgula, depois que se conheceu, e, já na metade da vida, aprendeu que não valia a pena deixar o próprio caminho para seguir o de outro.
Até chegar nesse ponto ela seguiu, seguiu por amor, seguiu por carência, seguiu por necessidade de colo e leite materno, seguiu por medo de andar no caminho que era dela, seguiu por tantos motivos que quando se encarou de frente, depois de mais um casamento fracassado, dos tantos casos de amor que tivera, quando se encarou ficou estupefata de ter cedido tanto e por tão pouco. Estupefata de ter vivido buscando no sexo o carinho que não lhe tinham, a ternura que desejava, mas espantava com seus acessos de fúria e sua sinceridade atroz. Quando ventava não sobrava pedra sobre pedra, palha que havia sido tão bem colocada nos telhados, paredes de taipa e pau-a-pique, árvores fixadas em suas raízes.
Essa consciência surgiu num de seus acessos de paixão, que a deixaram de quatro, arriada, e quando percebeu, tudo com que aquele novo amor lhe acenava eram os mesmos caminhos alheios – os dele, agora -, alguns carinhos esparsos – quando ele tivesse tempo ou vontade-, companhia quando ela estivesse tranquila para ser o pouso que ele desejava dela.
Mas ela nunca estava tranqüila. Não servia de pouso, pois era o próprio vento agitado que empurrava e fazia soçobrar as naus, era os furacões, e dentro de si trazia tufões e ventanias carregadas de nuvens escuras, prontas a tragar incautos. Mas não adiantava avisar. Homens são assim, detestam avisos, não prestam atenção ao perigo, para depois se queixarem das injustiças da vida.
Os intrépidos, que tiveram ousadia de se aproximar e conviver com ela, logo se cansavam, exaustos, das iras, das tempestades sem motivos – pelo menos motivos que eles pudessem detectar -, das gargalhadas fora de hora, e dos choros convulsos, muitas vezes depois do sexo, e nunca sabiam o que fazer com uma mulher daquela intensidade, já que não haviam conseguido o intento de domá-la.
Ela também se cansava de ceder, de fingir – mesmo que com a melhor das intenções, e a melhor das motivações era amar tanto e querer estar junto do amado -, cansava de estar sempre tentando ser quem não era, sempre tentando controlar suas paixões e manter-se estável, centrada, quando nunca tivera centro – tão excêntrica -, ou talvez tivesse muitos, vários, constantemente oscilando entre seus múltiplos centros. Dançava rodopiando, não sabia passos de valsa.
O único homem que a compreendera, e compreendera tanto que decidiu dançar sozinho o resto da vida depois de dançar com ela, entendera que ela não havia nascido para seguir ninguém, e que não teria dono, nunca. Se conheceram num forró, um arrasta-pé banhado a Luiz Gonzaga, ele no canto, solitário, encolhido, marcado de bexigas no rosto e no corpo todo, envergonhado, ela espiando, até que o tirou para dançar... Tu que andas pelo mundo, sabiá, tu que tanto já voou, tu que cantas passarinho, alivia a minha dor... tem pena d’eu, diz por favor, tu que choras passarinho, onde anda meu amor...
No rodopio e no hálito da cafuza o moreno embelezou-se, sentiu-se alto, pele limpa, bonito até, feliz naquela noite. Nunca mais quis dançar com mulher nenhuma, e deixou a cafuza para que seguisse o próprio caminho. Ele foi o único que soube amá-la como ela era. Por isso mesmo deixou-a livre, não a obrigou a seguir com ele pelos caminhos que, sabia, não eram os dela.
Ela continuou sua sina.
Conforme o tempo ia passando, Cafuza tornava-se mais mansa, menos estouvada, mas cheia das marcas das danças e das ventanias que provocava. Também nela ficavam marcas, não só nos outros que a acusavam de lanhar seus corpos e almas com sua guerra. Toda guerra fere dos dois lados da batalha, ela foi aprendendo, e ninguém briga sozinho. Muitas vezes o réu era a verdadeira vítima, e agiu como reação ao que sofreu. Outras, não. Nada se pode generalizar.
Era cada vez menos vista na aldeia, e mais nas matas. Continuava caçando solitariamente, principalmente nas noites banhadas de luar, e um branco doutor que a viu caçando voltou para sua Alemanha, depois da expedição, com aquela Ártemis cafuza nas retinas, abandonou seu cristianismo de fachada e passou a estudar o sincretismo, até entender o que Diana dos Efésios fazia ali nas selvas da América do Sul, travestida de índia e negra. Não sei se entendeu.
 De tanto caçar e perambular mata adentro, acabou por encontrar-se com Oçãnhe, que apiedou-se dela, depois de meses de rabos de olhos mútuos um no outro, e oferendas de todo tipo de caça que ela lhe trazia, mas apiedou-se mais quando a viu estendida sobre o húmus, chorando por tudo que fizera intempestivamente na vida, e por todos os caminhos que não deram certo, e por todas as marcas que deixara em todos com quem havia se encontrado, ali abandonada e cheia de culpas. Então a ensinou a usar ervas e preparar bebidas e cantar cantos que a consolavam e aliviavam sua solidão. Deu-lhe um pequeno atabaque que ela passou a usar amarrado à cintura, e tocar quando já não suportava mais o silêncio a que havia se submetido por opção própria. E por falta de opção, também.
“Quem vem lá?” Aquela voz não lhe era estranha. Já a tinha ouvido nos sonhos, e muitas vezes dentro dos cômodos onde os moribundos jaziam, confortados pela comunidade, até atravessarem o umbral. Era rouca, a voz, magoada, ressentida e envelhecida de milhares de séculos, uma voz que saíra do começo dos tempos. Cafuza tremeu, mas não se entregou. Nunca havia se entregado, não o faria agora.
“Tire essas flechas com pontas de metal”, a velha disse, e Cafuza obedeceu. Compreendeu, também. Aquele pântano onde havia entrado eram as terras de Nanã Buruke, e nem Iansã se atreveria a enfrentá-la. Não agora, quando estava velha demais para lutar. As duas se olharam, avó e neta, avó e avó, e já não sabiam quem era uma e quem era outra. Cafuza, num último ato impulsivo, lançou-se nos braços de Nanã. Afundou na terra fofa enlameada. Havia, enfim, chegado ao porto. Encontrado o repouso.

Eloisa Helena Maranhão.

O Almirante, a Puta e o Bobo.


"Glória aos piratas, às mulatas, às sereias; glória à farofa, à cachaça e às baleias.
Glória a todas as lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos
jamais... Salve o Navegante Negro que tem por monumento as pedras pisadas
do cais." (João Bosco e Aldir Blanc)


Quem não tem onde chegar nunca perde o caminho. Le Fou falou isso dando de ombros, com suavidade, a cabeça balançando de um lado para o outro, enquanto segurava a mão de Anie. A velha puta estava deitada na sua enorme cama de casal, onde tinha feito amores durante décadas com todo tipo de homem, mas sem nunca se esquecer de João Cândido. Agora de olhos embaçados, sem brilho, os lábios rachados e a língua seca estourando em bolhas só tinha Le Fou por companhia, ah, bobo querido, falou ela em polonês, e ele entendeu na sua língua de alma, já que nunca tinha aprendido direito nem o polonês nem o português, apesar de nascido na Polônia do fim do século XIX e vivendo há mais de meio século no Brasil, desde que desembarcara do navio com Anie, a polaca Anieluska, que na época era uma mocinha ainda, como ele.
 Havia respondido sobre nunca perder o caminho, pois Anie olhava angustiada através dele, se despedindo com os olhos da vida e do amigo, dizendo que não sabia como iria para a outra vida, pois não tinha aprendido o caminho desta passagem solitária. Se pudesse acompanhá-la eu iria, pensou o parvo, iria com você, tocando flauta na sua frente para espantar os ratos e cobras do caminho, tocando buzina para manter os carros afastados - Lefú sempre tivera um medo insano, primeiro das carruagens e carroças, depois dos bondes, e por último dos carros e ônibus; iria junto com você, Anie querida, e você seria a primeira pessoa a morrer acompanhada, guardada pelo seu bobo, que a seguiria como um cão. Respondendo ao pensamento do dono, Petty levantou a cabeça e lambeu as mãos entrelaçadas de Anie e Lefú, voltando a formar com eles o trio que tinha vivido décadas juntos, se consolando mutuamente: a puta, o bobo e o cão.
Anie fechou os olhos, esgotada, olhou pela última vez para Lefú e Petty, mas pensando em João Cândido, e disse: morrer é fácil e leve, mon cherry; não pesa... não dói... morre-se e pronto.
Anie fechou os olhos e morreu. Como um passarinho, disseram as colegas que vieram aprontar seu corpo, deixá-la bonita no caixão. Afinal, uma puta velha, gorda, de cabelos ralos e sem cor era a coisa mais deprimente do mundo; e pobre, ainda. Sem glamour. Vamos transformá-la de novo na jovem e maravilhosa Anie, a polaca que enlouquecia os marinheiros e estivadores, resolveram as putinhas moças. Pintaram sua boca de vermelho encarnado, as pálpebras de azul, as faces bem coradas de rouge; tingiram seus cabelos de ruivo; intensificaram a pinta abaixo do nariz que já estava descolorindo, pinta artificial, mas que Anie havia cultivado nos cinqüenta anos de Brasil, desde que se olhara nos espelhos brasileiros pela primeira vez, um pedaço de espelho de pensão, manchado de ferrugem prateada, e decidira que uma pinta lhe cairia bem no rosto quadrado de polaca. Decidira também que se chamaria Anie a partir dali, e que sustentaria a si mesma e a Lefú vendendo seu corpo. Foi o que fez durante o meio século que viveu aqui.
