26 novembro 2011

Vôo cego


"Ah, que a miserável condição
da raça humana procurando o céu
levante a cabeça
e ao levantar, por encanto,
escorregue o seu véu"
(Oswaldo Montenegro, "Condor")

Olhar os pássaros voando sobre o vinho do mar era maravilhoso. Maravilhoso... cor de maravilha... maravilha... flor cor de vinho claro, cor do mar... ele sentia felicidade quando olhava as aves planando sobre as ondas do mar. Só muito mais tarde aprendeu a catalogar as sensações, chamando-as pelos nomes, como Adão fizera com o mundo recém-parido. Mas quando pomos nomes, duas coisas acontecem: nos apropriamos delas, as coisas se tornam dóceis, ovelhas de nosso rebanho, mas ao mesmo tempo deixam de ser fantásticas, perdem aquele sabor do desconhecido, do proibido; a domesticação das coisas, quando chamadas pelo nome, destrói a aura do sagrado. A palavra falada desenfeitiça. Quando conseguiu domesticar e entender suas sensações, Dédalo percebeu que havia perdido a parte selvagem de si mesmo. Havia assassinado uma parte dele próprio, como um suicídio dos instintos.

Mas isso não importava, esse suicídio dos instintos. O que importava eram as formas geométricas que o apaixonavam desde criança, quando ainda tão menino estudava com seus mestres. Os mestres interessavam-se mais pelo menino imberbe e alto, de pele lisa, voz fina, o jovem mancebo sério, de cabelos que caíam sobre os olhos quando se sentava para estudar, do que por aquilo que ensinavam. Já o interesse de Dédalo eram os desenhos, as equações matemáticas, os sons que tirava da lira e se relacionavam com os números, a música das esferas... e para continuar a aprender tudo aquilo ele aceitava sem reclamar os agrados dos mestres, suas mãos lúbricas que alisavam suas pernas e costas enquanto saciavam seus desejos nos meninos.

Só depois de adulto ele conseguiu entender por que os homens amavam mais aos meninos do que às mulheres, mas na adolescência ele ainda estranhava esse tipo de paixão, sentia-se até mesmo incomodado com os olhares que os filósofos e mestres lhe lançavam, antes de tocar seu corpo. Depois, quando entendeu tudo, percebia o mesmo incômodo nos olhos dos meninos, e se sentia constrangido. Decidiu-se, então, não se aproximar deles, e isso lhe granjeou fama de esquisito entre seus pares. Como um homem normal, de posse de seus instintos mais saudáveis, poderia não sentir atração por um corpo juvenil, de músculos se definindo, pele lisa, quase sem pelos, que não oferecia resistência, e, além de tudo, ainda o olhava com admiração? A admiração, para aquele tipo de homem intelectual e arrogante, desejoso de lisonja, era irresistível. Nada mais apaixonante que um olhar de admiração, e ouvidos sempre atentos. Principalmente vindo de corpos tão interessantes e jovens, tão iguais a si mesmos, quando jovens. O arrogante consegue amar apenas a si próprio.

Dédalo internou-se dentro de si, e vivia andando em círculos; foi nessa época que descobriu que criar labirintos era uma forma de conhecer-se, e sentia os labirintos em seu corpo, como se fosse feito de muitos deles em suas entranhas. Sentia as idéias se formarem dentro de sua cabeça, e imaginava que tinha um labirinto por trás dos ossos do crânio; sentia as emoções brotarem dentro do tronco, e imaginava que seu fígado era um labirinto onde elas rodavam até conseguirem encontrar a saída.

Começou a se apaixonar pelos labirintos quando viu pela primeira vez uma concha de um animal marinho, com aquelas curvas todas, reentrâncias, uma cruz no meio, de onde saíam linhas que se entrecruzavam e separavam, mas no fim levavam a um mesmo e só lugar. Elas seguiam uma seqüência, formavam uma espiral muito proporcional, que ele não sabia explicar, mas intuía.
Ele começou então a imaginar como seria se aquelas curvas fossem transformadas em retas, que desenhos formariam. Olhava os caracóis por dentro, e tentava desenhar na areia como seriam se retificados, e foi quando descobriu os labirintos. Passou então a inventar diversos tipos, de tamanhos variados, com jardins no centro ou amplos aposentos periféricos, cobertos ou abertos para o sol, com portas e janelas que davam para o nada. Depois passou a criar labirintos com andares, escadarias retas ou em espirais, e algumas não levavam a nada, enquanto outras subiam e desciam, e voltavam ao início ou se perdiam entre terraços e outros espaços infinitos. Os que mais gostava era dos que tinham uma espécie de patamar em algum lugar das curvas, e, deitado sobre o patamar, podia contemplar o céu escuro e contar as estrelas. Mesmo ao custo de algumas verrugas nos dedos, que depois sumiam.

Para ganhar a vida criava mansões sob encomenda, estruturava jardins com fontes e estátuas, desenhava canais e sistemas de irrigação para as plantações, ou inventava plantações em níveis, para que as águas das montanhas não arrancassem as raízes das plantas e as carregassem junto com a terra para os mares. Mas criar labirintos continuava a ser sua mania e seu hobby depois de adulto.

Ficou muito feliz, portanto, quando Minos, rei de Creta, convidou-o a criar um labirinto que encerrasse o monstro da cidade, na verdade uma prisão, que guardaria o Minotauro, mantendo-o vivo e satisfeito, enquanto esse guardava a reputação do reino.

Era um monstro especial, com cabeça de touro e corpo de homem, gerado nos currais da ilha, os imensos currais em que criavam todo tipo de touros, conforme os pedidos dos reis das ilhas com as quais negociavam; alguns queriam bons reprodutores, outros desejavam touros mansos que enfeitassem seus pastos e carregassem as crianças em seu dorso, ou vacas leiteiras que gerassem muitos bezerros; outros pediam touros bravos que guardassem suas terras e impedissem outros animais de se aproximarem.

Minos havia pedido aos criadores que cruzassem touros até conseguirem um que fosse espantosamente cruel em sua ferocidade, mas que ao mesmo tempo soubesse contra quem dirigir sua crueldade. Deveria saber escolher o objeto de seu ódio, numa fúria direcionada. O criador-chefe sorriu. O rei deseja um homem, não um touro. Mas como ordens são ordens, e a tecnologia serve a quem a sustenta, criou o Minotauro e manteve seu emprego bem remunerado.

Minos ficou feliz. De início visitava o estranho animal, que observava o rei com olhos agudos. Tão redondos, absurdamente pretos aqueles olhos pequenos e fixos. Mais tarde parou de entrar no labirinto, pois o bicho espreitava-o com olhos de sangue, e Minos sentia que não era querido por ele. O cheiro do poder tirânico incomodava o animal, de início, transformando-o em fera; a qualquer descuido destroçaria com prazer aquele rei e seu séquito, soldados tão bem armados, altos, fortes, empunhando espadas que usariam sem a menor cerimônia nem a mínima piedade, homens que nasceram como quaisquer outros, mas que aprenderam a obedecer e matar. E matar e obedecer é o que fariam até morrer, de uma forma ou de outra. E para cada déspota havia séquitos e séquitos de soldados, prontos a lutar e matar, por dinheiro ou prazer. Por que matar dava prazer, pelo menos do segundo em diante. A primeira morte trazia náuseas, dores na boca do estômago, dias e dias sem comer nem dormir direito, pesadelos e tristeza, geralmente camuflada de irritação e arrogância; depois ia se acostumando, voltava a comer e dormir normalmente após a morte; mais depois, ainda, acabava viciado, sem suportar viver sem sangue, como Lilith, desesperada, caçando nos desertos...

O sangue... Ah, o sangue, aquele vermelho grosso, aquele cheiro de ferrugem, a pele cada vez mais pálida, o corpo inerte... O sangue escorrendo despertava as sensações mais intensas e violentas, de quando corriam em bandos pelas savanas, tentando acuar e caçar um grande mamífero, e o cheiro do sangue excitava todos os sentidos, aplacava qualquer pensamento, até que só sobrava correr, matar, matar novamente, e novamente, e novamente, atrás daquela sensação absoluta de poder e paz que matar trazia. E nada como a paz da morte alheia, do sangue alheio, para acalmar a vergonha da subserviência, dos joelhos dobrados, da espinha curva. Matar era bom e necessário, para quem se sabe escravo, sem o saber.

Minos deixou de freqüentar o Labirinto - que medo têm os tiranos quando as coisas começam a escapar do seu controle, mesmo que imaginário -, e decidiu-se por encerrar Dédalo e seu filho ali, para que não contassem o segredo daquele lugar tão especial. Encerrar o criador em sua própria obra era garantir a destruição dos direitos autorais, e seu domínio por quem o contratou.

Quando as tardes avermelhadas começavam a cair sobre o Labirinto, e o sol se punha, escurecendo o mar, Ícaro deitava-se no chão onde estava encarcerado, e gemia, ao lado do pai, clamando por Éolo, deus dos ventos, que o tirasse dali do cativeiro, e invocava Hermes, para que o ajudasse, com suas asas nos pés; desde pequeno, no colo da mãe escrava, Ícaro havia aprendido o valor da liberdade, e pouco se conformava com aquela vida encerrado no Labirinto, que lhe haviam imposto contra sua vontade.

O menino de cabelos encaracolados corria pela praia e logo descobriu que não havia saída alguma daquela situação, por terra nem por mar, e só teria como escapar voando. Passou, então, a sonhar sonhos de liberdade e de pássaros, e até às Harpias teria se entregado de bom grado, se o tirassem dali, sem medo algum das funestas criaturas destruidoras, o que fazia sua mãe assustar-se com aquela ousadia toda, e tremer-se quando olhava as entranhas das aves que o menino caçava, pressagiando tragédias futuras.

Dédalo havia se acostumado ao cativeiro, ao menos exteriormente, nos braços da escrava que lhe haviam concedido, e olhando o filho crescer correndo na areia e nas pedras e escondendo-se nos meneios do Labirinto, onde o pai sempre o encontrava, pois conhecia todos os mistérios do que havia construído, deixando o menino furioso de não ter onde se ocultar, de não ter segredos só seus, e se sentindo vigiado por onde andasse.

Que mania dos velhos, pensava o menino, de se acostumarem a tudo, e se sentirem satisfeitos com qualquer ninharia com que fossem contemplados, e sofrerem de excesso de prudência, que o garoto chamava de covardia, de medo de mudanças.

Que menino audacioso, pensava o pai conforme ia envelhecendo, olhando o adolescente espevitado e agitado demais; em boa coisa tanto destempero não vai dar. O pai temia pelo filho, por demais intenso, e por demais indisciplinado, que fingia obediência, mas debaixo daqueles cílios se escondiam olhos de quem só fazia o que queria, sem pensar nas conseqüências. Cílios de animal selvagem, de águia pronta para o vôo, esperando seu momento oportuno.

Ao recolher o corpo do filho nos braços, e voar com ele para a ilha mais próxima, Dédalo, amargurado, não podia deixar de repassar na mente toda sua vida, seu amor pela música, pela matemática e pelos labirintos, e o amor do filho pelos pássaros e pelo vôo, aquele desejo intenso de ser livre e sugar tudo da vida. Enquanto enterrava sua pequena águia que havia voado para a morte por vontade de se expandir demais, sem desconfiar dos limites do corpo, pensou também na mulher que havia ficado em terra, a escrava abandonada, que olhava o mar e o vôo de pai e filho com os olhos apertados e a alma espremida de dor e resignação.

O sol que tinha derretido a cera das asas escondeu-se atrás das nuvens, o céu escureceu, cinzento, gelado, os pássaros silenciaram e tudo se fez noite em plena tarde. Éolo aprisionou os ventos, nada se movia, como no mundo antes de ser mundo, antes dos deuses se gerarem e olharem a massa amorfa do caos com seus olhos criadores. O coração do pai inchou de dor ... Era Dédalo e sua dor, suspensos no centro do mundo... Nem uma onda no mar...as penas das asas de Ícaro boiando, suavemente, marcando o local da tragédia... Dédalo inclinou seus braços, abraçando o corpo do filho como um pássaro no ninho.

