09 outubro 2010

O Almirante, a Puta e o Bobo.


"Glória aos piratas, às mulatas, às sereias; glória à farofa, à cachaça e às baleias.
Glória a todas as lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos
jamais... Salve o Navegante Negro que tem por monumento as pedras pisadas
do cais." (João Bosco e Aldir Blanc)


Quem não tem onde chegar nunca perde o caminho. Le Fou falou isso dando de ombros, com suavidade, a cabeça balançando de um lado para o outro, enquanto segurava a mão de Anie. A velha puta estava deitada na sua enorme cama de casal, onde tinha feito amores durante décadas com todo tipo de homem, mas sem nunca se esquecer de João Cândido. Agora de olhos embaçados, sem brilho, os lábios rachados e a língua seca estourando em bolhas só tinha Le Fou por companhia, ah, bobo querido, falou ela em polonês, e ele entendeu na sua língua de alma, já que nunca tinha aprendido direito nem o polonês nem o português, apesar de nascido na Polônia do fim do século XIX e vivendo há mais de meio século no Brasil, desde que desembarcara do navio com Anie, a polaca Anieluska, que na época era uma mocinha ainda, como ele.
 Havia respondido sobre nunca perder o caminho, pois Anie olhava angustiada através dele, se despedindo com os olhos da vida e do amigo, dizendo que não sabia como iria para a outra vida, pois não tinha aprendido o caminho desta passagem solitária. Se pudesse acompanhá-la eu iria, pensou o parvo, iria com você, tocando flauta na sua frente para espantar os ratos e cobras do caminho, tocando buzina para manter os carros afastados - Lefú sempre tivera um medo insano, primeiro das carruagens e carroças, depois dos bondes, e por último dos carros e ônibus; iria junto com você, Anie querida, e você seria a primeira pessoa a morrer acompanhada, guardada pelo seu bobo, que a seguiria como um cão. Respondendo ao pensamento do dono, Petty levantou a cabeça e lambeu as mãos entrelaçadas de Anie e Lefú, voltando a formar com eles o trio que tinha vivido décadas juntos, se consolando mutuamente: a puta, o bobo e o cão.
Anie fechou os olhos, esgotada, olhou pela última vez para Lefú e Petty, mas pensando em João Cândido, e disse: morrer é fácil e leve, mon cherry; não pesa... não dói... morre-se e pronto.
Anie fechou os olhos e morreu. Como um passarinho, disseram as colegas que vieram aprontar seu corpo, deixá-la bonita no caixão. Afinal, uma puta velha, gorda, de cabelos ralos e sem cor era a coisa mais deprimente do mundo; e pobre, ainda. Sem glamour. Vamos transformá-la de novo na jovem e maravilhosa Anie, a polaca que enlouquecia os marinheiros e estivadores, resolveram as putinhas moças. Pintaram sua boca de vermelho encarnado, as pálpebras de azul, as faces bem coradas de rouge; tingiram seus cabelos de ruivo; intensificaram a pinta abaixo do nariz que já estava descolorindo, pinta artificial, mas que Anie havia cultivado nos cinqüenta anos de Brasil, desde que se olhara nos espelhos brasileiros pela primeira vez, um pedaço de espelho de pensão, manchado de ferrugem prateada, e decidira que uma pinta lhe cairia bem no rosto quadrado de polaca. Decidira também que se chamaria Anie a partir dali, e que sustentaria a si mesma e a Lefú vendendo seu corpo. Foi o que fez durante o meio século que viveu aqui.
Como um passarinho?, espantou-se Lefú, para quem morrer como um passarinho era morrer de estilingada, como havia visto, sentado chorando na calçada, os meninos fazerem tantas vezes, enquanto riam-se das avezinhas mortas e do bobo vivo, que tinha dó de passarinho, vejam só. Procurou na cabeça de Anie alguma marca de pedrada, não encontrou, e voltou a atenção para o cachorro que descansava aos seus pés, empilhado sobre eles como um caracol de pelos; alisou a cabeça do amigo tentando se lembrar de quando haviam recolhido a avó de Petty das ruas, grávida e sarnenta, faminta como eles, logo que haviam desembarcado no cais do Rio de Janeiro.
