26 novembro 2011

Comendo flores


"... Como os castelos nascem dos sonhos,
 pra no real achar seu lugar... Como se faz
 com todo cuidado a pipa que precisa voar...
Cuidar de amor exige mestria e Leo e Bia
souberam amar.” (Oswaldo Montenegro)

Outubro era um mês sossegado naquela cidade do interior. Interior do estado das praias e dos esses arrastados, do carnaval, do samba e dos malandros vestidos de branco, mais tarde do pagode e dos bandidos pobres dos morros, que enriqueciam com o narcotráfico e os sequestros, lideravam os crimes de dentro das prisões através de celulares e da Internet, e financiavam vereadores, deputados, prefeitos e governadores, que o crime e o poder são irmãos de sangue, sempre espumando rixas, mas no fundo se amando e crescendo juntos.
Os PM's com suas fardas e seus quépis traziam pizzas para os bandidos presos, levavam ordens para seus irmãos nos morros, armas para facilitar as fugas, faziam escoltas para levá-los ao judiciário, servindo aos criminosos como funcionários públicos, numa lógica irrefutável - bandido também faz parte da sociedade, e quem presta serviços à sociedade serve também ao bandido.
(E, caso faltasse essa lógica, o dinheiro ganho calava consciências e questionamentos, pois a riqueza serve justamente para cobrir as lacunas da lógica, da argumentação, da negociação, da tentativa de conciliação de interesses).
Naquela manhã de outubro batia um vento que refrescava o sol quente, balançava as folhas das árvores e arrepiava a pele da pequena multidão reunida na praça principal.
Havia uma agitação de bandeiras vermelhas, de bonés, camisetas, estrelas e corações vermelhos, de faixas e cartazes; o povo zumbia, olhando o palanque com a liderança local, esperando o candidato.
O candidato das esquerdas, da oposição; o líder sindical que tinha saído preso da sede do seu sindicato de operários dez anos antes, junto com o advogado que depois se tornou ministro do trabalho no governo da corrupção. Mas o candidato não, continuou mantendo sua integridade até dez anos mais, quando só então foi eleito presidente, arrepiando seu país e o mundo.
Arrepiou a direita neoliberal, que via nele, para além do medo do povo no poder, a única opção de uma certa estabilidade e um crescimento econômico que mantivesse o grande país alinhado ao capital internacional, continuando a sustentar as potências centrais com os juros da dívida que fizera ao longo dos séculos. Juros pagos com a produção de minérios, de energia barata, de alimentos, e quanta fruta e grãos e carne e leite se produzia e vendia, e quanta carne e grãos e leite e frutas faltava na mesa do povo pobre, sem dentes e sem esperança, descalço e faminto, esperando nas filas, morrendo de diarréia e tuberculose, se coçando de sarna e verminoses, despencando de lepra e AIDS. E câncer, e cirurgias mal feitas, e infecções puerperais, e hemorragias variadas. O povo sangrava, numa hemorragia que nada estancava, que não interessava estancar, e o candidato serviria para manter esse sangue ao menos fluindo - assim pensavam os vampiros imperiais do neoliberalismo. Seguiam a máxima do "mudar para não perder", ou do "façamos a revolução antes que o povo a faça", que dá na mesma.
Naquela tarde de outubro, naquela cidadezinha do interior, embaixo das árvores que oscilavam suas folhas e do sol que esquentava de vermelho os corações, o candidato falava sobre tudo isso, de maneira suave mas ousada, com a intrepidez de quem sabe o que diz, e por que diz, e para quem diz, e o eco se fazia ouvir nos movimentos sociais que se fortaleciam, nas ONG's que eram criadas, nos sindicatos que iam deixando de ser pelegos e expulsando pelo voto os herdeiros das intervenções, nas comunidades que tomavam consciência de sua força e poder, e exigiam do Estado o que lhes era de direito, e o eco se fazia ouvir nas multidões que saíam às ruas agitando bonés, bandeiras, faixas, cartazes, camisetas, estrelas e corações vermelhos, e que, mais de dez anos depois daquele outubro votou em massa no candidato, elegendo-o presidente, mas isso foi só mais de dez anos depois.
E o eco se fazia ouvir nos lugares mais impensáveis, como no coração do PM que montava guarda na praça, cumprindo seu dever, e o rosto lavado de lágrimas, enquanto ouvia o candidato falar aquilo que já sabia muito bem dentro de si, que nunca tinha ouvido, mas apenas percebido nos poucos anos de juventude e trabalho.