Como um passarinho?, espantou-se Lefú, para quem morrer como um passarinho era morrer de estilingada, como havia visto, sentado chorando na calçada, os meninos fazerem tantas vezes, enquanto riam-se das avezinhas mortas e do bobo vivo, que tinha dó de passarinho, vejam só. Procurou na cabeça de Anie alguma marca de pedrada, não encontrou, e voltou a atenção para o cachorro que descansava aos seus pés, empilhado sobre eles como um caracol de pelos; alisou a cabeça do amigo tentando se lembrar de quando haviam recolhido a avó de Petty das ruas, grávida e sarnenta, faminta como eles, logo que haviam desembarcado no cais do Rio de Janeiro.
Tinha dificuldades para se lembrar das coisas, o que Anie dizia ser a bênção da sua vida; lembrar é dor da alma, dizia a puta, fique esquecido, mesmo, Lefú, continue parvo e feliz, deixe as lembranças para quem não pode se livrar delas, os normais. Mas mesmo assim o bobo lembrava-se de algumas coisas, cenas desalinhavadas, não tecidas, soltas, e nunca conseguia entender o que eram.
Uma dessas cenas que ainda lhe voltava em sonhos era a mais antiga que possuía, sua lembrança mais anterior, dizia Anie, e explicava que aquilo ainda tinha acontecido na Polônia, dias antes de saírem de lá fugidos no navio.
Lefú via-se numa cidade, e era primavera, via-se numa praça, depois de dias de viagem pelos campos cobertos de flores e de verde das plantações; ele sabia que era primavera por isso, por que o gelo havia derretido e agora havia verde e flores por todo o campo, mas aquele verde e aquelas flores não eram dele nem dos aldeões que as haviam plantado, mas sim dos junkers alemães que haviam invadido suas terras e oprimido seu povo, obrigando os camponeses das aldeias a produzirem para si próprios e para o sustento daquela nobreza rural. Quando os camponeses resolveram levantar-se contra a nobreza, o sangue havia empapado as terras, e Anie pegou-o pela mão do meio dos corpos dos seus pais, e fugiu com ele para Lodz.
Haviam andado muitos dias, comendo batatas, cenouras e beterrabas que arrancavam ainda verdes de dentro da terra, e quando chegaram na capital ali também havia guerra civil e sangue derramado. A praça era um campo de batalha, com os operários em greve e as milícias tentando obrigá-los a voltar ao trabalho; foram três dias inteiros de combates, e só ao fim deles o exército czarista conseguiu sufocar a rebelião. Anie decidiu que fugiriam no primeiro trem em que conseguissem embarcar, e no primeiro navio para o primeiro país da América; e o primeiro navio que encontraram no porto de Gdansk tinha bandeira brasileira e um almirante negro que escondeu a mocinha e o menino bobo, trazendo-os para os trópicos.
Era 1905 e Anie nunca se esqueceria do Almirante que lhes dera refúgio e guarida, um jovem negro, alto e encorpado, de largo sorriso, que usava um uniforme branco e um lenço amarrado no pescoço, laço de marinheiro, e Anie foi enlaçada por aquele laço, tanto que ao morrer seu último pensamento foi para o amante, internado no Hospital Nacional dos Alienados, e que agora não mais receberia suas visitas todas as tardes de domingo.
Também no Rio de Janeiro as coisas estavam agitadas, com o início da República e os trabalhadores e ex-escravos revoltados com a miséria do povo e o descaso das autoridades; Anie concluiu que não havia diferença entre os trabalhadores da Polônia e os do Brasil, sempre trabalhando muito e duro, e sempre miseráveis e famintos, entre os marinheiros polacos e os brasileiros, sempre navegando muito e olhando os portos com saudades, entre os Estados da Europa e o daqui, sempre reprimindo a população e obrigando-a a trabalhar para enriquecer a pátria e o patrão. Sem ver diferenças, mas já enlaçada pelos laços de João Cândido, resolveu ficar e viver aqui mesmo.
No início, sem nem falar o português ainda, fazia ponto nas ruas do cais, morando com Lefú numa pensão para putas francesas; foi lá que apelidaram Anieluska de Anie, que era mais fácil e mais chique de pronunciar, e começaram a chamar o menino de Le Fou, o louco, apelido que nunca foi tomado como ofensa, já que ele era mesmo aparvalhado, com olhos puxados e pescoço grosso de tão bobo, além de muitíssimo querido por todas as putas que o adotaram como o mascote, o filho que não podiam ter, ou se tivessem não podiam criar, o que dava na mesma.
Também Anie tinha engravidado algumas vezes e abortado, ou dado os bebês recém-nascidos para famílias que os podiam criar "dignamente". Fazia parte de suas decisões que só criaria Lefú e Petty, e só amaria João Cândido, e essas resoluções ela tinha cumprido até o fim da vida. Era uma mulher de palavra e resoluções firmes, sem essas chorosidades de mulheres frágeis que não sabem o que querem de suas vidas medíocres. Anie sabia: queria viver e amar. Foi o que fez e não se arrependeu.
Nunca soube se era amada por João Cândido, pelo menos não soube de ouvi-lo falar, que o negro também não era chegado a demonstrações de amor e outras fraquezas do tipo; também nunca soube pela boca de Lefú se ele a amava, já que o menino nem falar direito conseguia; também Petty, por razões biológicas óbvias nunca havia chamado Anie de meu amor, como alguns de seus clientes mais românticos; mas ela sentia o amor deles (de João Cândido, Lefú e Petty, não dos clientes) e isso lhe bastava. Amor, como o resto das coisas da vida, era algo a ser vivido concretamente, e não falado. Sendo todos de poucas palavras e muitos atos, entendiam-se sem conflitos. Viveram meio século apoiando-se, que é o que resta aos pobres do mundo. Uni-vos.
Na noite em que morreu segurando a mão de Lefú, lambida por Petty e pensando em João Cândido, cheia de dor por que nunca mais o veria, lembrou-se de como gostava de acariciar as cicatrizes das costas do negro, formadas pelos lanhos da chibata, e enquanto acariciava as cicatrizes de seu negro cantava canções de consolo para ele, como ele cantava modinhas para ela, tocadas no famigerado violão, quando andava bêbado nas noites de folga pelos bares do cais. Tocava o instrumento amaldiçoado pelas mães de família, pois encantava suas filhas como cantos de sereias, fazendo-as sonhar sonhos excitados nos seus brancos travesseiros de brancas penas e brancas fronhas de alvíssimas rendas, enquanto as putas francesas, polacas, holandesas, mulatas e de todos os matizes e sonoridades olhavam o Almirante com olhos lânguidos e famintos, enchendo Anie de ciúmes que ela esvaziava junto com muitos copos de menta. Decidira que menta era bebida de puta, e não tomava outra coisa, até que anos mais tarde começou a tomar cherry, martini e cinzano, decidindo que eram bebidas também dignas de uma puta de verdade. Mas isso foi anos depois, e estamos ainda nos anos de antes.
Naquela época, pasme quem me lê!, os marinheiros de baixa patente da Marinha de Guerra eram castigados com açoites de chibata, o duro couro rompendo-lhes a frágil e dolorida carne. Na maioria eram negros, ex-escravos, acostumados aos castigos físicos que recebiam de seus senhores. E os algozes, os oficiais brancos, acostumados a tratar seus subalternos como escravos. Para as faltas leves, prisão e ferro na solitária, a pão e água; faltas leves repetidas, idem idem por 6 dias; faltas graves, 25 chibatadas. Chibatadas pedagógicas, na presença da tropa e ao som de tambores.
Naquela época, continuem pasmando-se, leitores!, os subalternos aceitavam os castigos físicos como parte do jogo, sofriam de cabeça baixa, acostumados que estavam a serem aviltados moral e fisicamente.
Naquela época, como hoje, e agora vejam se além de pasmar-se, reagem, os militares de baixa patente eram tratados como bichos, tratando-nos a nós, civis, como bichos, também, numa cadeia de maus-tratos e abusos.
Naquela época João Cândido reagiu.
Numa noite de 1910, após um dos praças receber as chibatadas ao som dos tambores, o Almirante Negro sentiu que era hora de levar a sério a pedagogia dos castigos físicos e rebelar-se. Tudo que dói demais chega uma hora que transborda. Toda injustiça chega uma hora que transborda em revolta.  Os marinheiros transbordaram.
Naquela noite os mares da baía da Guanabara silenciaram para que os marinheiros tecessem as tramas da sua revolta nos porões dos modernos encouraçados; o mar silenciou seu rumor enquanto o Almirante Negro e os outros marinheiros sublevaram-se, exigindo o fim dos maus-tratos e alimentação melhor. Além de anistia para os rebeldes.
Tomaram os navios, expulsaram os oficiais, atracaram rodeando a cidade e ameaçando bombardeá-la se não fossem atendidos. Os mares rugiram, respondendo ao rumor da revolta dos corações dos marinheiros. Os mares rugiram, respondendo ao medo e à raiva dos governantes. Os mares rugiram, respondendo à angústia e ao medo das mulheres, mães e filhos dos marinheiros rebelados, que tomaram assento na praia, esperando o fim das negociações entre partes tão desiguais.
Anie, Lefú e Cocote, a avó de Petty, se sentaram entre os familiares dos marinheiros, para que João Cândido não se sentisse só em sua solteirice e em sua liderança, que é muito duro e triste ser líder e sozinho, já sabia Anie em seu coração apaixonado. Olhavam o mar rugindo, os navios atracados balançando nas águas, e seus corações balançavam também, de orgulho. Sabiam que eles nunca bombardeariam a cidade onde viviam. Enquanto isso, os corações dos jornalistas balançavam de covardia, escrevendo artigos contra os amotinados, exigindo providências dos governantes, insuflando o terror entre a população, que comia, dormia e acordava, trabalhava ou não - havia tantos desempregados - pouco se importando com os destinos daqueles homens negros, pobres, funcionários da Marinha, e suas famílias de negros e mulatos, de putas, de lavadeiras, de doceiras, enfim, de pobres.
Foram quatro dias de impasse, e os homens do Congresso reuniram-se às pressas para decidir o que fazer.
