24 julho 2011

O corvo e a colcha de retalhos

“Pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela
janela, quem é ela, quem é ela,eu vejo tudo enquadrado,
remoto controle.” (Esquadros, Adriana Calcanhoto)


O corvo batia as asas, depois planava. Há tempos que não saía dali daquela região. Voava um pouco pra lá, um pouco pra cá, dava umas voltas, desaparecia de vista... quando parecia totalmente sumido, lá estava o corvo fazendo sombra de novo. De vez em quando soltava um grito ardido e profundo que ninguém ouvia. Ninguém, vírgula, pois o menino ouvia.
- Entrem logo, crianças, que vai chover! - as mães cuidadosas gritavam das portas das casas, limpando as mãos nas saias e camisetas; as mães já não usavam aventais desde que tinham deixado de ser apenas as domésticas dos maridos e dos filhos, mas ainda cozinhavam, lavavam, passavam, limpavam a casa, administravam o trabalho da empregada, economizavam água e energia elétrica, supervisionavam as lições escolares, levavam os filhos ao médico, dirigiam os carros da família, trabalhavam fora para ajudar no sustento da casa; mas pelo menos não usavam o símbolo da subserviência feminina, os famosos e repudiados aventais todo-sujo-de-ovo. Supremo avanço social (não usar mais o avental, claro).
Algumas crianças entravam, outras não. As crianças já não obedeciam como antes, quando uma voz de mãe chamando era uma ordem irrespondível e pra já. Mas ainda jogavam bola, andavam de bicicleta, skate, namoravam, faziam comentários sobre tudo e todos, trocavam segredos indizíveis para os adultos, escondendo seus tesouros materiais e psicológicos dos pais modernos, que se achavam os melhores amigos dos filhos.
O menino era o dos que sempre ficavam na rua, pelo menos mais um pouco, até a mãe berrar como uma surtada e ele ter que aparecer, sob ameaças de surras que nunca seriam dadas, castigos de uma semana dentro de casa, que ele cumpriria só as primeiras três ou quatro horas, ficar sem sobremesa, coisa absurda, pois era a única coisa que ele comia (e se a sobremesa era o prato principal, então ficar sem sobremesa era impossível), ser deserdado, coisa inimaginável, pois não havia mesmo o que herdar, e além disso o menino sabia muito bem que na lei brasileira não havia deserção testamentária por motivos fúteis. Portanto ficava na rua o quanto achava que lhe convinha, e não se fala mais nisso, por favor.
Mas muitas vezes entrava antes de todos, escondendo-se debaixo da cama, ou em cima dela, sob o edredom (ele usava edredom e não cobertor de lã, que lhe dava alergia. Sei que não tem relevância nenhuma um detalhe desses numa história verídica como essa, mas também não posso deixar de contar o que sei sobre as coisas. Portanto, tenham paciência comigo, ao menos dessa vez). O que importa é por que ele entrava antes de todos, antes de ser chamado pela primeira vez, antes das ameaças e berros da segunda, antes da chuva chover (ou não, que nem sempre tinha chuva). Ele costumava entrar e se esconder quando sentia a sombra do corvo, ou o ouvia grasnar.
O menino vivia e dormia normalmente, estudava (ou ia à escola), brincava, inventava artes, batia nos irmãos, apanhava deles, deitava-se no colo da mãe, no do pai, dizia que sua vida era um inferno e que ia fugir de casa logo que desse, planejava um futuro sem pais nem irmãos nem escola nem encheção de tipo algum, e enquanto planejava o futuro, a vida ia acontecendo (essa é do Lenon, perdoem o plágio descarado). A vida e o corvo, que estava sempre lá, no alto, lançando sua sombra funesta, assombrando a vida do menino. Ele não sabia exatamente quando começara a perceber que o corvo estava lá, mas sabia que fazia muito tempo, e que nem se lembrava de alguma época em que tinha vivido sem aquela sombra dentro de si. Não se lembrava, por exemplo, de alguma festa de aniversário, na hora de cortar o bolo, em que ele estivesse completamente despreocupado, e não sentisse uma sombra sobre seu desejo. Pedia as coisas mais básicas para cada ano que ia completando, como ganhar um mini-bug, ou o melhor videogame do mundo (aquele que ainda ia sair, deixando todos os colegas cheios de inveja), pedia para ser o melhor jogador de futebol do Universo (quando o Ronaldinho estava em alta), ou o melhor de tênis, quando a alta era o Guga, desejava ter letra bonita e escrever rápido, para que a professora não o recriminasse mais, nem o largasse abandonado no meio dos ditados, e num ano lá, de que nem se lembrava mais, pediu que os pais não se separassem, deviam estar brigando muito os dois. Mas sempre se lembrava da sensação que jazia por trás (ou por baixo? Jazidos costumam ser por baixo dos vivos), se lembrava da sombra do corvo e de seu grasnido, empesteando o desejo, a festa e a vida. Era só uma sensação de fundo. Mas era. E como era.