Era um menino, ainda. Tinha passado só algumas horas de ser menino, com o quépi afundado no rosto, as lágrimas correndo, o candidato discursando e o menino cumprindo seu dever de policial, cabeça baixa, quépi ocultando a emoção que não se sentia no direito de sentir, afinal era pouco mais que só uma criança, pouco mais que só povo, exatamente mais nem menos que um brasileiro. E as palavras do candidato abriram aquele buraco nos olhos, e no coração, que nunca mais se fechou, que não cicatrizou mais, e nunca mais o menino se tornou macho, nunca mais se enrijeceu, nunca mais se tornou policial, nunca mais se tornou militar, ficando apenas menino e homem. Humano, demasiado humano, naquela praça de outubro na cidade do interior do estado das praias, da malandragem, do samba, do pagode e da bandidagem, e o PM se tornou gente ali, brasileiro ali, povo ali, ouvindo aquela voz que era sua também, que era dos sambistas, e dos pagodeiros, e dos malandros, e dos bandidos, e dos trabalhadores, com ou sem carteira assinada, e era a voz dos brasileiros, e das mulheres espancadas, e dos maridos espancadores, e das crianças abusadas, e dos traficantes abusadores, e das prostitutas exploradas, e dos cafetões e machos exploradores, e dos velhos esquecidos e da previdência desmemoriada, e aquela voz era a voz dos civis e dos militares, ao menos dos que não deixaram de ser meninos, e sabiam ouvir a voz e lavavam o rosto com lágrimas, ocultas embaixo do quépi.
Ninguém, no meio daquela multidão, agora muito maior, depois que o candidato havia chegado e falava, ninguém prestava atenção no PM, o de rosto lavado de lágrimas, o que se comovia com as palavras do candidato, o que se sensibilizava quando ouvia a voz do povo na voz do candidato das esquerdas. Ninguém notava o PM, porque ninguém nota ninguém, cada um tão absorto em suas próprias dores, e lembranças, e dificuldades, tão voltados para a própria vida, que não consegue olhar ao lado, para baixo, nem para cima, para trás nem para frente, porque viver não deixa tempo nem vontade de olhar para nada que não sejamos nós mesmos, e se ao menos olhassem para si mesmos, mas nem isso. Nem isso... Viviam sem olhar nada nem ninguém, preocupados em se manter vivos, distraídos das mazelas dos outros, e das próprias, senão ninguém suportaria viver.
Pois no meio desse bando de ninguéns, como gralhas barulhentas, matilha de lobos e bando de pardais preocupados com a vida, no meio deles só uma pessoa notou as lágrimas do PM, notou o quépi abaixado, notou o coração comovido dele, notou a vida de menino pobre que tinha levado até ali, com um único short pra vestir, e sem presente de Natal, notou como era doce aquele menino escondido atrás da farda, e o amou.
A caminhoneira que amou o PM era mais uma das caminhoneiras que vivem perambulando pelas estradas do país em seus caminhões. O dela era colorido, enfeitado com corações, flores e fitas, que ventavam quando seu caminhão corria, quase saltando dele para a estrada, penduradas apenas pelas pontas.
Andava por todas as estradas, carregando todo tipo de mercadorias, desde que seu pai a havia colocado na boléia de um caminhão, décadas antes, e levado numa das viagens, por falta de filho homem. A partir dali, a caminhoneira nasceu, e logo que completou 18 anos tirou carteira de motorista profissional e partiu para a estrada, diante do desgosto da mãe, do espanto das irmãs e de um certo orgulho do pai, que encontrou nela o filho que nunca teve.
Também havia saído o mais cedo possível de casa por que não suportava o casamento cheio de brigas dos pais, o ódio contido, bem pouco contido, sejamos fiéis aos fatos, os palavrões, as lágrimas da mãe, as bebedeiras do pai, as irmãs escondidas no guarda-roupa, ou embaixo das camas, enquanto ela saltava pela janela e passava as noites ao relento, no meio do mato atrás da casa, até perceber que o pai havia se acalmado, e podia voltar.
Voltar para casa era o que ela menos gostava, e pegava as viagens mais longas que ofereciam, pois voltar significava estar de novo no centro das brigas, dar ombro à mãe, discutir com o pai, arrumar dinheiro para as irmãs, que nunca tinham trabalho, que sempre punham mais e mais filhos no mundo, e ela tinha que ajudar a sustentar a todos, o que fazia de bom grado, desde que não precisasse viver no meio da gritaria, do choro das crianças, das caras feias, das mesquinharias cotidianas.
Preferia o caminhão, onde ficava só, ela, seu cão vira-lata com pastor alemão que carregava em todas as viagens, Wolfgang seu nome de batismo, e que não latia, mas só sabia uivar, olhando-a com olhos espertos e lambendo-a com o focinho sempre quente e úmido, balançando o rabo de contente quando a via arrumando o caminhão para partir.
