25 dezembro 2011

Alma lambida

"Há sensações sentidas só com imaginá-las, que são
mais nossas do que a própria vida". (Fernando Pessoa)

Era um dia, um dia qualquer como quaisquer dias, que são eles todos iguais, todos incontados, como incontados são os anos de vida de qualquer pessoa daqueles tempos, que nasce fragilzinha nos braços e seios da mãe, se sorte tiver de não tê-la matado no parto, cresce e murcha, morrendo fragilzinha nos braços e seios do Senhor e de Abraão, se sorte tiver de não ter matado a Deus em vida.

Mas vamos à história de Beatrice, a bela, inteligente, sensível e apimentada Beatrice, melhor seria pintá-la doce e de matizes suaves, mas mentira seria, e não minto aqui, não aqui, quando a verdade do que conto é tão importante quanto a verdade do que se passou com a herege Beatrice.

Era bela, de olhos claros como um dia de verão e cabelos longos e finos, sempre brilhantes apesar dos piolhos, da gordura, das tranças e do cheiro da fumaça; dentes brancos e fortes, apesar da comida faltosa de verduras, que se comia o que tivesse e quando tivesse, quando os invernos não fossem rigorosos demais, nem rigorosos demais os impostos, que eram muitos, arrancando sangue das mãos, suores do corpo e alquebrando as almas, que se cansavam cedo e cedo se entregavam ao pó e a Deus, que as deu e delas não cuidou. Assim começou a nascer a herege dentro de Beatrice, quando olhava os avós e pais e sentia um pesar profundo dessa vida que estavam fadados a carregar mesmo sem querer, e que decreto nenhum poderia mudar, mas com ela seria totalmente diferente, nem Deus nem os nobres nem o clero fariam dela o que fizeram de seus pais. Mas isso conto depois.

Era inteligente, como inteligente é o leitor que já notou isso, identificando-se com a herege que questiona e sonha acordada, e pensa que pode fugir do destino e de seu estrato social; e olha que questionar hoje em dia, para nós filhotes do iluminismo, crias da modernidade, olha que questionar hoje é muito fácil e desejável, mas questionar naqueles tempos era difícil, duro e doloroso, doído na carne e na alma, alcançada em seu cerne pelos instrumentos de suplício, se preciso fosse - e quase sempre preciso era, ou, se não era preciso, fazia-se do mesmo jeito, que dava prazer tocar a alma dos hereges através dos toques nos seus corpos. Mas isso também conto depois.

Era sensível, de amar a qualquer um, entregar-se de coração aberto, mãos acariciantes e olhos cheios de lágrimas, e entregava-se sem qualquer acepção de pessoa, amava incondicionalmente homens, mulheres, crianças, ricos e pobres, cachorros, mulas, gatos de cores variadas, inclusive os pretos nefastos que despertavam medos, amava as cabras, as ovelhas, os bois que mugiam languidamente nos pastos, as estúpidas galinhas dos quintais, os porcos dos currais, as aves dos céus, os peixes do mar e as bestas-feras do campo. Escondia-se quando era dia da matança dos porcos e galinhas, pra não ver seus amados sacrificados, e prometia nunca mais comer carne, mas quebrava essa e todas as outras promessas, que era outro de seus muitos defeitos, prometer e não conseguir cumprir, mesmo que prometesse com a alma de joelhos, com todo seu ser, mas na primeira dificuldade, ou na segunda pontada de fome ou vontade voltava a comer, e se divertir, e fazer tudo que lhe desse na telha, pois só era fiel a si mesma, aos seus instintos, intuições, à linha mestra que permeava sua vida desde que se percebera gente, e gente decidira ser então, diferente das galinhas, vacas, ovelhas e águias, pais e avós, e tão igual a todos eles.

Também era apimentada, das que brigam, xingam, levantam a voz e gesticulam, de gestos ativos, subindo e descendo quando melhor lhe aprouvesse, sem nunca esperar que lhe dissessem como agir, ou, pior ainda, esperar que agissem por ela; era exatamente daquele jeito de quem nasceu pra ser queimada na fogueira, benziam-se as avós, sofria a mãe, deplorava o pai, morriam de invejas mudas os irmãos (sim, por que inveja represada é muda, e não surda, pois que ouve tudo e tudo cala, parindo e fazendo crescer o ódio até vazar, mas isso conto depois).