Conforme crescia, a sombra pareceu dissipar-se, ir se esfiapando e desaparecer. O menino já não tinha a sensação de nublado de antes, já conseguia ver e aproveitar o sol, o corvo cada vez mais longe e mais fraco. Era bom sentir-se assim limpo de nuvens e sombras, um ser solar. Mesmo crescido o menino aproveitava essa sensação desanuviada. E já nem era mais menino. Nem sei por que continuo chamando-o assim.
Casou. Teve filhos. Trabalhava. (Não interessa em quê. Ô gente curiosa!)
Cada opção que fazia na vida, sentia que perdia outras tantas. Quando decidiu, por exemplo, estudar jornalismo, notou com tristeza que deixou de ser artista, cientista, comerciante, poeta, financista, advogado, político, médico e tantas outras coisas que poderia e gostaria de ser. Quando se casou com Maria, sentiu que deixava de se casar com Débora, Rita, Carolina, Miriam, Deise, Márcia, Regina, Ana e tantas outras que cruzaram e cruzariam seu caminho, sem poder ser dele, e ele delas. Mas a vida era assim mesmo, racionalizava ele, e levava adiante seus caminhos cada vez mais afunilados e com menos opções, conforme o tempo passava e ele decidia coisas e coisas.
Jornalismo lhe pareceu uma boa escolha, já que gostava de escrever, era curioso e dessa maneira poderia ver mais e melhor o que acontecia nas outras vidas, sem precisar de binóculos na janela do apartamento. Podia experimentar a diversidade, com sua profissão, pois uma profissão rotineira não se encaixaria em sua personalidade sedenta de extravagâncias. Após as reportagens ou entrevistas, quando se sentava para digitar o texto, sentia-se excitado, remexido, com uma sensação boa de saída da rotina, de mundo sendo revolvido, uma sensação de que transtornos são possíveis... e desejáveis. Como quando num movimento das mulheres, que ele foi chamado a cobrir, dia de passeata das mulheres do mundo (uni-vos!), distribuindo pães e rosas, contra a fome e pelo não à violência... enquanto entrevistava as mulheres pensava que os homens devem estar gordinhos e em paz para não participarem.
Evidente que sendo tão agitado e extravagante ele tivesse dificuldade para dormir e relaxar. Quando isso acontecia, relia rapidamente os Cem Anos de Solidão... não que García Márquez seja relaxante e soporífero, mas por que não há melhor que ele pra fazer sentir que a vida dá voltas, e nunca... eu disse (eu e ele também, ele, não Garcia Márquez, mas o menino, que já não era menino. Hora de batizar o ex-menino. Fica sendo Júlio. Nome de jornalista. Não tomem como homenagem ao do grande jornal da burguesia, é homenagem ao de Grammont), pois eu e Júlio estávamos dizendo que exatamente nunca a vida deve ser levada a sério, e que García Márquez estimula nossos brios existencialistas... O menino (deixem-no menino, vai, que homens, por mais que cresçam, nunca crescem exatamente quanto deveriam ou poderiam), gostava do começo do livro, “o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com os dedos...” Júlio gostava de pensar no mundo quando era recente e fresquinho, saído do forno primevo, e as coisas eram poucas, e simples, e dava pra apontar todas, antes do estúpido do Adão verbalizar e sair pondo nomes em tudo, obviamente ajudado pela Eva, que mulher sempre é melhor nisso de falar demais e dar nomes aos bois, tanto que levaram a fama per sæcula sæculorum, ad æternitatum, apesar de seus 3 bilhões de neurônios a menos... Ele gostava de viver nesse mundo primordial que não parava de chover, muito antes dos Gilgameshs, Adões, Liliths e Evas, esse mundo atávico que o enchia de saudades de quando boiávamos no caldo primitivo e não sentíamos essa necessidade de afirmar a vida a cada minuto... pois viver era existir, só existir (essa é do Fernando Pessoa, meu deus, não consigo mais escrever sem plagiar)... Sentia saudades do admirável mundo velho (caralho, até Aldous Huxley saiu da tumba pra apavorar meu texto), tinha nostalgias de boiar, flutuar, ser ventado e chovido, e nem precisar se osmorregular, por que aqueles mares... ah, aqueles mares primordiais cheios de amônia eram tão parecidos conosco, com nosso meio interno... Nesses dias de passeatas, greves, manifestações, reportagens especiais, Júlio se sentia excitadamente biológico, citológico, fisiológico... sentia cada célula de si, uni-vos, células, que jamais serão vencidas, derrubam a ditadura, é isso?... não lembrava mais... faz tanto tempo que o povo na rua jamais seria vencido, e que trabalhadores unidos derrubariam a dita, e/ou vice-versa, que dá na mesma, faz tanto tempo isso, e a memória de fatos antigos dele estava meio prejudicada... só se lembrava de lembranças atávicas, as ancestrais mais primitivas, que essas são mais vívidas em nosso corpo, e não precisamos de memória cerebral recente nem antiga pra elas...
