17 abril 2012

De outubro a abril

Para todos os sem-terra de todos os tempos, inclusive os que não resistiram e vieram se tornar os excluídos das cidades; e, principalmente, aos que resistiram tanto que acabaram sendo tombados na luta.

"Atrela o teu arado a uma estrela e põe-te a sulcar a terra." 
(Provérbio Árabe.) 



Era 05 de outubro de 1897. Maria Antonia olhava com olhos que nada compreendiam e com o coração se esfiapando de dor. Sabia que nunca esqueceria o pai ali ajoelhado, com os braços levantados ao céu e gritando "viva o Conselheiro!", enquanto caía lentamente naquele chão lavado de sangue inocente, morto pelo Exército e pelas milícias dos latifundiários que controlavam a região desde tempos impossíveis de se lembrar. 
Virou-se no meio daquele inferno de corpos, sangue, fogo, fumaça, gritos e lamentos, cães das milícias cheirando e mordendo os sobreviventes, velhos e crianças ajoelhados implorando clemência e lamentando seus mortos, mulheres e meninas sendo violadas ali mesmo, no meio da poeira suja pelo sangue de seus maridos e pais, virou-se e não sabia o que fazer, pequena nos seus cinco anos de idade, mas já com marcas de quem poderia viver oitenta e nunca passaria pelo que ela passou.
Na partilha dos despojos da guerra coube a jaguncinha morena de grandes olhos negros e longos cabelos lisos a um jornalista do sul, que a levou no colo para o navio, comprometendo-se a protegê-la, desgraçada orfãzinha do Arraial de Canudos; ainda no navio que os levaria ao Rio de Janeiro o jornalista Floriano escreveu os artigos para seu tabloide, e também ele nunca se esqueceria das cenas que havia visto, melhor que aquilo tudo fosse logo enterrado e submerso nas águas da memória, o que realmente aconteceu tempos depois, quando o Arraial em que mais de 30 mil almas haviam vivido e tentado ser livres foi transformado em açude naqueles sertões secos entre os rios Sargento e Vaza-Barris. 
Ainda no navio, Floriano banhou a jaguncinha para tirar-lhe o sangue respingado no corpinho franzino, mas o respingado na alma ele nunca conseguiria limpar, maiores fossem seus esforços de entreter a criança, distraí-la com doces e brincadeiras, fazê-la trabalhar muito, pois que o trabalho é bálsamo que faz esquecer o que deve ser esquecido das dores da vida, e Antonia, a que havia recebido esse nome em homenagem ao Conselheiro, continuava a olhar com olhos sem rumo e a fazer tudo que lhe era pedido ou mandado, como se esperava de um ser daquela idade, daquele sexo e daquela classe social, a escória  do mundo.
Passou a viver na pequena casa de solteiro de Floriano, varrendo e limpando o chão dos cômodos, trocando e lavando as roupas de cama, cozinhando as comidas que ele comia na mesa e ela na cozinha, de pé ou agachada junto ao fogão de lenha, ajudando-o em seu banho, e era ela quem carregava a água e enchia a tina onde ele se sentava, e derramava a água devagarinho sobre ele, e ensaboava e esfregava as costas e os pés dele com buchas, e depois esvaziava a tina, e lavava as ceroulas e ternos do jornalista, e passava tudo caprichosamente com ferro a carvão, e quantas vezes queimou as mãozinhas nas brasas.
Mas nada se comparava com as brasas de sua memória, que continuavam a arder enquanto Floriano dava-lhe banhos demorados, ensaboando-a e esfregando seu corpinho com as mãos sem calos, lavava-lhe os cabelinhos e depois penteava-os, tecendo as duas tranças com dedos sábios, enxugava a menina com toalhas macias, a começar dos pés, cada dedo de uma vez, e depois as pernas, os joelhos, as coxas, o sexo, cada dobrinha dele, na frente e atrás, as costas, a barriguinha e o umbigo, o peito liso e magro, o pescoço, o rosto, braços e mãos, cada dedinho de uma vez. Depois vestia a menina, a calcinha, a camiseta de baixo, a saia e a blusa, ou um vestidinho, as meias e os sapatos, que fazia questão de amarrar ajoelhado enquanto sentia o cheiro de gata molhada da criança, e que ela logo tirava, mal ele saía para trabalhar, ficando descalça o dia todo e só voltando a calçá-los pouco antes dele chegar.