Ela também deixava tudo para depois, que o agora servia pra viver e fazer o que tivesse de ser feito, e o que tinha de ser feito era o que sua alma ansiava, deitar nos pastos ao sol, contar nuvens, tomar chuva, pular pedras, entrar nos rios e fontes, comer fora de hora, rezar muito até Deus se tornar presente (e isso nunca aconteceu, por mais que se esforçasse e desejasse, mas não foi culpa dela, coitada, que esfalfou-se na capela da paróquia, sangrou os joelhos em terra, fez jejuns intermináveis, extenuou-se de tanto clamar, chorar e implorar pela presença daquele Deus misericordioso que sempre atende às preces e ouve as orações, buscai-o enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto, Beatrice ouvia comovida e cria, pobrezinha, até ao ponto de enlouquecer ou de ser considerada louca, o que não fazia muita diferença, por que a loucura, como sabemos, e eles não, depende tanto de quem é quanto de quem vê... mas não se preocupem, como Beatrice não se preocupou, que assim como vem a loucura vai, passa como sarampo, se não matou nem deixou seqüelas... por sorte ou desígnio divino, que não sei julgar, nem ela sabia, sua loucura passou logo, ela sarou os joelhos com ungüentos de ervas cicatrizantes pois isso de quando casar sara não era com ela, que tudo queria na hora ou no dia anterior, e voltou a viver normalmente como as vacas e galinhas, esquecendo os santos que queria imitar).

Quer dizer, voltou a viver normalmente já foge um tanto à verdade absoluta que aqui pretendo e prometi contar, se bem que não sou muito afeita de nascimento a verdades absolutas nem a cumprimentos de promessas, assim como a doce Beatrice, que apesar de toda pimenta era tão doce, e por isso queimá-la na fogueira seria tão desastroso e dolorido para toda a aldeia, por melhor fosse o cheiro adocicado daquele corpo. Mas não nos antecipemos, que talvez ela nem seja queimada, pode ser que Deus misericordioso dela se compadeça e livre-a das mãos inquisidoras e cruéis do seu próprio Santo Ofício, nunca se sabe com certeza o que pensa o Senhor, e isso é o que dá graça ao mundo, e Graça também, por que se soubéssemos de antemão seria um tédio sem graça, e sem Graça seria também, que só precisamos da Graça divina justamente por nada saber do futuro, que a Deus pertence e só a nós interessa, é nisso que reside a suprema tragédia humana.

Voltando Beatrice a viver normalmente, pegou gosto pelas ervas, depois de criar aqueles ungüentos que melhor cicatrizavam os joelhos sem deixar marcas; passou a colher todo tipo de plantas e experimentar pomadas, chás, pós e pastas nos animais quando doentes ou acidentados, depois em si própria, o que numa das vezes lhe fez caírem todos os cabelos após tomar uma quente infusão de ervas, mas considerou isso apenas um erro de percurso, voltando aos seus chás e ungüentos logo que os cabelos cresceram novamente e os adultos a deixaram em paz; até que perceberam que aquelas ervas eram boas e curavam, e o jovem pároco, doente, foi curado de suas dores e suores por um dos bálsamos de Beatrice, que tudo guardava de cabeça, ervas, quantidades, como fazer, até que sentiu vontade, mais que isso, necessidade de aprender a escrever para anotar os remédios tão benvindos. Ao que o pároco, depois de muito orar e pedir a orientação do Senhor, como convém a um servo fiel, teve enfim a revelação numa noite de insônia em que anjos pousaram em seu quarto, teve a revelação que pelos frutos se conhece a árvore, e os frutos daquelas ervas não eram daninhos, longe disso, saravam os corpos e as almas, e, portanto, Beatrice poderia continuar fabricando-os e aplicando-os, tratando as feridas com seus dedos e canções, não devendo ser incomodada. E além do mais aprenderia a escrever, ensinada pelo próprio pároco, que era o único letrado da redondeza, e faria isso por obediência ao Senhor, que nunca pedia nada diretamente, como convém a um verdadeiro Senhor, mas mandava anjos pedirem em seu nome, e ai de quem O desobedecesse.

Temeu o padre apenas quando descobriu que era canhota a menina, escrevia com a mão esquerda, mas quem era ele, um pobre pároco de aldeia, para questionar os desígnios de Deus, que a criara assim canhota e enviara os anjos para advogar em seu favor. Continuou o padre então a ensinar a menina, e isso foi feito até os homens da Visitação chegarem em seus cavalos ataviados como as éguas dos carros do faraó, requisitarem os remédios e as anotações da herege e considerarem tudo aquilo prova cabal da mais pura heresia (o que é cabal, leitor? Procure você no dicionário, que eu escrevo e você interpreta, como convém à literatura), mas como dizia, considerou o Santo Ofício que Beatrice praticava cabal heresia, mesmo contra o que haviam dito os anjos que tinham visitado o padre anos antes, agora ignorados como mensageiros de Satanás, e ante autoridade tão suprema o padre calou-se e esqueceu-se das mensagens angelicais, afinal maior é o Senhor do que nossas experiências pessoais, passíveis de erros e falhas de interpretação. O que evidentemente não ocorre com a Santa Inquisição, nem com outra autoridade eclesiástica, que nunca erra nem interpreta mal, glória a Deus.