Não deixaria que o mar fosse o ninho do jovem, de sua exuberância, que as águas dissolvessem aquele corpo, e os peixes e camarões o devorassem. Dédalo era terra, com seus labirintos de pedra, suas construções estáveis e que pretendia eternas, e enterrar o filho era essencial para ele.

Depois do enterro continuou seu vôo, para as ilhas do sul da Itália, pois a vida sempre haveria de continuar, qualquer que fosse o destino dos heróis como Ícaro; e ali gravaria nas pedras a história daquele vôo cego.


Eloisa Helena Maranhão

Trem de ferro

Vai aqui um conto, uma declaração de amor. À vida e à militância, inclusive... Só leia quem tiver estômago forte para aguentar as cartas de amor ridículas...

"Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece, nem repetidas com fervor.  
Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento. 
Porque metade de mim é o que eu ouço, a outra metade é o que calo. 
E que minha loucura seja perdoada. 
Porque metade de mim é amor... E a outra metade... também.” 
(Oswaldo Montenegro, “Metade”)


Já estava enferrujado e arfando, como um bom e velho trem de ferro. Soltava uma fumaça cinza, um apito ignorante do mundo, e deixava cair na ferrovia pedrinhas escuras, coloridas, leves e bolhosas que refletiam as cores do sol.
Quem andasse pelos trilhos cantando 99 km, 99 km, para um pouquinho, descansa um pouquinho, 98 km, contando os km guardando clínquers no bolso, guardaria com cada um deles algumas histórias: uma história de amor para o primeiro, uma de amor e uma de desilusão para o segundo, uma de desilusão, duas de fugas e uma de amor para o terceiro, duas de fugas, uma de assassinato e quatro de amor para o quarto, e assim sucessivamente; mas não me pergunte que tipo de progressão era essa, que só entendo de antecedências. O tempo é mais interessante para trás do que à frente, que atrás tudo efetivamente foi, concretamente, os sentimentos foram sentidos, as coisas experimentadas, e o futuro não é. Ainda. Nem vai ser. Pelo menos, não como achamos que seria, ou queríamos. Vai ser como será, o futuro é sempre um susto.
O trem de ferro sabia disso, desde que fora forjado e montado, sempre soube que é melhor ter sido que vir-a-ser, e cumpriu seu ter sido com coragem, apitando ignorantemente para o futuro.
O soldadinho de chumbo tentou embarcar no trem em movimento, agarrou-se, mas caiu, estava com uma perna endurecida e dolorida e não conseguia mais se firmar. Era reumatismo, não ferimento de guerra, pois seus ferimentos foram na cabeça, no peito, nas costas e na alma, mas não nas pernas. Os ferimentos do corpo deixaram cicatrizes, mas os da alma estavam sarados e esquecidos, que era forte e insensível, como deviam ser os soldados, bem treinado e endurecido. Pero sin perder la ternura, jamas. As guerras deixam seqüelas na História, mas nunca nos soldados, não pelo menos no soldadinho de chumbo caído na estação, que sabia por que lutava, e quem acredita na luta não volta enlouquecido das guerras.
Ficou na plataforma, ouvindo o trem continuando, esperando o próximo. Todos os trens de ferro são iguais, qualquer um servia, desde que passasse naquela ferrovia; a única diferença eram os clínquers com suas histórias, e a do soldadinho ficaria para o próximo trem.
Ficou. Conseguiu embarcar no que passou por ali exatamente uma hora e oito minutos depois, como passava há décadas, e passaria por mais algumas, até ser desativado, abandonado num depósito, mais enferrujado ainda, e sem nunca mais arfar, os trilhos arrancados e casas e ruas construídas por cima do que fora a ferrovia. Antes de subir no trem, o soldadinho embarcou seu cavalo de pau; desde que a última guerra tinha acabado ele só andava a cavalo, assim a perna não doía e o peito não cansava. Tirou uma vasilha d’água e um punhado de feno do bornal, deu ao cavalinho de pau, dividindo a sobremesa do animal com ele, uma maçã suculenta. Encostou-se no flanco do cavalinho e dormiram.
O sacolejo do trem homogeneizava cavalinho e soldado, chacoalhando nas três dimensões, tcha tcha tcha tcha tcha tchá, tcha tcha tcha tcha tcha tchá, e o cavalo sonhava.
Enquanto o animal sonhava sonhos eqüinos, o soldadinho sonhava seus sonhos de solidão. Estava cansado das guerras, das lutas, mas sabia que eram necessárias, caso quisesse mudar alguma coisa. E, convenhamos, há muita coisa para ser mudada nesse mundo, alguém duvida? O soldadinho não duvidava. Queria as mudanças. Vivia para e delas. Era um soldado especial, das trincheiras populares, militante das causas do povo, do qual fazia parte. Era sua fundação – ser povo. Qualquer povo de qualquer lugar do planeta, foi aprendendo o soldadinho no meio de suas batalhas, conhecendo pelo mundo seus companheiros de exército, o exército dos desvalidos, dos despossuídos, mas não dos covardes, e sabia que seu lugar era onde houvesse injustiças, e onde a desigualdade se fincasse, e onde pudesse atuar a serviço do povo.
Sua questão não era ser ou não ser, já tinha superado há tanto tempo Shakespeare e Camus, sua questão de fundo, sua música incidental que teve de compor era: a serviço de quem estou trabalhando? Cada ato seu fundava-se na consciência de classe, e isso lhe dava, além de prazer, tranqüilidade para dormir, e sentido para viver.
Soldadinho de chumbo apaixonado e apaixonante, como resistir... Foi o que pensou a bailarina quanto o conheceu. Não era nem “como” resistir, mas sim “eu quero” resistir? Por que resistir a uma paixão como essa?
Eu devia dizer aqui: “Ah, mas bem que tentou, juro, ela tentou resistir!” Mas nada. Não tentou resistir coisa nenhuma, se apaixonou e entregou, renda-se, o soldadinho disse, já nem precisava, estava rendida, arriada, de quatro por ele, mãos ao alto – e geladas – e coração disparado – ardendo em febre -, era do tipo bailarina lambida, das que assumem tudo que sentem, e nunca tenta ir contra o coração, por que sabia que isso sempre dá em caminhos e lugares errados. Tinha errado muito na vida, mas tinha errado com convicção, com fé que ia dar certo, e isso é igual àquilo “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, quem erra com fé merece perdão também, muito mais misericórdia que os que nem erram, erram pouco, erram erros pequenos, de tanto medo. Ela não tinha medo, aquela bailarininha pequena, vestida de tule rosa muito claro, de sapatilhas de cetim, que deveria ter ficado ali em cima da penteadeira, dançando na caixinha de música, isso se quisesse sossego e ficar longe das encrencas...
Mas bailarina lambida nunca fica longe das encrencas. Até tentava. Aqui posso dizer “Ah, mas bem que tentou, juro, ela tentou manter-se longe das encrencas!”, isso é verdade, sou testemunha. Mas não conseguiu. Convenhamos, é muito melhor bailar por aí sem medo de ser feliz, nem infeliz, do que no lugar ao qual te condenaram de infância, a caixinha de música, a penteadeira arrumada e sem poeira, o espelho limpíssimo, e sabe-se lá que olhos antigos e entediados olhando-a dançar. Caso olhem.
Foi um feitiço, o olhar trocado entre o soldadinho de chumbo e a bailarina. Sua bailarina. Claro que ela sabia, e esperava que ele soubesse muito bem, também, que bailarina que se preze é dona de si mesma, se desceu da penteadeira para dançar nas ruas, e bailar nas poças de lama, e tomar sol e chuva sem medo de desbotar ou pegar um resfriado, se resolveu bailar nos becos, e entre os cães e gatos vadios, se fez dos cães e gatos vagabundos sua companhia e, mais que isso, se era um deles, então ela sabia, e esperava que ele soubesse muito bem, também, que bailarina lambida não tem dono, não é propriedade, não é de ninguém, mas só sua. Mas claro, deixou que ele a chamasse “minha”, e ela também o chamou “meu”, e sem crise quanto a “sou sua, sim, meu bem”, “você é meu amor, minha querida, e eu sou só seu, agora”, por que essas mentirinhas dos apaixonados são deliciosas, e quem quer deixar de dizê-las, mesmo sabendo-as mentiras? E, mais além disso, se fez dele, e entregou-se, e se deu para ele, então agora podia ser chamada de “sua” de verdade, com aquela verdade de quem ama.
Ela tinha medo. A bailarina lambida era um poço profundo e escuro de insegurança e medo, de não ser amada, de ser rejeitada, de que ele não gostasse realmente dela, ou que a abandonasse depois, quando a paixão passasse, como passam os sarampos e as varicelas, ou que tudo fosse ótimo, mas acabasse, como se acabam todos os amores, as dores, as alegrias e tristezas. Tinha mamado demais na sabedoria de Salomão, e mais tarde nos existencialistas, e se envenenado com o relativismo. Era uma pós-moderna, nossa dançarina, mesmo contra a vontade, que adoraria ter certezas, e algumas esperanças. Não as tinha. O que não a impedia de ir em frente, por amor e paixão de viver.
O mesmo tipo de paixão e amor que nutria o soldadinho, pela vida, pela justiça, pela igualdade, aquele desejo que faz ter vontade de que todos sejam felizes, e que todos vivam bem, e que não falte para uns e sobre para outros, pois na raiz da desigualdade está a falta de paixão pela vida, por que quem ama extrapola, e exagera, e borbulha e vaza, e transborda, e quer tudo para todos, e se sente feliz com a felicidade dos outros também, e só os rasos conseguem guardar mais do que precisam, por que não gastam, são avaros, fecham as mãos junto com as experiências de vida que poderiam ter, mas não terão. O soldadinho vazava, de às vezes até irritar. A vingança dos bastardos, isso de condenar os avarentos à miséria de vida abundante. Quem ama toma chuva e toma sol, e nada nos rios e sobe nas árvores, e anda cantando pelas calçadas de concreto, e não deixa que poluam as águas e o ar, e luta para que dividam tudo e que cada um possa viver, e não apenas sobreviver.
Os dois amavam, e foi então quase natural que se amassem, também, se reconhecessem um no outro, reencontrassem suas partes perdidas ou deixadas nos cantos, quase natural que se precisassem tanto que acabassem nos braços um do outro, se consolando da vida ser como é, se extenuando no sexo e nos carinhos para vencer a vida que era mais extenuante ainda.
E quando o soldadinho de chumbo inclinou-se no cavalo, ajudando a bailarina a subir, colocou-a na sua frente e perguntou a ela “para dónde quieres que te lleve, mi comandante?”, então já não havia nenhuma dúvida para onde queriam e deviam ir, e era por isso que se reconheceram e estavam juntos, e tentariam se manter assim juntos, se apoiando, e foi sem nenhuma estranheza que ela respondeu “pras selvas de Lacandona”. Onde quer que elas estejam.
Aquele clínquer caído da maria-fumaça contaria essa história de amor e ternura.
Eloisa Helena Maranhão.

