25 dezembro 2011

Apenas um pastor


E, no fim, não é isso que somos mesmo, meu querido, apenas pastores andando por aí sem rumo atrás de nossos sonhos?
A aldeia amanheceu normalmente agitada naquele dia... nada prenunciava o que estava por acontecer... era o mesmo sol absurdamente quente, a mesma necessidade de água que levava sempre à procura de poços, a mesma areia dura que queimava as solas dos pés, mas também servia para fabricar vasos, cântaros, tigelas, onde comiam juntos, tirando os bocados com as mãos da gamela comum e levando-os à boca, agradecendo ao Senhor por aquela comida, pouca, mas que raramente faltava. Eram idos os tempos da grande fome que os bisavós recordavam e os avós não se lembravam direito, mas contavam às novas gerações, quando gafanhotos haviam destruído as plantações, as águas secado, o solo empedrado... anos em que os animais que criavam foram sendo sacrificados aos poucos para matar a fome, e os sacerdotes tinham que defender os bocados de Iavé com imprecações contra aqueles que assaltavam os altares e roubavam os animais sacrificados, alguns comendo as vísceras cruas ali mesmo... e ninguém tinha coragem de apedrejá-los, se bem que seria merecido, por que a fome era maior do que o medo, e maior que a vontade de aplicar a justiça divina era a vontade de repartir os animais do sacrifício e saciar a fome...

Naquele dia mandaram Samuel aos poços mais distantes, buscar água, enquanto pastoreavam os rebanhos de ovelhas... Samuel gostava quando era sua vez de andar aquela jornada de dois sábados, que percorria cantando, passos e coração leves, mesmo que a volta fosse cansativa, mas quando se aproximava com os cântaros com a água fresca, as jumentas balançando, todos corriam para recebê-lo aos gritos, e ele sentia que sua missão tinha valido a pena...

Mas quando chegou, já ao entardecer, a aldeia estava estranhamente vazia... apenas alguns velhos sentados lhe avisaram que todos tinham ido até Belém, para ver o Mashiach que havia nascido num estábulo... os céus ainda estavam avermelhados com a glória dos anjos que vieram anunciar o nascimento daquele bebê tão especial, e Samuel ainda pôde ouvir os ecos das hosanas cantadas pelos anjos que haviam estado ali momentos antes...

Samuel descarregou a água valiosa, e correu o mais que suas pernas de menino de dez anos permitiam, na estrada que levava a Belém... sabia que o homem que mudaria sua vida, que daria sentido a ela havia nascido, e não podia agüentar a ansiedade de conhecer aquela criança abençoada pelos anjos celestiais.

No meio do caminho cruzou com os outros pastores de sua aldeia que voltavam, maravilhados, cantando e dando glórias a Deus, contando o que tinham visto e ouvido naquele estábulo, como era bonita e mansa a criança, que tinha os olhos mais profundos e o sorriso mais suave que já tinham visto... ao que Samuel perguntou espantado: mas já estava com os olhos abertos, o bebê tão novo? Claro que não, menino, estavam fechados ainda, e o bebê soltava vagidos leves de fome e sono, mas mesmo assim sabemos que os olhos eram profundos e o sorriso suave, afinal é assim que olha e sorri o Salvador...

Samuel continuou o caminho para Belém, não podia deixar de olhar naqueles olhos que salvavam, e ver aquele sorriso que libertaria o povo da dura opressão dos romanos... afinal, eram já quatrocentos anos sofrendo sem profetas, sem juizes nem reis, quatro séculos em que Deus silenciara nos céus, e agora havia se manifestado outra vez para seu povo...  aquele silêncio longo e opressivo havia deixado alguns irritados, outros deprimidos, outros angustiados, mas ninguém havia conseguido ficar indiferente... como ser indiferente à ausência de um Deus amoroso e fiel?... e agora que Deus resolvera reaparecer em grande estilo, Samuel havia decidido que não perderia a manifestação de seu Deus de maneira nenhuma...

Ficou impressionado quando viu uma caravana de homens muito diferentes, cobertos de panos coloridos, que evidentemente não eram hebreus, mas Samuel não conseguia imaginar de que povo seriam... um deles era negro como o ébano, outro muito branco de olhos como o céu de dia, sem nuvens, e Samuel pensou se aquele homem enxergava normalmente ou se a luz passava através dos seus olhos... fez-lhe sinal, e pediu notícias do menino que havia nascido numa estrebaria, ao que os magos responderam: o Rei dos Judeus está em Belém...

Chegando na estrebaria já ao anoitecer, Samuel olhou estupefato para uma grande estrela que brilhava ali em cima, e os animais deitados nas redondezas, tranqüilos... entrou correndo, mas havia apenas panos sujos de sangue e placenta e restos de alimentos... o menino já havia sido levado por seus pais... Samuel sentiu uma dor funda e ardida em algum lugar de si, pois chegara atrasado ao seu encontro, e aquela dor o acompanharia pelo resto da vida, até que olhasse nos olhos da criança que procurava...