Mas mais que o início dos Cem Anos, ele nunca se esquecia do fim, que dor de Aureliano Babilonia sozinho no mundo, Aureliano desamparado num quarto de Macondo, só ele e as formigas ruivas de rapina, que cruel García Márquez com esse pobrinho, que teve que ler e perceber e descortinar a vida, deixasse-o na ignorância, morto ventado sem conhecimentos inúteis... (pra que conhecer, se conhecimento é pura dor, mas como não conhecer, se é também puro prazer? Essa é minha, sou o máximo). Érico Veríssimo já sabia que noite de ventos é noite de mortos, andando por dentro de nós, entrando pelas frestas das janelas e por baixo das portas, mas o gaúcho não vem ao caso aqui, ou vem, justamente por que é latino-americano sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior, como Júlio, Belchior e Garcia Márquez?... “Então começou o vento, fraco, incipiente, cheio de vozes do passado, de murmúrios antigos, de suspiros de desenganos anteriores às nostalgias mais persistentes... e que tudo o que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, por que as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra”. Quando terminava pela enésima vez o livro, recitando-o quase de cor, então Júlio deixava o cansaço vencê-lo, e ia dormir. Solidão dá um sono profundo.
Além de ser jornalista para viver as vidas alheias sem culpa e ainda ganhando pra isso, Júlio gostava do jornalismo para poder rasgar o verbo. Ele adorava rasgar verbos, substantivos, adjetivos, rasgar, cortar, picotar, mas o melhor mesmo era estraçalhar as palavras, de qualquer classe gramatical que fossem. Era um prazer ver as palavrinhas tão inocentes acabarem destroçadas, exaustas, lânguidas, como as mulheres depois do sexo bem feito, e, como elas, tão cheias de energia, mesmo que parecendo repousar.
Era um apaixonado, o Júlio. Daqueles intensos, que suam emoções. Mas só internamente, pois anos de treinamento próprio fizeram com que ele não as deixasse transparecer; quem o olhasse pacato, sentado na mesa, escrevendo, lendo, conversando, imaginaria que era o rei do sossego, o imperador da tranqüilidade, um D. Pedro II, em seus tempos de fim do Império e da vida, quando dormia e babava no meio das reuniões de Estado. Júlio era, não, vulcão pronto a entrar em erupção não, que metáfora mais vagabunda, Júlio era um soterrado vivo nos escombros, que se mantinha respirando devagar, guardando energias, mantendo as aparências de normalidade para quando realmente valesse a pena mostrar sua intensidade. Um dia mostraria, se não fosse tarde nem fora de propósito demais. A sombra do corvo ensinara isso a ele: que precisava resguardar-se para o dia. Aquele dia que iria exigir dele todas suas energias. Evidente que ele não sabia disso, não racionalmente, quando seria, nem que tipo de dia, nem nada a respeito. Mas seria. E ele soterrou-se, esperando.
Mesmo casado continuava apaixonando-se por outras. Mas era leal demais e amava demais a mulher, também, para ter coragem de traí-la. Partia do princípio que casamento é casamento, paixão passa, amor fica, ou se constrói, e que com qualquer uma seria a mesma coisa. Acomodou-se, portanto, um comodismo que satisfazia aos interesses de ambos. Resolvia sua necessidade de paixão amando virtualmente.
