24 abril 2012

Ato vil

Para Morgana, Le Fay, que me ensinou que ninguém é tão bom quanto deseja nem tão mau quanto parece. Ou vice-versa?

"Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
que confessasse não um pecado, mas uma infâmia."
(Fernando Pessoa, "Poema em linha reta")


Ela acordou de manhã ensopada de culpa. Acordou é modo de dizer, pois passou a noite em claro, com medo de ser descoberta, que seus crimes fossem expostos em praça pública, arrastada, nua, os seios caídos, a alma em pelancas aparecendo, amarrada aos cavalos dando galope em volta da praça. Sangue, sujeira, o corpo todo esfolado, até morrer no castigo pedagógico. Bem feito.

Não queria morrer. Queria continuar viva, exercendo suas vilezas. Escondendo de todos o que todos escondiam até de si mesmos.

Passou a noite rezando para que Deus matasse seus algozes, seus acusadores também, nem precisava ser morte doída, bastava que morressem e dessem sossego. Que não a desnudassem em público. Uma coisa é ser vil. Outra é ser descoberta.

Não conseguia sentir raiva dos algozes, a raiva não cai bem nos réus, é prerrogativa das vítimas, apenas. Tinha que sentir culpa, medo, vergonha, vergonha de ser humana, de cometer vilezas em meio aos puros, de almas alvíssimas, omo, cloro e anil, de ser gente em meio aos deuses. Vergonha de ser torpe e sacana, quando todos tentavam - ao menos tentavam! - não cometer vilezas nem sacanagens nem infâmias nem crimes. Dos grandes nem dos pequenos.

Olhou para o marido no travesseiro ao lado - ele, sim, tinha dormido o sono dos justos, até roncado e babado na fronha de tanta integridade de caráter, voltou a chorar o choro da noite em claro, e perguntou: você me perdoaria se eu tivesse cometido um crime bem grave, um assassinato, um crime muito criminoso?

Ele olhou-a intrigado, esforçando-se para não se assustar: mas você não cometeu esse crime criminosíssimo, cometeu? Ela teve certeza, ele não perdoaria. Era melhor não assassinar ninguém. Ou não confessar, caso o fizesse. Ele estendeu a mão, acariciou-a nos cabelos e chamou, deite aqui no meu ombro, vem. Ela recusou. 

Réus não têm direito a ombros, colos, consolo, álcool, drogas. Réus têm que sofrer. Sozinhos. Conforto é para os justos. Apenas.

Ficou lembrando - era sábado de aleluia - dos criminosos da Bíblia. Davi era um dos piores, adultério, mandante de assassinato, abuso de poder. Jacó era ladrão e usurpador do próprio irmão. Tinha muitos outros, incluindo as putas como Raabe e Madalena - ao menos na história judaico-cristã oficial, os estupradores e curradores, os invasores que destruíram povos inteiros, genocidas, chamaríamos hoje. 

Lembrou-se com certo alívio de Jesus, quem não tiver pecado que atire a primeira pedra. Lembrou-se com desgosto e medo mais intenso dos cristãos, dois mil anos e continuam com pedras nas mãos, inclusive apedrejando legalmente os pecadores. Judas, então, nem se fala! Traidor. Hijo de la Malinche. Só ele. Os espanhóis das esquadras de Pizarro e Cortez, não. Foram descobridores, não invasores. Bush não. Nenhum dos dois com suas guerras justas, Bush pai nem Bush filho. Ela, sim. Criminosa, culpada.

Não queria ser bode expiatório, queria continuar praticando sua vida vil, suas fantasias vis, seus crimes às escondidas. Não daria mais, se a descobrissem. Era horrível não ter telhas, e todos os outros viverem sob um teto sólido. Protegidos do sol e da chuva. Ela era sem teto. Nascera no abandono, crescera desamparada, ficara adulta ao relento.

Tinha filhos. Lavava, cozinhava, trabalhava fora, botava band-aid nos machucados. Quem poderia imaginar que fosse capaz de uma infâmia? Quem ousaria olhar para uma mulher grávida, uma mãe amamentando, e supor a capacidade de um crime? Mães não são criminosas, a priori. Filhos, sim, jovens, rebeldes, ambiciosos de uma vida que preste viver, drogados. Pais, sim, podem ser, quase velhos, descontentes, frustrados da vida que levavam à revelia. Mocinhas talvez, mesmo as de olhos claros e almas transparentes, cabeças de vento, apaixonadas por um safado qualquer. Mães nunca. 