Voltou para sua aldeia cabisbaixo, e por dias não queria comer, sentado na porta da casa com os olhos na estrada, pra onde levaram nosso Messias? Cantava as canções que sabia de sua infância, tentando consolar-se pelo desencontro, mas nada aliviava realmente aquela dor insistente... só saiu dali da porta quando, dias depois, foi arrancado dela pelas mãos de soldados que vasculhavam sua casa, matando a fio de espada as crianças menores de dois anos de idade...  ordens de Herodes, gritavam os soldados com as roupas e as almas manchadas de sangue, gritavam em meio aos urros das mães que tentavam salvar seus filhos pequenos, dos pais que pegavam facões para defender seus bebês e eram mortos juntos com eles, em meio aos olhares apavorados das crianças mais velhas, e ao desconsolo dos velhos, que choravam, impotentes... Samuel gravou em seu coração, junto com a lembrança de seu irmãozinho morto, que aquele menino que havia nascido devia realmente ter muita importância para ser perseguido assim desde recém-nascido... e tomou a primeira, grande e última resolução importante de toda sua vida: viveria para encontrar-se com aquela criança, e só encontraria sossego quando se olhassem nos olhos. Pelo menos um olhar.

Enquanto seu olhar não chegava, foi crescendo Samuel como crescem os demais meninos; aprendeu a ser pastor das ovelhas e compor canções para elas, que cantava junto aos riachos com a alma seca de saudade de dois olhos profundos e um sorriso suave que tinha medo de nunca chegar a ver em sua vida.

Cresceu silenciosamente, apenas com suas canções, e tocava insistente aquela: "Junto aos rios de Babilônia nos sentamos, a chorar, penduramos nossas harpas nos salgueiros do lugar... Nossos chefes nos pediam, pra zombar de nossa dor, que cantássemos um hino bendizendo ao Senhor... Como agora cantaremos a canção sem nossa voz? A tristeza fez morada, nos abate, estamos sós". Samuel conhecia dentro de si essa sensação de desolação de um exilado, daquele que está no mundo contra sua vontade, daquele que sabe que está fora do lugar. Pois o lugar de Samuel eram aqueles olhos e aquele sorriso do menino que havia dado sentido à sua vida aos dez anos de idade, e angústia pelos próximos trinta e três.

Num dia, perto dos dezoito anos, mandaram-no buscar água nos poços, mas faltavam cântaros, que o jovem deveria comprar na cidade vizinha; foi lá que conheceu a bela e doce Suzana, com olhos e cabelos de mel e que cheirava a tâmaras e hortelã; a menina ajudava o pai a fabricar cântaros, mas do que gostava mesmo era de ouvir e contar histórias, que inventava na hora sem um pingo de vergonha pelo tamanho das mentiras e um pingo de medo pelas conseqüências que costumava provocar. Pois tiveram efeito assolador sobre Samuel as histórias, os olhos e o cheiro de Suzana, e voltou apaixonado à sua aldeia, decidido a se casar com ela.

Não era o casamento que havia sonhado para a filha, mas a contadora de histórias já não podia viver sem o compositor de canções para as ovelhas, e o pai acedeu resignado ante a mulice da filha, como a mula de Balaão, suspirava o velho pelos cantos da casa, enquanto girava o pedal do torno com os pés e fabricava seus potes. Mas a mula era fértil e lhe foi enchendo de netos que alegraram seus dias e descansaram sua noite dos tempos, vivi com sentido, pensava o velho sábio. Já Samuel, talvez não tão sábio, não se sentia completar através dos filhos que enchiam e alegravam seus dias; faltavam-lhe os olhos e o sorriso de outra criança, que os seus não tinham o poder de substituir.

Suzana muitas noites havia deitado entristecida com a mudez do marido, chorando em silêncio pelos toques que desejava e não vinham, e sabia que era em outros olhos e sorriso que ele pensava, e não nos dela, de mel e tâmaras, que teriam enlouquecido e satisfeito qualquer outro homem, qualquer homem normal, dizia seu pai. Mas o amor que sentia pelo marido, e a compaixão por sua dor, a faziam mansa e paciente com ele, e dentro de si evitava pensar o que aconteceria no dia em que ele encontrasse o dono dos olhos desejados, ou, pior ainda, o que aconteceria se ele nunca os encontrasse, e morresse vazio em seus braços, recordando canções de ausência de uma vida inteira de busca.