Gostava de sair às ruas daquela cidade tão grande e desordenada, ir à praça onze, onde caminhava no mercado, entre camelôs e toda sorte de ambulantes que ofereciam mercadorias e serviços de todo tipo, negros de todos os tons e com todas as histórias que contavam e cantavam, e Antonia ouvia de olhos arregalados e ia aprendendo que outras vidas havia além da dela, e outras histórias, e outras tristezas e mágoas, mas nenhuma que pudesse comparar com a destruição que havia visto aos cinco anos de idade.
Morria de medo do fim do mundo, aquele que viria com a lua se tornando em sangue e o sol se apagando e caindo sobre a Terra, aquele que aconteceria quando o mundo se tornasse completamente subvertido, virado de ponta-cabeça, que aconteceria logo depois do sertão virar mar e o mar virar sertão, e o Cristo voltaria das nuvens montado num cavalo, vestido de couro como um jagunço vingador, botando fogo pelas ventas e empunhando uma espada incandescente que julgaria e condenaria o Anticristo, e junto com ele todo o Mal que havia na face da Terra, e seriam queimados e sofreriam torturas pela eternidade num lago de fogo e enxofre que nunca se consumiria. 
Antonia se lembrava  dessas coisas com o coração encolhido, e quando chegou a noite do Grande Dia, a noite da passagem do século, a fatídica data de 31 de dezembro de 1899, e o mundo não se acabou, e depois a outra fatídica, pois o Senhor misericordioso havia dado um ano de prorrogação, de chance para que os pecadores se convertessem de seus maus caminhos e caminhassem pelo caminho reto, quando chegou a noite de 31 de dezembro de 1900, Antonia correu junto com a multidão para a Igreja da Candelária, e ali chorou, se arrependeu - sabe-se lá de quais pecados, que a menina praticamente não os tinha - e enquanto chorava e se arrependia, outros mais destemidos ou desesperados gozavam os últimos minutos da vida, e se beijavam freneticamente, e se deitavam e se possuíam nas ruas mesmo, ex-escravos com suas ex-sinhás, e ex-escravas com seus ex-senhores, homens com homens, e mulheres com mulheres, pobres e ricos, feios e bonitas, velhas e moços, sábios e ignorantes, que nada mais importava, diferenças sexuais nem sociais nem econômicas nem  intelectuais, já que o mundo ia se acabar, mesmo.
E ajoelhada e soluçando, Antonia viu a madrugada passar e o sol aparecer, e então já não sabia mais o que estava acontecendo ou em quê acreditar dali pra frente, e só sossegou quando o padre explicou que Deus havia prorrogado o fim do mundo por mais cem anos, de piedade das almas que ainda viriam a se arrepender; um alívio, pensou Antonia, que dali a cem anos já estaria morta e não precisaria ver o Sol vindo em sua direção e inaugurando o inferno na Terra. Dali pra frente viveu menos amedrontada, e até se ria quando ouvia a modinha que os negros cantavam nas praças "anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar; por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar; até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada; por causa disto nesta noite lá no morro não se fez batucada ".
Em casa ouvia os comentários de Floriano com seus amigos nos almoços de domingo, e contavam que no norte a borracha estava enriquecendo a muitos e que agora havia um novo presidente da República, o cafeicultor paulista Rodrigues Alves que tinha idéias de transformar o Rio de Janeiro numa cidade moderna e maravilhosa como Paris, acabando com a sujeira, a pestilência, a feiura, a falta de ordem, enfim, acabando com os pobres e miseráveis que lá sobreviviam, fazendo do Rio a sala de visitas do país.