Pirata no Caribe




"Todas as sociedades tremem quando a desdenhosa
 aristocracia dos vagabundos, dos inacessíveis, dos
 únicos, dos que governam sobre o ideal, e dos
 conquistadores do nada, avança resolutamente"
(Renzo Novatore, 1920) 

"Eles nos difamam, os canalhas, quando há apenas
esta diferença: eles roubam os pobres sob a cobertura
da lei, sem dúvida, e nós roubamos os ricos sob a
proteção de nossa própria coragem. Não é melhor
 tornar-se então um de nós, em vez de rastejar atrás
 desses vilões por emprego?"
(Capitão Bellamy, pirata, de Daniel Defoe) 

As águas do Mar do Caribe eram cálidas. E transparentes. Mil peixes coloridos, e plantas, e seixos rolados, e algas e moluscos, e conchas de todo tipo formavam aquele mosaico natural e escondiam de quaisquer olhos os tesouros afundados.
Séculos de pirataria haviam provocado o naufrágio de meia dúzia de sonhos e milhões de moedas, ouro, prata, cobre, pedrarias que chamamos preciosas, verdes esmeraldas, rubis vermelhos parecendo pitangas maduras, negros ônix como a pele dos ex-escravos trazidos da África para as ilhas e continente, a colher bananas verdes, amarelas e avermelhadas, a plantar tabaco e enrolar charutos, produzir café para ser consumido na Europa.
É para lá que eu vou, pensou o pirata, o coração transbordando de vontade de ser feliz naquelas terras rochosas, de clima e florestas tropicais, e a cabeça antecipando a liberdade e a riqueza que obteria.
Começou a se despedir das praias do sul do continente, e das cidades industrializadas cheias da desigualdade que arrebentavam seu coração, a injustiça que se deixava ver escancarada como puta velha sem vergonha, e não sabia se dava vontade de chorar de dó e desgosto, ou espancar até à morte.
Esterçou o leme da velha chalupa, orientando-se para o norte, para onde iria, no centro do continente, e seu olhar passou a fixar-se lá.
Já não tinha olhos para as Três Marias e o Cruzeiro do Sul, e só pensava naquela lua de barco e arco que iria mirar acima da linha do Equador.
Os vínculos que ainda mantinha no sul iam se tornando rotos, a maioria já tão puídos, e esfarelados.
Pasárgada e Babilon estavam agora no centro do continente, e já se esquecera de em quantos lugares diferentes estiveram.
Não se apercebia, também, aquele pirata tão cansado e cheio de medo, que, se havia vínculos frouxos, outros se estavam construindo, e rompê-los acarretaria dor.
Os grumetes que havia acolhido em seu navio, e estavam no meio do treinamento, quem iria continuar a tarefa de ensiná-los, agora que estava indo embora?
Iria abandonar também o casal de velhos que costumava hospedá-lo quando precisava de amparo e o mar estava bravo demais, ou a chalupa avariada. Eram tantas as divergências, mas tinham-se uns aos outros, e se cuidavam como podiam. Mesmo que o pirata aceitasse os cuidados com má vontade, e desejo de lançar-se ao mar logo que possível.
O Mar do Caribe tornava-se irresistível, quando comparado àquela terra firme indesejada e aceita só por necessidade de sobrevivência. Mas ali não era sua praia. Aliás, nenhuma praia era a sua, por que piratas só sabem os mares, os sete mares do sul e quantos outros houvesse mais ao norte.
O pequeno escorpião que ele vira nascer, romper as ovas, piscar os olhinhos amendoados e sair pro mundo, tão frágil!, e tinha acolhido nas próprias mãos calejadas de controlar o timão, e feito com elas uma concha que o envolvesse, e o criado com um amor intenso, e o atraído para si, tão diferentes e tão um só naquele amor mútuo, o pequeno escorpião largou-se na areia tórrida, quando soube da partida do seu pirata, aquele que se fizera pirata em seus sonhos de criança. Largou-se debaixo do sol, contorcendo-se todo com tão grande sofrimento, já não teria concha para acolhê-lo, aquelas mãos não o guiariam mais, e a chalupa não lhe serviria mais de embarcação, de onde mirava o mar, e sonhava ser pirata e conquistar as terras e todas as águas do planeta. Contorcia-se sem dó de si mesmo, transbordando de raiva e dor, e ameaçando aferroar a própria nuca, de desespero e desamparo. Não teria mais seu pirata para indicar-lhe as estrelas, mostrar-lhe o plâncton no microscópio, desvendando-lhe uma ótica tão nova desse mundo envelhecido e sem graça. Que importância tinha viver, se podia ser abandonado a qualquer momento. Sentia que os sonhos de riqueza do pirata, seduzido por tesouros imaginários, eram mais importantes que o amor dos dois e que aqueles anos de convivência tão íntima. Não iria se conformar nunca, e promessa nenhuma teria poder de aplacar a mágoa e consolar o bichinho do abandono.
A sereia de olhos cansados, recolhida sobre o recife de corais, também se sentiu desamparada com a notícia da partida. Esmagou os óculos nas mãos, cortando-se toda, lavou o sangue na água salgada e resolveu não vê-lo partir, não olhar mais nada, e ficar nadando em círculos no seu atol tão conhecido. Pouco se lhe dava mais uma perda agora, já tinha perdido tanto naqueles mares, que se dane o pirata nas águas do Caribe, que seja feliz e fique por lá eternamente, ou volte machucado se perder as batalhas; a sereia de olhos míopes jogou os cabelos sobre o rosto, postou-se de costas e fingiu não ver mais nada. Canseira e enfado, tanto mar para nadar, não mais ficaria rodeando a chalupa e cantando suas cantigas de enfeitiçar. Não haviam dado certo. Aposentaria as canções sedutoras que não conseguiram criar laços e redes que envolvessem o pirata. Não queria enfeitiçar mais ninguém que passasse por aquelas águas, iria calar-se e recolher-se, por que só ele interessava ao seu coração de sereia. Não iria mais assar peixes que ele gostasse de comer, e depositá-los na chalupa, alimentando-o. Não faria mais sopas e caldos de caranguejo e mexilhões cozidos na concha, e nem buscaria café amargo nem guacamoles nem abacaxis doces e suculentos nem tangerinas cheirosas nem bananas-de-são-tomé, e não faria arroz de coco e palmito para ele comer. Pois ele iria para o Caribe, abandonando os mares do sul.
Sopa de caranguejo e mariscos (para ser feita na fogueira, em noite fria de lua cheia, na concha de uma tartaruga marinha morrida naturalmente):
Meia cuia de coco de caldo de peixe
Meia cuia de coco de mariscos sem conchas, já cozidos em água do mar (colhida longe de petróleo derramado, claro)
Meia cuia de coco de carne de caranguejo cozida
1 dente de alho amassado
azeite de qualquer coisa (dendê, oliva, gordura animal, etc.)
salsa picada e cebolinhas
2 fatias de pão
meia cuia de coco de leite fresco
1 tomate sem casca e sem sementes
1 pimentão verde, um amarelo e um vermelho
pimenta do reino, trazida das Índias Orientais, mas já muito bem adaptadas na América; são umas bolinhas vermelhas que se põe pra secar e se mói no pilão
Reserve o pão de molho no leite. Frite o dente de alho no azeite, refogando com o tomate e os pimentões cortados em fatias finas. Tempere com a pimenta e sal. Acrescente o pão molhado e o caldo de peixe, e bata bem, deixando apurar. Acrescente o caranguejo e os mariscos, deixe cozinhar um pouco para pegar gosto. Retire as peles dos pimentões, e sirva bem quente, em cumbucas.
É melhor servir na boca da pessoa amada, dando o caldo às colheradas um para o outro.
Mas mesmo com os cabelos cobrindo o rosto e os olhos míopes sem óculos, não conseguia desviar o olhar, e deixar de amá-lo, e desejá-lo, e sentia tanta pena de perdê-lo assim, de se perderem assim um do outro, quando tinham estado tão próximos e criado um vínculo tão forte.
Eu não vou te esperar, ela dizia com frieza – era blefe, por que esperaria quanto fosse.
Vou logo resolver minha vida e conquistar o Caribe, ele dizia angustiado – mas não queria mesmo ir.
E se torturavam assim, com ameaças mútuas de abandono, tal era o medo de ficarem sozinhos de novo, e se perderem depois de se terem reconhecido um na alma do outro. Melhor sofrer tudo de uma vez, pensavam desesperançados, do que sofrer aos poucos e por anos. Era a lógica do medo e da covardia.
Tudo que ela mais queria era olhar nos olhos dele, bem de perto, e dizer, respirando dentro da boca do seu pirata, quando ele a tomasse nos braços e o desejo crescesse tanto que as escamas de seu rabo de sereia se arrepiassem todas, e se tornasse em pernas de mulher, e então, com ele dentro de si, ela diria:
"Não vai embora não, meu querido, fica comigo. Quero viver com você, por que minha vida é melhor do seu lado. E vou te ajudar a fazer sua vida melhor, também, comigo".
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Não sei se ele ficou.
Mas sei que os mares do sul perderiam muito com aquela partida, pois perderiam o único pirata rei dos vagabundos, conquistador do nada, e que sabia governar o ideal.
Até que o pirata aprendesse a fazer de qualquer mar seu porto, e carregar sua casa dentro de si. Não adiantava fugir, se sempre se levaria junto para onde fosse.
Sua sina era avançar resolutamente, e sobre si mesmo, em primeiro lugar.

Eloisa Helena Maranhão.

A Guardadora das Águas (ou de como não se pode conter a força das águas)


Para Frei Titto, para os guerrilheiros do Araguaia, e para todos que enfrentaram as ditaduras militares no Brasil e na América Latina... e para Las Madres de Plaza de Mayo que "só queria agasalhar meu anjo, e deixar seu corpo descansar".