Os homens do Congresso, os engravatados, os sábios, os ricos, da sabedoria e riqueza da elite, os que podiam viajar e ser águias em Haya, e comer petiscos nos cafés de Paris, e visitar a Estátua da Liberdade em New York, os homens do Congresso, tão preocupados com a pátria, reuniram-se e votaram uma lei concedendo anistia aos rebeldes e o fim do uso da chibata. Naqueles tempos de início da República a Constituição ainda era muito imperfeita, e não havia possibilidade de decretos-lei feitos pelo Executivo. Leis eram leis, e quem as fazia era o Legislativo. Por isso mesmo era que se chamava "legislativo". Que lógica mais primitiva, de republicanismo arcaico, não é mesmo, leitores? Lógica de quem não entende das relações de força entre os três poderes, autônomos e interdependentes. Nós entendemos a lógica, sábios cidadãos que somos, educados em civismo e patriotismo.
João Cândido havia triunfado! Era a vitória dos negros pobres, dos marinheiros contra seus oficiais, dos subalternos contra seus superiores, dos homens simples contra a elite. O céu amanheceu ensolarado, o sol brilhava entusiasmado com a mudança dos tempos que se anunciava nos tristes trópicos, a baía da Guanabara sorria em sua banguelice. Levi-Strauss ainda não tinha vindo conhecer os tristes trópicos nem verificar de perto a falta de dentes da baía e do povo brasileiro. Eram, como já disse, tempos de imperfeições arcaicas de República que se iniciava. Provavelmente no futuro, muito provavelmente, com as leis aperfeiçoadas e os governantes amadurecidos, não teríamos mais brasileiros desdentados (excluindo, evidentemente, os bebês, por motivos anatômicos) nem marinheiros rebelados, porque todos seríamos felizes e viveríamos num país justo. Mas isso era no futuro-mais-que-perfeito. Ainda estávamos em 1910.
Os navios foram esvaziados, os marinheiros voltaram vitoriosos para suas casas, com suas mulheres e filhos, mães e pais, tias, primos, amigos, todos aliviados. Foi um dia de festas, de alegria dos pobres, um carnaval particular dos envolvidos na revolta contra a chibata. E quantos acarajés e pastéis foram comidos, os caldeirões de feijoada borbulhando, quanta cachaça foi bebida, quantos barris de chope esvaziados e quantos amores foram feitos. O Rio de Janeiro dos pobres era um regozijo.
Naquela noite João Cândido, carregado nos ombros pelos marinheiros, foi levado para o bordel de Anie e depositado como rei sobre a cama da puta. Foi despido, banhado, massageado e perfumado por mil mãos das putas, dos bobos, dos cães felizes. Depois deixaram-no nas mãos mais experientes e apaixonadas de Anie, que cuidou de seu negro como se cuida dos santos em dia de procissão. Mas de santos laicos, dos que gostam de prazer e alegria, dos que entendem os prazeres carnais mais que os espirituais, como uma das mulheres africanas cuidaria de Agostinho antes de se tornar santo, quando este sorvia as noites do norte da África, enquanto Mônica, ajoelhada e agoniada, rezava pela salvação do filho. Anie cuidou de seu homem, deixando-o satisfeito por muitas vidas, daquela satisfação de quem se torna escravo e quer mais, e sempre mais, da mesma mulher, da mesma boca, das mesmas mãos. E mais não vou dizer, pois este é um conto político e não erótico, e cada um adivinhe o que a polaca fez com o marinheiro subversivo.
Acordaram no dia seguinte com um barulho de homens armados, que os levaram da pensão, ao Almirante e sua puta, em meio aos gritos e choros e latidos dos amigos e parentes dos marinheiros anistiados pela lei dos homens do Congresso.
Os anistiados - perdoados, leitores, não se esqueçam de que anistia é perdão total - foram trancados nos porões a bordo do navio Satélite e levados para o presídio e para o exílio.
No presídio da Ilha das Cobras foram presos, entre eles João Cândido, mas a revolta se intensificou; rebelaram-se de novo pelas péssimas condições em que estavam sendo tratados, e o castigo dessa vez veio rapidamente: cela subterrânea. O calor e a sede eram intensos no verão de dezembro; o espaço e o ar também eram poucos, e dezesseis acabaram morrendo sufocados.
Na viagem de desterro, 105 dos revoltosos foram levados para a Amazônia; ali também a revolta voltou a estourar, e nove foram fuzilados. Anie e mais 43 mulheres consideradas prostitutas também estavam no navio, juntamente com duzentos desordeiros, que é como os governantes perfeitos e amadurecidos chamam aos trabalhadores de sua pátria.
Entre eles se encontrava Lefú, que era o único ordeiro, e que se sentava quieto durante a viagem toda, balançando a cabeça de um lado para o outro, como um pêndulo desentendido, e nas mil noites que passou a bordo sonhava com sua aldeia das terras invadidas da Polônia, com os camponeses que plantavam batatas e rabanetes, com os mineradores que extraíam carvão e ferro, com os operários que fabricavam toda sorte de produtos importantíssimos para a vida das pessoas, mas que só eram consumidos por duas dúzias delas e que enriqueciam nem meia dúzia, sonhava com os marinheiros brasileiros, com as putas, com os negros que viviam nos morros do Rio de Janeiro, e com o tratamento que os governos davam ao povo, e também concluiu que não fazia diferença viver aqui ou acolá. Ficou ainda mais bobo, e sua cabeça nunca mais parou de oscilar quando não compreendia alguma coisa.
Na primeira oportunidade, meses depois, quando o navio atracou num dos portos do Nordeste, Anie fugiu com Lefú, e voltou para o Rio de Janeiro depois de conseguir dinheiro prostituindo-se com os homens de lá. Homens são homens, aqui ou acolá. Se querem sexo, e pagam por ele, terão o que desejam, nas ruas ou em casa, sustentando suas esposas para satisfazê-los dignamente, ou às putas para fazê-lo quando não querem dignidade. Voltou o mais cedo que pôde para sua pensão para estar perto de João Cândido, que ela sabia que voltaria para lá quando pudesse, também.
João Cândido sobreviveu à Ilha das Cobras. Sobreviveu ao calor, à fome, à sede, aos castigos que mais pareciam vingança do Estado contra os homens que haviam ousado se rebelar. Por ter sobrevivido, que ousadia!, foi levado de volta à capital da República e internado no Hospital Nacional dos Alienados. Quem lesse sua ficha de internação veria: louco e indigente. Mas como as malhas tecidas entre os que só podem contar com sua solidariedade são fortes, e espalham-se, logo Anie ficou sabendo do destino do único homem que havia amado. Passou a visitar os alienados do hospício todos os domingos, dia de visitas, e lá passava as tardes com João.
Ali ele não era mais João Cândido, o Almirante Negro, mas apenas João, um negro destituído de memória, de seu passado, proibido de lembranças, se quisesse sobreviver. Ali João vivia como todos os outros loucos, aqueles que não tiveram a sorte de serem cuidados como Lefú, os que urinavam e defecavam nas próprias roupas, os que fediam de banhos nunca tomados, os que viviam infestados de piolhos e carrapatos, com os narizes escorrendo de centenas de resfriados e gripes mal cuidados, os olhos cheios de ramelas, quase cegos de doenças e vontade de não ver.
Ali o negro João viveu por mais de cinqüenta anos, como centenas de outros internos que nunca tinham suas doenças mentais tratadas, suas fichas e internamento revistos, sujeitos a toda sorte de terapias que os alienistas inventavam, às teorias que traziam da Europa e Estados Unidos, e eram choques elétricos, quando a eletricidade inclusive orgânica estava em voga, e eram choques térmicos quando imaginavam que calor e frio alternados curavam os humores descontrolados dos corpos, e eram alimentos salgados demais quando os médicos concluíam em suas pesquisas que loucura era falta de sais, e sem sal quando, meses depois, suas opiniões abalizadas davam meia volta, volver, e decidiam que era justamente o excesso de sal que transtornava as mentes e os corpos; ali viviam a pior das mortes, que era a morte dos enterrados vivos, dos esquecidos e mortos antes do tempo; ali viviam não apenas loucos, mas velhos que não tinham para onde ir, abandonados por suas famílias; cegos, surdos-mudos que não tinham como se comunicar; vítimas de paralisia cerebral; todos abandonados, todos pobres, todos enterrados vivos.
Ali João ocupava-se de fazer nada, como os outros companheiros de desdita, andando, olhando o tempo passar, comendo terra, muitos nus, no calor ou no frio, acostumados a viver como haviam vivido nossos ancestrais pré-históricos. Só conheciam uma palavra: a espera. Esperavam os parentes que nunca os vinham visitar, esperavam os médicos que nunca os vinham curar, esperavam a alta que nunca receberiam. Esperavam a morte, que esta sim, chegava num momento ou em outro.
Esperavam os domingos, sem noção dos dias que faltavam na semana, quando algumas visitas apareciam com bolos, roupas e calçados que eram logo guardados na despensa e disputados pelos funcionários, e os internos nunca viam; esperavam quando Anie chegava, acompanhada de Lefú e de Cocote, e depois de Petty, quando a cadela estava velha demais para sair à rua; chegavam e eram logo reconhecidos, apalpados, beijados, olhados de longe, por olhos chorosos e bocas banguelas sorridentes, que riam e choravam por tudo e nada, gratos de serem visitados e reconhecidos como gente.
Lefú punha-se logo à vontade entre os seus, aqueles dos quais ele faria parte, não fosse Anie em sua vida; e a moça sentava-se do lado de João Cândido e o ouvia, e falava, e ele voltava a ser o Almirante Negro da revolta da chibata.