Enquanto aprendia a escrever e ler com o padre, e tinha liberdade para perambular pelas hortas, pastos e até pelos bosques à cata de suas ervas e plantas, Beatrice começou a pensar demais, pois que tinha tempo sobrando (e não se esqueçam que mente desocupada é oficina de Satanás, já dizia a avó de Beatrice e a minha também, e de nada, sempre às ordens pela sabedoria ancestral que aqui ensino mesmo ainda não sendo avó, o que espero ser um dia, pra dar doces às crianças e contar histórias sábias e edificantes a elas), e pensando demais começou Beatrice também a demais sentir, demais intuir, ler demais, e tudo isso foi tão demais que ela transbordou, passando a falar demais, o que foi sua desgraça. Falava o que pensava, sem medo de ser feliz, ou infeliz, como sentia sua mãe em algum lugar oculto de seu ser maternalmente intuitivo, falava, cantava, criava poesias, que recitava aos velhos e crianças, fazendo-os rir, pois que são raros os que pensam no que ouvem de profundo, e muitos os que riem sem nada entender. Pelo menos riam, mas a semente lançada acabou frutificando em muitos, crescendo a árvore, botando galhos, copas frondosas, enraizando, até que era tão grande a planta que já não havia como não ser vista, e os homens da Visitação sentiram-se na obrigação e no prazer de visitar a aldeia, pra ver que árvore era aquela que nascia e crescia e fendia o solo firme da fé cristã e da sã ortodoxia.

Chegaram, viram, e não gostaram nada do que viram, uma aldeia inteira, com mais de duas centenas de almas, entregue a devaneios heréticos, a sonhos heréticos, a gestos heréticos, e heréticos atos, e heréticas falas; a heresia grassava solta, voava, nadava, corria pelos campos, aprofundava-se nos pântanos das almas, borbulhava e soltava fagulhas, pipocava, dava cambalhotas e gargalhava sem pudor, como convém às boas heresias, àquelas que mais atraem e mais devem ser destruídas rápida e eficientemente antes de se espalharem demais e se tornarem irrevogáveis.

Mas tão grave quanto aquela aldeia tomada pela heresia era o estado da alma e do corpo da herege-mor, apaixonada perdida e irreversivelmente pelo pároco que a ensinava com carinho e dedicação, mas tão apaixonada que não teve o menor escrúpulo nem pudor de deitar-se com ele, deixá-lo amá-la, acariciar seu corpo, ensiná-la a gemer em suas mãos, enroscar-se toda nele e deixá-lo enroscar-se em sua alma, possuí-la até que se tornou dele a ponto de não saber mais como viver sem aquele amor, e ver seu ventre crescer, grávida e em paz.

Contaria ele mais tarde aos santos inquisidores, de olhos baixos, que havia sido enfeitiçado pela herege, as mulheres são isso, vasos do demônio, seres terríveis que nos lançam olhares, cabelos e pernas torneadas como redes que pescam nossa alma e nosso corpo, enchendo-nos de desejos, suores e gemidos, fazendo-nos esquecer quem somos, de onde viemos, para onde vamos e o que viemos fazer aqui, neste mundo tão necessitado de Deus, e mais necessitado ainda por acolher as mulheres, se fosse feito somente de homens necessidade de Deus teria, mas menos, pois que o Diabo não rugiria tanto e nem tanto atacaria, como faz através das bocas, dos risos, das lágrimas e dos corpos das mulheres. Contava tudo isso o infeliz e tremelicante padre, perante os visitadores que o compreendiam e tiveram grande pena de seus sofrimentos, piedade que não tiveram da pobre Beatrice, a rebelde, a herege, a desviada e apóstata, que por isso mesmo e mais um pouco que nunca confessaria, mas que eles podiam adivinhar, era mais precisada de toques no corpo que a fizessem reconhecer e confessar seus pecados, como feridas exsudadas que só saram depois de muito vazar.

Passaram então aos sagrados suplícios, de início até com certo cuidado, pois que a herege também era de Deus criatura, mesmo tendo sido destituída de seu status de filha pela sua apostasia, mas que como criatura, se bem tratada e devidamente penitenciada, poderia reconhecer tudo de mal que fizera, e se não fizera diretamente, indiretamente provocara; então, tocavam-na com delicadeza, torcendo seus membros com carinho, quebrando-lhe os dedos com mansidão, com dedos carinhosos espremendo seus mamilos protuberantes de grávida, lanhando-lhe as costas bem feitas com fitas de couro e nós, e também com unhas lúbricas de puro amor cristão, o agape com que Deus dotou seus servos e que tudo faziam para sua honra e glória, em meio a rezas que gemiam e suavam, enquanto Beatrice tudo suportava pensando em Deus e no padre Bartolomeu. E enquanto Beatrice gemia, chorava ou gritava, nos momentos de dor insuportável, Bartolomeu escutava a amada de seus aposentos, pois a cela da herege ficava nas dependências da paróquia, e gemia, chorava e gritava também, esfregando-se nas paredes, na palha de sua cama, flagelando-se e deitando por terra seu próprio sêmen, sêmen esse que melhor teria sido recebido no corpo da amada, mas que agora já não tinha receptáculo adequado, e caíam chorando por terra - o sêmen e o padre.