Antonia ouvia isso tudo, e via o contentamento de Floriano, e se benzia, não sabia por que, mas toda vez que ouvia aquela palavra "República", assim mesmo com R maiúsculo, nariz empinado e armas em riste, Antonia tremia e um eco dentro dela repetia: "sacrilégio! abominação!"; não sabia o que era nem de onde vinham aquelas palavras, mas quando ouvia República sabia que o Anticristo estava no meio de nós, já havia nascido e logo se revelaria. Havia mamado nas tetas da mãe aquelas palavras que agora lhe voltavam como ecos, mas se calava, que não era nem boba de falar contra o Anticristo, que isso era da alçada de Deus, e Ele cuidaria na hora certa.
Via as demolições sendo feitas pelos homens da prefeitura, transformando o centro da cidade num sertão de poeira e entulhos, e num mar de desabrigados que não tinham mais onde repousar a cabeça, e iam subindo os morros e construindo barracos para passar as noites, e desciam durante o dia, com tabuleiros de cocadas e doces de abóbora e tijolinhos de goiabada-cascão, caixas de sapateiros para deixar lustrosos os sapatos dos brancos, jarros de sucos e refrescos que vendiam em canecas para matar a sede naquela cidade sempre quente e abafada, frigideiras que acomodavam sobre tijolos e onde fritavam camarões e pastéis e acarajés que vendiam aos gritos; outras desciam para pegar roupas sujas nas casas das madames, e subiam de novo com as trouxas equilibradas na cabeça, e de novo desciam com as pilhas de roupas brancas e passadas, e subiam e desciam, num sobe e desce contínuo e interminável que só os verdadeiramente pobres e condenados conhecem, só eles e Sísifo, seu padroeiro.
Enquanto as casas iam sendo demolidas para dar lugar às amplas e modernas avenidas - que qualquer um sabe serem as avenidas e praças muito mais importantes e necessárias que as habitações dos pobres - enquanto o Rio de Janeiro ia sendo remodelado e urbanizado, Antonia ouvia falar de um médico que estava acabando com as pestes e epidemias, combatendo como um cruzado a varíola e a febre amarela, e só de ouvir falar, não, só de pensar, nem isso, só de imaginar esse médico e seus óculos e suas injeções com agulhas descomunais, Antonia se tremia toda e benzia e se lembrava da República e do Anticristo que aprendera a temer, se encolhendo atrás do fogão entre as lenhas e os escorpiões, que melhor lhe eram as picadas de mil escorpiões do que ser catada pelos da prefeitura e vacinada à força, aquele bracinho magro rompido pelas agulhas do poder.
Mas foi, mesmo assim, caçada e achada e vacinada, e viu seus quintais revirados e esfumados com venenos contra os mosquitos, e que destruíram as plantas também; enquanto gritava e esperneava e lhe enfiavam a vacina alma adentro viu cada canto de sua casa devassado pelos da prefeitura, e quando Floriano chegou da rua encontrou a menina estrelada no chão com pernas e braços e olhos abertos, rouca de tanto chorar e gritar, e pegou-a no colo, deu-lhe banho e colocou-a na cama, e percebeu que lhe haviam chegado as regras. Tinha agora doze anos e já era uma mulher, explicou-lhe carinhosamente Floriano, a menina que havia cultivado naqueles sete anos desde que a havia trazido de Canudos agora tinha florescido e se tornado uma mulher de verdade, e entre chás que acalmaram as cólicas e os terrores da menina vacinada, e entre palavras e carícias Floriano acabou de cultivar a menina para si, e logo seria a hora de colhê-la, quando o sangramento das regras parasse.
Uns dias depois, naquele novembro quente como nenhum outro, Floriano acordou com o cheiro do café que Antonia fazia toda manhã e com um barulho ensandecido nas ruas; correu para a janela e viu um povo que gritava, e desconheceu aquele povo sempre tão cordial e festivo, que quebrava, e destruía as belas praças e avenidas que a prefeitura havia construído, e em meio a gritos de abaixo a vacina colocava fogo nos bondes, e revirava os carros de aluguel que se atrevessem a continuar, massa enlouquecida que era enfrentada por guardas, e atirava pedras e imprecações contra o presidente, e contra o governador, e contra o prefeito, e contra a polícia e contra todos que os havia feito chegar a esse ponto de miséria e horror, e Floriano viu tudo aquilo e lembrou-se de um outro povo enlouquecido e miserável enfrentado pelas milícias anos antes, e temeu, temeu por si, temeu por Antonia, temeu por aquelas pessoas nas ruas, pois sabia de olhar próprio o que o Estado e os patrões podiam fazer contra o povo revoltado. 