Também aceitava com condescendência as outras mulheres que passavam pela vida do marido, pois tinha a suprema compreensão que procurava nelas também aqueles olhos e aquele sorriso, que suas paixões eram substitutas imperfeitas do amor que sentia pela criança que os anjos anunciaram e levaram embora envolta nas fraldas, antes que Samuel a pudesse ver.

No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos o governador da Judéia, e Herodes Antipas (filho do que matara os bebês, entre eles o irmãozinho que Samuel tanto lamentara) tetrarca da Galiléia, naqueles dias apareceu um estranho pregador nos desertos da Judéia, que dizia: arrependei-vos, por que está próximo o reino dos céus. Samuel ouviu as notícias sobre João Batista com o coração aos saltos, havia agora um novo profeta entre os judeus, depois de quatrocentos anos de quietude divina; será ele o Messias, pensou Samuel? Evidentemente abandonou tudo, avisando Suzana que partiria numa viagem até o deserto da Judéia, para olhar nos olhos do pregador que se alimentava de gafanhotos e mel silvestre e se cobria de pelos de camelo e um cinto de couro.

Samuel se ajoelhou dentro do Rio Jordão, confessando seus pecados e sendo também batizado, mas sabia que aquele não era o seu homem, e este também reconheceu na alma de Samuel a ausência daquele do qual o profeta não era digno de desatar as correias de suas sandálias, de quem era apenas a voz que clamava no deserto; sussurrou no ouvido de Samuel: eu te batizo em água, mas aquele que vem depois de mim te batizará com o Espírito Santo e com fogo. Samuel entendeu, e decidiu encontrar aquele que não conhecia, mas que o conhecia desde antes dos tempos serem formados.

Entretanto Samuel precisou voltar às pressas à sua aldeia, avisado de que seu sogro havia morrido, e ao voltar ao Jordão para esperar o Messias junto de seu profeta do deserto, ficou sabendo consternado que este estava preso e que mais uma vez havia se desencontrado de Jesus de Nazaré, a criança que desejava ver havia trinta anos. Pelo menos agora sabia o nome da criança, e seria mais fácil achá-la.

Sabendo que Jesus andava agora pela Galiléia, Samuel seguiu viagem; onde chegava ouvia contar dos feitos do Homem de Nazaré, que curava; multidões de ex-paralíticos, ex-enfermos, cheios de chagas, leprosos, tísicos, gangrenados, de olhos saltados, membros tortos ou quebrados, reumáticos, anêmicos, purulentos ou ensangüentados, órgãos internos expostos, com crostas na pele,  e cegos, e surdos, e mudos, expondo em seus corpos os pecados e as doenças múltiplas e repugnantes, ex-endemoninhados, dos que babavam, vomitavam verde, falavam palavrões de todos os matizes contra Deus, uivavam nas noites de lua cheia, comiam as próprias fezes e bebiam a urina,  ex-lunáticos de todos os tipos, dos que riam muito com ou sem motivo, dos que choravam demais, com ou sem motivo também, dos que riam e choravam ao mesmo tempo, dos que tomavam banho demais ou banho de menos, dos que viviam correndo fugindo de perseguidores imaginários ou nem tanto, dos que viviam acima de suas posses, gastando o que não tinham ou esbanjando os bens de família com presentes e doces para as crianças, dos que olhavam com olhar como vidro, sempre esperando o que nunca chegava... e muitos outros, de características as mais variadas, que não se sabia se eram lunáticos ou endemoninhados, mas que foram todos curados, e deixaram para trás, nos rastros daquele homem, suas dores físicas e morais, seus terrores noturnos e seus medos diários, seus ódios, mas também seus amores ilícitos, como uma esteira de mazelas curadas, um tapete de sofrimentos que clamava por si só, só por existir, e existir por tanto tempo até que aparecesse quem os curasse.

Ouviu completamente assombrado que aquele que curava os corpos curava também as almas sofridas e cansadas, invertendo tudo que era sabidamente conhecido pelos sacerdotes, pregando a quem quisesse escutar, e ouvidos tivesse para isso, e coração forte também, pregando que benditos eram os mansos, os humildes, os pobres, os despossuídos, aqueles que perderam tudo aos pedaços ao longo da vida ou aqueles que vieram ao mundo já sem nada, ou com muito pouco, benditos os que choravam, os famintos e sedentos de justiça, os perseguidos, enfim, benditos os que sofrem sem consolo, por que serão consolados diretamente pelo Pai; ouviu com olhos e coração arregalados, por que nunca lhe passara pela sua cabeça de pastor que os fracos eram os bem aventurados da Terra, o que diria Suzana quando escutasse uma coisa dessas, ela que gostava tanto das histórias de reis, princesas, ministros e autoridades, e sempre as terminava com os fortes felizes, e os fracos fortes por obra e graça da Providência, como Rute nos campos de Boaz. Que diriam os pastores de sua aldeia de um profeta que subverte os valores estabelecidos e manda amar aos próprios inimigos, coisa que em nenhuma cabeça sã passaria?