        Enquanto os milhares de outros bebês que nasciam naquele momento no mundo inteiro choravam de desconforto e dor para respirar, abandonando o útero materno quente e aconchegante, Marina apenas resmungou, revoltada de ter saído das águas para um ambiente seco. Resmungou para deixar clara sua revolta, mas recusou-se a chorar para poupar as lágrimas. E assim foi durante toda sua vida; chorava a seco, recusando-se a perder aquilo que era seu tesouro pessoal: as águas.
Assim Marina cresceu, amando as águas e cuidando para que se mantivessem sempre limpas, e sempre correntes, e sempre em seus cursos naturais, o que não era fácil naquelas épocas em que a tecnologia era tão valorizada, e domar a natureza também; naquelas épocas em que os homens ainda não sabiam que a natureza não se doma, pois o instinto e o poder de milhões de anos sempre encontram um meio de impor sua força, e os governos eram ocupados por tecnocratas tão entendidos de novas tecnologias e matérias-primas e fontes de energia, e tão pouco sábios em todo o resto. Aliás eram tão, mas tão sem sabedoria, que nem sabiam - suprema lástima! - que o resto é o que realmente importa. E que o que não importa é resto. Eles não sabiam e nunca vieram a saber, morrendo nos seus devidos tempos sem aprender nada de importante com a vida, mas Marina sabia, soube desde que nasceu, e acabou morrendo fora do tempo por isso.
Ainda bebê gostava dos banhos demorados que tomava de chuveirinho, ou dentro de bacias no quintal; ficava com a pele enrugada de tanto se demorar dentro d'água, sentindo-se umedecer, molhar, refrescar nas águas geladas no calor, ou esquentar nas águas tépidas, quando fazia frio; sentia-se no seu meio natural, e logo percebeu que seu nome, Marina, viera a calhar.
Tinha pais da geração e do tipo hippie, que adoravam viajar nos fins-de-semana procurando estar mais perto da natureza; procuravam cachoeiras, matas virgens e nem tanto, até as já defloradas serviam nesse mundo escasso de virgens de todo tipo - o que para seus pais e para a menina não fazia a menor diferença, ter virgens de mais ou de menos, ao contrário da sociedade em geral, que ainda se batia pela virgindade de suas filhas, o mesmo não acontecendo com a dos filhos, sabe-se lá Deus por quais motivos ocultos. Procuravam rios de águas clarinhas e frescas, limpas, que pudessem usar para beber e para nadar, lagos e lagoas onde pudessem molhar os pés e olhar os patos, gansos e outras aves deslizarem e pousarem mansamente, riachos e córregos de todos os tipos, dos que brotam das pedras, e dos que encharcam as terras, e dos que se aprofundam e somem no meio das rochas ou no meio da mata.
Daqueles anos de sua infância Marina sempre se lembraria com saudades, aquela nostalgia de quem foi feliz e sabia, e por isso aproveitava todos os momentos, sorvia-os, sugava-os com canudinho, mergulhava neles espantando qualquer sinal de melancolia ou de "um dia isso pode acabar". Para Marina, como para todas as crianças, os momentos se esgotavam em si, e o futuro seria vivido no momento certo, e não no presente, como angústia ou ansiedade. Isso é para os adultos, e a menina nunca foi nem quis ser adulta antes do tempo.
Lembrava-se com um gozo cortante e amolecedor de quando as chuvas chegavam; sim, por que antes das chuvas, quando estas se estavam guardando e preparando, Marina se sentia um bicho enjaulado; ficava deprimida, irritada, agitada sem saber porque, procurando e não encontrando, aquela fome de tudo que alimento nenhum saciava, aquela moleza e vontade de chorar; uma TPM infantil. Mas quando chegava a chuva tudo que era ruim e doloroso passava magicamente, ficava para trás, no esquecimento benvindo; a chuva lavava Marina por dentro e por fora, por que sempre corria para o quintal, para a rua, sem suportar que lhe privassem das águas; era um ser aquático vivendo deslocadamente num meio seco. E passou a vida procurando molhar o que devia ser mudado para que se sentisse feliz.
Por exemplo, molhar o ambiente árido das escolas em que estudava, com aquelas lições imensas para serem feitas em casa depois das lições imensas feitas na escola; molhar a desertidão das filas e dos uniformes que era obrigada a enfrentar, e os cantos ufanistas louvando a pátria, "as praias do Brasil ensolaradas, lá rá lá rá, eu te amo meu Brasil, eu te amo", ou louvando a Deus e ao maná "papai do céu abençoe esse lanchinho que vamos tomar"; umedecer os livros didáticos e as aulas de moral e cívica, assim como as de matemática, história, geografia, francês e inglês, e língua pátria, a suprema abominação das cópias quilométricas em cadernos de caligrafia, e as redações com temas e número de linhas definidos - muitíssimo bem delimitados - como aliás tudo o mais na vida das crianças dentro da escola, como se escrever e pensar pudessem ser contidos no tempo e espaço; todas as férias Marina escrevia sobre "minhas férias no sítio" (mesmo que não tivesse ido para sítio nenhum), e contava dos rios em que nadou, das fontes que visitou e sentiu os respingos na pele, das lagoas cheias de aves e peixes, com os quais havia conversado e convivido e sido feliz; contava que passara horas deitada de barriga pra cima olhando as nuvens, identificando cirros, cumulus, nimbus, stratus, imaginando as formas delas, que pareciam tubarões, arraias, golfinhos, anêmonas com tentáculos, plantas aquáticas, vitórias-régias, seres de outros planetas, e tentando calcular mentalmente quanto vapor d'água conteriam (pois as nuvens são formadas por vapor d'água, aprendera nas aulas de ciência, naqueles tempos em que só havia água nelas, e não ácidos e enxofres) e quando deveriam chover e se esvaziar, enchendo-a de alívio quando chegavam.
Portanto Marina passara a vida tentando molhar o ressecado, regar o árido, pra ver se brotava vida de algum tipo naquele imenso deserto que era a vida e a nação debaixo de uma ditadura militar; tentava molhar a igreja e a religião, lendo a Bíblia de trás pra frente, procurando outras interpretações para ela, criando rezas e orações especiais e diferentes que chegassem mais rápido e com mais eficácia aos céus; tentava molhar as brincadeiras com os amigos na rua, inventando regras novas para jogar bolinhas de gude e soltar pipa, afinal o objetivo não era que as bolinhas fossem matadas e as pipas empinadas? Mas os amigos não compreendiam tão filosóficas regras, já que as antigas e tradicionais sempre lhes pareciam naturais, pra quê mudá-las?, e entendiam menos ainda a necessidade que a menina sentia de molhar a vida e acabar com a aridez dela.
Cresceu assim solitária, no meio de tanta gente, molhada no meio do seco, cheia de vida no meio do deserto; e só começou a perceber que era muito diferente, um ser úmido e fluido no meio da rigidez, quando percebeu o que fazia a vida secar.
Não foi algo mágico, "a compreensão desse instante solitário", caído sobre ela; foi, antes, um processo, que levou Marina a questionar tudo, comparando com as águas que fluíam dentro dela, e das quais tinha vindo e nas quais seus ancestrais haviam vivido e lhe deixado gravado no corpo; foi sentindo no próprio corpo a diferença entre ser e não-ser, entre se submeter e mandar, entre ser livre e escrava, que Marina foi percebendo a rigidez e a sequidão do mundo que a rodeava, das regras e normas que lhe faziam obedecer, das leis e da autoridade que lhe haviam imposto sem que pudesse escolher; sentia a dureza e a inflexibilidade dos sistemas, a escola, a família, a religião; tudo lhe parecia seco em contraste com as águas que deviam e podiam chover e penetrar onde quisessem, sem necessidade de explicações ou justificativas, simplesmente por que existiam e cumpriam sua missão: ser água e ser livre. Ser o que era e não o que lhe obrigassem. Nada conseguia conter as águas, e nada continha Marina, ao menos internamente.
Sentindo a intensa e terrível ruptura entre ser o que queria e ser o que podia, entre o interno e o externo, o pessoal e o social, Marina começou a se debater como um peixe fisgado. A boca sangrava, a rede oprimia, e ela foi percebendo que debater-se não resolvia. As forças externas eram mais fortes que as internas, que a vontade de liberdade e o desejo de expansão.
E foi se debatendo que Marina acabou chegando a pessoas como ela, fluidas, flexíveis, seres aquáticos num mundo terrestre; do mesmo modo que não se pode conter as águas, não se pode impedir que os seres aquáticos se encontrem, reúnam-se, misturem suas águas, e espumem, e borbulhem.
Não se consegue impedir que as águas caminhem por onde queiram, assim como não conseguiram impedir que os seres aquáticos abrissem seus próprios caminhos no meio do deserto. Apesar dos tanques, dos canhões, das metralhadoras, dos rolos de arame farpado fechando os caminhos; apesar das fardas, e dos coturnos, dos quépis, das condecorações, dos desfiles e marchas oficiais; apesar das leis, das regras, das normas, dos regulamentos, dos castigos e punições; apesar dos concursos públicos, dos empregos difíceis, do dinheiro dos empresários, do poder dos amigos, das relações pessoais; apesar dos telefones grampeados, das intervenções nos sindicatos, dos partidos políticos proibidos, do fechamento do Congresso; apesar do medo, das traições, das delações, das prisões, das torturas... apesar, ou mesmo por tudo isso, os seres aquáticos continuaram a se encontrar, e agitar, e espumar, e borbulhar, e nadar no meio dos imobilizados, das trilhas dos corpos estáticos e mortos, por entre as pedras, as folhas, os galhos, as redes, os animais apodrecendo cheios de fedor, por entre todo tipo de obstáculos que pareciam intransponíveis.
Marina vivia, enquanto isso acontecia lá fora; vivia como podia, como podiam os adolescentes, assustada com o que os adultos e poderosos faziam da vida, apavorada com o que os humanos faziam de sua humanidade, represando os instintos e vivendo pela metade. Nos dias de sol inclemente que derretia o asfalto das ruas, amolecendo-o e formando poças pastosas, Marina costumava sentar-se na varanda do quarto de sua casa no interior e conversar sobre o futuro com suas amigas.
Futuro era uma palavra tão distante, como se uma ou duas horas depois não fosse futuro; futuro era o que as pegaria de surpresa dali a alguns anos, muito tempo à frente. Fazendo as contas sempre descobriam estupefatas que teriam bem mais de quarenta anos no ano 2000, imagine, mais de qua-ren-ta-a-nos!, velhas, vamos estar muito velhas.
Umas ficavam em desespero, velhas, com rugas, filhos crescidos, maridos barrigudos, seios caídos - delas, não dos maridos - isso por que ainda não havia a abençoada cirurgia plástica, os liftings, as lipoaspirações assassinas; davam gritinhos de desespero assanhado, enquanto Marina pensava. Não achava assim tão drástico ter quarenta anos, sua intuição lhe dizia que seria interessante, que se sentiria bem, talvez até mesmo feliz, quando fosse adulta e independente, podendo cuidar da própria vida e morte, inclusive se matando se achasse conveniente.
Já nessa época, por volta dos treze, catorze anos de idade, Marina lia Sartre e Camus, considerando o suicídio uma opção, uma boa saída se não houvesse nenhuma outra. Era seu trunfo para o futuro, caso ele fosse insuportável. Nunca lhe passava pela cabeça pensar no suicídio como covardia, como achavam alguns, pois para ela era um direito seu e de todos, um direito inalienável de todo ser humano poder dispor da própria morte, assim como deveria poder dispor da própria vida. Gostava de se sentir trágica, uma Medéia ou uma Perséfone brasileira, a tragédia lhe dava sensação de profundidade, excentricidade. Gostava de olhar-se no espelho sofrendo, as lágrimas escorrendo de seus olhos que se tornavam mais verdes assim úmidos, o sofrimento imaginário pelas mazelas concretas lhe caía bem.
Sofria pelas crianças famélicas, de pé, ó vítimas da fome!, sofria pelos bombardeados da guerra, sofria por Anne Frank, por Polianna, por Chico Buarque e seus olhos verdes cor de ardósia exilado no exterior, barbudo, bêbado e infeliz, sofria por Víctor Jara com as mãos e a língua cortadas pela ditadura dos vizinhos andinos, da ditadura do “pobre ancião” cujo Papa, muitos anos depois, intercederia por clemência - por que não pediu piedade para os torturados? - sofria por todos e por si mesma, por ser cidadã deste mundo cão e vil.
Sofria de amor platônico pelos professores da escola, costumava apaixonar-se por um a cada ano, geralmente os mais intelectuais, mesmo que mais feios, casados, com esposa e cheios de filhos, e ia sempre muito bem nas matérias que eles lecionavam.