Bendita Internet! Que lhe dava a possibilidade de múltiplos e renovados amores sem os desconfortos dos amores reais, os de carne, osso, pele, sangue, saliva, sêmen e lágrimas, os que exigiam dele mais do que ele se sentia capaz de dar de si mesmo.  Sentia que as relações virtuais eram etéreas, quiméricas, impalpáveis, mas nem por isso menos verdadeiras, intensas e nobres que as consideradas reais, e ele nunca contava para ninguém, menos ainda para a mulher, que talvez até entendesse essa necessidade do companheiro, mas Júlio pensava que há dores e sentimentos que são nossos, pessoais e intransferíveis, para serem sentidos e trabalhados por nós, apenas... e que não tinha sentido aliviar a angústia sobre o outro, pelo menos o outro tão próximo e envolvido conosco.
Quando estava muito dividido (mais que o seu normal, que o normal ele já sabia administrar), dividido entre o racional e o passional, entre o cotidiano entediante e sufocante e a fantasia libertadora (ou aprisionadora?), o conhecido-seguro-confortável e o novo-sem-adjetivos (já que é desconhecido, e por isso mesmo fica difícil de adjetivar); quando se sentia assim encurralado por si mesmo, ele costumava, em outras épocas de sua vida, dar pinotes e fazer mudanças escabrosas, que assustava a todos. Mas depois de um tempo do treino intensivo ele aprendeu a não mexer em praticamente nada do seu real... perdeu a vontade de destruir o que havia levado anos construindo, acostumando-se com o que a vida podia realmente ser, e aprendeu a viver suas “virtualidades” e desaguá-las (quando se tornavam insuportáveis) na escrita... viver a arte em si. Mesmo assim, às vezes ainda ficava um gosto de “é pouco, quero mais, quero mergulhar e não ficar boiando nesse limbo do virtual-literário”... mas essa sensação acabava passando, e ele agradecia por ter suportado sem rompimentos que talvez o fizessem sofrer, e aos que amava, mais do que a conservação. Mas isso foi até o corvo reaparecer com força total. Esqueçamos o corvo por enquanto, que ainda não chegou a hora dele.
Entretanto, apesar de competente e fazer um trabalho de sucesso, Júlio vivia sentindo momentos de insatisfação e incompletude, e quando resolvia ser sincero até a dor (é isso a honestidade total - aquela de doer até onde dá, até onde precisa), tinha que assumir que nunca se sentiu satisfeito nem completo totalmente. Vivia partes da vida, com partes de si nos momentos, e um pedaço mais profundo de si mesmo estava sempre se escondendo do corvo, e ao mesmo tempo esperando pela ave sinistra.
Ele sabia que era só, agudamente só onde ou com quem estivesse, mas também sabia que nunca estava sozinho inteiramente, pois que fazia parte de um todo, e todos faziam parte de si. Quando, por exemplo, cobria guerras ou hecatombes naturais, vendo coisas geralmente inimagináveis ou ininteligíveis, essa sensação de empatia com o mundo voltava mais forte nele. Sentia em si as dores alheias, as que aquelas populações e pessoas desconhecidas sofriam no corpo, as mortes, as feridas, as doenças sem cura, as perdas e abandonos, o desamparo, o olhar que se desviava da câmera por que a dor era por demais intensa para ser flagrada e entendida por qualquer outro olho. Então Júlio sentava-se para escrever, sozinho, sem música, por que nada podia aliviar a extrema tragédia de se ser humano e impotente, e recusava-se também a beber, pois não queria consolo nem esquecimento. Não existia para ele o que as pessoas chamam de “superar” problemas... Júlio não superava nada, nem perdoava, deixava passar, sim, por que outro jeito não tem, mas seqüelas e lembranças, essas ficavam, e ficavam por tempo demais... até que deixavam de doer, mas existiram...e doeram... O que é superar?
Queria sangrar até morrer de hemorragia, mas isso quando era mais novo e sofria menos. Quando percebeu que as dores tinham se acumulado quase ao insuportável, então deu meia volta e passou a rir-se de tudo, de todos, principalmente de si mesmo, e a tentar minimizar as dores. Tornou-se seu próprio bufão, dançando na frente do espelho, fazendo malabarismos com as próprias emoções, para conseguir chegar ao fim, ou onde fosse o mais longe possível. Decidiu não sentir mais. E quando alguém lhe dizia, percebendo isso dentro dele, "quanto sofrimento você carrega, Júlio", ele se esquivava, irônico, e dizia "sofrimento quem carrega são os outros, eu até que vivo bem demais".