Mais espantado ficou, a ponto de se sentar no chão e esconder a cabeça entre as mãos, quando lhe contaram que aquele Jesus dissera para não se preocupar com nada, e viver como as aves do céu e os lírios do campo, que têm tudo do que precisam, e que o rei Salomão - sim, o Rei Salomão!, rico e poderoso a ponto de ter mais de mil mulheres e construir o templo de Jerusalém!- que nem ele se vestiu melhor que um singelo lírio; Samuel sentiu um frio e uma dor na barriga, por que tinha fome há dias, mas aquelas palavras milagrosamente alimentaram seu corpo, e sentiu-se com forças para andar mais quanto tempo e caminhos precisasse até encontrar o homem que falava com tanta e tão absurda sabedoria, e que estava tão, mas tão à sua frente, que Samuel chegava sempre atrasado, onde quer que o procurasse.

Às margens do mar da Galiléia Samuel ficou sabendo que sim, ele já havia estado ali também, e sossegado o mar durante uma tormenta, repreendendo os ventos; que também havia andado por sobre aquele mesmo mar, flutuando sem afundar; era então aquela criança dos anjos, nascido de uma virgem, o senhor dos elementos? Samuel tremia ao pensar nisso, em como podia um simples homem, homem nascido de mulher, como ele próprio, domar os ventos, dominar as águas do mar, e quem sabe controlar também o fogo e a terra? Quem era aquele homem cuja voz amansava as tempestades e cujos olhos e mãos devolviam a saúde, a felicidade e a vida?

Por onde andava ouvia contar das maravilhas que estavam sendo feitas, e gemia internamente de desejo de também ver aqueles sinais feitos pelo "seu" profeta; andava como louco pelas estradas perguntando e recebendo respostas as mais desencontradas, como quando lhe disseram, em Gadara, do outro lado do lago, que aquele Jesus estava sendo procurado pelas autoridades para prestar contas de uma manada de porcos que havia destruído, mandando-a precipitar-se de um despenhadeiro no mar, trazendo grande prejuízo aos porqueiros; ou quando chegou na cidade de Caná, cansado e faminto, e lhe deram vinho a beber, um excelente vinho que, diziam, tinha sido transformado da água de tonéis e servido no casamento de uma das filhas daquela casa; aquele vinho purificava o sangue e o espírito, disseram a Samuel, e este acabou dormindo uma noite inteira pela primeira vez desde que saíra de sua casa naquela busca, abençoado vinho, pensou, que lhe trouxe um sono tranqüilo depois de meses de sonos leves ou agitados demais, com sonhos demais e descanso de menos.

Vivia nas ruas, em estalagens baratas, ou onde pudesse dormir algumas horas antes de recomeçar sua caminhada; algumas mulheres colocavam ungüentos nas bolhas de seus pés, ou lhe davam côdeas de pão e um prato de ensopado ou azeitonas, em troca dos amores que sabia fazer, e bem; pensava sem culpa em Suzana na aldeia, pois tinha certeza que ela entenderia aquela troca justa, seu corpo por aquilo que o sustentasse. Muitas delas, viúvas ou sem marido imploravam que ele ficasse, não se fosse, e apresentavam o argumento de uma gravidez para prendê-lo, mas sempre sem resultados, e não se sabe quantos filhos semeou naqueles caminhos onde seu mestre semeara milagres e histórias.

Ficou sabendo que o profeta do deserto havia sido decapitado a mando de Herodes Antipas, e ajudou a enterrar o corpo e prantear aquele homem que o batizara no Jordão; da cabeça não tiveram notícia, mas séculos mais tarde ela valia muito, aquele crânio limpo, acinzentado, tendo enfeitado muitos lares de bons cristãos, e trazido bem-aventuranças para as casas que o possuíssem, pagando por ele com ouro ao Vaticano - mas isso é outra história; contaram para ele que, quando Jesus e o Batista se encontraram naquele rio, os céus se agitaram, pois um queria ser batizado pelo outro, e por insistência de Jesus João o acabou batizando; mas, então, perguntou Samuel cheio de dúvidas, quem era o mestre e quem o senhor? Contaram-lhe então o fim da história que falava por si mesma, que quando Jesus estava sendo batizado os céus se abriram, uma pomba desceu dos céus sobre ele, e uma voz retumbou: esse é o meu filho amado em quem me comprazo. Samuel adoeceu de agonia... Filho de Deus? Era isso que Jesus de Nazaré era? O filho de Deus, o Deus encarnado, aquele que estava prometido desde antes da criação do mundo, e que os salmistas cantaram, os profetas profetizaram, os cronistas anunciaram e os reis temeram?