Era um cão com alma de caminhoneiro, como a dela. Sua alma gêmea, ou trigêmea, como perceberia mais tarde, quando se apaixonou pelo PM, que formava a tríade de alma, ou talvez quadrigêmea, pois ele também tinha um cão que era sua alma gêmea, e quem sabe fossem quíntuplos, se contassem os pardais que ela criava nos ipês roxos, desde que todas as centenas de passarinhos formassem uma só alma de ave, completando assim a alma quíntupla da caminhoneira com alma de pássaros, do PM com alma de cão, do cão com alma de caminhoneira, dos pássaros com uma única alma, e do cão com alma de PM, pois era fiel cão de guarda, que atacava sem dó nem piedade, nem remorso algum, nem misericórdia também, a quem fosse mandado atacar pelo dono. O dono era o PM, como todos puderam perceber nesse parágrafo tão bem elaborado, que nenhuma dúvida deixa a quem saiba interpretar um til e um ponto, ou meia palavra que baste. E quíntuplos ficariam, caso não encontrassem outras almas que fizessem parte da sua, que nunca se sabe as surpresas que a vida nos reserva.
Logo que se apaixonou, a caminhoneira voltou a comer flores, como fazia desde a adolescência, quando se apaixonava pelos meninos da escola, ou da rua onde morava. Sua fome sumia, começava a emagrecer, ficando cadavericamente linda, com olheiras azuladas e saboneteiras acentuadas nos ombros, os seios e a bunda mais avolumados, por que nunca emagrecia nesses lugares, graças a Deus!, gritavam os meninos em coro de anjos, ela era linda, magérrima, gordinha, do jeito que fosse, os cabelos castanhos muito escuros caindo pelos ombros e os olhos de mel com aquela cor de febre que só a paixão traz. A paixão e a febre, claro.
Era descendente de índios com italianos, quer dizer, a bem do rigor, descendia ou de um índio com uma italiana, ou de um italiano com uma índia, índia caçada pelo avô nas matas, conforme ele mesmo contava, e ninguém acreditava direito, por que a avó não tinha cara nem sotaque de índia caçada, mas a caminhoneira sim, tinha cabelos, pele e traços de índia, mas olhos de italiana, cor de mel esverdeado, o que era a desgraça dos meninos na sua infância, e dos caminhoneiros, empregados e donos de auto-posto na juventude, além dos padres das igrejas onde costumava assistir as missas de domingo, dos coroinhas, também, e dos homens, velhos, jovens e moleques que assistiam às mesmas missas, depois sonhando por semanas e meses com aquela índia que descera do caminhão, ajoelhara aos pés do padre, tomara a hóstia com uma língua cor-de-rosa nuns lábios vermelhos de matar de paixão e arrancar lágrimas dos olhos com aquela beleza que ofuscava o sol das cidadezinhas por onde passava e o ostensório brilhante de cor dourada das igrejas.
Na tarde em que viu o PM chorando no comício do candidato, e intuiu a pobreza do menino, e ouviu os latidos do Rex, o cachorro dele, que já havia morrido há anos e reencarnado no outro cão que ele tinha na época do comício, sim, todos os cachorros do resto da vida do PM se chamariam Rex, como o primeiro, batizado em homenagem ao grande pastor protestante norte-americano, que pregava na televisão e convertia multidões, como os cães do filósofo, todos chamados de Ânima, o sopro da vida, como a negar a morte, naquela tarde a caminhoneira começou a comer flores, primeiro as flores do campo que ornamentavam os jardins da praça, e ficou cheirando a flores do campo.
Suava um suor de flores de campo, de lavandas, de margaridas, de lírios, de azaléias, mimosas, rosas, tulipas, copos-de-leite, cravos, dependendo das flores que encontrava para devorar, arrancar delicadamente as pétalas e comer, se alimentando só de flores quando estava apaixonada; só não comia jasmins que tinham o odor das almas penadas, e ela não queria se transformar na loira da estrada, a caroneira morta, com algodão nas narinas, perfume de jasmim e longos cabelos loiros oxigenados, que assombrava os caminhoneiros e seus sonhos de menina. Uma vez, num dos surtos de paixão, e ela nem mais se lembrava quem era o homem por quem havia se apaixonado na época, comera todo o carregamento de dálias que havia recebido para entregar no entreposto, vindo de uma fazenda de holandeses no interior de São Paulo, e foi a primeira e última vez, até o momento, em que havia devorado a carga do seu caminhão, tendo que inventar um acidente em que a carga havia caído num rio, e o seguro acabou cobrindo de má vontade, por absoluta falta de provas, felizmente por que os advogados da seguradora não costumam cheirar o suor nem a respiração das caminhoneiras, senão teriam descoberto o destino das dálias.