Instada a confessar de quem era aquela criança bastarda que esperava, Beatrice se recusava à denúncia, por amor e lealdade ao pai de seu filho, enquanto o pai, por covardia, mas também amor e fidelidade à própria vida, nada contou, com medo de ser com a amada envolvido numa acusação de bruxaria. E foi ele próprio, num momento de grande inspiração - só podia ser de Deus tamanha inspiração salvadora!- que fez saber de púlpito que aquela criança era filha de um cão, O Cão, que havia possuído Beatrice inconsciente durante seus sonhos, entrando pelas portas da heresia, e saindo pelas janelas da fantasia da herege.

Satisfeitos ficaram os habitantes da aldeia com aquela explicação divinamente inspirada, satisfeitos ficaram os santos doutos da Visitação, satisfeita ficou a própria Beatrice, que se sentiu feliz e realizada de ter sido amada de maneira tão profunda e gratificante por um cão, um cão magrelo, falante, dominado pela lubricidade, mas tão doce, como doces e lúbricos são os cães consagrados ao serviço do Senhor, os cães com sacerdócio santo, mais ternos e mais tomados pelo desejo que qualquer outro homem, do que qualquer laico; a história do cão magro que havia possuído o corpo de Beatrice se espalhou pela aldeia e pelos arredores, um cão quase lobo, que uivava para a lua, chamando a moça para fora dos aposentos, convocando-a nas noites de lua cheia, e ela atendia aos apelos, deitando-se com ele sobre as plantações, e naqueles anos de amores heréticos e caninos nunca houve tanta fartura de cereais e de rábanos, nunca os campos produziram tanto como naqueles tempos, sob os corpos da herege e seu cão, que rolavam sobre a vegetação, lambuzavam-se na lama, possuíam-se nos rios, amavam-se sob as pontes e sobre elas, dentro e fora dos moinhos, em qualquer lugar onde o desejo os encontrasse, em qualquer tempo em que a vida tomasse posse deles; e o cão, ao possuí-la, penetrando-a de olhos fechados e coração escancarado, beijando-a longamente na boca, enfiando-lhe a língua dura e comprida entre os lábios, abrindo-os e amolecendo sua língua na dela, até fundirem-se numa só, enquanto a possuía penetrava-a tão profundamente que o corpo da amante já não o satisfazia, era pouco demais para aplacar tanto amor e tanto desejo, e então o cão passou a lamber-lhe a alma, deixando-a pegajosa de saliva e assolada de paixão, e assim tornou-se Beatrice a herege de alma lambida.

Com paciência e em pormenores os algozes procuravam no corpo de Beatrice as marcas que o amor do cão devia ter deixado, marcas de dentes das mordidas, procurando entre as coxas da prisioneira e em sua nuca agora visível depois de raspados seus cabelos, faziam-na por-se nua de quatro e andar engatinhando pela cela, enquanto examinavam com santos e atentos olhos para ver se alguma marca havia escondida, pesquisavam arranhões das afiadas unhas caninas nas costas e entre os seios da herege, buscando ávidos de furor divino fios de pelos animais emaranhados nos pelos humanos, que rasparam com todo cuidado, desfiando-os e desenrolando-os na investigação; nunca acharam nada, apesar dos esforços rigorosos, e nunca achariam, por que não procuraram na alma da moça apaixonada; se o tivessem feito encontrariam a saliva viscosa e doce que nela se havia impregnado, os olhares, as carícias nos cabelos, mas principalmente as palavras que enredaram aquela alma e a teceram, e isso também fez dela uma herege de alma tecida com palavras apaixonadas, mas não a única, pois que todos os hereges (e os ortodoxos também) se enredam e são tecidos por palavras, mas só ela, a afortunada Beatrice, foi a herege de alma lambida por um cão magro e falador.