Aprendeu também a não julgar e sim aceitar e agasalhar, pois tinha entendido o que é ser humano... Há dores que endurecem, enrijecem, mas outras que nos tornam mais doces; as de Júlio eram desse tipo, de dar flexibilidade e compreensão pela dor alheia; tinha entendido que ser humano é ser só, profunda e dolorosamente só, e tentar nos encontrar no Outro... que é sentir a solidão de se saber desamparado no Universo, de saber que não há deus nenhum em lugar algum ... solidão que ele fingia não ver, não sentir, como aqueles macaquinhos que fecham os olhos, a boca, tapam os ouvidos, achando que dava para fechar a sensibilidade... Pensava na humanidade como uma colcha de retalhos, formada por peças de várias cores, formas, tamanhos, texturas, tons e sons, e se sentia assim, alma fragmentada em muitas outras pessoas, encontrando pedaços da sua "alma gêmea" em cada uma delas, em cada uma como você, que me lê e também conhece o sabor de ser retalho... Queria também ser sentido como um fragmento de cada pessoa, de cada ser sensível e doído que cruzava seus caminhos, atalhos ou desvios, e poder ser bálsamo... Júlio sabia que dores a vida já nos dá um bocado e não queria ser ele a acrescentar sofrimentos a mais ninguém... Quanto às próprias dores e sofrimentos só sabia calar-se, até que percebeu que era melhor lavá-las, alisar seu coração, lamber sua própria alma, pegar-se no colo e caminhar em frente.
Andava pelas ruas das cidades devastadas consigo mesmo no colo, e era uma cena impressionante, para quem a pudesse enxergar.
Sabia que o resto ia passar, que tudo passa, como a uva, e que viver era encontrar os retalhos e costurar nossa colcha, até que chega o dia em que, pronta ou não, nossa colcha nos agasalhará finalmente como mortalha... Mas enquanto isso não acontecia, queria que fosse colorida, e linda, e que abrigasse e protegesse a quem tivesse necessidade... como um prato de sopa quente, um naco de pão fresquinho, um copo de vinho, palavras boas de se ouvir e um abraço muito aconchegante. Nem todos percebiam isso nele, nem ele próprio sempre estava disposto a sê-lo, mas era assim que pensava e tentava viver.
Gostava muito de ler, que lá encontrava o consolo ou a fuga indispensáveis para manter-se vivo e atento; Júlio conhecia muito bem o gosto de vida incompleta, de querer luz, e sol, e chuva torrencial, e ventos de tempestades...e o tormento que isso tudo traz. Conhecia e sentia prazer de viver, mesmo que viver fosse andar equilibrando-se na linha invisível e frágil da sanidade mental. Comprava e ganhava livros que colocava na estante, bem enfileirados (lá na estação bem de manhãzinha...chega o trenzinho...), um atrás do outro, dois depois do um, o próximo logo adiante, numa ordem inventada, de quem ordena a vida por necessidade...coisa mais tristinha, livros enfileirados na estante, você ter lido quase todos (que tem coisas impossíveis de se ler além das primeiras e esforçadas páginas...e esses ficam lá, também, na estante, mas não entram, que não merecem). Quando a sombra do corvo era escura demais, ele alisava os livros, olhava as lombadas coloridas e desniveladas de tamanho, fingia que tudo estava em ordem como sua biblioteca e sentia que ainda haveria salvação enquanto a humanidade produzisse poesias e histórias, de consolo ou de pavor, não importava, mas produzisse coisas que nos tirassem de nós e nos lançassem de volta a nós mesmos.
Com o tempo, aprendeu a gostar de encontrar suas almas gêmeas que andam por aí, os retalhos de sua alma antepassada, aquela que, não sabia por quais motivos, se fragmentou pelo universo... devia ter ficado una, íntegra, a alma, não Júlio que nunca o foi; mas a pobrinha passou pela peneira das vidas e foi ralada... virou farinha... Aliás, nesses momentos de espelho existencial, farinha iria muito bem, cocaína, qualquer coisa do gênero, mas nem isso servia para ele, nem isso servia para abrandar, que era exigente demais para esses consolos fáceis. Um caso perdido, nosso Júlio, ralado, fragmentado, desordenado, largado num mundo no qual não se sentia em casa.
Júlio cantava, transava, trabalhava, escrevia, lia poesias, assistia filmes para tentar minorar a sensação de abandono, de desamparo, de dor pela solidão, solidão que nunca poderá ser partilhada, mas apenas aliviada quando olhamos nos olhos de alguém e nos percebemos lá, notamos que a famosa “miséria humana” é compartilhada por toda a espécie, e que a saída pra miséria também o é... Ele era do tempo em que solidariedade, beijos, abraços e colo curavam qualquer dor... dos tempos em que cantávamos a Internacional e sentíamos arrepios, nós que amávamos tanto a revolução... e esperávamos a era de aquário pra sarar nossa miséria... ô dó do que nunca seremos, ele sentia nessas horas, saudálgico das utopias que agasalhamos, do futuro que não provamos. Mas como utopias, saudades e nostalgias não enchem barriga e, além disso, dão rugas, ele superava tudo isso e ia em frente.