Por toda a viagem de volta para sua cidade, depois do comício, a caminhoneira comeu flores e bebia água, olhada pelo seu cão pastor que compreendia o estado de ânimo da dona, lambendo-lhe as mãos e fazendo-a chorar de saudades do PM que nem a tinha visto, e de falta das mãos dele em seu corpo, e dos beijos dele em sua boca, e da pele dele na sua, e do riso dele nos seus olhos, e do suor dele misturado com o seu, e da saliva dele nos seus lábios, e do gosto dele na sua língua, e da alma dele completando a dela.
No caminho de volta ela encontrou um bosque de dezoito ipês, no meio da mata, roxos, amarelos e brancos, todos floridos, e comeu as flores deles, trepada durante o dia todo nas dezoito árvores, mastigando ansiosamente flor por flor, sem nem deixar restinhos, o cão ao pé das árvores cuidando da dona transtornada de paixão. Desceu e continuou a viagem, com enjôos e dor de estômago, mas a alma saciada do PM nas pétalas dos ipês, e quando chegou em sua casa, pálida e amarelada, passou uma semana vomitando e fazendo cocô no quintal, apenas tomando água da bica depois das ondas de vômitos, acampada numa barraca, pois não queria ficar no quarto, e quando se sentiu finalmente melhor e desintoxicada, partiu para outra viagem. Meses depois, ao voltar da viagem, tinha nascido uma plantação de ipês coloridos no quintal, das três cores, e de cores mescladas, e que os vizinhos vinham ver como um milagre da natureza, sem nem desconfiar que eram produto de um milagre da paixão da caminhoneira pelo PM, e sem perceber que muitas coisas que não entendemos na vida são produtos de paixões que nem suspeitamos existir, nossas e dos outros.
Tudo que ela mais queria na vida, tudo o que desejava era um amor suave, em nada comparado com aquelas paixões avassaladoras que a deixavam sem fome, devorando flores e bebendo água, vomitando e suando perfume, caída extenuada na cama, chorando e chamando pelo amado, fosse ele quem fosse, ou cantando na boléia do caminhão, ouvida apenas pelo seu cão.
Ela cantava canções melancólicas, guarânias paraguaias que tinha aprendido com os ancestrais, sambinhas e toda sorte de músicas tristes que embalavam suas paixões mal-vividas, por que fugia de todas elas como o diabo foge da cruz, depois de uma ou duas noites com o amado, e, mal se percebia devorando flores, arrumava um carregamento pra bem longe, i-na-di-á-vel, e sumia-se nas estradas, cantando, chorando e comendo flores por semanas e meses, até que a paixão passasse e ela pudesse voltar a ter paz.
Cantava e tocava violão, mas tocava só nas noites de lua crescente ou minguante, pois a lua cheia, que agita as lombrigas e provoca hemorragias, e a lua nova, que não aparece nos céus e provoca depressão da alma, menstruação e desperta os medos noturnos, essas luas lhe faziam mal se cantava, e o amor crescia, ao invés de passar.
Cantava com uma voz melodiosa que fazia os homens se sentarem ao longe, e tomarem porres homéricos, ouvindo aquela voz que gostariam de prender dentro de casa, ao pé da cama e do fogão, e que fazia os cães saírem dos becos e virem se assentar aos seus pés, ouvindo silenciosos ao lado dos gatos vadios, que se esfregavam nos cães, lânguidos de paz e desejo, e as borboletas e mariposas pousavam também nas árvores, ouvindo aquele lamento do coração, e as salamandras, aranhas e escorpiões saíam do meio da madeira em chamas e vinham ouvi-la cantar na estrada, e as putas chegavam-se mais perto dos homens de porre, e ficava muito mais fácil fazê-los ceder aos encantos do sexo e do amor, ouvindo aquelas canções e aquela voz rouquinha e baixa, que se queixava ninguém sabia exatamente de que, mas que todos sabiam que havia motivos, centenas e milhares de motivos para que ela cantasse as queixas de todos os corações de todos os homens e mulheres da humanidade, de hoje, do passado e do futuro, e lavasse as almas transtornadas de todos os apaixonados de todos os tempos e lugares. E os pardais vinham em revoadas e pousavam nas árvores, e as andorinhas pousavam nos fios, que ficavam negros da cor de andorinhas negras, e todos se quedavam para ouvi-la cantar os lamentos da vida e da morte, os lamentos dos seres de todas as espécies. Os lamentos de quem estava vivo, e sabia que ia morrer um dia.
Tudo que ela queria era uma vida sossegada, e seu PM também desejava isso, uma vida de amor tranqüilo, de mulher encostada no ombro, nas noites de chuva, de pipoca estourando na panela e sendo comida a dois, enquanto assistiam filmes na TV, e riam juntos.