Contava para ela das viagens que havia feito pelos sete mares do mundo, singrando como num baile, fazendo as ondas dançarem com os apitos do navio; contava das sereias que havia visto e ouvido, e só não se tinha lançado ao mar por causa dos companheiros que o haviam agarrado e levado para os porões do navio; contava dos corpos que passavam boiando e comidos de peixes a bombordo e estibordo, e ele acendia velas e rezava missas por aquelas almas dos afogados. Contava histórias das doenças que havia tido naqueles poucos anos como marinheiro, mas que lhe marcaram a alma e o corpo mais que os muitos anos que vivera depois em terra. Não se esquecia nunca de contar da traição que sofrera do marechal presidente da República, que havia assinado a anistia e não cumprira.
Anie contava a ele o que acontecia no mundo, contava que o marechal Hermes da Fonseca, o traidor dos marinheiros, não era mais presidente, e contava da revolta dos tenentes no Forte de Copacabana, e da coluna que viajava pelo país tentando libertar o povo, quem sabe passariam por ali e levariam João com eles?, contava que agora o poder era ocupado pelo pai dos pobres, mas não se iluda, João, que o homem cuida mais dos ricos bastardos que dos filhos legítimos que o elegeram, e como se encheram as prisões e hospícios durante os longos anos de governo de Getúlio. Anie contou da Grande Guerra que havia estourado na Europa, e João sonhava em estar lutando lá, marinheiro e militar que era, não fosse a prisão; contou também da outra Guerra, e João já havia começado a misturar as idéias, sem conseguir separar direito qual era uma e outra, quem havia ganho e quem perdera, quem estava do lado de quem, o Brasil estava com a Alemanha ou contra? Anie também não sabia explicar, afinal eram tantas as mudanças e incoerências do seu país adotivo que ela também se confundia toda, enquanto Lefú apenas abanava a cabeça e balançava o corpo.
Com o dinheiro de vinte e quatro homens que haviam passado por sua cama, Anie comprou um rádio de galena para que João ouvisse as notícias do mundo de fora, e só conseguiu que chegasse até ele por que com o dinheiro de mais dezoito homens ela havia comprado também a boa vontade dos funcionários da recepção do hospital de alienados. Mais tarde comprou um radinho elétrico para o amigo, também juntando dinheiro dos homens que lhe pagavam, e que eram cada vez mais escassos conforme envelhecia.
No radinho, João ouviu quando os militares tomaram o poder no país, e pensou que desta vez se lembrariam dele, mesmo que velho, apodrecendo ali no hospital, se lembrariam de sua luta para melhorar as condições de trabalho e vida dos militares. Mas eram militares de outra armada, não eram marinheiros, e também não se lembraram dele.
No radinho João ouviu que os militares do exército haviam decretado estado de sítio no país, fechado o Congresso, e de novo as prisões e hospícios e hospitais ficaram cheios de revoltosos, e de novo as leis eram feitas pelo presidente e não pelo Legislativo; João espantava-se, Lefú balançava a cabeça, Anie daria de ombros se ainda estivesse viva e Petty latia. Ninguém entendia nada dessa lógica do poder.
Um ano depois do AI-5 ser implantado, quando os militares da América do norte iam à lua e o radinho tocava uma música do novo rei do Brasil, que os loucos cantavam aos gritos mandando tudo o mais para o inferno, João era enterrado no cemitério municipal.
O Almirante Negro estava finalmente morto.

Eloisa Helena Vieira Maranhão.

A Bailarina e o Deputado.


“Um homem pode ocasionalmente tropeçar na verdade, mas na maior parte das vezes ele se recupera e vai em frente.” (Winston Churchill)

Enquanto Helena treinava as posições dos pés, suportando corajosamente as dores e cãibras para deixá-los perpendiculares ao solo, Emílio distribuía panfletos nas portas dos bancos, tentando conversar com os bancários que passavam por ele quase correndo, apressados para não perderem a hora do expediente e preocupados em não serem vistos com aquele subversivo. Afinal, atrás das portas e janelas sempre poderia estar algum gerente, algum chefe de algum tipo, subgerente, subchefe, e toda essa horda da alta hierarquia que, de um momento para outro, poderia colocar um emprego a perder. E um emprego, por pior que fosse, era sempre melhor que nenhum, essa deveria ser a lógica. Não vou comentar sobre essa lógica por que estou aqui para contar uma história, e não para julgar lógicas. Deixo isso para você que me lê.
Emílio era ainda muito pequeno quando começou a notar que havia lógicas e lógicas, motivos e motivos, interesses que não eram os mesmos que os seus. A primeira e única grande surra que havia levado em sua vida era uma prova de que as lógicas nem sempre são a mesma, e que o mais forte vence. Veja que não coloquei "sempre" vence, por que Emílio, apesar de vencido, decidiu que o mais forte não venceria sempre. Decidiu sublevar-se, sem ao menos conhecer essa palavra, e não deixar o mais forte "sempre" vencer. Que coisa mais estranha estava acontecendo dentro do menino, estranha e gostosa, um prazer de quem descobre de repente que a vida pode ser outra, que há outras possibilidades, e que se pode mudar os rumos que parecem pré traçados. Emílio tornou-se livre depois daquela surra, surra injusta que o libertou do destino.
Era uma tarde de sábado ou domingo, daquelas quentes de clima e mornas de alma, daquelas tardes que vão caindo lentamente, mas tão lentamente que parecem ser eternas; quem não teve tardes assim, de crianças gritando nas ruas, ruídos de carros lá longe, adultos transando mansamente (ou não tão mansamente, cada caso é um caso), alguém cantando ou tocando?... Não, nem me falem de tristes meninas treinando piano, que não sou tão velha, nem Emílio o é, isso de languidez embalada por piano ao fundo é coisa do Vinícius, nosso poetinha que voltou ao pó, e que esse lhe seja pó.
Naquela tarde visguenta Emílio brincava na rua com os amigos quando ouviu um estrondo fortíssimo. De explodir o coração, colocando-o pra fora. Foi exatamente o que aconteceu, não com Emílio, evidente, que já sabemos que continua vivo, mas com o pardal. Mero, reles pardalzinho que, não acostumado à civilização, sentou-se, ou melhor, pisou (por que nunca vi um passarinho sentado) com seus pezinhos de passarinho num fio elétrico. Sim, todos sabemos teoricamente que passarinhos não levam choque, que não há ligação entre os fios e a terra, e, portanto, sábios de eletricidade e aves que somos, nenhum passarinho morre de choque, a menos que encostasse em dois fios ao mesmo tempo, o que é praticamente impossível pelo tamanho do bichinho e a distância entre os fios. Só que aquele passarinho morreu, sim, eletrocutado, por que encostou na parte desencapada de um dos fios. (Caramba, é uma droga contar histórias verídicas nesses tempos de racionalidade, temos que ficar explicando tudo. E quem não pergunta nem duvida é logo taxado de ter algum problema, alguma dificuldade intelectual. Decerto contar histórias na Idade Média ou numa boa igreja cristã de hoje seria mais interessante). Mas voltemos ao pardal. Morreu na hora, aliás, no segundo da explosão (conseqüência da pousada da avezinha), caindo logo depois do coração. É, meus caros, o pardal teve o peito aberto pelo choque violento, e o coração arrancado do peito. Resultado, coração caiu de um lado do muro e pardal do outro, na calçada. Presumiu que o coraçãozinho caiu dentro do jardim de alguma casa? Perfeita dedução. Casa de uma das crianças, que saiu gritando com o coração pulando (o dela, não o do pardal), pegou o coraçãozinho (o do pardal, não o dela) e foi pra rua tentar entender o que estava acontecendo. Logo perceberam que a explosão no transformador tinha sido fruto do passarinho azarado, e recolheram também o corpo do bichinho, ainda quente, chamuscado, cinza mais escuro que o normal.
O coração de Emílio também estalou. De dor. Gostava de animais, quaisquer que fossem. Gatos pulguentos, cachorros sarnentos das ruas, cavalos magros e cheios de carrapatos nas fazendas, galinhas gordas e ensopadas num molho dourado escuro. Animais eram ótimos. Emílio pediu se podia ficar com o passarinho e marcaram o enterro para dali a duas horas. Tempo suficiente para arrumar um caixãozinho e fazer um funeral decente, com espelho na frente do bico, pra ver se não havia indício nenhum de respiração. Claro que hoje não se faz mais isso, coisa arcaica, com tantos aparelhos auxiliares dos médicos, e nem naquela época se fazia, mas reconheçamos que é bem mais elegante e interessante um funeral com espelho sem bafo do morto. (Se tivesse bafo, será que a família realmente ficaria feliz? Um enterro frustrado, um pretenso morto que se levanta, talvez um marido violento ou sogra chata para voltar a conviver na vida diária?). Hoje não é mais preciso fazer o teste do bafômetro mortal, mas o medo de ser enterrado vivo continua. Emílio também ouvia histórias de enterrados que foram encontrados revirados, quando da exumação, com o rosto arranhado, o caixão riscado de unhas desesperadas. Também ouvia e também estremecia. Mas voltemos ao pardal. Emílio recolocou o coraçãozinho como pôde dentro do corpo, enrolou com durex para que a ferida ficasse fechada, e fez um terninho para o defunto. Claro, defuntos homens precisam de terno. Mulheres já não sei, nunca reparei com que roupa se enterram as mulheres. Ou será que elas não morrem? Calça comprida pode? Pois se homens não podem entrar no templo do Congresso sem terno, e mulheres não podiam entrar de calça comprida nos fóruns, templos da Justiça... vai que os seres homens não podem adentrar os átrios do céu sem terno, também... Bom, estava certo Emílio de cortar  um pedaço da calça do terno do pai e costurar um terninho para o féretro eletrocutado. Costumes são costumes, normas são normas, e nada como se cumprir a cerimônia de maneira correta. Tinha sido ensinado assim, e assim procedeu. Resultado: surra. Depois do enterro, que foi um sucesso com ave maria e tudo, no dia seguinte, quando o pai descobriu o terno perneta. Aí foi gestado o sindicalista porreta que ele se tornaria no futuro, por que ali ele se tornou livre, ao perceber que há lógicas e lógicas, interesses e interesses, mas disso já falei e espero que tenham entendido.