Nutrizes, geradoras, colunas da família, estacas da sociedade. Se os filhos ou o marido chutavam o pau da barraca, os esteques ficavam lá, plantadinhos, altaneiros, esperando o arrependimento e que levantassem novamente a barraca. Estáveis. Sensatas. Não estrangulariam pintinhos, não puxariam o rabo do gato, não atirariam num bandido - nem pra defender a prole, por que o Senhor cuida deles, vivem protegidos pelas orações das mães -, não esmagariam uma barata sequer, não envenenariam a sogra, não cortariam o pau do marido.

Mães são seres incapazes de uma torpeza, desde Maria, recendem a vítimas, nunca a rés. No máximo cheiram a algum perfume francês, um amante no armário, um motel esporádico. Mas isso é perdoável, se nunca confessado. Não se pode chamar vileza. Mães passam noites em claro velando o filho doente, cozinham canjas e sopas de cebolas douradas, fazem chás de limão e canela, espremem o suco das frutas que fortalecerão os amados. Não seriam capazes de uma abjeção, de pensar torpe, de sentir torpe, quem dirá agir torpemente.

Não têm sótãos escuros na vida, cinza na alma, música em ré menor dentro de si. Não as mães. Ah, as mães...

Você é maluca, espicaçou o filho. Pois uma mulher que escreve desse jeito só pode ser maluca. Aliás, doida de pedra, falou o menorzinho dentro dela. Ele gostava de falar aliás. Era uma palavra sonora. Aliás, ninguém normal escreve assim. Aliás, ninguém precisa escrever. Aliás, ela precisava. E, aliás, ela escrevia. Mesmo quando não estava escrevendo, escrevia dentro de si. Seus dedos percorriam rapidamente um teclado imaginário, podia ver mentalmente onde estava cada tecla, cada letra que tinha de digitar, frases se formavam, cada palavrinha mais linda, mais bem encaixada nas outras, redondas, eram seixos rolados as palavras dentro dela, formando anéis de corais, atóis, as palavras rústicas, rudes, toscas, que cortavam pés de quem não sabia caminhar sobre elas, e quanto sangue arterial esguichava do corte profundo.

Olha só, "esguichava", não era seixo rolado, era batida demais, dicionário, vamos trocar por jorrava, batida também, em jorros, que diferença o verbo ou o substantivo?, quando não encontrava a palavra, inventava, o sangue mangueirava do corte, também não serve, desconhecido demais, "mangueirava", quantos leitores tontos a vil não vai esbarrar por aí, ou esbarrarem com seu texto. Fica esguichava, mesmo, dois pontos: suspiro resignado.

O bebê precisava comer, e ela escrevia, não queria amamentar e a criatura chorava alto de fome. Azar o dela. Da criatura e da mãe, também.

O de quatro anos estava imundo, melado de leite condensado que mamava na lata, quando tinha fome, e depois regava no estômago com coca-cola ou guaraná, que sede que leite condensado dá, grudento de suor de tanto brincar de bola sozinho, chutava e corria pro gol, não conseguia defender, e saía gritando e comemorando o gol feito, era só correr pro abraço dele próprio e a torcida vibrava.

A menina de sete e dentes trocando fazia lições compulsivamente, desenhava as letras, mastigava a ponta do lápis, apagava, fazia de novo com mais perfeição, ai que cacete essa menina, vai virar uma chata, só pode.

O de treze, adolescendo, se masturbava no banheiro, gastava meia hora empinando o topete com gel, e saía pra jogar bola na rua, não sem antes arrancar o caderno da menina pra vê-la berrar feito uma surtada, chutar a bola do de quatro e fazer gol, para vê-lo chorar por que aquele gol desequilibrou o empate e deu a vitória para o adversário. Adorava ver todo mundo chorar seu choro reprimido.