Quando ele se deitava, depois de horas na internet, tentando bater-papo e conhecer pessoas interessantes que aliviassem sua solidão, quando se deitava depois de passar o dia trabalhando, chegar em casa, tomar um banho, comer qualquer coisa que visse pela frente, por que estava sempre morto de fome, rafado de fome, quando se deitava depois de sair para beber, quando não agüentava de ansiedade e solidão, e voltava e se jogava sem camisa na cama, só de cueca, fumando, quando se deitava assim, tudo que desejava na vida, mesmo que não soubesse exatamente, era aquela paz de boi que ela queria também.
Dias intermináveis em que nada de especial ou chocante acontecesse, em que a rotina não fosse quebrada, em que a mesmice se instalasse e se recusasse a ser expulsa e desalojada. Todas as coisas nos eixos, mesmo que os eixos nunca tenham existido, e fossem apenas ilusão, o dinheiro no fim do mês, as dívidas sendo pagas e feitas de novo, todos saudáveis, bonitos, alegres, inteligentes, ou se fingindo de, estudando, morando, comendo, transando, ouvindo músicas, consumindo e sendo consumidos, enfim, vivendo. Aquela paz doméstica e nostálgica que todos conhecemos e repudiamos, mas que sentimos tanta falta quando se vai. Paz de boi dormindo, pastando, paz de vaca ruminando e sendo traçada pelos bois, e parindo bezerros, e espantando as moscas e os medos com o rabo. E babando de paz.
A paz de quem não tem nada a dizer, e mesmo assim fala, e fala demais, e fala compulsivamente, sem nem tempo pra respirar, e se tivesse realmente o que dizer, economizaria nas palavras, não gastaria os verbos inutilmente, e falaria o que serve e o que o outro escuta, só falaria aquilo que faz a vida ser menos difícil e complicada.
A caminhoneira era do tipo calado, que só falava o essencial, e cantava também o essencial, quando transbordava e precisava expor o que sentia, pra que os sentimentos não vazassem e provocassem enchente; o PM também era assim, do tipo de olhar calado, pensar silenciosamente, ao contrário de uns e outros que enchem o mundo com enxurradas de palavras, e quando a caminhoneira o olhou com as lágrimas escorrendo enquanto o candidato falava por eles e por todos os demais calados do país, ela soube que ele era do tipo que amava o silêncio e a escuridão, e o amou mais ainda por isso, por que reconheceu nele as almas que necessitam dos abismos para viver.
Por baixo da farda ela pressentiu aquele ser abissal, como os peixes que vivem nos fundos dos mares, nas profundezas onde reina a noite eterna, e há seres que não suportam a luz nem o barulho das superfícies, e se equilibram no escuro e no silêncio, onde não penetram sons nem luz do sol, nem da lua nem das estrelas. Ela pressentiu aquela alma com fosforescência própria, que se alimentava a si mesma, escondida, ali nos abismos, da competição do mundo superficial onde vive a maioria dos seres, os que amam a luz, os sons, a agitação, e competem entre si pelo alimento e pelas presas, enquanto os sensíveis seres das trevas buscaram refúgio no mundo dos abismos, depois de batidos na competição com outras espécies que viviam nas águas superiores.
Sentiu a quietude que ele lhe traria, longe da agitação das multidões, e que nos braços dele e recostada em seu peito poderia descansar da ofegância do mundo, respirando tranqüilamente, e o amou mesmo vestido de farda, justo ela, que, desde pequena, odiava fardas, uniformes, qualquer coisa que tirasse a homogeneidade humana de cada indivíduo, transformando-o em parte de algum grupo, ou instituição, dando a pessoas que participavam da humanidade como um todo uma fração, limitando-as, colocando-as em pé de guerra umas contra as outras, com suas bandeiras, e insígnias, e patentes, e cores para diferenciá-las daquilo que ela mais amava, que era ser igual a qualquer ser humano de qualquer época e lugar do planeta, com toda sua individualidade. Ela queria pertencer ao todo, e não a pedaços, e quando era levada ao médico, ainda criança, punha-se a berrar com todas as forças, ao ver aqueles uniformes brancos, berros de revolta contra a diferença, contra a autoridade que o uniforme impunha, e só uma pessoa como ela, que odiava uniformes e fardas, seria capaz de distinguir o coração atrás do invólucro, e amar quem quer que fosse que merecesse seu amor difuso e profundo, que nutria indistintamente por qualquer ser que cruzasse seus caminhos, entregando-se a todo tipo de amizade, e fugindo das paixões que pudessem prendê-la e fazê-la de um só.