Não me perguntem o que fazia Helena enquanto isso (tinham se esquecido dela, né?), por que estou apenas relatando fatos, e não inventando sincronias, coincidências, que não gosto disso, eu, tão afeita à verdade objetiva dos fatos e da história. Quase positivista.
Emílio cresceu, seu pai se esqueceu da surra (mas Emílio, não), mudou-se daquela cidade do interior, estudou, e arrumou emprego. Num banco. Não que para arrumar emprego em um banco ele precisasse de muito estudo, só o diploma já bastava, como, aliás, para quase todos os outros empregos, não vão os afoitos saírem julgando os bancários, que coisa mais sem dignidade, julgar e nem olhar o próprio rabo.
Mas cresceu Emílio, e, livre e inteligente como era, logo percebeu que a lógica do banqueiro não era a sua, que a lógica do capital não era a do trabalhador, que a lógica do Estado não era a do cidadão. Decidiu, sensível que era, revoltar-se. Decidiu, livre que era, mudar as coisas. Decidiu, inteligente que era, mudar coletivamente, que intuía, antes de formar raciocínios lógicos, que mudanças individuais não levam a nada. Como era livre, e inteligente, e sensível, entrou para seu sindicato. Começou a militar.
Helena crescia também. Afinal, se vão se encontrar no final, e morrer de paixão um pelo outro, presume-se que Helena também vivia, em algum lugar, de alguma forma, igual ou diferente de Emílio. Vivia diferente. Ou pelo menos pensava e sentia diferente. Helena era... etérea. Não tinha aquela vontade férrea de Emílio, de sair cortando ternos, enterrando passarinhos, militando em sindicatos. Helena não era líder de nada. Era introvertida, de sonhar seus sonhos sozinha, cantar para os passarinhos vivos, trepada em árvores, e ficar o mais longe possível de passarinhos mortos. Nunca lhe passou pela cabeça transformar um terno do pai em mortalha, mas usava os vestidos longos da mãe, as sandálias altas, as pinturas, os cremes. Não que fosse vaidosa; sabia que aqueles cremes e pinturas a tornavam feia, ela que era linda e elegante ao natural, e que andava desengonçada nos sapatos de salto. Mas era cheia de imaginação, e o que lhe dava prazer era inventar histórias em que era a própria heroína, dentro daquelas roupas e maquiagens; Helena era irreversível e incuravelmente uma criadora de histórias (mas não de casos). Era uma criatura possuída pela imaginação, daquelas que povoaram nosso planeta por milhões de anos antes que, racionais que nos tornamos, resolvemos escrever. Transbordava de fantasmas, ninfas, heróis, aves coloridas emplumadas e ornitorrincos horrorosos, mas tão engraçadinhos, minotauros e outros seres híbridos, como híbrida ela era, metade gente, metade... artista.
Helena era uma artista. Não sabia ainda de qual tipo exatamente, pois gostava de representar, desenhar, contar histórias escabrosas, tocar instrumentos variados que inventava no quintal de sua casa, marimbas cheias de águas desiguais e coloridas, que ficava mais bonito, chocalhos, todo tipo de percussão e instrumentos de sopro; gostava de cantar, sapatear, dançar todo tipo de danças, inclusive as religiosas, que espiava no terreiro da esquina e depois treinava em casa, o que lhe rendeu a fama de "macumbeira". Por sua paixão pela música freqüentava o coral da igreja protestante, o que lhe rendeu fama de "crente".  Também amava os rituais, que ela identificava com o teatro, as estolas sacerdotais, as luzes e cores nos vitrais, o impacto das imagens e das ladainhas e rezas compassadas, e ia aos domingos às missas, o que lhe rendeu fama de "boa católica". O cheiro do incenso lhe despertava sensações de tirar o fôlego, ou de compassar a respiração, deixando-a relaxada e tranqüila, e as roupas e músicas indianas lhe davam sensação de prazer estético, o que lhe rendeu fama de "new age". Resumindo, era a única pessoa conhecida que era tudo e nada ao mesmo tempo, que seguia todas as religiões, mas não era crente de tipo algum, por que não tinha nascido para a fé, mas para as sensações do corpo. Quer dizer, era a única que seguia todas as religiões ao mesmo tempo, mas não a única que freqüentava igrejas e professava crenças por motivos próprios, absolutamente íntimos, sem nunca os revelar, que esse tipo de crente está cheio no mundo, aqueles que vivem externamente uma coisa e internamente outra; mas não vão os mais afoitos apontando os dedos e clamando "hipócritas", por que Helena, e talvez os outros também, quem saberá?, fazia tudo com a mais limpa consciência e a cara mais lavada, sem nenhum tipo de culpa, afinal, se seguimos aquilo que nosso ser mais íntimo nos manda, quem nos poderá julgar?
Por tamanha flexibilidade, nada mais natural que tornar-se Helena uma bailarina.
E por tamanha inflexibilidade, até mesmo uma certa intransigência, por todas as certezas que tinha (e era o que faltava em Helena, certezas), por sua necessidade de absolutos, por não contemporizar, nunca, em hipótese alguma, já que acreditava realmente no que vivia, nada mais natural que Emílio se tornasse um sindicalista. Obviamente do sindicalismo de luta, que não era pelego para perseguir resultados, amaciando os lombos operários para que não sentissem o peso do patrão. Mas não vão os afoitos de plantão apontando os dedos e gritando "radical! fundamentalista!", que Emílio acreditava realmente naquilo que defendia, e morreria lutando, se fosse preciso, mas isso não significa que ele desejasse a morte desse ou de outro tipo. Aquele radicalismo era seu charme, sua marca, e quem o visse com os olhos brilhando, gritando palavras de ordem no megafone, negociando de cabeça erguida e nariz empinado com os patrões, batendo de frente nas assembléias para fazer valer seus pontos de vista, ah!, quem o visse de barba e cabelos ao vento preparando cola de polvilho e soda cáustica e virando noites colando cartazes nos muros e postes, quem o visse distribuindo panfletos nos pontos de ônibus e onde quer que meia dúzia se aglomerasse, nunca o chamaria radical no sentido pejorativo, mas se apaixonaria pela força moral e grandeza daquele homem. Foi o que aconteceu com Helena quando o viu falando na televisão, entrevistado durante uma greve.
Helena impressionou-se com aquela certeza que lhe faltava, com aquela missão da qual ele se sentia imbuído, com a capacidade de articular as palavras em discursos devastadores. Não que a moça fosse ingênua, de modo algum, que havia estudado letras e sabia muitíssimo bem, talvez mais que Emílio, o que estava por trás dos discursos, dos gestos inconscientes, da voz ritmada que subia de tom nas palavras certas, da indignação demonstrada, e até mesmo o que estava por trás daquelas certezas todas. Tanto sabia que o amou. Perdidamente. Não é força de expressão. Helena perdeu-se naquele amor. Vivia pensando nele, sonhando com ele, que se tornou o centro das fantasias da bailarina. Desde aquele primeiro minuto em que o viu. Decidiu que ele seria dela, não sabia como nem quando, principalmente por que era casado e tinha filhos, e ao que tudo parecia vivia feliz com a mulher. Aliás, com a "companheira". Helena mordia-se de inveja da companheira do sindicalista, que podia ouvi-lo fazer discursos quando quisesse, que podia comer ao lado dele olhando aqueles olhos em brasa, que podia pastar aquela barba e deixar-se amar e dar filhos a ele. Imaginava, com o estômago doendo e tremendo de vontade de que fosse realmente assim, que a companheira se sentisse impaciente com toda aquela energia à esquerda, que estivesse cansada dos discursos, que se deitasse com ele por hábito ou outro motivo qualquer que não fosse paixão. Desejava ardentemente que o amor dos dois estivesse morno, desgastado, que ele se sentisse insatisfeito, que brochasse no sexo. Que gastasse toda sua energia na luta dos trabalhadores (sic, pois Helena não costumava usar esses jargões) e pensasse na companheira com... desgosto. Aliás, de preferência, que nem pensasse.
Helena passou a viver ainda mais dos seus fantasmas e fantasias. Tentava levar a vida em frente, bailando suavemente, rodopiando sobre a vida comum, como sempre fizera. Tentava, mas estava cada dia mais difícil. Continuava a cuidar do filho, que era uma gracinha de criança, viver com o marido, que era um adulto muito bacana, comer, dormir e acordar, tomar banho, ensaiar duramente, fazer suas atividades. Continuava, mas a vida já não estava nos eixos. Olhando rodar os piões que jogava - era sua mania de criança - Helena percebia que também ela agora oscilava em torno do eixo e já não sabia como parar, sem cair, aquele rodopio que iniciara. A bailarina sentia que estava se desequilibrando nas sapatilhas, e que tudo que queria na vida era perder o equilíbrio de uma vez por todas. A hora de dormir era a mais benvinda, pois podia deixar a imaginação correr  selvagem pelos pastos, e nos pastos estava o sindicalista fazendo discursos, escrevendo e lendo, rodeado pelas multidões, enfrentando os patrões, enquanto ela dançava, flutuando sobre tudo. Flutuando inclusive quando o marido a tomava nos braços, e ela se entregava, mas era a Emílio que ela realmente estava se entregando naquela hora, por que só conseguia sentir prazer, ou pelo menos não sentir repulsa pelo sexo, quando pensava no homem por quem havia se apaixonado.