Três dias duraram aquela agitação e desvario popular, como num carnaval, até que se cansaram, se esvaíram e se esvaziaram, e sob golpes e patas de cavalos voltaram para suas casas nos morros e seus abrigos sob os viadutos e nas portas das igrejas; e tudo se acalmou como antes dos tempos começarem.
Na primeira noite daqueles três dias, Antonia apareceu apenas de camisola na porta do quarto de Floriano, assustada e cheia dos ecos dos dias de guerra do seu Arraial, e o jornalista deitou-a ao seu lado e falava já passou, tudo já passou, Antonia, agora você está segura e protegida, sossegue, e no meio de suas palavras sussurradas com saliva nos ouvidos da menina ele se percebeu enrijecido como tantas outras vezes ficara quando banhava ou era por ela banhado, mas se controlava pois era apenas uma criança a jaguncinha, mas agora não, era já uma mulher, e sem se conter, pois que aquela mulher havia florido da menina que cultivara, começou a retirar a camisola dela, arrancando-a de um só golpe pela cabeça, e retirou também a calcinha branca que jogou no chão, enquanto a cheirava toda, e lambia-lhe toda, e mordia de leve aquele corpinho tão desejado por sete anos, e experimentava na língua e nos lábios o gosto de cada pedaço daquele corpo, aqueles seios muito pequenos e durinhos, com os mamilos empinados que lhe espetaram os lábios, até que chegou entre as pernas de Antonia, e lhe abriu o sexo ainda virgem com a língua, e sugou e chupou até que sentiu as unhas dela em suas costas e as pernas dela agarrando-o pelo pescoço, e então deslizou para cima e penetrou-a de uma só vez, fazendo-a gritar, e aquele grito rompeu o seu dique e o fez desaguar dentro dela, enquanto beijava e mordia a boca carnuda da jagunça, que esse era o destino de toda jagunça e de toda mulher daqueles tempos e dos outros tempos também.
Na segunda e na terceira noite daqueles dias, e em quase todas as outras que vieram depois daquelas, colhendo os frutos que considerava seus por direito, Floriano desaguava-se na menina, agora mulher, agora mais encorpada, agora com os seios crescendo e empinando, agora com as coxas mais grossas e rijas, agora com a cintura mais fina e os cabelos mais brilhantes, agora com pelos no sexo, que ele fazia questão de ensaboar e depilar com a navalha, deixando-a de novo a criança que desejava para si.
Até que recebeu a incumbência de pegar um navio e ir ver o que estava acontecendo no norte do país, entre Brasil e Bolívia, onde estavam construindo a mais moderna ferrovia que o país teria, com a tecnologia mais avançada. Floriano mandou que Antonia preparasse as malas dele e dela, para aquela viagem de muitos meses por navio e estradas de terra e florestas, que não queria ir sozinho e uma mulher silenciosa de dia e que arrulhava e miava de noite em sua cama e seu corpo, como Antonia, era sempre de grande ajuda e valia.
Fizeram-se companhia um ao outro naqueles meses de viagem, refrescaram-se do calor, passaram-se unguentos que aliviaram um pouco as picadas dos muitos pernilongos e insetos, enquanto Floriano escrevia e Antonia cozinhava e lavava e o recebia dentro de si, como era de costume e praxe, até que começou a se sentir lânguida e cheia de enjoos, e Floriano percebeu apavorado que a jaguncinha, agora com quase 15 anos, estava grávida.
Ficou umas semanas na região para onde havia sido enviado, até que acabou de escrever seus artigos e zarpou no primeiro navio que chegou por lá, abandonando Antonia, que dormia sem nem suspeitar que estava sendo abandonada grávida pelo jornalista que a havia levado de Canudos e prometido proteger, sem nem suspeitar que fazia parte de uma grande legião de meninas como ela, doadas como ela, despojos da guerra de Canudos como ela, abandonadas como ela e que agora tinham que se virar sozinhas pra sobreviverem. Como ela.