Tinha medo de prender-se numa paixão, pois sabia por instinto que amores vêm e vão, nascem e se acabam, e nada é eterno, nem o amor nem o ódio, nem a vida nem a morte, e que tudo passa, como a uva. Perguntava-se sempre o que acontece com o amor que acaba, aquele sentimento tão forte, intenso, que parece que nunca vai terminar, e nos faz jurar amor eterno, fazer promessas de viver juntos até a velhice chegar, e a morte nos encontrar juntos, e que muitos tentamos, ah, como tentamos!, cumprir, mas se formos honestos até o limite do suportável, assumiremos que passou, e que nada dura para sempre.
Ela sabia que amores são assim mesmo, e estava preparada para viver amores às pencas, um aqui, outro ali, como as flores que devorava quando apaixonada, mas os homens com quem cruzava não costumavam estar preparados para esse tipo de amor, querendo sempre compromisso, casa, família, comida na mesa, filhos bem cuidados e vestidos, roupa lavada e passada, e sexo caseiro e doméstico, enquanto curtiam sua necessidade de aventuras com outras mulheres, sem que isso significasse falta de amor à mulher com quem haviam casado. E que quando eram abandonados pelas mulheres que achavam que nutriam como pássaros de boca aberta no ninho, esperando o alimento, passavam a amaldiçoar a humanidade em geral, as mulheres em particular, e sua própria esposa mais particularmente ainda, desqualificando todo sentimento anterior, e toda experiência vivida por terem chegado ao fim. Amaldiçoar as mulheres e a vida, espernear como crianças sem doce, gritando, por que comecei, por que entrei nessa, se tudo enfim terminou? Como se o fim do amor desqualificasse o tempo juntos, o bom tempo em que se deram bem, e se amaram e fizeram planos, e cumpriram lado a lado um projeto de vida, como se tivessem feito um investimento errado pelo simples fato do fim ter chegado.
Ela sabia que não era nada disso, que a separação e o fim eram naturais, como natural era viver junto ou sozinho, dependia da época, da disposição, e da sorte de encontrar um parceiro que estivesse na mesma etapa da caminhada. Mas como isso era raro, encontrar parceiros no mesmo estágio, preferia fugir dos compromissos que lhe queriam impingir, da mordaça que lhe queriam colocar, da coleira que estavam sempre acenando para ela, dourada no dedo e com flores de laranjeira nos cabelos. Definitivamente, não era mulher de usar coleiras, e nem de passear com um homem amarrado numa.
Talvez por essa vocação para contatos com todos, por esse amor indistinto e difuso, a caminhoneira tenha, desde pequena, gostado muito de qualquer coisa que significasse se comunicar, primeiro ouvindo as pessoas, depois conversando com os colegas por telefones de latas, com fio no meio, e treinando sons no tambor, como os índios dos filmes, e sinais de fumaça, tendo essa carreira interrompida no dia em que ateou fogo no pano de prato da mãe, levando uma surra das que geralmente levava, do pai, atendendo aos pedidos da mãe, que pai é pra isso, pra colocar medo nas crianças, enquanto a mãe frita bolinhos e faz afagos, e é acusada de ficar do lado dos filhos em todas suas artes, e depois, quando não agüenta mais, reclamar pro pai, que bate neles.
Quando apanhava desse jeito, como se batem nos animais teimosos, a menina se escondia no mato atrás da casa, sentava-se no balanço da árvore, e enquanto se balançava devagarinho, como a se consolar no berço, chupava o dedo e chorava baixinho, não fiz por mal, me desculpa, me desculpa, não fiz por mal, me desculpa, pai, me desculpa, mãe, não sou ruim, não sou, eu não fiz por mal... e repetia pra si mesma, até a noite e o sono a encontrarem ali, e cansada dormir encostada na corda do balanço... Depois, adulta, deitava-se na cama, e chupando o dedo e balançando o corpo no ritmo do balanço, repetia as mesmas palavras, e nunca se convenceu de que realmente não era ruim, e também nunca soube se acreditavam quando dizia não ter feito por mal.
