18 novembro 2011

Bicho do mato

"Falo como em mim se fala. Não a minha voz destinada  a
parecer uma voz humana, mas sim a outra que testemunha
que não deixei de morar no bosque.”  (Alejandra Pizarnik)


A selva era seu lugar.
Habitava ali, longe das multidões, entre bichos e feras, lugar ermo, afastado, distante de toda multidão, de tudo que se pudesse chamar convívio humano.
Tinha desaprendido a falar, sorrir, e sua música só era ouvida por si mesma, que se embalava nos seus cantos.
Sabia lidar com as aves, os peixes, os insetos, os pequenos mamíferos, as plantas e ervas, mas já tinha se esquecido de como se lidava com gente.
Quando tentava, nas poucas vezes em que tentava, unhava, arranhava, soltava alguns uivos que tentava fazer compreensíveis, e o que via nos olhos alheios era incompreensão e desentendimento. E tanta mágoa, meu Deus, tanta quanto haviam causado a ela.
Seu corpo sabia a linguagem da natureza, quando estava feliz dançava como as folhas das árvores e as flores coloridas, quando triste chorava como as cachoeiras que matavam sua sede, quando doente largava-se escondida numa cabana, até sarar.
Mas não sabia mais falar.
Não sabia mais como se comunicar com os humanos.
Ficava irrequieta, irritada, naquele estranhamento de animal de zoológico, quando tentavam aproximação.
Deprimia-se com facilidade nessas ocasiões raras de tentativa de aproximação, por que sentia a dificuldade de compreensão mútua, e não desejava magoar, mas quase nunca conseguia dizer o que lhe ia na alma selvagem.
Ah, a lua! Banhava-se de lua para refrescar-se do calor do dia, e então podia descansar, só dormia quando havia luar e sereno e silêncio noturno com seu coaxar de sapos e pios de corujas.
Hibernava no inverno, o frio lhe era um incômodo, deitava-se no fundo da caverna, fogueira acesa na porta, e só brotava de novo no início da primavera.
Tremia de frio na sua solidão, mas que importava, se o sol voltaria e aqueceria seu corpo – mas nunca sua alma -, mas que importava, bichos do mato não têm alma.
Perambulou anos pela floresta, fazia jogo de esconde-esconde com os humanos que cruzassem seu caminho, não aparecia completamente, mas também não suportava a ausência total de humanidade.
Mas sabia que nas cidades dos humanos a vida era indecente, que viviam pior que as feras, que se devoravam uns aos outros, que corriam como ratos sem rumo, ninhadas cada vez maiores e desesperadas. Sabia muitíssimo bem que por trás das gentilezas e dos sorrisos forçados e das palavras ocas de significados e das enxurradas de palavras e estímulos sonoros e visuais escondia-se o Nada, gestavam-se a incompreensão e o desentendimento, e borbulhavam a violência e a indiferença.
Preferia a selva.
Começou a sentir falta do calor humano quando viu aquele ser que também perambulava por ali, vestido de pele de urso. Ele tinha pele de urso!
Parecia quente - e era tão quente! – e piscava para ela, e abria os braços vestidos de pelos quentes, e a atraía para si com todo aquele calor e aqueles olhos compreensivos, pois já havia passado pelo frio também, antes de seu agasalho de urso.
Pela primeira vez ela sentiu vontade de conhecer o convívio humano, de se envolver, de se aquecer naquele calor diferente.
Sentiu, se aproximou, era tão bom estar aquecida ali, mas tinha medo do que seria aquilo tudo que estava sentindo, de ser uma ilusão, como quando tomava sol demais ou passava tempo demais dormindo e sonhando, e quando acordava já não sabia diferenciar os sonhos dormindo dos sonhos acordados...
Embrenhou-se na selva de novo, tentou arranhar o de pele de urso, espantou-o dali com mil urros e caretas, jogou-se no chão úmido e gelado do húmus, e então a tarde caía, estava escurecendo, e passou a noite ao relento, uivando pra lua e tremendo.
Na manhã seguinte foi até a borda da floresta, desmanchando de solidão, agora sentia mais ainda o que era estar sozinha depois de saber aquele calor e um olhar humano sobre si e sua selvageria, e então ele ainda estava ali, com sua pele de urso, seus braços abertos e suas piscadas de olhos.
Achegou-se a ele, e por fim pôde entender o que ele falava "você quer que eu me afaste?", "não, fica comigo".
Ele ficou. Agasalharam-se na pele de urso, calados, por que há coisas que nunca precisam ser ditas, e que as palavras atrapalham, e qualquer coisa que não seja corpo e sentimentos é desnecessidade.
Fez dele sua cabana, e por fim encontrou abrigo. Mesmo que por pouco tempo. Mesmo que abrigo incompleto. Mesmo que, que tudo que existe é mesmo que.

Eloisa Helena Maranhão. 

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