Quantos filhos tem essa mulher, parece coelho, pensavam, mas ter um é ter mil, todos, é ser mãe da humanidade, quantos filhos têm os humanos, que dão trabalho e exigem atenção, famintos, carentes, olhando em acusação, você me abandonou, você descuidou de mim, você não me quis, tentou me abortar, você me achou na soleira, no lixo, nem teve vergonha de me registrar como seu – e eu não sou seu! -, que merda de mãe, que fiasco, que fracasso de mãe que não tem tempo nem paciência nem vontade de brincar com os filhos, conversar com eles, ouvir suas histórias, ir às reuniões na escola, ralhar quando falam palavrão, impor limites, dar exemplo, citar frases de efeito, que a humanidade inteira foi educada com elas, que raio de mãe que não incutia valores, e não servia para nada. Era vil até na maternidade, essazinha.

Tinha que escrever. Alguma coisa ela precisava fazer bem, já que era mãe fracassada e assumida. O filho de vinte anos tinha dito com todas as palavras, que bosta de mãe você é, e ela não teve coragem de se defender, encará-lo e esmagá-lo com seu amor, pois o lado mais frágil sempre são os filhos, e ela não ousou – por amor – desabar sobre ele e perguntar, mas o que você quer de mim, o que você quer que eu faça para ser boa mãe, o que te falta em mim, meu filho? Como descobrir o que nos falta no Outro. Deixou passar a agressão magoada, deixou quieto, não queria destruir o filho com seu amor, carinho era uma coisa devastadora, achou que podia poupá-los do excesso de amor e cuidados que vazava dela, mas parece que não deu certo.

A de dezesseis nem olhava para ela. Era como se não existisse, ou não devesse existir, o que era pior ainda. Aqueles olhos sempre escorrendo rancor, vermelhos de raiva, lágrimas e auto-comiseração, como chorava essa menina, meu Deus! Só pedia dinheiro, fazia cobranças, você me pôs no mundo porque quis, eu não pedi pra nascer. Recordava de quando era adolescente e pensava a mesma coisa dos seus pais.

Mas quanto filho tem essa mulher, pensavam. E quanta solidão. Cada filho uma solidão a mais. E mais uma culpa pelo fracasso. E mais uma vileza inconfessada, que criar filhos exige atos vis. Como não se sentar à mesa na hora das refeições, no meio daqueles bolos e chás e leites e sucos e frutas e geleias e manteigas e pães e almas famintas, e se alimentar apenas das migalhas que caíam na toalha branquíssima, como um passarinho. Ou uma cadela cananeia. Vilezas como amar e cuidar mais dos próprios filhos, e ser injusta com os filhos alheios, sempre do lado dos seus, esquecendo da espécie em função dos genes familiares, família cada vez mais nuclear, nem dos sobrinhos gostava mais, nem das tias, mas só dos filhos e pais.

Família nuclear, nada das grandes famílias italianas, coloniais, vivendo todos juntos, dando suporte e apoio uns aos outros. Agora era cada um por si, inclusive nas vilezas, sem ter a quem confessar, confessar o quê, onde andam aqueles padres que tudo ouviam e calavam e fingiam compreender e usavam os pecados contra o pecador, para mantê-lo submisso?

A confissão seria uma atenuante, mas vilania não tem atenuante, nem consolo, nem o consolo póstumo de ter sido injustiçada, bem aventurados os perseguidos por causa da justiça, tinha que purgar, sem dó nem piedade, sem perdão passado, presente ou futuro.

Lembrou-se do Carandiru, visto por seus olhos aflitos da janela do metrô em movimento, aquelas mãos para fora das celas, abanando a qualquer humano que tivesse olhos para eles, como fazia falta um olhar humano sobre a desumanidade ali confinada, aquelas janelinhas com as roupas e as mãos penduradas e os olhos - dos de fora e dos de dentro - pendurados e os crimes pendurados e as almas penduradas, mal lavadas, cheirando mofo. Ainda bem que o Carandiru não existe mais, aquelas paredes marcadas da varíola da sociedade, aqueles gritos e todo o sofrimento que passara por ali. Não existindo, não corro o risco de parar lá, também.

Cansei de pagar para ver meus próprios blefes, pensou desconsolada, chega um dia em que a gente cansa.

Deus não existe, pensou mais desconsolada ainda, a história não me absolverá, vou ter que esperar virar pó, para descansar.

Parou de chorar, que chorar não resolvia o problema, e pensou, a pérfida: sou melhor do que pensam, e muito pior do que ousam imaginar.

Foi esse seu único consolo.

Eloisa Helena Maranhão.

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