Mas como o Filho de Deus podia agir de maneira tão esdrúxula, brigando com os doutores da lei, desentendendo-se com os sacerdotes e anciãos do povo, com quem estava sempre discutindo, como podia o esperado Filho de Davi ser tão incoerente, ora brigando, ora curando, ora compadecendo-se, ora falando duramente contra as multidões?

Como podia o Filho de Davi, o Mashiach judeu, curar a filha de uma pagã da Palestina, uma cadela cananéia que implorava por migalhas? E se fosse mesmo o filho de Davi, por que Davi o havia chamado de "meu Senhor"? Essas perguntas e outras Samuel guardava dentro de si, onde o espetavam pontiagudamente, mas nem essas nem outras perguntas nunca encontraram quem as respondesse. Como podia esse homem ser o Messias agindo de maneira tão incongruente, compadecendo-se de estrangeiros da pior espécie? Samuel matutava nas histórias que havia ouvido sobre um casamento em que os convidados não comparecem, e o rei revoltado manda seus servos destruírem os convidados e saírem pelos caminhos e encruzilhadas chamando a quem queira vir para a festa; e multidões de despossuídos, de pobres e mendigos aceitam o convite e são recebidos com honras no palácio, comendo e se regalando, enquanto os convidados iniciais foram deixados de lado...

Samuel ficou dois dias de cama, doente de angústia, sem conseguir entender tudo que ouvia, e por fim levantou-se quando lhe avisaram que Jesus estava perto dali, no deserto, para onde havia se retirado para chorar a morte do Batista, seu primo.

Mas de novo e mais uma vez Samuel chegara tarde; Jesus já havia partido dali também; enlouquecido de tristeza e quase desmaiando de fome Samuel recebeu pães e peixes de um cesto, coma quanto quiser, disseram-lhe, que não podemos cobrar aquilo que nos foi dado de graça; e Samuel ficou sabendo que havia mais onze daqueles cestos, cheios de pães e peixes que sobraram depois de alimentar as multidões que se chegaram para ouvir Jesus, muitas horas antes; e que aqueles pães e peixes não apodreciam, mantendo-se sempre frescos como o maná no deserto; ficou sabendo que, apesar da dor que sentia pela morte do primo, Jesus olhou para a multidão e se compadeceu dela, e por isso havia multiplicado cinco pães e dois peixes, e todos foram saciados, sobrando para saciar Samuel também. Ele comeu com os olhos cheios de lágrimas, agradecendo ao Deus que enviara aquele homem, e descansou outra vez, mas acordou de um sonho agitado onde olhava as outras margens do lago e via um vulto de homem rindo dele, jogando cestos de pães e peixes nas águas e entornando barris de vinho, e os pães tornavam-se homens e os peixes punham-se a nadar, e o mar se tornou rubro, e então o homem mergulhou nas águas vermelhas e desapareceu.

Samuel começou a pensar que, se não estava enlouquecendo, louco estava então o Homem de Nazaré, se é que existia tal homem, e não eram apenas lendas o que andavam espalhando por toda a região da Judéia, Galiléia, Decápolis, Jerusalém e dalém do Jordão, afinal todos contavam histórias mas Samuel não lhe havia posto os olhos, nem ouvido suas palavras, nem experimentado de seus alardeados milagres.

Começou a pensar, cheio de dor e mágoa, que aquele homem não passava de uma fraude, que nunca havia existido, e que tudo eram invenções de quem desejava tanto um profeta quanto ele próprio. Desistiu de sua busca e voltou para casa, com o coração desiludido e a alma esvaziada.

Suzana olhava seu homem entristecido, sem ilusões, nem irritado mais ele ficava, apenas trabalhava, ganhava o pão para si e sua família, e tudo estava bom; ouvia os monossílabos com que ele respondia às perguntas insistentes que ela fazia, na tentativa de trazê-lo de volta à vida, de fazê-lo falar novamente e novamente ter brilho nos olhos e novamente sonhar; mas Samuel estava sofrendo de profundo enfado, e só queria ser deixado morrer, como um bicho doente que se esconde num canto da toca e fecha os olhos. Sentava-se depois do dia de trabalho na frente da casa, olhando a estrada com olhos extraviados, e nada fazia diferença; lembrava-se de quando era criança e ouvia os antigos contando que se sentavam ali também olhando a estrada na esperança de virem voltar os mensageiros com boas novas; nas épocas de guerra ficavam lá sob o sol queimando, os olhos ardendo espiando ansiosos a estrada poeirenta, esperando o ataque dos inimigos, passando sede, fome, vendo os filhos e amigos morrerem, seus campos e cidades destruídos, e de repente apareciam nos montes, lá longe, pés pequenos que iam crescendo ao chegarem perto, as sandálias dos mensageiros vindo contar que foi feito um acordo de paz, que a guerra havia acabado. Samuel lembrava-se da canção que ouvia no templo, "formosos são sobre os montes os pés dos mensageiros que trazem a paz", mas esse cântico já não lhe falava nada, pois as boas novas que desejava ouvir é que Jesus de Nazaré existia e estava perto, podendo ser tocado e visto, mas disso Samuel já havia abdicado. Mantinha-se vivo somente, sobrevivendo à falta de sonhos e de esperança.