Era a única coisa que "superava" na vida, os momentos em que o corvo estendia suas asas negras sobre a colcha de retalhos que Júlio tentava costurar com tanto empenho e dificuldade.
Júlio sobrevivia, e sabia disso. Sabia que não renunciava por vontade própria, e ia em frente por vontades outras que não apenas a sua; mantinha-se à tona, nadando quando podia e boiando quando nadar era difícil demais.
Foi então que precisou trabalhar na grande capital do mundo, a Meca da civilização ocidental, New York. Tinha uma reportagem pra fazer, e foi. Tomava uísque com seu chefe, o que o havia contratado, comemorando o trabalho que começaria na próxima semana, olhando a torre ao lado; gostava das torres gêmeas, eriçadas no meio das nuvens. Quando as nuvens estavam baixas ele costumava olhar de longe, do continente, e pensar na Babel primitiva, a que nunca terminou de ser construída.
Viu quando um avião veio de encontro à torre, a outra, chocando-se contra ela. Ouviu o estrondo, notou a fumaça, começou a descer correndo, procurando uma saída. Não deu tempo. Sua torre também foi atingida e ruiu, e Júlio percebeu-se soterrado.
Podia ouvir os gritos, os gemidos, os mortos chorando. Podia imaginar as famílias se lamentando, e os uivos de dor e revolta. Sentia-se num mar de corpos destroçados, braços, pernas, cabeças, tripas espalhadas, sangue, poeira, ruínas de tudo que muitos tinham sido e queriam continuar sendo.
Percebeu, então, sem espanto algum, que estava na sombra, que o corvo tinha voltado, e planava sobre a ilha.
Lembrou-se da revolução em El Salvador, e havia crianças, uns moleques que corriam sob as asas dos aviões norte-americanos que bombardeavam San Salvador; era a brincadeira deles, correr sob os aviões, no ângulo cego, pra não serem atingidos pelos morteiros... podia perceber a excitação das crianças, a adrenalina bombeada, o medo desejado e insuperável, que só podia ser vencido pelo enfrentamento, olhando o medo nos olhos, mas nunca fugindo dele.
Lembrou-se também da Guerra do Golfo, que filmava de longe, com uma objetiva, os bombardeios assépticos (para quem não estava embaixo das bombas), coloridos, iluminando as noites, as mil e uma noites da Pérsia, exterminando Sheerazade e seu harém, derrubando Aladim de seu tapete, arrebentando a lâmpada mágica em pedacinhos que nunca mais dariam pra ser reconstituídos, tornando o gênio num aleijado, sem pernas nem braços, o turbante imundo de sangue e poeira dos entulhos; Júlio podia sentir, já que o mundo não viu, ninguém viu, por que não era pra ser visto nem sentido, a dor dos corpos feridos, o sangue correndo, os membros arrancados, os cabelos e pele em chamas, a falta de ar, a respiração difícil, a morte lenta de milhares, sepultados junto com os sete véus que encobriam sua cultura para nós, ocidentais.
Lembrou-se que o ataque nuclear a Hiroshima tinha sido exatamente às 8 horas, 16 minutos e 2 segundos, nunca havia esquecido aquele relógio tirado dos escombros e exposto no museu da cidade destruída pelos norte-americanos dispostos a acabar definitivamente com a guerra, e que serviu apenas pra começar a outra, a fria, calculista; olhou para o relógio que trazia no pulso, mas estava escuro demais para poder enxergar as horas. Lembrou-se de quando era adolescente, e havia treinado para tentar entender os cegos; passara um mês de férias com os olhos vendados, sem tirar nunca a venda, para sentir exatamente essa experiência... Voltou a sentir, então, a sensação de insegurança que sentiu na época, de dependência, de que era frágil e o máximo que podia fazer era tentar sobreviver como pudesse, num mundo muitas vezes inimigo de seu corpo. Sentiu o celular no bolso, e ligou para o último número discado, repetindo baixinho: estou vivo, estou vivo, estou vivo, tirem-me daqui. Falava em português, até que se lembrou de onde estava, e começou a pedir socorro em inglês, a língua universal, e o socorro nunca vinha. Quanto tempo a bateria iria agüentar?