Continuou sua carreira de maníaca das comunicações quando descobriu o código morse, e mandava mensagens fazendo os sinais numa marimba que havia ganho de Natal, e que, para ela, servia de comunicação com os vizinhos das casas dos lados; mais tarde aprendeu a montar um radioamador, e foi sua glória por anos, quando entrava na freqüência e dizia ôla, ôla, maracanuto, brêicou, brêicou, e os bigodes do outro lado ficavam maravilhados de estarem falando com uma mulher, êpa!, tem batom na faixa!, e pediam que ela se descrevesse, e a caminhoneira, que ainda não era caminhoneira, se descrevia como loira, como ruiva, alta ou baixa, cabelos lisos ou crespos, ao gosto do freguês, e todos ficavam muito felizes de conversarem com aquela garota que era exatamente o que eles haviam sonhado a vida toda, até que ela desaparecia, e deixava um rastro de apaixonados por sua voz e sua descrição. Isso também voltou a acontecer anos mais tarde, quando ela entrava nos bate-papos da Internet, ainda em sua mania das comunicações, e também se descrevia ao gosto do freguês, pois tinha uma capacidade ímpar de adivinhar o que esperavam que ela dissesse, e dizia exatamente o que queriam ouvir, mas raramente ouvia o que precisava, e acabou se acostumando a falar consigo mesma, cantando e se embalando, escrevendo cartas e cartões que enviava a si própria, até que conheceu um PM num chat da net. E ele lhe falou exatamente o que ela precisava ouvir, lhe falou de amor e de solidão, e ela aprendeu que havia outros como ela, apaixonados e com medo de amar, feridos de amores múltiplos que terminavam quando não havia motivo, e não terminavam quando havia muitos motivos, e lhe cantava músicas que soavam em seus ouvidos como água limpa e refrescante, e ouvia no telefone suas dúvidas, seus sonhos mais escabrosos e seus choros convulsos nas noites de insônia e solidão, quando ela sentia falta do amor que a deixava completamente abandonada, e vivia longe dela, em lugares onde ela não sabia como chegar.
Conheceu e, depois de algumas tecladas, foi logo se apaixonando pelo tal, apesar de conhecê-lo apenas de fotos e telefone, o que todos consideravam completamente absurdo, abmudo, abcego e abparalítico, como pode alguém se apaixonar virtualmente?, o que para a caminhoneira era absolutamente natural, não nos apaixonamos por qualquer pessoa por aquilo que fantasiamos dela, pela imagem que fazemos, e lançamos sobre ela, em última análise toda paixão não é apenas virtual, mesmo, tanto que a convivência e o conhecimento acabam matando a paixão?
E pensando assim a caminhoneira decidira-se que só se casaria com contrato assinado por tempo determinado, para evitar a decepção, a desilusão trazida pelo conhecimento, o tédio trazido pela rotina, as brigas e conflitos que seriam fatais ao amor, o medo da separação; estando os dois de acordo quanto a um tempo máximo de relacionamento, os conflitos poderiam ser evitados, e a separação menos dolorosa, por ter hora e dia marcados. Quando o final é conhecido, fica mais suportável, não foi por isso mesmo que as religiões inventaram o fim dos tempos com sinais e tudo, para mascarar a angústia do fim não sabido?
Depois de convencer o PM, em centenas de telefonemas e milhares de e-mails, de que só o conheceria sem compromisso, e que, se porventura, por acaso, por uma maldição que fosse, os dois se apaixonassem irremediável e irrevogavelmente, então fariam um contrato de no máximo dois anos de namoro e/ou qualquer outro tipo de convivência, só aí se sentiu menos insegura, mais intrépida, e marcou um encontro com ele. Iria até ele, conhecê-lo, ao contrário das outras mulheres, que faziam o homem vir até elas, mas ela preferia ir conhecê-lo, e não dar seu endereço, pra que ele não tivesse como achá-la, caso ela resolvesse sumir definitivamente antes dos dois anos de prazo máximo.
Afinal, era caminhoneira, e seria fácil chegar até a cidade dele, a mesma do interior do estado das praias e dos esses arrastados, do carnaval, do samba e dos malandros vestidos de branco, mais tarde do pagode e dos bandidos pobres dos morros, que enriqueciam com o narcotráfico e os seqüestros, lideravam os crimes de dentro das prisões através de celulares e da Internet, e financiavam vereadores, deputados, prefeitos e governadores, que o crime e o poder são irmãos de sangue, sempre espumando rixas, mas no fundo se amando e crescendo juntos.
A mesma para onde havia ido, anos antes, e assistido ao comício do candidato, agora presidente, a mesma onde havia amado uns olhos baixos cheios de lágrimas, escondidos por um quépi e uma farda de militar.
Marcaram o encontro para um fim de semana em que ela entregaria uma carga na capital ali perto, e aproveitaria para chegar até a cidade dele, e antes do fim de semana passou quinze dias apenas bebendo água e comendo gelatina de pétalas de rosas, bem vermelhas, e ficou cheirando a rosas e gelatina, e seus cabelos cheiravam à água dos riachos, pois bebia água mineral das fontes limpas, para refrescar a alma daquela paixão que a escaldava por dentro, e que sentia que poderia derretê-la, se comesse qualquer coisa menos delicada e geladinha.