Apaixonava-se também pelos personagens e escritores dos livros que retirava na biblioteca municipal, A.J.Cronin, Érico Veríssimo, Darwin, Garcia Márquez, Sartre, Dostoiévski, Galileu Galilei e Giordano Bruno (tinha um fraco pelos renascentistas), apesar das fotos impressas nos livros mostrarem homens velhos e horrorosos; mas isso não importava, e ela lhes escrevia cartas, conversando todas as noites com eles, sem se importar que àquela hora deveriam estar ocupados com suas esposas e  amantes, ou há muito, muito tempo, apodrecidos em seus túmulos.
Sabia que vivia na tangente da vida, que qualquer forçazinha maior poderia jogá-la fora, assim como tinha receio de ser sugada para o centro - nesse caso era preferível continuar na tangente. Vivia na tangente da vida assim como vivia na periferia da grande capital de seu país, que por sua vez vivia na periferia do continente, e este na periferia do planeta e este na periferia do Sistema Solar, que vivia na periferia da galáxia, e esta na periferia do Universo... haja luz, e houve luz, um grande big bang, mas a luz foi apropriada por alguns mais espertos enquanto outros continuavam periféricos pela vida afora, mal iluminados e cheios de frio na alma.
 Continuou sofrendo pela vida adentro, sabendo que se houvesse uma redenção esta estaria no futuro, na velhice, quando tornar-se-ia sábia, muito velha e muito sábia, repleta de histórias para contar e de doces para as crianças; teria aprendido a amar as pessoas, individualmente, sem exasperar-se com sua mediocridade, suas pequenas e odiosas mesquinharias. Teria aprendido a molhar o mundo, nem que fosse com suas lágrimas.
Nessa época, apesar de ter alguns poucos amigos e uma multidão de conviventes, amava a humanidade em geral, irritando-se com os indivíduos especificamente; preferia amar apenas as aves do céu, os peixes do mar e as bestas feras do campo, que nada lhe exigiam nem a decepcionavam. E, claro, os professores e intelectuais, que lhe faziam companhia na sua solidão.
Os tempos eram de ditadura militar, mas suas amigas, como ela própria no início, nem se apercebiam disso, vivendo como tantas outras meninas, preocupadas com a escola e os garotos, as roupas que iam usar, os discos que poderiam comprar com o pouco dinheiro que possuíam, apaixonadas pelos artistas de cinema e da televisão.
Eram tempos de transamazônica na rede de televisão do grande apresentador dos domingos, que louvava os feitos dos governos militares enquanto estes esmagavam a juventude e outros nem tão jovens da oposição. Tempos de desfiles de 7 de setembro, data tão festiva, foi a independência desta terra tão querida, e Marina adorava desfilar na fanfarra da escola, com o uniforme cheio de cordonês e botões dourados, com franjas que marchavam junto ao vento; só não gostava de tocar triângulos e pratos, sonhando em sair empunhando uma caixa de repique ou um surdo, a glória seria tocar um bumbo daqueles bem grandes, amarrados na frente do peito com tiras de couro nas costas, mas isso era apenas para os meninos, futuros homens da república, herdeiros legítimos do milagre  brasileiro. Ela ainda não sabia que as louras do norte do mundo queimavam sutiãs em praça pública.
Eram tempos de MOBRAL e Don e Ravel, você também é responsável, então me ensine a escrever, e a menina sonhava em ser professora e acabar com o analfabetismo, tomara que sobrem  alguns analfabetos para quando ela crescer, e como sobraram e se reproduziram, a miséria se espalha como erva daninha quando não arrancada constantemente. Sobraram, mas Marina já não havia mais, justamente por que desejava acabar com o analfabetismo e todo tipo de outras injustiças.
Eram tempos de Gretchen, Lady Zu, Odair José, desbravamento da Amazônia, integração nacional, músicas bregas que todos cantavam, pois ninguém passa impune por uma ditadura militar, mesmo que não perceba, mas Marina se recusava. Apenas ela guardava tudo, inconscientemente, em seu coração, grande e sensível, sofrendo as dores que outros fingiam ou realmente não sentiam.
Apesar da opção de um futuro abreviado pelo suicídio, sentia que o futuro, aquele futuro distante, poderia ser mais interessante que o presente, e que valia a pena esperar um pouco mais; afinal, se nada tinha sentido mesmo, então por que não pagar pra ver? E enquanto vivia ir mudando tudo, molhando o seco?
Assim nasceu Marina. Nasceu pela segunda vez no mar, durante um batismo num navio, quando pegou as poucas coisas que tinha, mudou-se para a cidade grande que tinha mar e decidiu fazer parte de um grupo de guerrilha e foi aceita, apesar da pouca idade. Era uma das mais jovens do grupo, o que era absolutamente irrelevante, por que apesar, ou justamente por ser tão nova, era a mais corajosa, a mais destemida, a que ia sempre na frente, e empunhava as armas, e falava nas esquinas para grupos de transeuntes que paravam para escutá-la mas logo se afastavam com medo, enquanto ela corria e se misturava à população, quando apareciam policiais de ronda.
Doce Marina, melíflua Marina, de água doce com açúcar, que brigava, lutava, corria, se escondia, e tudo por que decidira ensopar o mundo, liberando as águas que outros haviam represado sem consultar ninguém, nem pedir desculpas pelas conseqüências do represamento mal feito.
Doce Marina que um dia, sem nunca ter sabido como, acabou presa pelos homens da ditadura, levada do apartamento em que morava com alguns companheiros, companheiros que nunca mais a viram depois daquela manhã ensolarada em que foi levada de camisola, chinelo de dedo e com apenas uma muda de roupa e a escova de dentes que lhe permitiram pegar.
Doce Marina, presa sozinha, sem janela para ao menos olhar o mar, ou as nuvens, sem água para molhar-se, e que naqueles dias pôde contar apenas com as águas que havia guardado dentro de si; cantava canções de mar e chuva que os companheiros das outras celas escutavam com os olhos marejados, sem saber quem estava cantando e embalando-os naquelas noites de escuridão nacional.
Marina cantava, esperava o tempo passar, se recusando a falar qualquer coisa sobre as atividades e pessoas do seu grupo; sabia que havia caído delatada por alguém, mas se recusava a derrubar outros; calou-se, e isso foi sua ruína. Seu silêncio e sua beleza úmida e doce, de águas de igarapés profundos, os cabelos escorridos como depois da chuva, os olhos e lábios sempre úmidos, e a alma sempre encharcada de sonhos, de justiça, de vontade de mudanças, de igualdade.
Marina cantava enquanto lhe batiam, enquanto torturavam, cantava interiormente em meio aos choques elétricos que queimavam e ardiam seus dedos, suas orelhas, suas narinas, sua língua, sua vagina. Fechava os olhos e pensava nas chuvas e nas ondas do mar enquanto seu corpo era tomado de si, usado por outros, despersonalizado, machucado, arroxeado, estuprado. Não aplicaram nela a máxima do governador do seu Estado de origem que declarou anos depois na televisão "está com vontade sexual? Estupra, mas não mata". Com ela, como com outras, os homens da ditadura fizeram o serviço completo. Estupraram e mataram.
Marina estava morta. Tão leve aquele corpo quando a carregaram, colocaram no carro, amarraram uma pedra grande e levaram para o mar. Tão leve aquele corpo quando bateu nas ondas e afundou, acolhido pelas águas, os cabelos enroscando-se em algas enquanto afundava. Tão leve aquela alma que não levava as omissões, nem as delações, nem as covardias da maioria dos habitantes que andavam pelas ruas das cidades como se nada estivesse acontecendo.
Marina estava morta. E ninguém sabia. Não houve velório. Não houve enterro. Não houve condolências para os que a amavam. Só a ausência, pesada como a pedra que havia afundado seu corpo.
Marina estava morta e o povo vivia normalmente. Marina estava morta e ninguém sabia. Marina estava morta e seus torturadores viviam. Eles sabiam. Só eles sabiam, mas nunca falariam. Morreriam velhos, entre os filhos e netos, sem nunca contar quantos, como e onde mataram. Eles só sabiam por que mataram. Receberam ordens para agir, e o fizeram pela Segurança Nacional. Marina estava morta e eles nunca carregariam essa culpa, pois não sentiam culpa por essas mortes.
Nem notaram que Marina estava mais viva que eles. Que os mortos estavam vivos, e eles eram os mortos. Nasceram mortos, viveram mortos, morreram já mortos. Não notaram nem nunca notariam, por que os mortos nada notam.
Marina estava morta como o resto do país. Morta de miséria, morta de desigualdade, morta de injustiça, morta de dependência, morta de entreguismo, morta de desesperança. Mas Marina estava morta da morte alheia, da morte que os vivos repassaram a ela, da morte que a fizeram morrer para que pudessem continuar mortos-vivos.
Marina estava morta e ninguém sabia. Ninguém chorava. As águas continuavam represadas.
Seu corpo afundou no mar, e os peixes desandaram a chorar. As algas choravam. O plâncton chorava. As baleias e tubarões verteram suas lágrimas. As ostras e os mariscos abriram suas conchas e choraram por Marina. As anêmonas, as estrelas-do-mar, os pepinos-do-mar, os camarões, e lulas, e polvos choraram, os siris choraram e choraram os caranguejos. Choraram as arraias e choraram as cobras marinhas. Os seres aquáticos choraram, e o nível do mar começou a subir.
As águas subiam veloz e violentamente, engrossadas pelo choro copioso dos seres das águas que não conseguiam parar de chorar, por Marina, por si próprios, pela vida, pelo mundo... o Atlântico transbordava.
Os homens altos e loiros de New York fugiram em seus carros subindo os Apalaches para evitar o afogamento, embrenhando-se no continente na tentativa de se salvarem, mas não adiantava muito, pois as águas entraram pelo São Lourenço, transbordaram os Grandes Lagos, desceram pelo Mississipi e Missouri, até o Rio Grande, onde pararam milagrosamente, misericordiosas com os mexicanos, herdeiros desse pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos. As águas pararam ali, formaram nuvens sob aquele sol do deserto, atravessaram o país todo, olhando para o povo indígena que cantava, e dançava, dança da morte e da vida, e jogava futebol e bebia chocolate, e explorava as minas já esgotadas, e plantava milho nas terras baixas e batatas nos platôs das montanhas frias. Batatas que haviam jogado nos navios dos espanhóis, mas não tinham trazido de volta sua princesa asteca, indo alimentar os europeus pelos séculos seguintes. As nuvens atravessaram o pobre México, tão de longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos, passaram sobre as indústrias maquiadoras das fronteiras, olhando desconsoladamente e piscando de vergonha. Passaram sobre a capital e viraram o rosto, vermelhas de indignação, para não ver os homens do PRI mal-governando o pobre México. Só choveram no sul, na província de Chiapas, mas isso foi décadas depois, quando o sub-comandante com o rosto encapuzado molhou-se com aquelas águas e decidiu que era hora de dar um basta na secura do seu rico país.
Os europeus da costa do Atlântico também subiam os montes e fugiam desesperados, enquanto pescadores noruegueses abandonavam seus barcos cheios de bacalhaus que seriam salgados e vendidos para o mundo por preços impossíveis de se comer. Vendidos junto com o corpo do Cristo morto que proibia que se comesse a carne dos bois e porcos na quaresma, alimentando as importações dos peixes salgados.
A costa oeste da África recebeu aquelas águas como bênção dos orixás. Os negros saíam às ruas e corriam para as praias para ver aquelas águas abençoadas que fertilizavam suas terras, molhavam seus desertos, salvavam suas lavouras domésticas e coletivas enquanto destruíam as plantations de algodão, e de amendoim, de sorgo e de cacau, de tudo que exportavam para os europeus e agora não mais plantariam. Por que agora a África voltava a ser dos negros.
O Primeiro Mundo assistiu boquiaberto à revolta do Atlântico, que nunca, nunca havia agido assim, sendo um oceano tão compreensivo e tranqüilo até o momento, desde a época do descobrimento da América, apesar do medo que assaltara os primeiros navegantes, e sequer puderam desconfiar que os maremotos e inundações eram provocados pelas lágrimas de uns seres marinhos  da periferia do mundo, que sofreram com os olhos secos por tempo demais, mas enfim conseguiram soltar o choro represado dentro deles, liberado pela morte de Marina.
Nunca conseguiram entender nem ficaram sabendo da força que existe na vida e na morte de um injustiçado.