Não sabia se era uma nova guerra em andamento, se a cidade ao seu redor estava destruída, se ainda sobravam pessoas que pudessem ajudá-lo, ou se, acaso saísse dali, não encontraria o mundo acabado; não sabia o que havia acontecido, mas apenas que estava entre os destroços da torre desabada. Pensou que talvez fosse o fim, fim inglório como todos os outros, morrer aos poucos sem água, sem ar, ver a vida sair lentamente de si, perder a consciência e não saber mais nada.
Então Júlio ouviu novamente o grasnado do corvo; ouviu mais clara e agudamente que nunca a ave gritando, e soube que aquela era a hora para a qual havia se poupado a vida inteira. O corvo esganiçado o fez voltar a sentir a exata proporção do que é o horror... fez o horror sair se sacudindo do meio dos entulhos que o haviam sufocado a vida inteira e se instalar no seu preciso lugar: bem no centro de si, onde não pudesse mais ser ignorado.
Não havia ar algum ali, mas Júlio sentiu frio, o frio gelado trazido pelo corvo, que era a anunciação do horror, que não nos deixa esquecer que o horror sempre esteve presente entre nós, e que a qualquer hora pode sair do controle. Ou do pretenso controle que pensamos ter.
O menino sentiu um tremor, uma angústia, o medo, chamou a mãe, a mulher, os filhos, e ninguém respondeu. Sua mulher e filhos choravam e rezavam do outro lado do equador, vendo as cenas na televisão, sem sabê-lo ali embaixo, e nunca saberiam, apenas poderiam presumir mais tarde. Desejavam vingança, junto com a maioria da população, apoiariam qualquer medida drástica que vingasse aquelas mortes inúteis e covardes, mas que não tinham dono, não tinham responsáveis, ninguém sabia exatamente quem foi. Eram responsabilidade de todos nós, da humanidade, como todas as outras desse tipo. Plantamos o terror nos jardins, regamos e deixamos crescer no meio das outras ervas, e agora não sabíamos o que fazer quando ele estrangulava e envenenava a terra.
Júlio desejou que, se fosse outra guerra, esta acabasse logo, e que os filhos, seus e dos outros, de todos os outros povos, sobrevivessem, para continuar a escrever poesias e histórias, de consolo ou de pavor, não importava, mas produzissem coisas que nos tirassem de nós e nos lançassem de volta a nós mesmos. Sentiu uma grande, imensa dó de que tudo se acabasse como ele, nos escombros, enterrado e sem testemunhas. Pensou que, se tivesse outra chance, se não fosse das estirpes condenadas a cem anos de solidão, e pudesse recomeçar, faria tudo diferente desta vez, mesmo que fosse apenas para viver outra vida das mil possíveis que havia deixado de viver quando optara pela sua.
O corvo estendeu as asas, ensombreceu o mundo e não grasnou mais. Júlio enrolou-se em sua colcha, que estava, finalmente, pronta.

O menino e o mico-leão dourado

Chovia na floresta. Chuva primal, águas estrondosas, que tudo lavavam e tudo enlameavam quando revolviam o solo; as grossas cortinas de água remexiam galhos, folhas, restos de animais em decomposição, desenterrando e expondo as camadas mais superficiais do solo... lavando e purificando, arrastando pros rios, limpando a floresta da poeira e da podridão.
Nessas horas o mico-leão dourado escondia-se embaixo das folhas maiores, tentando escapar de ser carregado pelas águas e de ficar muito encharcado; agarrava-se nos galhos da árvore que era seu refúgio, com os olhos muito abertos que só piscavam a cada raio e trovão; seus pelos respingados iam ficando mais pesados, e caíam em franja úmida sobre os olhos espertos. Seu medo, único, era cair das árvores onde dependurava-se com graça, e pra isso usava a acuidade dos olhos e a agilidade das mãos, pequenas e firmes, agarrando-se a cada vôo nos galhos já pré-escolhidos para esse fim.
O menino olhava para cima, fascinado pelo vôo do mico-leão... as aves também voavam, e com muito mais liberdade; mas o menino gostava mesmo era de ver o vôo do pequeno primata, os pelos avermelhados brilhando ao sol, dourados como as castanhas que ele assava nas fogueiras, os braços e pernas abertos no ar, como um pequeno tapete persa, e o menino se sentia Aladim vendo o macaquinho planando até pousar na outra árvore.