Ele, por sua vez, passou quinze dias fingindo que estava no controle, mas fumava como louco, falava carinhosamente com os cães e xingava a mãe e as irmãs por qualquer pretexto do mais vagabundo, completamente impaciente com o mundo, irritado com os colegas de trabalho, se matando de competência no serviço, para disfarçar a ansiedade, e deitava-se, naquelas 16 noites, até conhecê-la, com dor de estômago e a cabeça rodando, enfumaçando o quarto todo, até a noite em que os bombeiros invadiram sua casa, pensando tratar-se de um incêndio, e carregaram a mãe e as irmãs desmaiadas para fora, enquanto o PM, de cueca e com um cigarro na mão, levitava sustentado pela fumaça, e escapou ileso de um desmaio pois flutuou para fora do quarto, e os rolos de fumaça o sustentaram, como uma nuvem na frente da casa, até que abrissem todas as portas, batessem ar nos cômodos, e ele ali, deitado na sua nuvem, respirando normalmente e pensando na caminhoneira da Internet, alheio completamente aos bombeiros, aos gritos das irmãs, ao choro da mãe, aos vizinhos que se aglomeraram para ver o incêndio, mas nada puderam ver, a não ser a fumaça sendo dispersada, e ninguém sabia de onde vinha, e não conseguiram perceber o incêndio na alma do PM, pois nunca haviam se acostumado a fitar os olhos do vizinho, que entrava e saía de casa como se só houvesse aquela casa e aquela pessoa na rua e no mundo.
O incêndio só se apagou completamente quando o caminhão colorido e enfeitado encostou na calçada da frente da casa do PM, que abriu a porta pra caminhoneira, estendendo-lhe a mão para descer da boléia. Ôi, tudo bem com você? Sim, e você? Eles se abraçaram, ela ainda de pé na porta do caminhão, ele retirou-a dali num abraço, e não fizeram outra coisa a não ser se abraçar fortemente e beijar, muito, muitas vezes, aprendendo o que era a realidade, lavando a virtualidade frustrante que tinham vivido até então, naqueles meses todos. Ela olhou nos olhos dele, e viu que era o mesmo PM de dez anos atrás, o que chorava com o quépi abaixado, o que sentia as palavras do candidato no próprio corpo, o candidato que agora estava eleito, e se sensibilizava com elas. Amou-o mais ainda por isso.
Passaram sete dias, sete tardes e sete noites trancados no quarto do hotel, fazendo amor, se experimentando, lambendo seus perfis, sentindo-se com as pontas dos dedos, se dando e tomando, até que deixassem de ser virtuais e se tornassem reais para si próprios. Dormiam abraçados, ela encaixada na concha formada pelo corpo dele de lado, o braço dele sobre o corpo dela, e ele nunca dormiu tão tranqüilo, o sono sem sonhos, em paz, a paz do boi que nunca tinha experimentado, mas apenas intuído. Ela dormia feliz, sonos agitados por sonhos de todos os tipos, que não se lembrava de manhã, e gemia e soluçava sonhando, pedindo perdão, se desculpando por ter nascido e ser do jeito que era.
Soluçava encaixada no corpo dele, pedindo desculpas por não ter participado das revoltas de Spartacus, e por ter queimado cristãos para iluminar as festas imperiais, desculpava-se por não ter soltado os judeus dos campos de concentração, e por não ter feito nada para impedir que se suicidassem em Massada, e se desculpava por não ter salvo Garcia Lorca e La Passionaria do fuzilamento, e nem ter carregado as crianças de Parma para Gênova em seu caminhão, e pedia perdão por não ter feito nada pelos plantadores de bananas colombianos da United Fruit Co., nem deixado de comprar gasolina Shell nem de tomar coca-cola para boicotar a guerra no Iraque, e se desculpava, soluçando, por não ter soltado as bruxas medievais das fogueiras, nem tirado as mulheres da fábrica em Chicago do meio do fogo ateado pelos patrões, e nem ter tirado Sacco e Vanzetti do patíbulo, e por não ter dado de comer à filha de Marx quando chorava de fome, e por não ter levado as crianças de rua para casa, e não ter impedido que o índio morresse queimado; e do meio dos soluços ela implorava perdão por apenas ter nascido e ser tão impotente, tão frágil, tão covarde, tão mulher, tão caminhoneira, tão povo, tão ser humano.
Então acordavam, faziam amor, e nesses sete dias, sete tardes e sete noites que passaram juntos, o PM aprendeu o que era ser amado simplesmente por que se tinha amor transbordando pra dar e receber, e a caminhoneira soube o que era sossegar e sentir menos culpa, assumindo sua humanidade e deixando aplacar um pouco aquele medo insano de tudo, de viver e de morrer.
Aprendeu, nos sete dias, sete tardes e sete noites em que passou com seu PM, que a solidão pode ser compartilhada e tornada suportável, e que sempre poderia construir um lugar para voltar com seu caminhão, de suas viagens, um lugar em que o Outro fosse seu porto, quando ela não conseguisse ser para si mesma.

Eloisa Helena Maranhão.

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