Beatrice passou meses naquela cela, uma pequena masmorra úmida, mal cheirosa, escura e fria, exatamente como convém às prisões de hereges, e lá começou a perder as esperanças, a chorar copiosamente, a recusar-se a comer e beber, emagrecendo enquanto o ventre crescia de maneira assustadora, o que levou o santo inquisidor a alimentá-la pessoalmente, sentando-a no colo e dando-lhe de comer na boca, às colheradas, que não queria perder aquele corpo para a morte sem que antes sua alma se salvasse, afinal era essa sua função, salvar almas, pastoreá-las, mesmo a da mais horrenda e pervertida herege (que, convenhamos, de horrenda não tinha nada, mas em nome da verdade não posso dizer o mesmo sobre a perversão); fazia a pervertida beber sopinhas quentes em gotas, e quando notou que já podia tomar alimento mais sólido, mas ainda não tanto, ele mesmo mastigava os bocados e colocava-os na boca da moça, para que esta se fortalecesse; quando após umas semanas percebeu-a mais forte e quase recuperada voltaram às sessões de tortura, afinal o corpo saudável e forte só deve continuar assim se dentro tiver uma alma também sã, o que não era o caso, e quando o caso não é como se acha que deve ser, tudo se justifica, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

Beatrice, teimosa que era, e afeita à verdade - ao menos à sua própria verdade - nada confessava, calava-se, e também os silêncios passaram a ser considerados confissões, pois significavam que não tinha nada que a desculpasse; assim como os silêncios qualquer palavra também era de culpa confissão, junto com as anotações, poemas, receitas curativas e testemunhos dos habitantes da aldeia, chamados um a um para depor perante o Santíssimo Tribunal. Tudo de que poderiam ser acusados eles confessavam em Beatrice, vícios, crimes, ódios aos pais e aos filhos, adultérios, práticas de amor carnal contra a natureza, heresias de todos os tipos, trinitaristas e unitaristas, bruxarias das mais variadas, com gatos, sapos, aves e fígados de mamíferos. Uma das depoentes contou em seu testemunho que numa manhã ensolarada enquanto catavam piolhos umas às outras, Beatrice havia dito que Deus não era uma pessoa, mas apenas eflúvios etéreos (e ela nem sabia o que isso podia significar, mas havia gravado aquelas heréticas palavras e por isso as repetia sob juramento) que envolviam tudo, e que por isso tudo era Deus, e Deus era tudo, e que o Mal era apenas o que os homens faziam na Terra, já que de Deus não podia ter saído. Outra testemunha contou que numa tarde fria quando teciam juntas, Beatrice havia recitado poesias que muito faziam rir, e uma dessas poesias falava que (e aqui a testemunha parou, suando, de medo de repetir tão execráveis palavras, mas o inquisidor incentivou-a a ir em frente, nesse caso você não se tornará cúmplice das palavras da herege, sossegue, mulher, e ela então continuou), a poesia falava sobre Maria, mãe de Deus, que como poderia ser mãe de Deus se Deus era anterior a ela, como a causa podia ser filha da causada, ou algo assim, mas pior que isso era a outra parte que dizia ser Maria uma galinha, santa, mas galinha, pois era chamada de ave, ave Maria cheia de graça, qualquer ave podendo ser, faisão, codorna, bem-te-vi ou cotovia, mas que galinha era por que além de ave era mãe de filho sem pai. Nesse ponto o inquisidor, seu notário e o assistente pararam ante tamanho sacrilégio contra a mais pura, santa e doce mulher que o mundo já havia conhecido, aliás, a única com esses predicativos, e dispensaram a testemunha que se pôs a correr, urinando nervosamente pelo caminho.