Tinha dificuldades para se lembrar das coisas, o que Anie dizia ser a bênção da sua vida; lembrar é dor da alma, dizia a puta, fique esquecido, mesmo, Lefú, continue parvo e feliz, deixe as lembranças para quem não pode se livrar delas, os normais. Mas mesmo assim o bobo lembrava-se de algumas coisas, cenas desalinhavadas, não tecidas, soltas, e nunca conseguia entender o que eram.
Uma dessas cenas que ainda lhe voltava em sonhos era a mais antiga que possuía, sua lembrança mais anterior, dizia Anie, e explicava que aquilo ainda tinha acontecido na Polônia, dias antes de saírem de lá fugidos no navio.
Lefú via-se numa cidade, e era primavera, via-se numa praça, depois de dias de viagem pelos campos cobertos de flores e de verde das plantações; ele sabia que era primavera por isso, por que o gelo havia derretido e agora havia verde e flores por todo o campo, mas aquele verde e aquelas flores não eram dele nem dos aldeões que as haviam plantado, mas sim dos junkers alemães que haviam invadido suas terras e oprimido seu povo, obrigando os camponeses das aldeias a produzirem para si próprios e para o sustento daquela nobreza rural. Quando os camponeses resolveram levantar-se contra a nobreza, o sangue havia empapado as terras, e Anie pegou-o pela mão do meio dos corpos dos seus pais, e fugiu com ele para Lodz.
Haviam andado muitos dias, comendo batatas, cenouras e beterrabas que arrancavam ainda verdes de dentro da terra, e quando chegaram na capital ali também havia guerra civil e sangue derramado. A praça era um campo de batalha, com os operários em greve e as milícias tentando obrigá-los a voltar ao trabalho; foram três dias inteiros de combates, e só ao fim deles o exército czarista conseguiu sufocar a rebelião. Anie decidiu que fugiriam no primeiro trem em que conseguissem embarcar, e no primeiro navio para o primeiro país da América; e o primeiro navio que encontraram no porto de Gdansk tinha bandeira brasileira e um almirante negro que escondeu a mocinha e o menino bobo, trazendo-os para os trópicos.
Era 1905 e Anie nunca se esqueceria do Almirante que lhes dera refúgio e guarida, um jovem negro, alto e encorpado, de largo sorriso, que usava um uniforme branco e um lenço amarrado no pescoço, laço de marinheiro, e Anie foi enlaçada por aquele laço, tanto que ao morrer seu último pensamento foi para o amante, internado no Hospital Nacional dos Alienados, e que agora não mais receberia suas visitas todas as tardes de domingo.
Também no Rio de Janeiro as coisas estavam agitadas, com o início da República e os trabalhadores e ex-escravos revoltados com a miséria do povo e o descaso das autoridades; Anie concluiu que não havia diferença entre os trabalhadores da Polônia e os do Brasil, sempre trabalhando muito e duro, e sempre miseráveis e famintos, entre os marinheiros polacos e os brasileiros, sempre navegando muito e olhando os portos com saudades, entre os Estados da Europa e o daqui, sempre reprimindo a população e obrigando-a a trabalhar para enriquecer a pátria e o patrão. Sem ver diferenças, mas já enlaçada pelos laços de João Cândido, resolveu ficar e viver aqui mesmo.
