20 novembro 2011

Cucuia


“Que a saudade dói como um barco

Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais”
(Chico Buarque) 
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”
(Saint-Exupéry)

No princípio eram os pés das meias e os toquinhos (pequenas peças de madeira que serviam para montar coisas que as crianças inventassem, naqueles tempos antigos, muuuuuito antigos; não existia lego nem peças de plástico de encaixe, só toquinhos), pois os pés das meias e os toquinhos simplesmente sumiam, desapareciam do mundo, e quando perguntados, os adultos diziam, foi pra cucuia. O restinho do doce na geladeira, as caixas de fósforo, as tampinhas de garrafa e os botões das coleções, guarda-chuvas, então, eram os campeões do sumiço, tudo acabava indo parar na cucuia, que devia ser um lugar longe e inacessível. Nada voltava da cucuia, aquele maldito ralo engolidor de coisas importantes. Essas eram as primeiras perdas.
No fim a memória e a  lucidez, coisas das quais sempre se orgulhou de ter a vida inteira, também foram pra cucuia. Foi uma perda muitíssimo difícil, mas ao mesmo tempo era uma bênção, não se lembrar de nada, ou quase nada, na maior parte do tempo, viver como uma alface ou um pardal nos fios, abaixar a calça ou levantar a saia na rua e urinar ali mesmo, pouco se lixando – ou principalmente nem notando – que estava sendo observada, sim, era uma bênção perder a noção do meio em diante na vida, não se preocupar em prestar contas de nada nem a ninguém, viver como deveriam ser as existências, comer, beber, dormir, cagar – desculpem os educados que não costumam mijar nem cagar, enfiar o dedo no nariz, muito menos peidar ou arrotar – e era isso exatamente a bênção: não dar a mínima aos educados, aos polidos, aos com noção, com senso, com nexo, com bom gosto, enfim, aos que eram com. Ela era sem. Pra dizer a verdade, sempre tinha sido sem, mas fingiu mais ou menos bem durante metade da vida, depois cansou ou entrou em colapso de fingimento e acabou desmascarada, era sem, desde que nascera, era uma sem teto de bons modos, completamente desamparada de tudo que era com. Se Fernando Pessoa a tivesse conhecido não precisaria ter procurado alguém vil, ali estava uma, nua, crua. E sem.
Mas não eram só as coisas, objetos, que iam pra cucuia. Infelizmente, as pessoas também. Como os dois melhores – e únicos – amigos dos tempos de faculdade que morreram de AIDS, ou os avós que morreram de doenças variadas, aquelas que costumam levar os humanos pra cucuia na velhice, e eram perdas desvastadoras não poder mais olhar aqueles velhinhos que amava, que a tinham sentado no colo ou lhe dado bronca – por que, temos de dizer a verdade, tinha sido uma criança muito muito muito “levada”, o que hoje corresponde a uma peste. E olha que tentaram educá-la, não foi falta de beliscões, tapas nem falatórios, chineladas, broncas de todos os tipos e tamanhos auditivos, castigos dos mais bem inventados, mas aquela menina do demo não parecia ter jeito, quando acordava o diabo colocava as mãos na cabeça e gemia, nãoooooo, ela acordou!
Todos sabemos – ou deveríamos saber, o que dá na mesma – que ninguém morre por que quer, mesmo os  suicidas, as pessoas morrem por que têm que morrer, ou por que não conseguem viver, por que morrer faz parte, e não é abandono nem maldade com os que ficam. Entretanto, cada morte era uma perda a mais, e uma dor que calcificava e ficava incomodando; mesmo inerme a calcificação estava ali, e de um jeito ou de outro doía.
Mais devastadoras que a perda dos avós foi a perda dos pais. Afinal avós ela tinha seis, pois os paternos tinham-se separado e casado de novo com outros futuros avós, então além de qualidade afetiva tinha quantidade também. O que tinha o inconveniente de serem seis mortes pra digerir, e não apenas quatro, como seria de costume, mas ela não digeriu nenhuma das seis, e nem as duas dos pais.