Conclamaram Beatrice a contar seu amor carnal com o cão que a havia engravidado, e ela, com a alma lambida repleta de saudades de Bartolomeu, dera detalhes tão exóticos que levaram o Inquisidor a exigir que renegasse tão impuro amor, ou verá os cravos da cruz que purifica, gritou o santo padre espumando de amor cristão; certamente possuída por demônios naquele momento, pois que só demônios respondem de forma tal às autoridades, Beatrice respondeu que cães lambem a alma e cravos cravam-na, provocando dores, e sendo assim preferia a língua canina cuja saliva é bálsamo. Desse jeito ia crescendo a lista dos pecados, sacrilégios e heresias da desventurada Beatrice, que era nova demais, inocente também, e nem tempo tivera para praticar todos os pecados que lhe eram impingidos, mas alguém havia de tê-los cometido, e melhor ela que qualquer um de nós. Homens testemunharam que viram a herege cantarolando canções que enfeitiçavam os pássaros, fazendo-os pousar em suas mãos, e então eram rapidamente estrangulados, sendo que ela devorava os olhinhos passáricos dando estalos com a língua bifurcada em Y; outros juraram pela santa virgem que haviam visto Beatrice jogando pó de sapos nas nascentes e envenenando as águas dos rios, coisa nunca antes atribuída a um cristão, pois que era monopólio dos amaldiçoados hebreus, levando o Inquisidor a investigar possíveis e ínfimas parcelas de sangue judeu na moça, mas só conseguiu descobrir que ela era da mais pura estirpe de cristãos de sangue e alma, mas poderia ter-se bandeado para a heresia judaica que havia o Cristo assassinado. Gravíssimo também, tanto quanto o testemunho sobre a ave Maria, foi quando um profeta contou que ao ouvir seu testemunho de um milagre divino Beatrice se rira, aliás, gargalhara, aliás, jogara a cabeça para trás e soltara uma risada da mais descrente, debochada e escarnecedora; isso por que o profeta contara que sua mãe havia perdido uma pá, instrumento esse da maior valia e que tinha sido tomado de empréstimo de uma vizinha mais afortunada; pois não é que a pá sumira, escafedera-se sem deixar vestígios, angustiando sobremaneira a honesta mãe, que não tinha como contar esse desaparecimento à dona; vendo-a assim agoniada, o profeta orara a Deus, na verdade clamara pela divina intervenção, e saiu pelo quintal, orando e clamando; foi então que, louvado seja nosso Senhor, só Ele digno de toda glória e louvor, uma galinha poedeira começou a cantar na frente do profeta, e este, ao procurar o ovo, encontrou, sim, não somente o ovo, como também a pá, escondida no ninho da ave; saltitando de alegria (sim, mas saltitando comedidamente, como convém aos verdadeiros e humildes cristãos), o jovem voltou para casa com o ovo e a pá, que estava perdida e fora achada, para grande regozijo de todos, alívio de sua mãezinha querida, e festa dos anjos nos átrios celestes, sim, que os anjos sempre se regozijam e festejam quando os perdidos são achados; a partir daí passaram-lhe a chamar profeta e a muito respeitá-lo por ter desencadeado tão perfeito e maravilhoso mistério com sua oração cheia de fé, fazendo com que Deus se manifestasse através daquela singela ave de quintal, singela, sim, mas nem por isso menos importante em sua humildade, o que levara o Senhor a manifestar seu amor e sua preocupação através daquele santo cacarejar e daquele santo ovo (ovo, esse, inclusive, guardado com veneração, sagrada relíquia que era, à disposição dos santos padres, se o quisessem ver, o que traria imensa honra àquele lar); e quando contou esse testemunho ante os ouvintes com lágrimas nos olhos e júbilo nos lábios, Beatrice soltara aquela risada que só os demônios e os possuídos soltam, e tecera seus heréticos comentários; sim, disse a perversa, mostrando com suas palavras total desentendimento das coisas sagradas e espirituais, "que testemunho mais edificante e mimoso o seu, ó Cesário, temos mesmo que louvar a tão misericordioso Deus por sua preocupação com pás e galinhas, que demonstra seu amor descendo de sua glória para procurar pás perdidas... sim, esse Deus é digno de toda honra e louvor por achar pás sumidas, que são elas, as pás, muito, mas muito mais importantes que crianças famintas, e jovens leprosos, e velhos cegos que não têm quem os sustente, morrendo no abandono, mais importantes são as pás que os campos quando não florescem e as árvores não dão frutos, e mães jovens que entregam suas almas nos partos difíceis de seus bebês sentados, sim, a Deus toda a glória, o louvor e a honra pela justíssima preocupação com as perdidas pás e as agonias das pobres e honestas vizinhas"; essas palavras se me sangraram o coração em grande dor, contou Cesário, e por isso as repito aqui pois que nunca me sairão da memória, a menos que o queira o Senhor. E de testemunho em testemunho foi sendo a herege cada vez mais enredada nas malhas da Santa Inquisição, e já não havia dúvidas ou esperanças de que seria condenada.

Foi numa noite de chuvas estrondosas, em meio a sonhos funestos, que Bartolomeu pela segunda vez recebeu a visita dos anjos, trazendo a mensagem urgente e inadiável de que Beatrice deveria ser auxiliada a fugir, o que lançou o padre em grande angústia: como podia uma herege, prisioneira do Santo Ofício a serviço do Senhor, ser ajudada por anjos a serviço do mesmo Senhor? Como pode um reino lutar contra si mesmo? Sossegue, disseram os anjos em coro, com suas lindas vozes de barítono e soprano (a voz grave cai bem no Senhor, mas não em seus anjos), tranqüilize-se e ajude a moça, e garantiremos sua participação anônima; foi mais ou menos isso que ouviu Bartolomeu naquela noite, e apressou-se sem conflitos a cumprir a ordem divina, abrindo a porta da cela com uma segunda chave que só ele sabia existir, e deixando tudo arrumado depois da saída da agradecida e mais apaixonada herege, que fugiu apenas com as roupas do corpo - um camisolão de prisioneira da Igreja - cobrindo sua alma lambida e seu ventre prestes a dar à luz.