Cheia de tristeza pela partida do homem que aprendera a amar como irmão, pai, protetor, amante e pai de seu filho, mas sabendo que agora estava por sua própria conta, Antonia passou a procurar trabalho, se oferecendo para qualquer tipo de serviço doméstico que soubesse fazer; ofereceram-lhe trabalho numa casa de prostituição, pois as adolescentes e grávidas sempre tinham clientela garantida, quem vai entender as taras e fantasias dos homens, mas Antonia recusou, pois uma voz dentro dela repetia que no reino de Deus que estava para se instalar na Terra, aquele reino que faria o sertão virar mar e o mar virar sertão, naquele reino não entrariam os adúlteros, nem os impuros, nem os fornicadores, nem os corruptos, nem os republicanos e nem as madalenas, a não ser, é claro, as que se arrependessem de seus múltiplos pecados e se vestissem puramente como convinha às mulheres virtuosas; Antonia não sabia de onde lhe vinham aquelas palavras, mas sabia que eram verdades eternas, e então preferiu passar fome a se prostituir.
Contando com a solidariedade dos pobres como ela, que só isso resta a quem nada tem, conseguiu sobreviver aos meses de gravidez, ao parto, à tristeza, à saudade de Floriano, lavando as roupas dos trabalhadores da ferrovia, cozinhando para eles, buscando água nos rios, e em troca era alimentada e aceita com o bebê num dos galpões da Madeira-Mamoré Railway, a companhia ferroviária que estava reconstruindo a grande estrada de ferro que havia sido abandonada anos antes, depois de conseguirem assentar apenas sete quilômetros de trilhos em um ano e meio, vencidos pela malária, pela loucura, pelos ataques indígenas, numa debandada geral que deixou para quem quisesse os barracões, armazéns, depósitos, olaria, serraria a vapor, botica com os remédios inúteis, tudo ali abandonado na região das quedas que formavam o Caldeirão do Inferno. 
Então a Companhia americana resolveu ressuscitar o projeto, levando para lá trabalhadores de todas as nações, numa Babel que se agitava mais de 18 horas por dia, e para lá afluíram mais de vinte mil trabalhadores - contando-se só os regularmente contratados - mas haviam os sem contrato, os esporádicos, os que aceitavam qualquer trabalho em troca de pão, e as mulheres, as Antonias, as Marias, as Jaciras, as Jussaras e Beneditas, e crianças que iam nascendo e morrendo, como iam morrendo também os trabalhadores extenuados pelas doenças e pelo trabalho insensato, chegando a quase 30% a cifra dos mortos, e eram enterrados juntos - pois que na morte, naquelas florestas, se tornavam todos iguais - eram enterrados sob a cruz e em covas coletivas turcos e árabes, chineses e japoneses, irlandeses e ingleses, espanhóis e holandeses, mexicanos, índios e brancos norte-americanos, argentinos, paraguaios, uruguaios e brasileiros, gregos e troianos, russos e alemães, austríacos, belgas e franceses, dinamarqueses, húngaros, equatorianos, peruanos, antilhanos, todos assim juntos, conforme iam morrendo de peste e miséria e trabalho duro, esquecidos de suas guerras, esquecidos de suas pendengas nacionalistas e de seus conflitos religiosos, e esquecidos por todos.
Antonia flutuava graciosamente sobre a miséria, acostumada que estava desde o ventre materno à penúria e à força de caráter, criando sozinha o filho que sonhava em ser aceito pela réluêi quando tivesse idade para o trabalho contratado, até que numa noite de chuva se deitou ao seu lado, no galpão, um italiano alto e falador, e contou em sua língua, e ela milagrosamente entendeu em português, que já havia trabalhado ali, assentando aqueles trilhos, mas tinha fugido depois de uma greve fracassada, feita por 218 trabalhadores amotinados, e 75 deles haviam conseguido fugir e vagado durante anos pelas florestas, vendo seus companheiros morrerem um a um, até que só havia ficado ele, e resolvido voltar agora que a ferrovia estava sendo retomada. 
