18 novembro 2011

Clara transparência

Há, quando vem o dia, 
uma divisão do sol em pequenos sóis negros. 
E quando é noite, sempre, 
uma tribo de palavras mutiladas 
procura abrigo em minha garganta
para que eles não cantem, 
os sombrios, os donos do silêncio.”
(Alejandra Pizarnik)


A morte chegou muito mais perto de Clara no dia que viu um enforcado pendurado. Tinha sido suicídio, e Clara ficou pensando se ele também tinha tido medo de ser tragado pelo sol, e por isso se matou.

O sol, quando manda seus raios para a terra, manda com ele minúsculos e invisíveis sugadores de pessoas, que vão chupando-as devagarinho, até que elas chegam tão, mas tão perto dele, que acabam se desintegrando na atmosfera solar, passando a fazer parte dele. Uma triste e trágica sina para os que preferem morrer de velhice e serem enterrados na mãe terra.

O enforcado não chegou a ser sugado totalmente, como seu corpo balançando na corda comprovava, mas também não desejava ser enterrado e muito menos morrer de velhice. Acabou cremado e suas cinzas espalhadas pelo vento, um fim bastante suave e tranqüilizante.

Ninguém nunca soube como Clara começou a evitar o sol. Mas foi logo após o suicídio do enforcado. No início só evitava, saindo à rua de óculos escuros, chapéu, casaco, luvas, botas. Justamente quando o sol estava mais a pino e o calor era maior. Só perceberam que havia algo diferente quando ela passou a detestar o sol abertamente. Eu te odeio, sol, quente, suado, cheio de mugidos e desmaios. Quando acordava enfiava-se embaixo do edredom e dizia bem alto, para ser ouvida pelo sol, caralho, mais um dia pra acordar, mais um dia de sol, porra, recolhe seus raios, sua luz, seu calor, que eu quero descansar em paz. Clara gostava de palavrões, tanto quanto de transparência, eram suas especialidades. Era como os índios de Caminha, não tinha Deus, nem Rei, nem Lei. Fazia o que lhe dava na telha.

Não sabia como começou a evitar, mas como o medo do sol chegou, Clara sabia. Chegou junto com Van Gogh e os girassóis, aquele amarelo explodindo, milhares de pequeninos sóis querendo entrar nela, pelos ouvidos, nariz, além dos olhos. Até que o sol passou a querer sugar Clara. Ia puxando-a de fininho, feito um palito, até levá-la tão perto dele que Clara se esvaneceria, derreteria, virando uma parte daquele fogo. Ela lutava contra isso, esse dissolver-se no sol, passando, portanto, a evitar sair de dia.

Mas não pensem os incautos que, por evitar o sol e a luz, Clara era obscura. Pelo contrário, era iluminada demais, sem sombras de qualquer espécie, tudo nela brilhava, aparecia, incluindo seus pensamentos, que eram rugidos à luz do dia e à escuridão das noites. Sentia-se como O Grito, de Munch, completamente aberta numa amplidão angustiante e desesperadora, mas era o que podia de si.

Sua mente vivia ao relento, sem teto, telhas, telhado, sem nada que a encobrisse, como se não tivesse um inconsciente. Ou só tivesse ele. Transparente, nítida, límpida, luminosa, translúcida. Clara. Ao ponto de perder-se nessa lucidez excessiva, passando a vagar num mundo de luzes que cegavam. Cega, só tinha como mover-se dando passos puros, sem determinar antes.

Não havia passado para Clara, já que esse não se havia preparado para ela. No agora cego só sobrava agir, atos desvinculados uns dos outros ou de um planejamento qualquer. Sem plano, sem linha mestra, só pedaços dispersos, desorganizados a ninguém. O diabo é o ato, soube Clara logo que começou a dar seus passos no escuro. Deus se faz no pensar. O diabo primeiro desmonta, pra Deus organizar.

Clara não tinha destinação. Se houvesse, era a nada. Mas tinha vontade de Deus. E de Demônio. Sempre queria ser, mas não conseguiu. Restou-lhe apenas o humano. Mas queria desumanizar-se. Talvez ser coisa, algo, já que não podia ser divino. Foi quando o humano que morava nela decidiu jogar-se do viaduto sobre a BR116. O da Borges Lagoa sobre a 23 de Maio também servia. Tinha de ser um viaduto competente, que não lhe deixasse apenas com as pernas quebradas, enchendo o saco da enfermagem, por saltar do segundo andar. Para jogar-se e não voltar mais, nem via Chico Xavier.

Aqueles fragmentos transparentes de Clara eram um espetáculo da desordem. Por onde passava rostos espantados a olhavam, ao vê-la assim se desmontando por trechos, cada vagão separado, tijolinhos de eu, assim no mínimo, até montar o antitudo.

Era a hora do desmanche.

Eloisa Helena Maranhão.

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