Emílio levava sua vida, sem nem sonhar que existisse uma Helena pensando nele de maneira intermitente e sem repouso. Continuava a cuidar dos filhos, que eram umas gracinhas de crianças, viver com a companheira, que era um mulher muito bacana, fazer suas atividades normais. Candidatou-se a deputado e ganhou. Era hora de expandir seus horizontes, de batalhar em outras frentes, e a política era o ideal para isso. Nem se precisa dizer que aquele homem seguro e obstinado tinha metas que perseguia com calma e método, que sabia como e onde queria chegar. Mesmo que fossem métodos próprios, pois não era do tipo tradicional, pelo contrário, era totalmente anti-convencional, mas mesmo assim era firme em sua anti-convencionalidade e autenticidade. Do tipo fiel a si mesmo. Só fazia e agia segundo a linha mestra que sentia correndo pela coluna, uma medula ideológica e ética que lhe haviam introduzido num dia do passado de que ele nem se lembrava; sentia que por ela corria a indignação diante das injustiças, a revolta frente às desigualdades, a vergonha ante a covardia de mudar o que devia ser modificado para que um novo mundo fosse instalado; estourava de irritação diante de pessoas que tinham medo, que se acovardavam diante dos riscos ou se acomodavam bem sentados sobre o poder.
Emílio tinha poder. Em si. Naquela medula ideológica que atraía as pessoas a ele. Mas não amava o poder. Considerava natural que existisse um tipo de poder que emana das pessoas, um tipo de carisma que alguns têm e outros não. Ter poder como uns são belos e outros têm ritmo musical. Diferenças humanas. Mas não considerava natural que quem detivesse poder usasse essa característica para submeter os outros, ou conquistar seus próprios interesses. Emílio preocupava-se e vivia realmente pela coletividade, por que se sentia parte de um todo mais amplo e geral. E abominava qualquer tipo de poder opressor e qualquer tipo de bajulação subserviente. Os dois lados do poder, opressão e submissão, enchiam-no de desgosto quanto à natureza humana. E reagia como sempre reagia diante do desgosto, da dor, do medo, da impotência, do pessimismo excessivo ou do otimismo imbecil que paralisam: sorria ironicamente.
 Helena desde criança tinha horror à ironia, que a machucava como um tratamento de canal. A ironia podia ser interessante como figura de linguagem, mas no trato com os outros ela sentia que era uma grosseria de quem não tem sensibilidade. Costumava pensar nos cínicos e irônicos como paquidermes, pela pele grossa e insensível. Mas quando viu o sorriso irônico de Emílio respondendo uma das perguntas da repórter; quando olhou os olhos dele se espremendo num esgar de ironia e se abrindo naquele sorriso, ela desmontou. Pela primeira vez não se ofendeu com a insensibilidade da ironia, por que percebeu que esta podia ser arma contra as grosserias e insensibilidades maiores. Percebeu que naqueles olhos e sorriso cínicos havia paixão, vontade de mudanças e, acima de tudo, idealismo. Nele, a ironia não era defesa de quem não tem argumentos, mas ataque contra tudo que era injusto, desigual, tudo que oprimia, tudo que violentava, tudo que transformava a vida num inferno. Helena sentiu que também Emílio sabia que o inferno são os outros, assim como ela e Sartre suspeitaram. Mas notou também que Emílio sentia que o paraíso são os outros, assim como ela e São Chiquinho haviam percebido. Emílio amava. Helena sentiu isso e o amou daquele momento em diante, para sempre, sem tréguas, acordando com ele em seus pensamentos, dormindo com ele em suas memórias, sonhando com ele, mesmo que ele não estivesse em seus sonhos, comendo ao lado dele, dançando para ele, cozinhando enquanto ele a olhava, cantando enquanto ele a ouvia, quedado de cansaço e de emoção da vida. Emílio passou a ser a música incidental na vida de Helena, e nunca deixou de sê-lo, por que a bailarina queria, precisava dessa música para suportar a rotina e o tédio de viver. Se não sentia realmente, Helena inventava amor intenso para não morrer de tédio.
Emílio amava. Amava a política, amava a mulher, amava os filhos, amava os comícios, debates, campanhas eleitorais, os discursos na tribuna, o corpo a corpo com o povo, as partidas de futebol, os chopinhos e cervejas. Mas cansava-se, também, que tudo que é em excesso também cansa em demasia. Nessas horas, sentava-se na poltrona de olhos fechados, ouvindo música, bebendo alguma coisa e pensava em passarinhos, em praias, cachoeiras de águas geladas, areia morna na pele, vento nos cabelos de uma mulher carinhosa que dançasse de alegria... Quando sentia que ia explodir de cansaço e vontade de sumir abrigava-se na música. Gostava dos relaxantes reggaes, jazz ondulantes, blues melancólicos, rock, chorinho, MPB, todo tipo de música para cérebros inteligentes, almas sensíveis e corpos esgotados. Mas houve um dia em que nem a música conseguiu lhe abrandar a angústia que as preocupações lhe haviam trazido. Estava de alma densa, com uma sensação de tragédia iminente, depois de uma derrota da oposição no Congresso. As forças da situação uniam-se cada vez mais para manter as coisas nos seus devidos e interessantes lugares, enquanto as de oposição dilaceravam-se em pequenas picuinhas. Emílio saía indignado e infeliz desse tipo de sessão, sentindo que ainda estávamos muito longe de conseguir mudanças de qualidade no país; sentindo que havia ainda muito o que fazer e pouca vontade política para dar início às transformações estruturais; não perdia as esperanças, mas muitas vezes saía com um nó na garganta e completamente esgotado daquelas sessões inúteis, que deixavam a impressão inequívoca e revoltante de que os representantes do povo estavam rindo dos seus representados. E que os representados, além de nem imaginar que eram motivo de chacota, ainda criam e esperavam nos seus políticos, com uma boa fé de matar de pesar.
Aquele peso todo estava insuportável, e Emílio decidiu andar um pouco, dissipar o nublado que sentia por dentro. Era uma tarde morna, levemente ensolarada como a daquele sábado da surra do passarinho, e como aquela tarde traria conseqüências drásticas sobre a vida dele. Nessa outra tarde Emílio deixou de ser livre, e teve que render-se ao destino. Sentiu, pela primeira vez na vida, que há coisas das quais não temos como escapar, que há coisas que simplesmente nos acontecem, e nos carregam com elas, sem que tenhamos qualquer tipo de controle sobre elas, como um terremoto, uma enchente nas monções, um acidente inesperado. Emílio aprendeu naquele momento que não era onipotente, que nem tudo era controlado por nós, que o fato de estarmos vivos, de sermos humanos, nos deixava à mercê de certos acontecimentos. Emílio, olhando Helena dançar naquela esquina, sentiu espantado que a vida também podia ser espanto.
Helena dançava na esquina, numa pequena roda de transeuntes que passavam e paravam um pouco para olhar. Fazia isso desde muito pequena, cantar, dançar, fazer mímicas nas ruas, para sentir a reação das pessoas, e ao mesmo tempo a presença delas. Sentia tanta falta das pessoas quanto o excesso delas. Não suportava contatos íntimos nem longos demais, mas também não suportava a solidão do silêncio e da ausência por muito tempo. Quando começava a inquietar-se de "solidão inerente" (era assim que ela chamava aquele sentimento, de solidão inerente aos seres humanos, que nada nem ninguém podia fazer desaparecer, mas apenas mascarar, aliviando), então Helena saía vestida de bailarina e dançava para os transeuntes, que muitas vezes deixavam moedas no chão, pensando numa artista principiante e necessitada. De início ela morria de vergonha, devolvia as moedas e voltava para casa prometendo nunca mais dançar na rua. Depois, mais conformada com os hábitos e julgamentos das pessoas, conseguia rir-se internamente, pegar as moedas e agradecer, antes de voltar novamente para sua casa e sua solidão inerente.
Helena dançava balé, sem música, de olhos semicerrados, rodopiando sobre a vida. Emílio parou, espantado como já dissemos, e sentiu tontura. Sua vida tinha saído do eixo. Helena vestida de collant, meias e sapatilhas brancas, numa saia de tule vermelho, embaixo daquele sol, lembrou-lhe Shiva, o benfeitor cheio de graça, dançando incansavelmente para criar o mundo. Apesar da tontura e do leve embaçamento que nublava seus olhos, Emílio sentia em seu corpo a dança de Helena, a leveza, os movimentos de pluma, as pulsações de seu coração e veias, e ouvia a voz da bailarina cantando para embalar a própria dança, apesar dela apenas entreabrir os lábios, sem soltar som algum. Ela era sua própria música, embalando-se a si mesma. Como um autista no seu bamboleio pra frente e pra trás. Helena e sua dança deixaram Emílio em estado de graça, fora dos tempos, sem noção de espaço, e ele sentiu que poderia morrer ali, por que ali era seu lugar. Mais que isso, sentiu que não havia lugares, e onde estivesse estaria sempre só e sempre completo, que a vida era isso, mesmo, um lugar do nada nem de ninguém, onde surgimos ao acaso, mas acabamos nos encontrando a nós mesmos, se tivermos sorte, sabedoria, ou alguém dançando numa esquina.
Sentia o cheiro de lavanda de Helena, adocicado e mentolado, um cheiro de almíscar selvagem, e seu coração disparou como mil javalis em debandada. Lembrou-se de Obelix, e desejou ser o gaulês por um minuto, para enfrentar e dominar os javalis. Afastou-se rapidamente dali, num último esforço da vontade, continuando a olhá-la de longe, por que a proximidade da bailarina o deixaria louco. Viu-a acabar de dançar, recolher as moedas, agradecer suavemente com um sorriso de olhos para os que a rodeavam, e virar a esquina contrária à dele.