Sentia uma espécie de êxtase da imponderabilidade naqueles raios de luz do topo da floresta... doía-lhe o estômago, como um orgasmo contido, as nostálgicas reminiscências dos dias que havia passado nos galhos altos, e lembrava em cada célula de seu corpo o medo e o prazer de seus ancestrais nas florestas e savanas africanas. Ouvia os guinchos que haviam dado quando conseguiam agarrar-se no outro lado, e os gemidos no chão, nas quedas em que tinham seus ossos esmigalhados, o sangue quente e doce na boca, a escuridão em pleno sol do meio-dia. E o nada.
O menino se sentava em alguma clareira, ajeitando o húmus do chão com as mãos, deitava-se e ficava olhando o mico-leão nos galhos... havia muitos, de cores e dourados tão parecidos, mas ele sabia que era aquele o seu mico, era aquele especial, e nenhum outro lhe enganaria; era aquele que ele amava, e sentia-se amado por ele também. E isso lhe bastava por hora.
Na hora em que o sol se escondia e o menino deitava em sua cama, sentindo o calor deixado pelo fogão a lenha... naquela hora aquietava-se, ouvindo o fogo que crepitava, os pios das corujas, o coaxar dos sapos, cigarras arrebentando-se de cantar... a música dos  índios lá longe... naquela hora em que tudo parece em paz, e uma melancolia pesada descia junto com a névoa lá de fora, o menino se lembrava do mico-leão... revisava em sua memória cada gesto, cada passo, cada careta, cada guincho... e cada um se revestia de significados ocultos, povoando os sonhos do menino... decidiu que voltaria a ser macaco, que seu futuro era seu passado mais ancestral, que voltaria a ser como seus tataravós.
Inventava sons e palavras guturais que só ele conhecia e entendia, deixando os pais encabulados com aquilo... que será que deu nesse menino, de só andar pelado e gritando como macaco em volta da casa?
Começou a subir nas árvores, pulava cuidadosamente de galho em galho, tentando reviver em si os gestos primitivos que já não sabia mais; recusou-se a cortar os cabelos, as unhas, e passava cada vez mais tempo na floresta... aprendeu a comer seus frutos sem cozê-los, trepado nas árvores mais altas, jogando as cascas e restos lá de cima, rindo-se muito quando acertava em alguém... com o tempo deixou de dormir em casa... preferia o alto das árvores mais encorpadas, procurava espaços amplos que acolhessem seu corpo quando cansado... tentava seduzir os outros primatas, achegando-se a eles aos poucos... aprendeu a paciência, tinha todo o tempo do universo para se reaprender a ser... mas seu olhar ainda buscava o do seu mico-leão, aquele que despertara nele o desejo atávico e sua memória mais profunda, aquilo que era realmente lá naquele fundo no fundo...queria desesperadamente um olhar do seu mico, ser compreendido pelo bichinho... e por mais que demorasse, ele sabia que era só questão de tempo... esperava, portanto.
Já não chovia há meses... a floresta parecia queimar soltando fumaças... as folhas iam se avermelhando, alaranjando, amarelecendo... os animais aproximavam-se mais e por mais tempo dos rios, mesmo que lamacentos, mesmo que mais rasos, mesmo que... num desses dias de fogo nos olhos e ardido na pele, o menino intuiu que seu mico olharia para ele... deitou-se no solo ressecado e aguardou, esperou com a perseverança que havia aprendido com os que não têm o que fazer nem esperar... o mico pulava, guinchava, até que olhou para seu menino... desviou os olhos do galho na árvore seguinte, e encarou... profundamente... os olhos do menino... franziu o cenho... arregalou seus olhinhos e pulou... enfeitiçado pela visão do futuro...
O menino recolheu o amigo em seus braços... apenas carregava estupefato o corpo do seu mico... sem lamentos... sem lamúrias, que já não havia o que ser feito... aliás... havia, sim... enquanto andava decidiu enterrar o bichinho tão amado... com as próprias mãos abriu uma cova no chão da floresta... não queria instrumentos... eram excesso, nessa hora... somente seu corpo e o do animal, seu passado e o futuro dele, ali, enterrados...
Enquanto enterrava seu mico o menino se abriu e cantou todas as canções que sabia... soltou todos os sons que ecoavam dentro dele... os guinchos, os sons guturais, as palavras articuladas, até que se foram transformando em músicas... os outros primatas foram se aproximando dali, enquanto o sol se punha... sombras... hora da penumbra...
O menino sentou-se esgotado no chão... a solidão ancestral desabou como rochedo sobre ele... sentiu-se completamente doente e esvaziado... inventou que Deus existia... e ajoelhado orou.