No início, sem nem falar o português ainda, fazia ponto nas ruas do cais, morando com Lefú numa pensão para putas francesas; foi lá que apelidaram Anieluska de Anie, que era mais fácil e mais chique de pronunciar, e começaram a chamar o menino de Le Fou, o louco, apelido que nunca foi tomado como ofensa, já que ele era mesmo aparvalhado, com olhos puxados e pescoço grosso de tão bobo, além de muitíssimo querido por todas as putas que o adotaram como o mascote, o filho que não podiam ter, ou se tivessem não podiam criar, o que dava na mesma.
Também Anie tinha engravidado algumas vezes e abortado, ou dado os bebês recém-nascidos para famílias que os podiam criar "dignamente". Fazia parte de suas decisões que só criaria Lefú e Petty, e só amaria João Cândido, e essas resoluções ela tinha cumprido até o fim da vida. Era uma mulher de palavra e resoluções firmes, sem essas chorosidades de mulheres frágeis que não sabem o que querem de suas vidas medíocres. Anie sabia: queria viver e amar. Foi o que fez e não se arrependeu.
Nunca soube se era amada por João Cândido, pelo menos não soube de ouvi-lo falar, que o negro também não era chegado a demonstrações de amor e outras fraquezas do tipo; também nunca soube pela boca de Lefú se ele a amava, já que o menino nem falar direito conseguia; também Petty, por razões biológicas óbvias nunca havia chamado Anie de meu amor, como alguns de seus clientes mais românticos; mas ela sentia o amor deles (de João Cândido, Lefú e Petty, não dos clientes) e isso lhe bastava. Amor, como o resto das coisas da vida, era algo a ser vivido concretamente, e não falado. Sendo todos de poucas palavras e muitos atos, entendiam-se sem conflitos. Viveram meio século apoiando-se, que é o que resta aos pobres do mundo. Uni-vos.
Na noite em que morreu segurando a mão de Lefú, lambida por Petty e pensando em João Cândido, cheia de dor por que nunca mais o veria, lembrou-se de como gostava de acariciar as cicatrizes das costas do negro, formadas pelos lanhos da chibata, e enquanto acariciava as cicatrizes de seu negro cantava canções de consolo para ele, como ele cantava modinhas para ela, tocadas no famigerado violão, quando andava bêbado nas noites de folga pelos bares do cais. Tocava o instrumento amaldiçoado pelas mães de família, pois encantava suas filhas como cantos de sereias, fazendo-as sonhar sonhos excitados nos seus brancos travesseiros de brancas penas e brancas fronhas de alvíssimas rendas, enquanto as putas francesas, polacas, holandesas, mulatas e de todos os matizes e sonoridades olhavam o Almirante com olhos lânguidos e famintos, enchendo Anie de ciúmes que ela esvaziava junto com muitos copos de menta. Decidira que menta era bebida de puta, e não tomava outra coisa, até que anos mais tarde começou a tomar cherry, martini e cinzano, decidindo que eram bebidas também dignas de uma puta de verdade. Mas isso foi anos depois, e estamos ainda nos anos de antes.
Naquela época, pasme quem me lê!, os marinheiros de baixa patente da Marinha de Guerra eram castigados com açoites de chibata, o duro couro rompendo-lhes a frágil e dolorida carne. Na maioria eram negros, ex-escravos, acostumados aos castigos físicos que recebiam de seus senhores. E os algozes, os oficiais brancos, acostumados a tratar seus subalternos como escravos. Para as faltas leves, prisão e ferro na solitária, a pão e água; faltas leves repetidas, idem idem por 6 dias; faltas graves, 25 chibatadas. Chibatadas pedagógicas, na presença da tropa e ao som de tambores.
Naquela época, continuem pasmando-se, leitores!, os subalternos aceitavam os castigos físicos como parte do jogo, sofriam de cabeça baixa, acostumados que estavam a serem aviltados moral e fisicamente.
Naquela época, como hoje, e agora vejam se além de pasmar-se, reagem, os militares de baixa patente eram tratados como bichos, tratando-nos a nós, civis, como bichos, também, numa cadeia de maus-tratos e abusos.