Respirando com dificuldade Emílio voltou para casa, que já não era o seu lar. Impacientou-se com as pequenas manias tão conhecidas da mulher, irritou-se com o barulho dos filhos, trancou-se no escritório, ligou o som, desligou, tentou ler, tentou escrever um artigo para o jornal, tentou responder seus e-mails, tentou fechar os olhos e dormir, tentou beber para esquecer, tentou tomar banho para refrescar-se. Mas não conseguiu. Helena tinha tido um efeito avassalador sobre Emílio, que a partir dali começou a perder o controle sobre si mesmo, descobrindo-se sonhando acordado, vagando pelas ruas, parando naquela esquina com o carro, procurando insensatamente uma bailarina de vermelho e de cabelos em coque nos lugares onde ia. Passou a roer as unhas de ansiedade, disfarçadamente, e enrolar as pontas dos cabelos nos dedos, em movimentos lentos de caracóis, inconscientemente, extraviado nos seus pensamentos. Tornou-se mais duro e ríspido nas discussões, olhava com olhos de fogo, inflexíveis, impacientes, irritados por pouca coisa, que antes lhe fariam sorrir ironicamente. Emílio queria Helena, queria a bailarina em seus braços, abraçá-la e senti-la dançar no seu próprio corpo, sentir os movimentos dela, a respiração controlada, sua suavidade de pluma, o cheiro doce de lavanda com hortelã (ou seria almíscar selvagem?). Queria sentir nos dedos o barulhinho do tule quando esfregado, o branco macio do collant, as rendas da calcinha e do sutiã da bailarina, por que, sim, ela teria que usar lingerie branca, e de renda com algodão. Emílio sentia tudo isso sem saber que sentia, abria e lia os e-mails e cartas esperando que uma fosse dela, sem saber que esperava por isso, sentava-se nos jantares dos restaurantes olhando perdido para a porta, sem saber que esperava que ela entrasse, ouvia músicas cada vez mais, sem saber que era a voz dela que precisava dentro de si; sem saber o que se passava consigo (ah!, homens! Que sabem de tudo e não sabem de nada!) Emílio continuava suas atividades, e impacientava-se com  tudo e todos cada vez mais, assustando-se com sua própria irritação. Estou cansado, pensava, preciso de férias.
Já Helena, como se esperava das mulheres, sabia de nada, mas sabia de tudo. E apesar da perdição interna continuava a viver normalmente, e ainda com mais paciência e determinação, por que sabia que o que estava acontecendo era bom, e era vida, e só tinha uma maneira de acabar: esgotando-se em si mesmo com o tempo ou no corpo de Emílio. Enquanto esperava, e sabia o que esperava, Helena decidiu pintar. Sentiu necessidade de pintar, de colorir o mundo, e começou pelas paredes de sua casa. Pintou a frente de azul royal claro, como o cosmos, e então numa das paredes desenhou o sistema solar, os planetas, Saturno alaranjado com seus anéis, Júpiter imenso, Urano verde escuro e gelado rodando ao contrário, a Terra cor de vinho, lembrando que o mar era cor de vinho para os gregos antigos, e não conseguia tirar Ulisses nem Penélope da cabeça. A espera de Penélope tecendo e desmanchando a mortalha, o pretenso sogro envelhecendo... Helena preferia a versão de Ulisses filho de Sísifo, tinha um desvio romântico por sua geração adúltera, e um desvio quase criminoso de paixão pelo esperto e habilidoso Sísifo, o atormentado pelos deuses... pensava em Argos cego esperando o dono voltar para morrer, não tem coisa mais enternecedora que um cão velho e fiel como Argos...  Telêmaco crescendo longe da vista do pai, mas tão parecido com ele, e tão fiel à sua imagem ... Helena pintava e gemia de saudades de Ulisses. Ou era de Emílio?
Depois passou a pintar as paredes da casa, com barrados próximos ao teto, cheios de pequenas flores coloridas e brilhantes, que misturava purpurina nas tintas látex, cheios de estrelas e pequenos sóis, azuis de vários tons, vermelhos, laranjas e amarelos, cheios de toda espécie de serezinhos marinhos pré-históricos, trilobitas em forma de caracol, com olhinhos dependurados saindo para fora de suas cornucópias minúsculas, barrados repletos de espirais, pirâmides, triângulos, círculos concêntricos formando cones, todos minúsculos e todos coloridos, enquanto o marido olhava com dura condescendência e o filho ajudava a pintar, eufórico com aquela explosão de cores e seres que saía de dentro da mãe.
Quando terminou de fazer barrados pela casa, decidiu que era hora de pintar os vidros, transformando-os em vitrais. Não suportava mais a luz clara direta, queria sombras, luzes difusas, e que o sol se transformasse em cores dentro de sua casa. Decidiu que criaria vitrais pagãos, para contrabalançar os vitrais cristãos das igrejas, e desenhou bailarinas dançando, deuses gregos e hindus, iaras, sacis e outros seres indígenas, no meio de florestas e igarapés, e só se sentiu satisfeita quando pintou um povinho com foices levantadas, vestidos de bonés vermelhos, pequenos sem-terra liliputianos, derrubando uma cerca, com bebês ao seio e velhos enrugados sorrindo desdentados, na porta de vidro que dava para a cozinha, por que havia decidido que, no que dependesse dela, ninguém mais passaria fome com seus salários de miséria.
Precisou pintar os cabelos, também. Passou semanas decidindo a cor. Não conseguia escolher, até que sonhou com Shiva dançando e criando o mundo, Shiva todo vermelho como um sol cheio de graça, e Shiva se transformava em Amon, o egípcio, e os dois dançavam juntos, rodopiando pelo salão de baile, Amon dançando passos de tango nos braços de Shiva, e riam, e cada riso se transformava em sóis, estrelas, planetas, cometas, e mundos nasciam e eram destruídos enquanto os deuses dançavam. Helena acordou feliz e tingiu os cabelos de vermelho pimenta, como um sol brilhante dos países de verão. E enfeitou os cabelos com trancinhas finas cheias de florezinhas de acrílico colorido, que era para... não sabia para que era, mas era necessário. Então Helena fez. 
Passado o furor do transbordamento das cores dormiu naquela noite, e sonhou com Emílio falando em cima de um carro de som, enquanto as pessoas passavam por ele sem ouvir o que tinha a dizer. Helena acordou com o sol filtrado pelas estrelas do seu vitral, e decidiu que era hora de agir. Saiu cedo de casa, e foi ao sindicato dos artistas, filiar-se. Passou a militar, entregando panfletos, conversando com os colegas quando conseguia fazê-los ouvi-la, eles sempre tão etéreos e individualistas, dizendo que tudo se ajeitava para quem tinha talento e se esforçava. Helena começou a sentir repulsa do "talento". Que coisa, pensava, então os talentosos eram superiores aos outros mortais, os sem-talento? Decidiu que mostraria aos com-talento que seu talento também era explorado e enriquecia a poucos, e que muitos com-talento, aliás, com muito talento, acabavam a vida doentes, sozinhos e esquecidos em asilos para velhos. Começou a visitar os artistas que viviam esquecidos nos asilos, filmando-os e tomando seus depoimentos para produzir um filme que fizesse os novos-talentosos pensar. Sentia a alma esfarelar-se quando via atrizes antes maravilhosas agora com os cabelos ralos e sem cor, a pele manchada e ressecada, mas sempre pintadas, vestidas como vedetes, lembrando dos seus tempos de talento e esforço, de quando tinham dinheiro, fama e amigos por perto. Quando o filme ficou pronto e foi divulgado, Helena acabou eleita presidente do seu sindicato. Continuava a dançar, que era disso que vivia e gostava, mas sentia que fazer política era bom e necessário. Pensava em Emílio, e doía de desejo de vê-lo de novo, e apenas fazê-lo saber que ela existia, e que pensava nele ainda, mesmo que ele nunca tivesse sabido disso. Queria que ele soubesse que também era responsável pela opção dela como militante, e que uma parte de si fizera isso por amor a ele. Sonhando despertar a admiração e o respeito dele.
Emílio tinha dificuldade cada vez maior para dormir. Começou a beber, na tentativa de relaxar e ter uma noite de sono tranqüilo. Passava cada vez mais tempo com seus compromissos na política, e no sindicato, e no partido, para não ter que dar explicações de sua falta de desejo pela mulher. Gostava dela, não queria magoá-la nem acabar com o casamento. Esperava que tudo voltasse ao normal, seja lá o que fosse o normal. Aliás, nem sabia que estava insatisfeito e incompleto. Numa noite de chuva forte batendo no telhado e balançando as árvores conseguiu dormir, e sonhou. Sonhou com Shiva, dançando e criando o mundo, Shiva todo vermelho, no meio de uma floresta ensolarada, uma floresta primitiva, da qual saiu Nanã Burukê, a deusa africana, negra e nua, com o corpo todo enlameado da argila primordial. Nana olhou Shiva, sorrindo e encaracolando os cabelos nos dedos, e ele tirou-a pra dançar. Dançaram reggae, e os cabelos de Nana brilhavam de conchinhas coloridas, pedregulhos dourados e prateados, pérolas das ostras que ela comia e amontoava em sambaquis. (Não importa se não tem sambaquis na África, o sonho é de Emílio, que coisa!) E enquanto os deuses dançavam, os mundos eram criados e destruídos, os humanos gemiam suas mazelas e dores, sorriam suas felicidades, e os ciclos se fechavam e abriam, como espirais em serpentinas. Emílio acordou feliz, e pediu para a mulher pintar os cabelos de vermelho e enfeitá-los com miçangas rastafari. Ela riu, estranhando a bobagem, e disse que cabelos ruivos com trancinhas eram coisa de doida. Manteria os cabelos tingidos de loiro escuro, que era a sua cor. Emílio resignou-se, decepcionado.