O pai morreu primeiro, aos 59 anos, de câncer no pâncreas, e entre a internação, o diagnóstico e a morte foram apenas quatro semanas, o que significa uma morte desabada, como um furacão que sai do nada, devasta tudo e depois some. Isso chamamos de perda desabada, aquela que cai sobre nós sem anúncio algum, e não há nada a fazer. Junto com o pai um pedaço dela também foi pra cucuia, e nunca voltou.
Três anos depois foi a mãe que morreu. Tinha 63 anos. Dessa vez, além de uma perda desabada, foi uma tragédia maldita, uma coisa inacreditável, já que a mãe morreu de hemorragia atacada por uma sussuarana dentro da cozinha da própria casa. Uma oncinha parda bonita, criada desde filhote como bicho de estimação, e que, mostrando seus instintos, um dia atacou a mãe, arrancando-lhe o braço, dilacerando seu pescoço e matando-a. Era muito sangue por toda cozinha, nas portas dos armários, nas paredes, sangue esguichado e formando poças. Um horror. A mãe foi pra cucuia junto com a sussuarana morta a facadas, outro pedaço dela também (foi pra cucuia, não morreu a facadas), mas o horror não, esse ficou e nunca desapareceu.
Claro que perder avós, amigos, pais, mães, maridos, até filhos não deveria ser considerado uma tragédia, é comum, todo mundo passa por isso, e até pior, dependendo de como é a morte, ou se se fica totalmente sozinho, e os seres humanos sempre sensíveis às dores alheias ainda comentam, oras, mas não é só você que perdeu coisas e pessoas na vida, mas para ela eram tragédias e perdas avassaladoras. Afinal, cada um é de um jeito, e ela não sabia lidar com isso, com o sumiço, com o desaparecimento, com a falta, com o nunca mais. Ardia, doía. Doía muito.
Mas as perdas não eram só de mortes. Havia outras, menos trágicas, mas não menos sofridas. Quando começou a trabalhar, por exemplo. Era professora, dava aulas, e como ainda estava estudando não podia escolher uma escola e ficar, eram uma ou duas escolas a cada ano. Era chegar, começar a criar vínculos com os colegas e os alunos, se adaptar, aprofundar esses vínculos e no final do ano ir embora. Eram pequenas perdas em sequência e em quantidade, erra quem diz que alunos são todos iguais, só muda o endereço, não, cada um era único, com sua história de vida, seu jeito de pensar e aprender, sua maneira de ver o mundo, suas formas de agir e reagir, eram indivíduos importantes para ela e cada fim de ano, portanto, era como se um rio transbordasse, enchesse tudo e levasse seus vínculos, o que culminou num estresse tremendo, e um pavor de mudanças e novos vínculos, já que tudo parecia fadado a terminar.
Depois ficou doente. Começou a passar por médicos. Médicos são seres muito ocupados, com uma vida profissional irregular, e quando estava se acostumando e criando vínculo, o médico tinha outras coisas pra fazer, ficava doente – que médicos também são sujeitos a doenças -, ia viajar, ia pra congressos, tirava férias, mudava de hospital ou plano de saúde, enfim, tinham que viver suas vidas e os vínculos acabavam na cucuia. Mais estresse, e mais nada a fazer.
Sobrou começar a esquecer das pessoas, dos fatos, do que tinham vivido juntos, do que tinham conversado, das relações que haviam construído. A única saída pra tanta perda, dor e estresse era a amnésia. Era melhor e menos difícil viver um dia depois do outro, sem vínculos profundos nem lembranças idem, viver superficialmente sem conquistar nem ser conquistado.
Aprendeu a esquecer, e isso foi sua salvação. Pela primeira vez estava achada, não mergulhada nas perdas, e a cucuia foi pra puta que pariu.

Eloisa Helena Maranhão.

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