Eloisa Helena Maranhão.

Comendo flores


"... Como os castelos nascem dos sonhos,
 pra no real achar seu lugar... Como se faz
 com todo cuidado a pipa que precisa voar...
Cuidar de amor exige mestria e Leo e Bia
souberam amar.” (Oswaldo Montenegro)

Outubro era um mês sossegado naquela cidade do interior. Interior do estado das praias e dos esses arrastados, do carnaval, do samba e dos malandros vestidos de branco, mais tarde do pagode e dos bandidos pobres dos morros, que enriqueciam com o narcotráfico e os sequestros, lideravam os crimes de dentro das prisões através de celulares e da Internet, e financiavam vereadores, deputados, prefeitos e governadores, que o crime e o poder são irmãos de sangue, sempre espumando rixas, mas no fundo se amando e crescendo juntos.
Os PM's com suas fardas e seus quépis traziam pizzas para os bandidos presos, levavam ordens para seus irmãos nos morros, armas para facilitar as fugas, faziam escoltas para levá-los ao judiciário, servindo aos criminosos como funcionários públicos, numa lógica irrefutável - bandido também faz parte da sociedade, e quem presta serviços à sociedade serve também ao bandido.
(E, caso faltasse essa lógica, o dinheiro ganho calava consciências e questionamentos, pois a riqueza serve justamente para cobrir as lacunas da lógica, da argumentação, da negociação, da tentativa de conciliação de interesses).
Naquela manhã de outubro batia um vento que refrescava o sol quente, balançava as folhas das árvores e arrepiava a pele da pequena multidão reunida na praça principal.
Havia uma agitação de bandeiras vermelhas, de bonés, camisetas, estrelas e corações vermelhos, de faixas e cartazes; o povo zumbia, olhando o palanque com a liderança local, esperando o candidato.
O candidato das esquerdas, da oposição; o líder sindical que tinha saído preso da sede do seu sindicato de operários dez anos antes, junto com o advogado que depois se tornou ministro do trabalho no governo da corrupção. Mas o candidato não, continuou mantendo sua integridade até dez anos mais, quando só então foi eleito presidente, arrepiando seu país e o mundo.
Arrepiou a direita neoliberal, que via nele, para além do medo do povo no poder, a única opção de uma certa estabilidade e um crescimento econômico que mantivesse o grande país alinhado ao capital internacional, continuando a sustentar as potências centrais com os juros da dívida que fizera ao longo dos séculos. Juros pagos com a produção de minérios, de energia barata, de alimentos, e quanta fruta e grãos e carne e leite se produzia e vendia, e quanta carne e grãos e leite e frutas faltava na mesa do povo pobre, sem dentes e sem esperança, descalço e faminto, esperando nas filas, morrendo de diarréia e tuberculose, se coçando de sarna e verminoses, despencando de lepra e AIDS. E câncer, e cirurgias mal feitas, e infecções puerperais, e hemorragias variadas. O povo sangrava, numa hemorragia que nada estancava, que não interessava estancar, e o candidato serviria para manter esse sangue ao menos fluindo - assim pensavam os vampiros imperiais do neoliberalismo. Seguiam a máxima do "mudar para não perder", ou do "façamos a revolução antes que o povo a faça", que dá na mesma.
Naquela tarde de outubro, naquela cidadezinha do interior, embaixo das árvores que oscilavam suas folhas e do sol que esquentava de vermelho os corações, o candidato falava sobre tudo isso, de maneira suave mas ousada, com a intrepidez de quem sabe o que diz, e por que diz, e para quem diz, e o eco se fazia ouvir nos movimentos sociais que se fortaleciam, nas ONG's que eram criadas, nos sindicatos que iam deixando de ser pelegos e expulsando pelo voto os herdeiros das intervenções, nas comunidades que tomavam consciência de sua força e poder, e exigiam do Estado o que lhes era de direito, e o eco se fazia ouvir nas multidões que saíam às ruas agitando bonés, bandeiras, faixas, cartazes, camisetas, estrelas e corações vermelhos, e que, mais de dez anos depois daquele outubro votou em massa no candidato, elegendo-o presidente, mas isso foi só mais de dez anos depois.
E o eco se fazia ouvir nos lugares mais impensáveis, como no coração do PM que montava guarda na praça, cumprindo seu dever, e o rosto lavado de lágrimas, enquanto ouvia o candidato falar aquilo que já sabia muito bem dentro de si, que nunca tinha ouvido, mas apenas percebido nos poucos anos de juventude e trabalho.
Era um menino, ainda. Tinha passado só algumas horas de ser menino, com o quépi afundado no rosto, as lágrimas correndo, o candidato discursando e o menino cumprindo seu dever de policial, cabeça baixa, quépi ocultando a emoção que não se sentia no direito de sentir, afinal era pouco mais que só uma criança, pouco mais que só povo, exatamente mais nem menos que um brasileiro. E as palavras do candidato abriram aquele buraco nos olhos, e no coração, que nunca mais se fechou, que não cicatrizou mais, e nunca mais o menino se tornou macho, nunca mais se enrijeceu, nunca mais se tornou policial, nunca mais se tornou militar, ficando apenas menino e homem. Humano, demasiado humano, naquela praça de outubro na cidade do interior do estado das praias, da malandragem, do samba, do pagode e da bandidagem, e o PM se tornou gente ali, brasileiro ali, povo ali, ouvindo aquela voz que era sua também, que era dos sambistas, e dos pagodeiros, e dos malandros, e dos bandidos, e dos trabalhadores, com ou sem carteira assinada, e era a voz dos brasileiros, e das mulheres espancadas, e dos maridos espancadores, e das crianças abusadas, e dos traficantes abusadores, e das prostitutas exploradas, e dos cafetões e machos exploradores, e dos velhos esquecidos e da previdência desmemoriada, e aquela voz era a voz dos civis e dos militares, ao menos dos que não deixaram de ser meninos, e sabiam ouvir a voz e lavavam o rosto com lágrimas, ocultas embaixo do quépi.
Ninguém, no meio daquela multidão, agora muito maior, depois que o candidato havia chegado e falava, ninguém prestava atenção no PM, o de rosto lavado de lágrimas, o que se comovia com as palavras do candidato, o que se sensibilizava quando ouvia a voz do povo na voz do candidato das esquerdas. Ninguém notava o PM, porque ninguém nota ninguém, cada um tão absorto em suas próprias dores, e lembranças, e dificuldades, tão voltados para a própria vida, que não consegue olhar ao lado, para baixo, nem para cima, para trás nem para frente, porque viver não deixa tempo nem vontade de olhar para nada que não sejamos nós mesmos, e se ao menos olhassem para si mesmos, mas nem isso. Nem isso... Viviam sem olhar nada nem ninguém, preocupados em se manter vivos, distraídos das mazelas dos outros, e das próprias, senão ninguém suportaria viver.
Pois no meio desse bando de ninguéns, como gralhas barulhentas, matilha de lobos e bando de pardais preocupados com a vida, no meio deles só uma pessoa notou as lágrimas do PM, notou o quépi abaixado, notou o coração comovido dele, notou a vida de menino pobre que tinha levado até ali, com um único short pra vestir, e sem presente de Natal, notou como era doce aquele menino escondido atrás da farda, e o amou.
A caminhoneira que amou o PM era mais uma das caminhoneiras que vivem perambulando pelas estradas do país em seus caminhões. O dela era colorido, enfeitado com corações, flores e fitas, que ventavam quando seu caminhão corria, quase saltando dele para a estrada, penduradas apenas pelas pontas.
Andava por todas as estradas, carregando todo tipo de mercadorias, desde que seu pai a havia colocado na boléia de um caminhão, décadas antes, e levado numa das viagens, por falta de filho homem. A partir dali, a caminhoneira nasceu, e logo que completou 18 anos tirou carteira de motorista profissional e partiu para a estrada, diante do desgosto da mãe, do espanto das irmãs e de um certo orgulho do pai, que encontrou nela o filho que nunca teve.
Também havia saído o mais cedo possível de casa por que não suportava o casamento cheio de brigas dos pais, o ódio contido, bem pouco contido, sejamos fiéis aos fatos, os palavrões, as lágrimas da mãe, as bebedeiras do pai, as irmãs escondidas no guarda-roupa, ou embaixo das camas, enquanto ela saltava pela janela e passava as noites ao relento, no meio do mato atrás da casa, até perceber que o pai havia se acalmado, e podia voltar.
Voltar para casa era o que ela menos gostava, e pegava as viagens mais longas que ofereciam, pois voltar significava estar de novo no centro das brigas, dar ombro à mãe, discutir com o pai, arrumar dinheiro para as irmãs, que nunca tinham trabalho, que sempre punham mais e mais filhos no mundo, e ela tinha que ajudar a sustentar a todos, o que fazia de bom grado, desde que não precisasse viver no meio da gritaria, do choro das crianças, das caras feias, das mesquinharias cotidianas.
Preferia o caminhão, onde ficava só, ela, seu cão vira-lata com pastor alemão que carregava em todas as viagens, Wolfgang seu nome de batismo, e que não latia, mas só sabia uivar, olhando-a com olhos espertos e lambendo-a com o focinho sempre quente e úmido, balançando o rabo de contente quando a via arrumando o caminhão para partir.
Era um cão com alma de caminhoneiro, como a dela. Sua alma gêmea, ou trigêmea, como perceberia mais tarde, quando se apaixonou pelo PM, que formava a tríade de alma, ou talvez quadrigêmea, pois ele também tinha um cão que era sua alma gêmea, e quem sabe fossem quíntuplos, se contassem os pardais que ela criava nos ipês roxos, desde que todas as centenas de passarinhos formassem uma só alma de ave, completando assim a alma quíntupla da caminhoneira com alma de pássaros, do PM com alma de cão, do cão com alma de caminhoneira, dos pássaros com uma única alma, e do cão com alma de PM, pois era fiel cão de guarda, que atacava sem dó nem piedade, nem remorso algum, nem misericórdia também, a quem fosse mandado atacar pelo dono. O dono era o PM, como todos puderam perceber nesse parágrafo tão bem elaborado, que nenhuma dúvida deixa a quem saiba interpretar um til e um ponto, ou meia palavra que baste. E quíntuplos ficariam, caso não encontrassem outras almas que fizessem parte da sua, que nunca se sabe as surpresas que a vida nos reserva.
Logo que se apaixonou, a caminhoneira voltou a comer flores, como fazia desde a adolescência, quando se apaixonava pelos meninos da escola, ou da rua onde morava. Sua fome sumia, começava a emagrecer, ficando cadavericamente linda, com olheiras azuladas e saboneteiras acentuadas nos ombros, os seios e a bunda mais avolumados, por que nunca emagrecia nesses lugares, graças a Deus!, gritavam os meninos em coro de anjos, ela era linda, magérrima, gordinha, do jeito que fosse, os cabelos castanhos muito escuros caindo pelos ombros e os olhos de mel com aquela cor de febre que só a paixão traz. A paixão e a febre, claro.
Era descendente de índios com italianos, quer dizer, a bem do rigor, descendia ou de um índio com uma italiana, ou de um italiano com uma índia, índia caçada pelo avô nas matas, conforme ele mesmo contava, e ninguém acreditava direito, por que a avó não tinha cara nem sotaque de índia caçada, mas a caminhoneira sim, tinha cabelos, pele e traços de índia, mas olhos de italiana, cor de mel esverdeado, o que era a desgraça dos meninos na sua infância, e dos caminhoneiros, empregados e donos de auto-posto na juventude, além dos padres das igrejas onde costumava assistir as missas de domingo, dos coroinhas, também, e dos homens, velhos, jovens e moleques que assistiam às mesmas missas, depois sonhando por semanas e meses com aquela índia que descera do caminhão, ajoelhara aos pés do padre, tomara a hóstia com uma língua cor-de-rosa nuns lábios vermelhos de matar de paixão e arrancar lágrimas dos olhos com aquela beleza que ofuscava o sol das cidadezinhas por onde passava e o ostensório brilhante de cor dourada das igrejas.
Na tarde em que viu o PM chorando no comício do candidato, e intuiu a pobreza do menino, e ouviu os latidos do Rex, o cachorro dele, que já havia morrido há anos e reencarnado no outro cão que ele tinha na época do comício, sim, todos os cachorros do resto da vida do PM se chamariam Rex, como o primeiro, batizado em homenagem ao grande pastor protestante norte-americano, que pregava na televisão e convertia multidões, como os cães do filósofo, todos chamados de Ânima, o sopro da vida, como a negar a morte, naquela tarde a caminhoneira começou a comer flores, primeiro as flores do campo que ornamentavam os jardins da praça, e ficou cheirando a flores do campo.