No entanto, como nem os sonhos são eternos, e nem a falta deles, um dia chegaram à aldeia dois homens que se diziam enviados do Senhor, e faziam parte de um grupo de setenta que tinha a missão de preceder seu Senhor nas cidades por onde ele ainda passaria; Samuel os recebeu de bom grado em sua casa, onde se hospedaram, juntamente com a paz que traziam, comeram, e curaram os enfermos de toda a redondeza. Numa noite acordaram ouvindo gritos de uma das noras de Samuel, grávida de alguns meses, que sangrava e dizia que Lilith estava lhe levando a criança de dentro de si; haviam esquecido um copo d'água no sereno, e este tinha atraído os demônios do deserto, sempre à procura de água, sempre sedentos de alminhas de crianças, quanto mais tenras melhor, que disso se alimentavam; a aldeia se reuniu para orar, clamando por ela ao Senhor, mas de nada adiantavam os clamores, até que um dos enviados levantou-se, colocou a mão espalmada sobre aquele ventre e bradou: arreda-te Satanás, em nome de Jesus; então a noite se acalmou, o ventre voltou a pulsar normalmente, e Samuel viu, espantado e aliviado, que sua nora e neto estavam salvos.

Depois que os enviados partiram, Samuel passou tempos pensando em tudo que tinha visto e ouvido, e decidiu recomeçar sua busca; pôs-se de novo na estrada, perguntando e perguntando; sua jumenta estava grávida, e acabou parindo na estrada; Samuel amarrou o novo jumentinho, que nunca havia sido montado, numa árvore ali perto de onde dormia ao relento; mas chegaram dois homens que soltaram o jumentinho e o foram levando; Samuel correu atrás deles e perguntou por que estavam fazendo aquilo, e como resposta ouviu um "o Senhor precisa dele, mas logo o mandará de volta"; tiveram que levar também a jumenta que ainda amamentava seu filhote, e Samuel ficou ali mesmo, esperando que devolvessem seu animal, o que foi feito alguns dias depois; e Samuel decidiu então seguir viagem até Jerusalém, que estava perto.

Encontrou em seu caminho uma mulher que voltava de Betânia e lhe pediu para acompanhá-lo até Jerusalém já que era uma prostituta e estava só, e só ficaria pelo resto da vida, havia decidido isso naqueles dias, afinal tinha tido seus pecados perdoados, e não pretendia voltar a praticá-los; Samuel ficou enlouquecido pela proximidade daquela mulher de grande beleza e ao mesmo tempo a mais perfumada que já havia visto, mas sentia que realmente não podia tocá-la, pois seus olhos inchados resplandeciam uma espécie de santidade; seus cabelos cheiravam a perfume fino, perfume derramado do seu vaso de alabastro nos pés do seu Senhor, ungindo-lhe e perfumado os pés com ungüento, depois de lavá-los com suas próprias lágrimas, e afinal enxugado com seus cabelos, que, desde então, nunca mais perderam aquele perfume, por mais que os lavasse, até o fim de seus dias anos depois, quando então foi martirizada numa cruz por ordem do rei Agripa, e seus cabelos continuaram exalando em seu túmulo, e toda flor que sobre aquela terra nascia, pelo resto dos séculos e milênios não cheiravam a rosas, nem lírios, jasmins ou dálias, mas àquele perfume, e isso também já é outra história.

Samuel e aquela mulher, a quem passou a chamar de Betânia, partiram juntos para Jerusalém, e ela lhe contava tudo aquilo que Jesus de Nazaré havia feito naqueles três anos, e que era o homem mais doce mas mais amargo, mais puro mas mais amigo de todos os impuros, mais feliz mas mais triste de todos que já havia conhecido; que cumpria toda a lei, e ao mesmo tempo a descumpria toda, pois que era o Filho de Deus com poder para isso, e guardava os sábados e quebrava os sábados, e lavava as mãos antes das refeições e comia com mãos sujas, e curava e ressuscitava mortos e orava nos montes e chorava desconsoladamente quando via multidões sofridas e amigos mortos, mas que também secava figueiras com os olhos, e um simples olhar seu desnudava os pecadores e os fazia fugir envergonhados. E que dizia aos seus seguidores que fariam isso tudo também, e muito mais, se tivessem apenas um pequeno grão de fé.