Nem é preciso dizer que grande foi a indignação dos santos e doutos padres da Santa e Douta Inquisição quando, na manhã seguinte, descobriram o sumiço da moça; nenhuma busca adiantou, na paróquia, nas casas da aldeia, nos campos ao redor, em todos os lugares onde ela pudesse estar escondida, e por falta de arrombamento, de pegadas, ou de qualquer outro tipo de evidência de uma fuga, tempos depois deram a herege por sumida, carregada pelos íncubos e súcubos que sempre ajudam esse tipo de alma lasciva e pervertida como a dela, lavrando-se a minuta do Santo Ofício como "caso encerrado" por falta de herege que pudesse ser queimada, já que Deus, em sua infinita sabedoria e insondáveis desígnios, havia permitido que a herege fosse raptada por demônios lúbricos que agora eram seus algozes e a estariam punindo ad æternitatum, per sæcula seculorum, amém.

Sem saber de sua condenação e punição nas demoníacas mãos, Beatrice só cuidava, desde o momento de sua fuga, de manter-se escondida até conseguir chegar às florestas mais próximas, que era lá, naqueles ermos e vastíssimos lugares, que ela poderia viver sem ser molestada, parindo e criando seu filho e quem sabe voltando à aldeia depois de alguns anos, quando a poeira dos santos e doutos cavalos da Inquisição baixasse definitivamente.

Embrenhou-se na floresta ao entardecer de um dia ensolarado, sentindo o alívio dos ventos refrescantes em seu corpo grávido; desde que fugira, Beatrice sentia-se mal por muitas vezes, cansando-se facilmente, perdendo a respiração e mesmo a consciência por breves momentos, ficando com os olhos embaçados e os pés inchados, coisas que muito a agoniavam, e ela não sabia como resolver com as ervas que encontrava em seu caminho; aceitava os sofrimentos passivamente, pois não era de chorar o leite derramado; o que pode ser resolvido, resolvido será e o quanto antes, mas o que não depende de nós, isso ela deixava estar, sábia nossa doce herege em sua pouca idade. Pois aliviada pela presença da floresta em seu corpo e alma, Beatrice compreendeu instantaneamente que aquele era seu lugar; o deserto que, sem o saber, procurara desde criança, era a floresta, e ali se sentiu finalmente filha de Jabal, o pastor, filho de Enoque, aquele que fora arrebatado em vida por sua ímpar santidade. Passou a viver ali, colhendo seus frutos e, quando não os havia, era alimentada por sarracenos homens-negros que lhe deixavam alimentos à entrada do pequeno casebre que construiu para si com galhos e folhas, aprendendo a viver do muito que a floresta lhe propiciava. Aprendeu o valor e a bênção da solidão, mas nunca deixando de se preocupar com os que dela precisavam. Voltou a colher ervas e preparar chás e ungüentos que deixava à disposição dos muitos habitantes da floresta, caçadores, carvoeiros, coletores de mel e de cera selvagem, fabricantes de cinzas que eram utilizadas na indústria do vidro ou do sabão, tiradores de cascas de árvores que serviam para curtir o couro ou trançar as cordas, e eremitas que no deserto se refugiavam para sofrer suas provas e ganhar o céu. Mas nunca os via, nem eles a ela, que ali sim, no seu deserto-floresta, agora só se relacionava com as aves do céu, os peixes dos rios e as bestas-feras do campo, como sempre ansiara em seu íntimo. Recolhia em seu refúgio os pequenos animais, lebres, coelhos, esquilos perseguidos pelos caçadores, dando-lhes asilo nessas horas difíceis, o que os fazia voltarem sempre e depositarem nozes e frutos secos sobre sua caminha de palha.