Helena tentava sair-se bem na direção do sindicato. Não era exatamente difícil, mas sentia-se incompetente no meio de gente tão descolada na política. Não tinha a quem recorrer para ajudá-la, não podia confessar suas fraquezas ideológicas, sua falta de experiência, seu desentendimento do mundo das esquerdas. Não entendia e se exasperava com as picuinhas entre as correntes, as convergências e divergências, uns querendo ir de moto e outros de carro, mas todos indo para o mesmo lugar. Gostava dos companheiros, de todos eles, e se sentia irritada quando cobravam posições mais firmes dela, quando exigiam que se definisse, como se estar ao lado dos trabalhadores já não fosse sua definição no mundo do capital. Sentia falta de Marx, e daria uma perna - bom, um dedo, vai, que uma perna era demais, não teria como dançar sem perna, bom, nem sem o dedo polegar do pé, que não se equilibraria sem ele - mas daria alguma coisa não muito essencial para conversar com Marx uma única vez e pedir-lhe conselhos. Gostava de beber na fonte. Lembrou-se de quando leu Marx pela primeira vez, deitada no gramado da faculdade, para uma prova de sociologia. Tinha que ler "O Manifesto Comunista" para a prova, e quando terminou o livrinho teve uma crise de choro, por que percebeu de repente que Marx estava morto e ela nunca o conheceria. O professor se aproximou, era hora do almoço na lanchonete, e perguntou por que ela chorava daquele jeito. Helena ficou sem graça de contar o motivo, como explicaria para o professor que chorava por que Marx estava morto? Disse que estava com fome, e não tinha dinheiro para comprar um lanche. Ganhou o lanche do professor, que engoliu junto com as lágrimas por Marx, mas agora sentia vontade de chorar novamente quando lembrava que Marx já não poderia responder suas perguntas, ele que tinha previsto a globalização e tudo mais, mas que não tinha previsto a força e a selvageria do neoliberalismo. Não tinha mais líderes, mestres, e isso lhe dava sensação de liberdade, mas também de descontinuidade, falta de raízes. Não tinha mais como ser marxista num mundo desigual que precisava mais do que nunca do marxismo. Teria que inventar como agir, o que fazer, por que lutar. Sentia pontadas de ansiedade e falta das certezas de Emílio.
Só que Helena não sabia que Emílio também não tinha tantas certezas assim. Ele também sabia o que queria e por que lutava, mas também não sabia os caminhos. Pensava que gostaria de ter a flexibilidade da bailarina, da "sua" bailarina, para sobreviver nesse mundo de mudanças rápidas, de decisões urgentes, ele que vivia entre pessoas cada vez mais ossificadas. Desgostava-se profundamente com a petrificação de uns e a extrema maleabilidade dos outros, e não sabia como fazer para se manter flexível sem fossilizar-se. Não suportava mais as pessoas escarradas de razão com quem convivia, aqueles que têm sempre resposta pronta e caminhos determinados para seguir, e, pior que isso, para forçar os outros e a História a seguir. Os condutores do comboio que sempre sabiam para onde ir e por onde, mas que, no fim, acabavam com a boiada toda no meio das piranhas. Emílio gostava dos desvios, dos caminhos múltiplos, das pontes, dos túneis e atalhos, e a ortodoxia costumava irritar-lhe. Não, não vão os afoitos concluindo "não tem jeito, então, para deputado", que é justamente de deputados assim que estamos precisando, dos não engessados. Helena também pensava assim, Helena e eu.
Tudo continuava a caminhar como de hábito, sem sobrancelhas levantadas nem gritos de ais; a vida aparentava normalidade, desde que não se mexesse por baixo dos tapetes. Mas Bruno, incauto, mexeu. Bruno, para quem ainda não foi apresentado, era o marido de Helena. O do olhar de dura condescendência, lembram? Pois Bruno era assim. Um homem íntegro, correto nos mínimos detalhes, honestíssimo, justo. Um homem sem deslizes, nem morais nem éticos, do tipo absolutamente confiável, incapaz de mentir ou enganar quem quer que fosse. Um Moisés, se me entendem. Helena não entendia. Não entendia, por que ela era exatamente o oposto de tamanha retidão de caráter. Calma, afoitos, não venham julgar nossa bailarina, que nem por ser o oposto do marido deverá sofrer o opróbrio de ser chamada sem integridade, desonesta, injusta, deslizante, inconfiável, mentirosa. Nada disso. Helena era também uma pessoa honesta, sincera, do seu tipo de sinceridade. Mas tinha um defeito terrível, imperdoável, aos olhos do marido: era indulgente demais. Aceitava tudo e todos exatamente do modo como eram ou queriam ser. Não fazia diferença, para ela, se aquele amigo era homossexual, se a outra usava drogas, se a prima era ninfomaníaca, o vizinho cleptomaníaco, a empregada não gostava de trabalhar. Os únicos defeitos que ela não perdoava, que a faziam afastar-se de alguém, e afastar-se significava romper completamente as relações, esquecendo a existência do infeliz ser, eram a mesquinharia e a crueldade. Causar sofrimento proposital ao outro. O resto era resto, e, mais que suportar, nem vinha ao caso. Cada um, cada um, era seu lema, e ninguém é exatamente como deveria, portanto deixa estar. Laissez faire, laissez passer, usar essa máxima na convivência com as pessoas era sua única concessão ao liberalismo. E tomar coca-cola, ao capitalismo.  Para os amigos era agradável ter Helena por perto, alguém que não julgava nem cobrava, que partia do princípio de que cada um diz de si aquilo que é, ou o que deseja ser, e não fazia a mínima diferença se o discurso da pessoa condizia com os fatos da realidade. Helena não era psicóloga, mesmo. E também, absolutamente, não era positivista. Fatos, realidade, julgamento objetivo, erro e verdade passavam ao largo de seus pés enquanto bailava, e com que graça deslizava entre as poças de verdades, as pedras duras dos honestos olhares severos, com que graça driblava as regras e normas mais rígidas, vivendo do seu modo e se dando razoavelmente bem na vida. Enquanto o marido angustiava-se em saber e medir precisamente se e o quanto a mulher o amava realmente, para Helena não fazia a mínima diferença; sua lógica era: se ele diz que me ama, e está comigo, então é por que ama mesmo, ou, se não ama, deseja amar, o que empiricamente dá na mesma. Essa lógica ela usava em todas suas relações, o que a fazia nunca perguntar, e apenas ouvir o que lhe diziam da maneira mais tranqüila (ou seria indiferente?). Evidente que Bruno não entendia nem aceitava esse desvio da mulher para o lado dark do real, as mentiras peludas que ela falava, e principalmente aquilo que ela escondia, aquilo que silenciava. Doía nele que a bailarina fosse tão instável de moral, evitando o olhar do marido e dormindo contra a parede, se é que realmente dormia, provavelmente estava fingindo. Doía em Helena ser acusada de mentirosa, aquele olhar seco sobre ela, um sol ao contrário, que queima e tira o gosto de viver.
Pois foi revirando os tapetes onde Helena podia estar escondendo verdades dele, que Bruno encontrou um quadro pintado, uma aquarela com um homem barbudo sobre um carro de som, segurando pela cintura uma bailarina que rodopiava. O olhar de paixão entre os dois acendeu o pisca-alerta de Bruno, que mal viu a mulher entrar em casa depois de uma reunião do sindicato, foi cobrando explicações. Bruno queria a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. Deixe estar, Bruno, pediu Helena, não há nada de grave nesse quadro, nem em mim, nem na vida. Laisser faire, laissez passer, meu amor, quer que eu dance pra você? Bruno só queria a verdade, nada de danças, de músicas, de quadros, ao menos uma vez na vida você pode parar de mentir e me dizer a verdade, Helena? Acha que pode me enganar com suas mentiras até quando, você que é mais bandeirosa que um quadro de Volpi, repleto de bandeirinhas tremulando penduradas nos varais?
Foi a gota d'água. A Verdade, Bruno? Tem certeza que você realmente quer e agüenta a verdade? Que Verdade? Aquela que você lança sobre as pessoas, a sua verdade que você passou a vida vomitando, que você cospe na cara das pessoas como um insulto? Odeio a verdade, Bruno, odeio a Verdade e a honestidade, por que ofendem mais que mil surras, torturam mais que a Inquisição, machucam como dentes de dobermam. Odeio a sinceridade absoluta que corrói e estraçalha, e mil vezes prefiro a mentira benigna que alisa nossos cabelos e diz "vai passar".  Pra que serve a Verdade comprovada, selada, lacrada, se ela apenas destrói, gera a morte? Qual o mal de esconder certas "verdades", senhor honesto, se algumas mentiras dóem menos, e mais que isso, aliviam, curam, sentam-nos no colo e murmuram "isso também vai passar"? De que me adiantam suas verdades, se o que preciso é alguém que me olhe e aceite como sou, diga uma palavra de carinho, e não que me açoite com cuspidas entredentes de verdade? Ah, Bruno, verdades muitas vezes são espadas que cortam, sangram, dilaceram, matam por hemorragia, enquanto o que você chama de mentiras por vezes cicatrizam e nos mantém inteiros. Quem quer verdades, Bruno, se elas ressecam a vida e a alma? Toda verdade é relativa, e a última coisa que preciso na vida é das verdades relativas dos outros. Eu não consigo viver só de verdades.
Helena virou as costas, entrou no quarto, vestiu sua roupa de bailarina e saiu pra rua, sob o olhar estupefato e irritado de Bruno.
Andou rapidamente por alguns metros, até que se afastou o suficiente de sua casa e do marido para se sentir aliviada e leve de novo, respirando com calma, e enquanto caminhava, agora com passos mais lentos, voltou a pensar em Emílio. Desejou mais que nunca a presença dele, o sorriso irônico, desde que a olhasse com tolerância, com olhos de paz, e lhe falasse com voz suave.
Mais alguns metros Helena começou a dançar, de olhos semicerrados, cantando para si mesma, rodopiando pelas ruas, até que ouviu sons altos, gritos, discursos. Era setembro, época de primavera e campanha eleitoral. Não me forcem a dizer que havia flores nas árvores, por que nem árvores havia por ali. De cima do palanque Emílio olhava Helena rodopiando, vindo em sua direção, e não podia acreditar que finalmente ela atendera ao seu chamado. Helena parou, olhou para Emílio, e ele sorriu para ela. Estendeu a mão para ajudá-la a subir e disse "temos aqui uma companheira porreta, presidente do sindicato dos artistas, que vai dançar para nós. Pode ser, Helena?" Ela sorriu, também, as trancinhas vermelhas brilhando no sol, "se você me segurar para não despencar do palanque, eu danço, sim, com prazer, Emílio".
A bailarina saiu rodopiando sobre o palanque, enquanto o deputado a segurava pela cintura. Daria uma bela aquarela.

Eloisa Helena Maranhão.