Sentavam-se para comer debaixo das árvores, sempre conversando sobre Jesus de Nazaré, e aquelas histórias alimentavam a alma de Samuel; numa das manhãs em que comiam ouviram um barulho na estrada, e era uma mulher que corria desabaladamente de uma pequena multidão que a perseguia; Betânia reconheceu naquela corrida os passos da adúltera que foge depois de ter sido pega com seu amante, e sentiu o medo que sempre sentia quando amanhecia o dia na cama de algum homem, e esgueirava-se sorrateira com medo daqueles mesmos homens que usavam seu corpo à noite, para de dia apedrejá-lo sem piedade, caso fosse achada na cama de algum deles. Escondeu o rosto no ombro de Samuel, que tudo olhava aterrorizado, pois nunca havia se acostumado com aqueles apedrejamentos, e cada pedra doía sem misericórdia em seu próprio corpo, até que se deitou extenuado junto de Betânia, depois de terem recolhido e enterrado ali mesmo o corpo da outra mulher. Vendo a dor de Samuel, Betânia tentou consolá-lo dizendo que se Jesus estivesse ali tudo seria diferente, e ela mesma havia visto uma adúltera sair ilesa de entre a multidão quando Jesus se postou entre a mulher e seus juizes, e dito quem não tiver pecado que atire a primeira pedra. E a multidão cheia de vergonha havia abaixado as mãos já levantadas, soltado as pedras no chão e voltado para seus lugares com seus próprios pecados, deixando a adúltera em paz e perdoada.

Samuel afligia-se dentro de si, tudo que queria e precisava na vida era colocar seus olhos uma só vez nos olhos daquele homem, e implorava a Betânia, nas noites em que a lua lhes excitava os sentidos, que o deixasse experimentar daquele perfume que havia ungido os pés de Jesus, que era O homem, e o homem deles dois. Numa daquelas noites Betânia finalmente acedeu aos toques de Samuel, por pena de início, mas cheia de desejo conforme ele lhe acariciava os cabelos, cheirava-os profundamente, beijava seus lábios e suas mãos como desejava fazer com seu homem, penetrava-a, e ela se deixava possuir no corpo como já havia sido possuída na alma por Jesus de Nazaré, gemendo e enroscando suas pernas na de Samuel; nunca havia sido tão amada assim por homem nenhum, mas sabendo que todo aquele gozo nada era comparado com os olhos do homem deles. E assim seria com ela até morrer por seu Senhor.

Entraram em Jerusalém numa sexta-feira à noite, e tudo estava estranhamente quieto; não havia a balbúrdia normal de uma grande cidade, e lhes contaram que naquela tarde os céus se haviam escurecido bem mais cedo, e o sol não brilhara mais; caía a noite, e tinham medo que Deus tivesse lhes retirado o Sol da Terra, por que haviam matado seu Filho no Gólgota, a montanha da caveira careca. Samuel e Betânia olharam-se desesperados e correram para o templo, onde encontraram o véu do santuário rasgado de cima em baixo, e ecoando ainda lá dentro um grito "deus meu, deus meu, por que me desamparaste?", e Samuel e Betânia compreenderam que nunca havia tido, nem nunca mais haveria grito como aquele, e desamparo como aquele e dor como aquela; encontraram também o sumo-sacerdote ajoelhado com a morte nos olhos, e assim foi até sua própria morte, Caifás carregava no centro de seus olhos a cruz daquele justo que deixara assassinar pelos romanos; seu olhar passou a secar tudo à sua volta, e as pessoas fugiam aterrorizadas quando o fitavam, e ele acabou por furar os próprios olhos, mas a cruz continuou no meio daquele olhar vitrificado; vendou os olhos, mas a cruz resplandecia por sobre a venda; então se retirou para os cômodos do fundo do Templo, e de lá exerceu suas funções, mandando perseguir, prender e matar a todos que ousassem seguir as idéias daquele homem, obcecado pela cruz que morava em seus olhos, e lá morreu velho, maldizendo e chamando por Jesus de Nazaré e nunca o ouvindo responder.

Mostraram o túmulo de Jesus a Samuel e Betânia, que choravam juntos, e este resolveu voltar para sua aldeia e os seus. Pegou um pouco daquela terra que rodeava o túmulo, como sinal de que seu homem estava realmente morto, e nunca soube que seu gesto seria repetido por muitos que no futuro se diziam cristãos, como sinal de que se encontrava vivo aquele Jesus, guardando em casa terra santa, e água santa, e madeira santa da mais santa cruz, madeira suficiente para crucificar Jesus numa floresta inteira, e terra suficiente para transformar Jerusalém numa rocha dura, caso houvessem retirado aquela terra toda de lá, o que Samuel consideraria uma loucura, se tivesse imaginado. Seus sonhos haviam sido mortos naquela cruz e enterrados naquele túmulo, e com as costas arqueadas e a respiração lenta e difícil dos velhos, pôs-se no caminho de volta, sozinho, que agora seria assim, sempre sozinho até que Deus se apiedasse dele e lhe tirasse a vida também.