Naquela época João Cândido reagiu.
Numa noite de 1910, após um dos praças receber as chibatadas ao som dos tambores, o Almirante Negro sentiu que era hora de levar a sério a pedagogia dos castigos físicos e rebelar-se. Tudo que dói demais chega uma hora que transborda. Toda injustiça chega uma hora que transborda em revolta.  Os marinheiros transbordaram.
Naquela noite os mares da baía da Guanabara silenciaram para que os marinheiros tecessem as tramas da sua revolta nos porões dos modernos encouraçados; o mar silenciou seu rumor enquanto o Almirante Negro e os outros marinheiros sublevaram-se, exigindo o fim dos maus-tratos e alimentação melhor. Além de anistia para os rebeldes.
Tomaram os navios, expulsaram os oficiais, atracaram rodeando a cidade e ameaçando bombardeá-la se não fossem atendidos. Os mares rugiram, respondendo ao rumor da revolta dos corações dos marinheiros. Os mares rugiram, respondendo ao medo e à raiva dos governantes. Os mares rugiram, respondendo à angústia e ao medo das mulheres, mães e filhos dos marinheiros rebelados, que tomaram assento na praia, esperando o fim das negociações entre partes tão desiguais.
Anie, Lefú e Cocote, a avó de Petty, se sentaram entre os familiares dos marinheiros, para que João Cândido não se sentisse só em sua solteirice e em sua liderança, que é muito duro e triste ser líder e sozinho, já sabia Anie em seu coração apaixonado. Olhavam o mar rugindo, os navios atracados balançando nas águas, e seus corações balançavam também, de orgulho. Sabiam que eles nunca bombardeariam a cidade onde viviam. Enquanto isso, os corações dos jornalistas balançavam de covardia, escrevendo artigos contra os amotinados, exigindo providências dos governantes, insuflando o terror entre a população, que comia, dormia e acordava, trabalhava ou não - havia tantos desempregados - pouco se importando com os destinos daqueles homens negros, pobres, funcionários da Marinha, e suas famílias de negros e mulatos, de putas, de lavadeiras, de doceiras, enfim, de pobres.
Foram quatro dias de impasse, e os homens do Congresso reuniram-se às pressas para decidir o que fazer.
Os homens do Congresso, os engravatados, os sábios, os ricos, da sabedoria e riqueza da elite, os que podiam viajar e ser águias em Haya, e comer petiscos nos cafés de Paris, e visitar a Estátua da Liberdade em New York, os homens do Congresso, tão preocupados com a pátria, reuniram-se e votaram uma lei concedendo anistia aos rebeldes e o fim do uso da chibata. Naqueles tempos de início da República a Constituição ainda era muito imperfeita, e não havia possibilidade de decretos-lei feitos pelo Executivo. Leis eram leis, e quem as fazia era o Legislativo. Por isso mesmo era que se chamava "legislativo". Que lógica mais primitiva, de republicanismo arcaico, não é mesmo, leitores? Lógica de quem não entende das relações de força entre os três poderes, autônomos e interdependentes. Nós entendemos a lógica, sábios cidadãos que somos, educados em civismo e patriotismo.
João Cândido havia triunfado! Era a vitória dos negros pobres, dos marinheiros contra seus oficiais, dos subalternos contra seus superiores, dos homens simples contra a elite. O céu amanheceu ensolarado, o sol brilhava entusiasmado com a mudança dos tempos que se anunciava nos tristes trópicos, a baía da Guanabara sorria em sua banguelice. Levi-Strauss ainda não tinha vindo conhecer os tristes trópicos nem verificar de perto a falta de dentes da baía e do povo brasileiro. Eram, como já disse, tempos de imperfeições arcaicas de República que se iniciava. Provavelmente no futuro, muito provavelmente, com as leis aperfeiçoadas e os governantes amadurecidos, não teríamos mais brasileiros desdentados (excluindo, evidentemente, os bebês, por motivos anatômicos) nem marinheiros rebelados, porque todos seríamos felizes e viveríamos num país justo. Mas isso era no futuro-mais-que-perfeito. Ainda estávamos em 1910.