Suava um suor de flores de campo, de lavandas, de margaridas, de lírios, de azaléias, mimosas, rosas, tulipas, copos-de-leite, cravos, dependendo das flores que encontrava para devorar, arrancar delicadamente as pétalas e comer, se alimentando só de flores quando estava apaixonada; só não comia jasmins que tinham o odor das almas penadas, e ela não queria se transformar na loira da estrada, a caroneira morta, com algodão nas narinas, perfume de jasmim e longos cabelos loiros oxigenados, que assombrava os caminhoneiros e seus sonhos de menina. Uma vez, num dos surtos de paixão, e ela nem mais se lembrava quem era o homem por quem havia se apaixonado na época, comera todo o carregamento de dálias que havia recebido para entregar no entreposto, vindo de uma fazenda de holandeses no interior de São Paulo, e foi a primeira e última vez, até o momento, em que havia devorado a carga do seu caminhão, tendo que inventar um acidente em que a carga havia caído num rio, e o seguro acabou cobrindo de má vontade, por absoluta falta de provas, felizmente por que os advogados da seguradora não costumam cheirar o suor nem a respiração das caminhoneiras, senão teriam descoberto o destino das dálias.
Por toda a viagem de volta para sua cidade, depois do comício, a caminhoneira comeu flores e bebia água, olhada pelo seu cão pastor que compreendia o estado de ânimo da dona, lambendo-lhe as mãos e fazendo-a chorar de saudades do PM que nem a tinha visto, e de falta das mãos dele em seu corpo, e dos beijos dele em sua boca, e da pele dele na sua, e do riso dele nos seus olhos, e do suor dele misturado com o seu, e da saliva dele nos seus lábios, e do gosto dele na sua língua, e da alma dele completando a dela.
No caminho de volta ela encontrou um bosque de dezoito ipês, no meio da mata, roxos, amarelos e brancos, todos floridos, e comeu as flores deles, trepada durante o dia todo nas dezoito árvores, mastigando ansiosamente flor por flor, sem nem deixar restinhos, o cão ao pé das árvores cuidando da dona transtornada de paixão. Desceu e continuou a viagem, com enjôos e dor de estômago, mas a alma saciada do PM nas pétalas dos ipês, e quando chegou em sua casa, pálida e amarelada, passou uma semana vomitando e fazendo cocô no quintal, apenas tomando água da bica depois das ondas de vômitos, acampada numa barraca, pois não queria ficar no quarto, e quando se sentiu finalmente melhor e desintoxicada, partiu para outra viagem. Meses depois, ao voltar da viagem, tinha nascido uma plantação de ipês coloridos no quintal, das três cores, e de cores mescladas, e que os vizinhos vinham ver como um milagre da natureza, sem nem desconfiar que eram produto de um milagre da paixão da caminhoneira pelo PM, e sem perceber que muitas coisas que não entendemos na vida são produtos de paixões que nem suspeitamos existir, nossas e dos outros.
Tudo que ela mais queria na vida, tudo o que desejava era um amor suave, em nada comparado com aquelas paixões avassaladoras que a deixavam sem fome, devorando flores e bebendo água, vomitando e suando perfume, caída extenuada na cama, chorando e chamando pelo amado, fosse ele quem fosse, ou cantando na boléia do caminhão, ouvida apenas pelo seu cão.
Ela cantava canções melancólicas, guarânias paraguaias que tinha aprendido com os ancestrais, sambinhas e toda sorte de músicas tristes que embalavam suas paixões mal-vividas, por que fugia de todas elas como o diabo foge da cruz, depois de uma ou duas noites com o amado, e, mal se percebia devorando flores, arrumava um carregamento pra bem longe, i-na-di-á-vel, e sumia-se nas estradas, cantando, chorando e comendo flores por semanas e meses, até que a paixão passasse e ela pudesse voltar a ter paz.
Cantava e tocava violão, mas tocava só nas noites de lua crescente ou minguante, pois a lua cheia, que agita as lombrigas e provoca hemorragias, e a lua nova, que não aparece nos céus e provoca depressão da alma, menstruação e desperta os medos noturnos, essas luas lhe faziam mal se cantava, e o amor crescia, ao invés de passar.
Cantava com uma voz melodiosa que fazia os homens se sentarem ao longe, e tomarem porres homéricos, ouvindo aquela voz que gostariam de prender dentro de casa, ao pé da cama e do fogão, e que fazia os cães saírem dos becos e virem se assentar aos seus pés, ouvindo silenciosos ao lado dos gatos vadios, que se esfregavam nos cães, lânguidos de paz e desejo, e as borboletas e mariposas pousavam também nas árvores, ouvindo aquele lamento do coração, e as salamandras, aranhas e escorpiões saíam do meio da madeira em chamas e vinham ouvi-la cantar na estrada, e as putas chegavam-se mais perto dos homens de porre, e ficava muito mais fácil fazê-los ceder aos encantos do sexo e do amor, ouvindo aquelas canções e aquela voz rouquinha e baixa, que se queixava ninguém sabia exatamente de que, mas que todos sabiam que havia motivos, centenas e milhares de motivos para que ela cantasse as queixas de todos os corações de todos os homens e mulheres da humanidade, de hoje, do passado e do futuro, e lavasse as almas transtornadas de todos os apaixonados de todos os tempos e lugares. E os pardais vinham em revoadas e pousavam nas árvores, e as andorinhas pousavam nos fios, que ficavam negros da cor de andorinhas negras, e todos se quedavam para ouvi-la cantar os lamentos da vida e da morte, os lamentos dos seres de todas as espécies. Os lamentos de quem estava vivo, e sabia que ia morrer um dia.
Tudo que ela queria era uma vida sossegada, e seu PM também desejava isso, uma vida de amor tranqüilo, de mulher encostada no ombro, nas noites de chuva, de pipoca estourando na panela e sendo comida a dois, enquanto assistiam filmes na TV, e riam juntos.
Quando ele se deitava, depois de horas na internet, tentando bater-papo e conhecer pessoas interessantes que aliviassem sua solidão, quando se deitava depois de passar o dia trabalhando, chegar em casa, tomar um banho, comer qualquer coisa que visse pela frente, por que estava sempre morto de fome, rafado de fome, quando se deitava depois de sair para beber, quando não agüentava de ansiedade e solidão, e voltava e se jogava sem camisa na cama, só de cueca, fumando, quando se deitava assim, tudo que desejava na vida, mesmo que não soubesse exatamente, era aquela paz de boi que ela queria também.
Dias intermináveis em que nada de especial ou chocante acontecesse, em que a rotina não fosse quebrada, em que a mesmice se instalasse e se recusasse a ser expulsa e desalojada. Todas as coisas nos eixos, mesmo que os eixos nunca tenham existido, e fossem apenas ilusão, o dinheiro no fim do mês, as dívidas sendo pagas e feitas de novo, todos saudáveis, bonitos, alegres, inteligentes, ou se fingindo de, estudando, morando, comendo, transando, ouvindo músicas, consumindo e sendo consumidos, enfim, vivendo. Aquela paz doméstica e nostálgica que todos conhecemos e repudiamos, mas que sentimos tanta falta quando se vai. Paz de boi dormindo, pastando, paz de vaca ruminando e sendo traçada pelos bois, e parindo bezerros, e espantando as moscas e os medos com o rabo. E babando de paz.
A paz de quem não tem nada a dizer, e mesmo assim fala, e fala demais, e fala compulsivamente, sem nem tempo pra respirar, e se tivesse realmente o que dizer, economizaria nas palavras, não gastaria os verbos inutilmente, e falaria o que serve e o que o outro escuta, só falaria aquilo que faz a vida ser menos difícil e complicada.
A caminhoneira era do tipo calado, que só falava o essencial, e cantava também o essencial, quando transbordava e precisava expor o que sentia, pra que os sentimentos não vazassem e provocassem enchente; o PM também era assim, do tipo de olhar calado, pensar silenciosamente, ao contrário de uns e outros que enchem o mundo com enxurradas de palavras, e quando a caminhoneira o olhou com as lágrimas escorrendo enquanto o candidato falava por eles e por todos os demais calados do país, ela soube que ele era do tipo que amava o silêncio e a escuridão, e o amou mais ainda por isso, por que reconheceu nele as almas que necessitam dos abismos para viver.
Por baixo da farda ela pressentiu aquele ser abissal, como os peixes que vivem nos fundos dos mares, nas profundezas onde reina a noite eterna, e há seres que não suportam a luz nem o barulho das superfícies, e se equilibram no escuro e no silêncio, onde não penetram sons nem luz do sol, nem da lua nem das estrelas. Ela pressentiu aquela alma com fosforescência própria, que se alimentava a si mesma, escondida, ali nos abismos, da competição do mundo superficial onde vive a maioria dos seres, os que amam a luz, os sons, a agitação, e competem entre si pelo alimento e pelas presas, enquanto os sensíveis seres das trevas buscaram refúgio no mundo dos abismos, depois de batidos na competição com outras espécies que viviam nas águas superiores.
Sentiu a quietude que ele lhe traria, longe da agitação das multidões, e que nos braços dele e recostada em seu peito poderia descansar da ofegância do mundo, respirando tranqüilamente, e o amou mesmo vestido de farda, justo ela, que, desde pequena, odiava fardas, uniformes, qualquer coisa que tirasse a homogeneidade humana de cada indivíduo, transformando-o em parte de algum grupo, ou instituição, dando a pessoas que participavam da humanidade como um todo uma fração, limitando-as, colocando-as em pé de guerra umas contra as outras, com suas bandeiras, e insígnias, e patentes, e cores para diferenciá-las daquilo que ela mais amava, que era ser igual a qualquer ser humano de qualquer época e lugar do planeta, com toda sua individualidade. Ela queria pertencer ao todo, e não a pedaços, e quando era levada ao médico, ainda criança, punha-se a berrar com todas as forças, ao ver aqueles uniformes brancos, berros de revolta contra a diferença, contra a autoridade que o uniforme impunha, e só uma pessoa como ela, que odiava uniformes e fardas, seria capaz de distinguir o coração atrás do invólucro, e amar quem quer que fosse que merecesse seu amor difuso e profundo, que nutria indistintamente por qualquer ser que cruzasse seus caminhos, entregando-se a todo tipo de amizade, e fugindo das paixões que pudessem prendê-la e fazê-la de um só.
Tinha medo de prender-se numa paixão, pois sabia por instinto que amores vêm e vão, nascem e se acabam, e nada é eterno, nem o amor nem o ódio, nem a vida nem a morte, e que tudo passa, como a uva. Perguntava-se sempre o que acontece com o amor que acaba, aquele sentimento tão forte, intenso, que parece que nunca vai terminar, e nos faz jurar amor eterno, fazer promessas de viver juntos até a velhice chegar, e a morte nos encontrar juntos, e que muitos tentamos, ah, como tentamos!, cumprir, mas se formos honestos até o limite do suportável, assumiremos que passou, e que nada dura para sempre.
Ela sabia que amores são assim mesmo, e estava preparada para viver amores às pencas, um aqui, outro ali, como as flores que devorava quando apaixonada, mas os homens com quem cruzava não costumavam estar preparados para esse tipo de amor, querendo sempre compromisso, casa, família, comida na mesa, filhos bem cuidados e vestidos, roupa lavada e passada, e sexo caseiro e doméstico, enquanto curtiam sua necessidade de aventuras com outras mulheres, sem que isso significasse falta de amor à mulher com quem haviam casado. E que quando eram abandonados pelas mulheres que achavam que nutriam como pássaros de boca aberta no ninho, esperando o alimento, passavam a amaldiçoar a humanidade em geral, as mulheres em particular, e sua própria esposa mais particularmente ainda, desqualificando todo sentimento anterior, e toda experiência vivida por terem chegado ao fim. Amaldiçoar as mulheres e a vida, espernear como crianças sem doce, gritando, por que comecei, por que entrei nessa, se tudo enfim terminou? Como se o fim do amor desqualificasse o tempo juntos, o bom tempo em que se deram bem, e se amaram e fizeram planos, e cumpriram lado a lado um projeto de vida, como se tivessem feito um investimento errado pelo simples fato do fim ter chegado.