A cada passo na estrada do retorno, para longe de Jerusalém e de Jesus, Samuel sentia a alma minguar, e minguou até que se tornou em lua nova; "ah, Jerusalém, se eu me esquecer de ti, que se me apegue a língua ao paladar e me resseque a mão direita"... Samuel sentia isso a respeito daquele Jesus, e sabia que mesmo morto não se esqueceria jamais daquela promessa e esperança malogradas... Recusava consolos, palavras vãs, batidas nos ombros ao som de "a vida é assim mesmo, Samuel" ou "esquece tudo isso e volta a viver". Foi o que fez, ou pelo menos tentou fazer, continuando a cuidar das ovelhas e agora dos netos, sob o olhar atento e amoroso de Suzana, sua Suzana, que já não cheirava a tâmaras e mel, mas começava a ter os odores amargos da velhice; e ele a amava mais ainda por isso. Manteve sua vida, mesmo sem esperança, pois a única esperança que tinha tido e lhe dizia respeito eram os olhos daquele Jesus, e isso nunca mais veria. Sua alma estava escura, sem sol nem lua, como o céu de Jerusalém no dia daquela morte que matou também sua vida. Jesus não existia mais e nada mais importava no mundo.

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Algum tempo depois resolveu Samuel fazer nova viagem a Jerusalém, a pedido de Suzana, que queria passar a Festa da Colheita lá; já se haviam passado cinqüenta dias da Festa das Primícias, e naquele ano Samuel não havia ido a Jerusalém para a festa, vender seus cordeiros, que eram os mais bonitos, mais gordos da gordura que cheirava melhor nas narinas divinas, e os que choravam lagriminhas mais sofridas e silenciosas quando sacrificados, sendo disputados pelos ricos que os podiam pagar; naquele ano, entristecido desde a crucificação de seu Jesus de Nazaré, Samuel mandou os filhos venderem os cordeiros, e ficou em casa com Suzana; mas agora ela havia insistido em que fossem à outra festa, e Samuel separou sete cordeirinhos sem defeitos, de um ano de idade, um novilho e dois carneiros para oferecerem a Iavé, que se regozijaria com aquele aroma agradável de quando a fumaça subisse até seu altar.

As ruas se encharcavam do sangue dos animais, que escorria e cheirava longe até que a terra se empapasse e absorvesse o sangue no lugar da água, que era rara e tão benvinda.

Samuel estava impressionado com o barulho e a agitação daquele dia, tão diferente da última vez em que lá havia estado e voltado sem luar no coração; agora era clima de festa, mas não havia festa na alma de Samuel. Nunca mais haveria, pensava ele cheio de dores.

Mas ainda cedo, na hora terceira do dia, surgiu do Cenáculo um som de vozes, uma gritaria ensurdecedora, e Samuel e Suzana correram para lá junto com a multidão; e as vozes eram como uma Babel ao contrário, pois que a original havia separado a humanidade em línguas e nações, e esta deveria unificar de novo os homens num só povo, todos falando a mesma língua e todos se entendendo, e em meio à multidão atônita e perplexa, doze homens se levantaram e um deles começou a falar, e cada palavra sua penetrava como lança no coração de Samuel, que não sabia o que fazer, pois ouvia que Jesus de Nazaré, o seu Jesus, aquela criança dos anjos, profetizada pelos profetas, salmodiada pelos salmistas, e esperada pelos que sabem esperar, aquele homem que havia feito sinais e milagres de todo o tipo, e morto na cruz como rebelde insubmisso, sim, aquele homem era verdadeiramente o Mashiach e estava vivo, havia ressuscitado e estava agora exaltado à direita de Deus.

Samuel ouviu tudo com o coração fazendo espuma e transbordando em bolhas com essa nova esperança, e foi batizado pelos apóstolos daquele Cristo.

A espera e a busca de Samuel haviam acabado. Seu próprio nome passou a fazer sentido, pois sabia agora que Deus o ouviu, ouviu tudo que se passava em seu coração, sua busca e sua angústia, desde antes dele próprio sabê-las.

Enfim ele havia entendido que nunca olharia aquele Jesus nos olhos, por que estava fadado, desde a formação do mundo, a ter aquele Jesus morando dentro de si. E doravante, se O quisesse olhar, teria que olhar em seus próprios olhos e para dentro de si mesmo.



Eloisa Helena Maranhão.

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