Os navios foram esvaziados, os marinheiros voltaram vitoriosos para suas casas, com suas mulheres e filhos, mães e pais, tias, primos, amigos, todos aliviados. Foi um dia de festas, de alegria dos pobres, um carnaval particular dos envolvidos na revolta contra a chibata. E quantos acarajés e pastéis foram comidos, os caldeirões de feijoada borbulhando, quanta cachaça foi bebida, quantos barris de chope esvaziados e quantos amores foram feitos. O Rio de Janeiro dos pobres era um regozijo.
Naquela noite João Cândido, carregado nos ombros pelos marinheiros, foi levado para o bordel de Anie e depositado como rei sobre a cama da puta. Foi despido, banhado, massageado e perfumado por mil mãos das putas, dos bobos, dos cães felizes. Depois deixaram-no nas mãos mais experientes e apaixonadas de Anie, que cuidou de seu negro como se cuida dos santos em dia de procissão. Mas de santos laicos, dos que gostam de prazer e alegria, dos que entendem os prazeres carnais mais que os espirituais, como uma das mulheres africanas cuidaria de Agostinho antes de se tornar santo, quando este sorvia as noites do norte da África, enquanto Mônica, ajoelhada e agoniada, rezava pela salvação do filho. Anie cuidou de seu homem, deixando-o satisfeito por muitas vidas, daquela satisfação de quem se torna escravo e quer mais, e sempre mais, da mesma mulher, da mesma boca, das mesmas mãos. E mais não vou dizer, pois este é um conto político e não erótico, e cada um adivinhe o que a polaca fez com o marinheiro subversivo.
Acordaram no dia seguinte com um barulho de homens armados, que os levaram da pensão, ao Almirante e sua puta, em meio aos gritos e choros e latidos dos amigos e parentes dos marinheiros anistiados pela lei dos homens do Congresso.
Os anistiados - perdoados, leitores, não se esqueçam de que anistia é perdão total - foram trancados nos porões a bordo do navio Satélite e levados para o presídio e para o exílio.
No presídio da Ilha das Cobras foram presos, entre eles João Cândido, mas a revolta se intensificou; rebelaram-se de novo pelas péssimas condições em que estavam sendo tratados, e o castigo dessa vez veio rapidamente: cela subterrânea. O calor e a sede eram intensos no verão de dezembro; o espaço e o ar também eram poucos, e dezesseis acabaram morrendo sufocados.
Na viagem de desterro, 105 dos revoltosos foram levados para a Amazônia; ali também a revolta voltou a estourar, e nove foram fuzilados. Anie e mais 43 mulheres consideradas prostitutas também estavam no navio, juntamente com duzentos desordeiros, que é como os governantes perfeitos e amadurecidos chamam aos trabalhadores de sua pátria.
Entre eles se encontrava Lefú, que era o único ordeiro, e que se sentava quieto durante a viagem toda, balançando a cabeça de um lado para o outro, como um pêndulo desentendido, e nas mil noites que passou a bordo sonhava com sua aldeia das terras invadidas da Polônia, com os camponeses que plantavam batatas e rabanetes, com os mineradores que extraíam carvão e ferro, com os operários que fabricavam toda sorte de produtos importantíssimos para a vida das pessoas, mas que só eram consumidos por duas dúzias delas e que enriqueciam nem meia dúzia, sonhava com os marinheiros brasileiros, com as putas, com os negros que viviam nos morros do Rio de Janeiro, e com o tratamento que os governos davam ao povo, e também concluiu que não fazia diferença viver aqui ou acolá. Ficou ainda mais bobo, e sua cabeça nunca mais parou de oscilar quando não compreendia alguma coisa.