E foi sozinha que se deitou para dar à luz a criança filha do cão, chorando de medo e dor, quanto maiores eram as dores que chegavam e não traziam consigo o benvindo choro do bebê. Seus olhos se enevoaram outra vez, sua cabeça zumbiu estridente e ela perdeu os sentidos e penetrou nas brumas onde entram os desacordados, mas não mortos. Via a si mesma primeiro de cócoras e depois deitada sobre as folhas da floresta, que acolhiam seu corpo na sua úmida maciez de húmus; via um manso unicórnio branco que puxava cuidadosamente a criança de dentro de si, e lambia-lhe a testa febril, e comia a placenta, e não deixava as feras se aproximarem atraídas pelo cheiro do sangue fresco; viu leões que saíram das profundezas do deserto e lhe acariciaram o corpo com suas caudas, emitindo rugidos altíssimos como fúnebres orações, enquanto escavaram uma sepultura com suas unhas e nela sepultaram o bebê nascido morto; só acordou dias depois, com o unicórnio docemente deitado aos seus pés, e a alma lambida e os seios secos sangrando de dor pelo filho perdido. Lembrou-se do Deus que cuida das pás perdidas, mas não evita que seus filhos percam os filhos amados, e nunca mais teve coragem de orar. Deitou-se na porta do casebre, decidida a deixar-se ficar lá até que a morte chegasse.
Mas não eram esses os desígnios divinos para ela, que viu passarem os dias ali deitada, sol, chuva, noites, estrelas, e acabou se cansando de deixar-se morrer, pois que a vida que havia em si cobrou seus tributos. Numa tarde de sol fraco e tépido ouviu um choro de criança, uns gemidos de quem contem a dor dentro do coração, e levantou-se para ver o que era, pensando no próprio filho. Era um menino ainda impúbere, que olhava para ela com olhos sofridos de quem viu muitas guerras, o que lhe pareceu um contra-senso, uma criança já assim tão experimentada nas dores da vida. Maurice lhe contou que era um fugido como ela, um traidor, um execrável e repugnante traidor da mais santa causa, a causa do Cristo, que ele havia abandonado covardemente enquanto seus irmãozinhos cristãos entravam no mar cantando hinos e louvores, pois que deveriam atravessar o mar para chegar às terras santas onde o salvador havia sido enterrado, libertando-a das infiéis mãos dos mouros; contou ainda que uma parte de seu grupo havia sido vendida como escravos, meninos como ele, caçados e aprisionados por mercadores de Gênova que os haviam vendido por trinta dinheiros para servirem trabalhando nas cidades ou satisfazendo aos desejos de outros tão bons cristãos quanto os mercadores; contou com a boca e os olhos secos que a partir daquele dia Satanás havia começado a possuir sua alma com dúvidas e rancores, e que quando chegaram ao mar não tivera a coragem de atravessá-lo a pé, como conviria a um verdadeiro cruzado, mas entrara até certo ponto, mergulhando e nadando para longe dos puros meninos cristãos, abandonando a causa, a cruzada, e deixando Cristo de olhos marejados, enquanto fugia até chegar àquela floresta, deixando para trás a esteira de corpos boiando, comidos por peixes e enfeitados de camarões. Beatrice não sabia o que dizer, não sabia como consolar um fugitivo da cristandade que era como ela própria, e apenas pegou-o pela mão, levou-o para dentro, secou suas roupas e deu-lhe sopa e chá quentes que aqueceram aquele corpinho franzino, mas não aquela alma machucada. Cansada das centenas de noites que dormia ao relento, desde a morte do filho, Beatrice finalmente adormeceu, e não me perguntem por quanto tempo que não sei, nem ela soube. Acordou com grasnidos de corvos negros, e correu para fora, encontrando o pobre Maurice balançando ao vento, enforcado numa árvore, com os olhos que muito haviam visto e pouco suportado esbugalhados de terror e desgosto profundo. Beatrice chorou abundantemente, pelo seu filho, pelo menino, por todos os meninos do mundo, e todas as meninas também, e todos os homens e todas as mulheres, e todos os velhas e velhas, enfim, chorou as lágrimas que toda a humanidade havia represado durante milênios, enquanto enterrava Maurice debaixo da mais frondosa e mais cheirosa árvore que encontrou, e que dava mais frutos também, pois precisava acreditar que o sofrimento dele frutificaria e outros se alimentariam daquela dor inútil.

Então entrou no casebre, tirou os restos das roupas que a cobriam e passou a viver nua, em ruivos pelos, como Deus a fez, e solitária, como Deus a fez, e etérea como Deus a tinha feito, voando nas madrugadas de chuva de volta até sua aldeia, onde passou a lamber as almas daqueles que amava, sendo para eles o bálsamo que curava e trazia consolo às suas noites, e acordavam com a lembrança de suas palavras de conforto, doce mãe que cantava canções de ninar, acariciava-lhes os cabelos e faces dizendo que tudo ficaria bem, sentindo-se repostos para enfrentar seus dias; lambia também as almas dos que a odiaram, nas longas noites de pavor que sentiam, e acordavam com lembranças confusas de bruxas dançando ao seu redor, mordendo-os com negros dentes caninos e lacerando-os com unhas que causavam ferimentos que nunca cicatrizavam, e atormentavam-se pelo resto de seus dias.

Mas Beatrice nunca teve coragem de entrar na paróquia e lamber a alma de seu padre, que envelhecia sozinho e varado de saudades, apenas observado de longe pela herege apaixonada; não teve essa coragem por que sabia que, no dia em que lambesse a alma do amado que a havia lambido primeiro, no dia em que o fizesse dela, como ele a havia feito dele, naquele dia elas se fundiriam, as duas almas, e ele se transformaria definitivamente em cão.

E seria apedrejado pelos mansos e humildes cristãos, sempre com pedras nas mãos, prontos, em nome da doce misericórdia divina, a apedrejar cães e hereges.


Eloisa Helena Maranhão

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