Ela sabia que não era nada disso, que a separação e o fim eram naturais, como natural era viver junto ou sozinho, dependia da época, da disposição, e da sorte de encontrar um parceiro que estivesse na mesma etapa da caminhada. Mas como isso era raro, encontrar parceiros no mesmo estágio, preferia fugir dos compromissos que lhe queriam impingir, da mordaça que lhe queriam colocar, da coleira que estavam sempre acenando para ela, dourada no dedo e com flores de laranjeira nos cabelos. Definitivamente, não era mulher de usar coleiras, e nem de passear com um homem amarrado numa.
Talvez por essa vocação para contatos com todos, por esse amor indistinto e difuso, a caminhoneira tenha, desde pequena, gostado muito de qualquer coisa que significasse se comunicar, primeiro ouvindo as pessoas, depois conversando com os colegas por telefones de latas, com fio no meio, e treinando sons no tambor, como os índios dos filmes, e sinais de fumaça, tendo essa carreira interrompida no dia em que ateou fogo no pano de prato da mãe, levando uma surra das que geralmente levava, do pai, atendendo aos pedidos da mãe, que pai é pra isso, pra colocar medo nas crianças, enquanto a mãe frita bolinhos e faz afagos, e é acusada de ficar do lado dos filhos em todas suas artes, e depois, quando não agüenta mais, reclamar pro pai, que bate neles.
Quando apanhava desse jeito, como se batem nos animais teimosos, a menina se escondia no mato atrás da casa, sentava-se no balanço da árvore, e enquanto se balançava devagarinho, como a se consolar no berço, chupava o dedo e chorava baixinho, não fiz por mal, me desculpa, me desculpa, não fiz por mal, me desculpa, pai, me desculpa, mãe, não sou ruim, não sou, eu não fiz por mal... e repetia pra si mesma, até a noite e o sono a encontrarem ali, e cansada dormir encostada na corda do balanço... Depois, adulta, deitava-se na cama, e chupando o dedo e balançando o corpo no ritmo do balanço, repetia as mesmas palavras, e nunca se convenceu de que realmente não era ruim, e também nunca soube se acreditavam quando dizia não ter feito por mal.
Continuou sua carreira de maníaca das comunicações quando descobriu o código morse, e mandava mensagens fazendo os sinais numa marimba que havia ganho de Natal, e que, para ela, servia de comunicação com os vizinhos das casas dos lados; mais tarde aprendeu a montar um radioamador, e foi sua glória por anos, quando entrava na freqüência e dizia ôla, ôla, maracanuto, brêicou, brêicou, e os bigodes do outro lado ficavam maravilhados de estarem falando com uma mulher, êpa!, tem batom na faixa!, e pediam que ela se descrevesse, e a caminhoneira, que ainda não era caminhoneira, se descrevia como loira, como ruiva, alta ou baixa, cabelos lisos ou crespos, ao gosto do freguês, e todos ficavam muito felizes de conversarem com aquela garota que era exatamente o que eles haviam sonhado a vida toda, até que ela desaparecia, e deixava um rastro de apaixonados por sua voz e sua descrição. Isso também voltou a acontecer anos mais tarde, quando ela entrava nos bate-papos da Internet, ainda em sua mania das comunicações, e também se descrevia ao gosto do freguês, pois tinha uma capacidade ímpar de adivinhar o que esperavam que ela dissesse, e dizia exatamente o que queriam ouvir, mas raramente ouvia o que precisava, e acabou se acostumando a falar consigo mesma, cantando e se embalando, escrevendo cartas e cartões que enviava a si própria, até que conheceu um PM num chat da net. E ele lhe falou exatamente o que ela precisava ouvir, lhe falou de amor e de solidão, e ela aprendeu que havia outros como ela, apaixonados e com medo de amar, feridos de amores múltiplos que terminavam quando não havia motivo, e não terminavam quando havia muitos motivos, e lhe cantava músicas que soavam em seus ouvidos como água limpa e refrescante, e ouvia no telefone suas dúvidas, seus sonhos mais escabrosos e seus choros convulsos nas noites de insônia e solidão, quando ela sentia falta do amor que a deixava completamente abandonada, e vivia longe dela, em lugares onde ela não sabia como chegar.
Conheceu e, depois de algumas tecladas, foi logo se apaixonando pelo tal, apesar de conhecê-lo apenas de fotos e telefone, o que todos consideravam completamente absurdo, abmudo, abcego e abparalítico, como pode alguém se apaixonar virtualmente?, o que para a caminhoneira era absolutamente natural, não nos apaixonamos por qualquer pessoa por aquilo que fantasiamos dela, pela imagem que fazemos, e lançamos sobre ela, em última análise toda paixão não é apenas virtual, mesmo, tanto que a convivência e o conhecimento acabam matando a paixão?
E pensando assim a caminhoneira decidira-se que só se casaria com contrato assinado por tempo determinado, para evitar a decepção, a desilusão trazida pelo conhecimento, o tédio trazido pela rotina, as brigas e conflitos que seriam fatais ao amor, o medo da separação; estando os dois de acordo quanto a um tempo máximo de relacionamento, os conflitos poderiam ser evitados, e a separação menos dolorosa, por ter hora e dia marcados. Quando o final é conhecido, fica mais suportável, não foi por isso mesmo que as religiões inventaram o fim dos tempos com sinais e tudo, para mascarar a angústia do fim não sabido?
Depois de convencer o PM, em centenas de telefonemas e milhares de e-mails, de que só o conheceria sem compromisso, e que, se porventura, por acaso, por uma maldição que fosse, os dois se apaixonassem irremediável e irrevogavelmente, então fariam um contrato de no máximo dois anos de namoro e/ou qualquer outro tipo de convivência, só aí se sentiu menos insegura, mais intrépida, e marcou um encontro com ele. Iria até ele, conhecê-lo, ao contrário das outras mulheres, que faziam o homem vir até elas, mas ela preferia ir conhecê-lo, e não dar seu endereço, pra que ele não tivesse como achá-la, caso ela resolvesse sumir definitivamente antes dos dois anos de prazo máximo.
Afinal, era caminhoneira, e seria fácil chegar até a cidade dele, a mesma do interior do estado das praias e dos esses arrastados, do carnaval, do samba e dos malandros vestidos de branco, mais tarde do pagode e dos bandidos pobres dos morros, que enriqueciam com o narcotráfico e os seqüestros, lideravam os crimes de dentro das prisões através de celulares e da Internet, e financiavam vereadores, deputados, prefeitos e governadores, que o crime e o poder são irmãos de sangue, sempre espumando rixas, mas no fundo se amando e crescendo juntos.
A mesma para onde havia ido, anos antes, e assistido ao comício do candidato, agora presidente, a mesma onde havia amado uns olhos baixos cheios de lágrimas, escondidos por um quépi e uma farda de militar.
Marcaram o encontro para um fim de semana em que ela entregaria uma carga na capital ali perto, e aproveitaria para chegar até a cidade dele, e antes do fim de semana passou quinze dias apenas bebendo água e comendo gelatina de pétalas de rosas, bem vermelhas, e ficou cheirando a rosas e gelatina, e seus cabelos cheiravam à água dos riachos, pois bebia água mineral das fontes limpas, para refrescar a alma daquela paixão que a escaldava por dentro, e que sentia que poderia derretê-la, se comesse qualquer coisa menos delicada e geladinha.
Ele, por sua vez, passou quinze dias fingindo que estava no controle, mas fumava como louco, falava carinhosamente com os cães e xingava a mãe e as irmãs por qualquer pretexto do mais vagabundo, completamente impaciente com o mundo, irritado com os colegas de trabalho, se matando de competência no serviço, para disfarçar a ansiedade, e deitava-se, naquelas 16 noites, até conhecê-la, com dor de estômago e a cabeça rodando, enfumaçando o quarto todo, até a noite em que os bombeiros invadiram sua casa, pensando tratar-se de um incêndio, e carregaram a mãe e as irmãs desmaiadas para fora, enquanto o PM, de cueca e com um cigarro na mão, levitava sustentado pela fumaça, e escapou ileso de um desmaio pois flutuou para fora do quarto, e os rolos de fumaça o sustentaram, como uma nuvem na frente da casa, até que abrissem todas as portas, batessem ar nos cômodos, e ele ali, deitado na sua nuvem, respirando normalmente e pensando na caminhoneira da Internet, alheio completamente aos bombeiros, aos gritos das irmãs, ao choro da mãe, aos vizinhos que se aglomeraram para ver o incêndio, mas nada puderam ver, a não ser a fumaça sendo dispersada, e ninguém sabia de onde vinha, e não conseguiram perceber o incêndio na alma do PM, pois nunca haviam se acostumado a fitar os olhos do vizinho, que entrava e saía de casa como se só houvesse aquela casa e aquela pessoa na rua e no mundo.
O incêndio só se apagou completamente quando o caminhão colorido e enfeitado encostou na calçada da frente da casa do PM, que abriu a porta pra caminhoneira, estendendo-lhe a mão para descer da boléia. Ôi, tudo bem com você? Sim, e você? Eles se abraçaram, ela ainda de pé na porta do caminhão, ele retirou-a dali num abraço, e não fizeram outra coisa a não ser se abraçar fortemente e beijar, muito, muitas vezes, aprendendo o que era a realidade, lavando a virtualidade frustrante que tinham vivido até então, naqueles meses todos. Ela olhou nos olhos dele, e viu que era o mesmo PM de dez anos atrás, o que chorava com o quépi abaixado, o que sentia as palavras do candidato no próprio corpo, o candidato que agora estava eleito, e se sensibilizava com elas. Amou-o mais ainda por isso.
Passaram sete dias, sete tardes e sete noites trancados no quarto do hotel, fazendo amor, se experimentando, lambendo seus perfis, sentindo-se com as pontas dos dedos, se dando e tomando, até que deixassem de ser virtuais e se tornassem reais para si próprios. Dormiam abraçados, ela encaixada na concha formada pelo corpo dele de lado, o braço dele sobre o corpo dela, e ele nunca dormiu tão tranqüilo, o sono sem sonhos, em paz, a paz do boi que nunca tinha experimentado, mas apenas intuído. Ela dormia feliz, sonos agitados por sonhos de todos os tipos, que não se lembrava de manhã, e gemia e soluçava sonhando, pedindo perdão, se desculpando por ter nascido e ser do jeito que era.
Soluçava encaixada no corpo dele, pedindo desculpas por não ter participado das revoltas de Spartacus, e por ter queimado cristãos para iluminar as festas imperiais, desculpava-se por não ter soltado os judeus dos campos de concentração, e por não ter feito nada para impedir que se suicidassem em Massada, e se desculpava por não ter salvo Garcia Lorca e La Passionaria do fuzilamento, e nem ter carregado as crianças de Parma para Gênova em seu caminhão, e pedia perdão por não ter feito nada pelos plantadores de bananas colombianos da United Fruit Co., nem deixado de comprar gasolina Shell nem de tomar coca-cola para boicotar a guerra no Iraque, e se desculpava, soluçando, por não ter soltado as bruxas medievais das fogueiras, nem tirado as mulheres da fábrica em Chicago do meio do fogo ateado pelos patrões, e nem ter tirado Sacco e Vanzetti do patíbulo, e por não ter dado de comer à filha de Marx quando chorava de fome, e por não ter levado as crianças de rua para casa, e não ter impedido que o índio morresse queimado; e do meio dos soluços ela implorava perdão por apenas ter nascido e ser tão impotente, tão frágil, tão covarde, tão mulher, tão caminhoneira, tão povo, tão ser humano.
Então acordavam, faziam amor, e nesses sete dias, sete tardes e sete noites que passaram juntos, o PM aprendeu o que era ser amado simplesmente por que se tinha amor transbordando pra dar e receber, e a caminhoneira soube o que era sossegar e sentir menos culpa, assumindo sua humanidade e deixando aplacar um pouco aquele medo insano de tudo, de viver e de morrer.
Aprendeu, nos sete dias, sete tardes e sete noites em que passou com seu PM, que a solidão pode ser compartilhada e tornada suportável, e que sempre poderia construir um lugar para voltar com seu caminhão, de suas viagens, um lugar em que o Outro fosse seu porto, quando ela não conseguisse ser para si mesma.

Eloisa Helena Maranhão.