Na primeira oportunidade, meses depois, quando o navio atracou num dos portos do Nordeste, Anie fugiu com Lefú, e voltou para o Rio de Janeiro depois de conseguir dinheiro prostituindo-se com os homens de lá. Homens são homens, aqui ou acolá. Se querem sexo, e pagam por ele, terão o que desejam, nas ruas ou em casa, sustentando suas esposas para satisfazê-los dignamente, ou às putas para fazê-lo quando não querem dignidade. Voltou o mais cedo que pôde para sua pensão para estar perto de João Cândido, que ela sabia que voltaria para lá quando pudesse, também.
João Cândido sobreviveu à Ilha das Cobras. Sobreviveu ao calor, à fome, à sede, aos castigos que mais pareciam vingança do Estado contra os homens que haviam ousado se rebelar. Por ter sobrevivido, que ousadia!, foi levado de volta à capital da República e internado no Hospital Nacional dos Alienados. Quem lesse sua ficha de internação veria: louco e indigente. Mas como as malhas tecidas entre os que só podem contar com sua solidariedade são fortes, e espalham-se, logo Anie ficou sabendo do destino do único homem que havia amado. Passou a visitar os alienados do hospício todos os domingos, dia de visitas, e lá passava as tardes com João.
Ali ele não era mais João Cândido, o Almirante Negro, mas apenas João, um negro destituído de memória, de seu passado, proibido de lembranças, se quisesse sobreviver. Ali João vivia como todos os outros loucos, aqueles que não tiveram a sorte de serem cuidados como Lefú, os que urinavam e defecavam nas próprias roupas, os que fediam de banhos nunca tomados, os que viviam infestados de piolhos e carrapatos, com os narizes escorrendo de centenas de resfriados e gripes mal cuidados, os olhos cheios de ramelas, quase cegos de doenças e vontade de não ver.
Ali o negro João viveu por mais de cinqüenta anos, como centenas de outros internos que nunca tinham suas doenças mentais tratadas, suas fichas e internamento revistos, sujeitos a toda sorte de terapias que os alienistas inventavam, às teorias que traziam da Europa e Estados Unidos, e eram choques elétricos, quando a eletricidade inclusive orgânica estava em voga, e eram choques térmicos quando imaginavam que calor e frio alternados curavam os humores descontrolados dos corpos, e eram alimentos salgados demais quando os médicos concluíam em suas pesquisas que loucura era falta de sais, e sem sal quando, meses depois, suas opiniões abalizadas davam meia volta, volver, e decidiam que era justamente o excesso de sal que transtornava as mentes e os corpos; ali viviam a pior das mortes, que era a morte dos enterrados vivos, dos esquecidos e mortos antes do tempo; ali viviam não apenas loucos, mas velhos que não tinham para onde ir, abandonados por suas famílias; cegos, surdos-mudos que não tinham como se comunicar; vítimas de paralisia cerebral; todos abandonados, todos pobres, todos enterrados vivos.
Ali João ocupava-se de fazer nada, como os outros companheiros de desdita, andando, olhando o tempo passar, comendo terra, muitos nus, no calor ou no frio, acostumados a viver como haviam vivido nossos ancestrais pré-históricos. Só conheciam uma palavra: a espera. Esperavam os parentes que nunca os vinham visitar, esperavam os médicos que nunca os vinham curar, esperavam a alta que nunca receberiam. Esperavam a morte, que esta sim, chegava num momento ou em outro.
Esperavam os domingos, sem noção dos dias que faltavam na semana, quando algumas visitas apareciam com bolos, roupas e calçados que eram logo guardados na despensa e disputados pelos funcionários, e os internos nunca viam; esperavam quando Anie chegava, acompanhada de Lefú e de Cocote, e depois de Petty, quando a cadela estava velha demais para sair à rua; chegavam e eram logo reconhecidos, apalpados, beijados, olhados de longe, por olhos chorosos e bocas banguelas sorridentes, que riam e choravam por tudo e nada, gratos de serem visitados e reconhecidos como gente.
