24 julho 2011

O menino e o mico-leão dourado

Chovia na floresta. Chuva primal, águas estrondosas, que tudo lavavam e tudo enlameavam quando revolviam o solo; as grossas cortinas de água remexiam galhos, folhas, restos de animais em decomposição, desenterrando e expondo as camadas mais superficiais do solo... lavando e purificando, arrastando pros rios, limpando a floresta da poeira e da podridão.
Nessas horas o mico-leão dourado escondia-se embaixo das folhas maiores, tentando escapar de ser carregado pelas águas e de ficar muito encharcado; agarrava-se nos galhos da árvore que era seu refúgio, com os olhos muito abertos que só piscavam a cada raio e trovão; seus pelos respingados iam ficando mais pesados, e caíam em franja úmida sobre os olhos espertos. Seu medo, único, era cair das árvores onde dependurava-se com graça, e pra isso usava a acuidade dos olhos e a agilidade das mãos, pequenas e firmes, agarrando-se a cada vôo nos galhos já pré-escolhidos para esse fim.
O menino olhava para cima, fascinado pelo vôo do mico-leão... as aves também voavam, e com muito mais liberdade; mas o menino gostava mesmo era de ver o vôo do pequeno primata, os pelos avermelhados brilhando ao sol, dourados como as castanhas que ele assava nas fogueiras, os braços e pernas abertos no ar, como um pequeno tapete persa, e o menino se sentia Aladim vendo o macaquinho planando até pousar na outra árvore.
Sentia uma espécie de êxtase da imponderabilidade naqueles raios de luz do topo da floresta... doía-lhe o estômago, como um orgasmo contido, as nostálgicas reminiscências dos dias que havia passado nos galhos altos, e lembrava em cada célula de seu corpo o medo e o prazer de seus ancestrais nas florestas e savanas africanas. Ouvia os guinchos que haviam dado quando conseguiam agarrar-se no outro lado, e os gemidos no chão, nas quedas em que tinham seus ossos esmigalhados, o sangue quente e doce na boca, a escuridão em pleno sol do meio-dia. E o nada.
O menino se sentava em alguma clareira, ajeitando o húmus do chão com as mãos, deitava-se e ficava olhando o mico-leão nos galhos... havia muitos, de cores e dourados tão parecidos, mas ele sabia que era aquele o seu mico, era aquele especial, e nenhum outro lhe enganaria; era aquele que ele amava, e sentia-se amado por ele também. E isso lhe bastava por hora.
Na hora em que o sol se escondia e o menino deitava em sua cama, sentindo o calor deixado pelo fogão a lenha... naquela hora aquietava-se, ouvindo o fogo que crepitava, os pios das corujas, o coaxar dos sapos, cigarras arrebentando-se de cantar... a música dos  índios lá longe... naquela hora em que tudo parece em paz, e uma melancolia pesada descia junto com a névoa lá de fora, o menino se lembrava do mico-leão... revisava em sua memória cada gesto, cada passo, cada careta, cada guincho... e cada um se revestia de significados ocultos, povoando os sonhos do menino... decidiu que voltaria a ser macaco, que seu futuro era seu passado mais ancestral, que voltaria a ser como seus tataravós.
Inventava sons e palavras guturais que só ele conhecia e entendia, deixando os pais encabulados com aquilo... que será que deu nesse menino, de só andar pelado e gritando como macaco em volta da casa?
Começou a subir nas árvores, pulava cuidadosamente de galho em galho, tentando reviver em si os gestos primitivos que já não sabia mais; recusou-se a cortar os cabelos, as unhas, e passava cada vez mais tempo na floresta... aprendeu a comer seus frutos sem cozê-los, trepado nas árvores mais altas, jogando as cascas e restos lá de cima, rindo-se muito quando acertava em alguém... com o tempo deixou de dormir em casa... preferia o alto das árvores mais encorpadas, procurava espaços amplos que acolhessem seu corpo quando cansado... tentava seduzir os outros primatas, achegando-se a eles aos poucos... aprendeu a paciência, tinha todo o tempo do universo para se reaprender a ser... mas seu olhar ainda buscava o do seu mico-leão, aquele que despertara nele o desejo atávico e sua memória mais profunda, aquilo que era realmente lá naquele fundo no fundo...queria desesperadamente um olhar do seu mico, ser compreendido pelo bichinho... e por mais que demorasse, ele sabia que era só questão de tempo... esperava, portanto.
Já não chovia há meses... a floresta parecia queimar soltando fumaças... as folhas iam se avermelhando, alaranjando, amarelecendo... os animais aproximavam-se mais e por mais tempo dos rios, mesmo que lamacentos, mesmo que mais rasos, mesmo que... num desses dias de fogo nos olhos e ardido na pele, o menino intuiu que seu mico olharia para ele... deitou-se no solo ressecado e aguardou, esperou com a perseverança que havia aprendido com os que não têm o que fazer nem esperar... o mico pulava, guinchava, até que olhou para seu menino... desviou os olhos do galho na árvore seguinte, e encarou... profundamente... os olhos do menino... franziu o cenho... arregalou seus olhinhos e pulou... enfeitiçado pela visão do futuro...
O menino recolheu o amigo em seus braços... apenas carregava estupefato o corpo do seu mico... sem lamentos... sem lamúrias, que já não havia o que ser feito... aliás... havia, sim... enquanto andava decidiu enterrar o bichinho tão amado... com as próprias mãos abriu uma cova no chão da floresta... não queria instrumentos... eram excesso, nessa hora... somente seu corpo e o do animal, seu passado e o futuro dele, ali, enterrados...
Enquanto enterrava seu mico o menino se abriu e cantou todas as canções que sabia... soltou todos os sons que ecoavam dentro dele... os guinchos, os sons guturais, as palavras articuladas, até que se foram transformando em músicas... os outros primatas foram se aproximando dali, enquanto o sol se punha... sombras... hora da penumbra...
O menino sentou-se esgotado no chão... a solidão ancestral desabou como rochedo sobre ele... sentiu-se completamente doente e esvaziado... inventou que Deus existia... e ajoelhado orou.

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