Lefú punha-se logo à vontade entre os seus, aqueles dos quais ele faria parte, não fosse Anie em sua vida; e a moça sentava-se do lado de João Cândido e o ouvia, e falava, e ele voltava a ser o Almirante Negro da revolta da chibata.
Contava para ela das viagens que havia feito pelos sete mares do mundo, singrando como num baile, fazendo as ondas dançarem com os apitos do navio; contava das sereias que havia visto e ouvido, e só não se tinha lançado ao mar por causa dos companheiros que o haviam agarrado e levado para os porões do navio; contava dos corpos que passavam boiando e comidos de peixes a bombordo e estibordo, e ele acendia velas e rezava missas por aquelas almas dos afogados. Contava histórias das doenças que havia tido naqueles poucos anos como marinheiro, mas que lhe marcaram a alma e o corpo mais que os muitos anos que vivera depois em terra. Não se esquecia nunca de contar da traição que sofrera do marechal presidente da República, que havia assinado a anistia e não cumprira.
Anie contava a ele o que acontecia no mundo, contava que o marechal Hermes da Fonseca, o traidor dos marinheiros, não era mais presidente, e contava da revolta dos tenentes no Forte de Copacabana, e da coluna que viajava pelo país tentando libertar o povo, quem sabe passariam por ali e levariam João com eles?, contava que agora o poder era ocupado pelo pai dos pobres, mas não se iluda, João, que o homem cuida mais dos ricos bastardos que dos filhos legítimos que o elegeram, e como se encheram as prisões e hospícios durante os longos anos de governo de Getúlio. Anie contou da Grande Guerra que havia estourado na Europa, e João sonhava em estar lutando lá, marinheiro e militar que era, não fosse a prisão; contou também da outra Guerra, e João já havia começado a misturar as idéias, sem conseguir separar direito qual era uma e outra, quem havia ganho e quem perdera, quem estava do lado de quem, o Brasil estava com a Alemanha ou contra? Anie também não sabia explicar, afinal eram tantas as mudanças e incoerências do seu país adotivo que ela também se confundia toda, enquanto Lefú apenas abanava a cabeça e balançava o corpo.
Com o dinheiro de vinte e quatro homens que haviam passado por sua cama, Anie comprou um rádio de galena para que João ouvisse as notícias do mundo de fora, e só conseguiu que chegasse até ele por que com o dinheiro de mais dezoito homens ela havia comprado também a boa vontade dos funcionários da recepção do hospital de alienados. Mais tarde comprou um radinho elétrico para o amigo, também juntando dinheiro dos homens que lhe pagavam, e que eram cada vez mais escassos conforme envelhecia.
No radinho, João ouviu quando os militares tomaram o poder no país, e pensou que desta vez se lembrariam dele, mesmo que velho, apodrecendo ali no hospital, se lembrariam de sua luta para melhorar as condições de trabalho e vida dos militares. Mas eram militares de outra armada, não eram marinheiros, e também não se lembraram dele.
No radinho João ouviu que os militares do exército haviam decretado estado de sítio no país, fechado o Congresso, e de novo as prisões e hospícios e hospitais ficaram cheios de revoltosos, e de novo as leis eram feitas pelo presidente e não pelo Legislativo; João espantava-se, Lefú balançava a cabeça, Anie daria de ombros se ainda estivesse viva e Petty latia. Ninguém entendia nada dessa lógica do poder.
Um ano depois do AI-5 ser implantado, quando os militares da América do norte iam à lua e o radinho tocava uma música do novo rei do Brasil, que os loucos cantavam aos gritos mandando tudo o mais para o inferno, João era enterrado no cemitério municipal.
O Almirante Negro estava finalmente morto.

Eloisa Helena Vieira Maranhão.

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