Foi a primeira vez que Antonia ouvia aquela palavra, greve, e achou um contra-senso alguém empregado deixar de trabalhar, onde já se viu, se todos só desejam um trabalho nesta vida, mas o anarquista italiano lhe explicou pacientemente para quê servem as greves e por que devem ser feitas, e Antonia entendeu perfeitamente. Se houvesse empregos nos sertões, então o Conselheiro teria feito greve também, tinha certeza, em seu coração, a moça, e todos parariam as lavouras, abandonariam o gado nos campos, deixariam de colher e plantar a cana, o algodão e o tabaco, e sentariam de braços cruzados e corações de pé, até que os patrões se dobrassem e devolvessem aos trabalhadores aquilo que era seu direito desde tempos imemoriais, a terra e seus frutos. Pois quem planta tem direito de colher, e quem produz tem direito de se alimentar do que produz, e quem trabalha tem o direito ao fruto do seu trabalho. 
Essas palavras encontraram suas parceiras dentro de Antonia, naquelas palavras que a menina havia ouvido e mamado no colo da mãe, e gostou do italiano anarquista que se chamava Luigi; gostou do nome dele, e do cheiro dele, e das mãos dele que sabiam deslizar gostosamente pelo seu corpo, e dos beijos dele, mas principalmente daquilo que ele lhe falava e o fazia tão diferente de todos os outros trabalhadores que também têm nomes dados pelos pais, e cheiros, e mãos sábias em tocar mulheres, e beijos, mas poucos, pouquíssimos, sabem desejar e falar de igualdade, e de solidariedade, e de greves, e mais raros ainda são os que falam tudo isso em italiano e se ouve em português, e que ficam vermelhos de furor quando ouvem falar de pátria, deus ou patrão. 
Diante de tão retumbantes e fluorescentes predicados, Antonia se rendeu e passou a parir os filhos dele, que cresciam ouvindo o pai lhes contar histórias de greves e massacres, nenhuma delas inventada, pois que o que não falta são greves de trabalhadores massacrados pelos patrões, e viveram juntos até que Luigi morreu de muitas malárias, vomitando bile verde, e Antonia morreu de velhice.
Mas isso foi muito tempo depois, muito tempo mesmo, quando a estrada de ferro já estava pronta e os trabalhadores que sobreviveram se haviam espalhado de novo pela Terra, e sem trabalho nem comida Luigi, Antonia e os quatro filhos que sobreviveram resolveram se mudar, mas não queriam voltar para os sertões nem para o Rio de Janeiro de Antonia, pois que estavam completamente impregnados da floresta e já não sabiam nem podiam viver fora dela.
Andando e andando, navegando pelos rios e igarapés varados de piranhas e abrindo caminho a golpes de facão, como são abertos os poucos caminhos dos pobres na vida, chegaram numa região com alguns povoados indígenas e de seringueiros, e decidiram viver ali, entre os povos da floresta, onde Luigi e seus filhos encontraram trabalho na construção de uma nova ferrovia, a Carajás-Marabá, e ali as crianças cresceram, casaram e tiveram filhos e Luigi e Antonia foram enterrados, ele de malária e ela de velhice.
Naquelas regiões da floresta muita gente chegava e partia, eram hemorragias de gente tentando um trabalho na ferrovia, ou na companhia Vale do Rio Doce, que explorava o ferro abundante dali, ou garimpeiros em busca do ouro das ricas Serras, que antes do ouro ser encontrado eram recobertas de vegetação, mas logo se tornavam calvas, desmatadas, por fora e por dentro, tornavam-se calvas e peladas nas mãos ambiciosas e cheias de esperanças dos garimpeiros que, da mesma forma rápida e inesperada que chegavam, partiam, e que ganhavam, gastavam tudo em pouco tempo, pagando putas, comendo banquetes com os companheiros menos afortunados, e um ou dois anos depois voltando ao garimpo, pobres e cheios de esperança outra vez, como sempre foram e continuariam sendo; e quando se iam de vez deixavam as serras carecas e os rios empesteados de mercúrio, e muitos anos depois ainda nasciam crianças sem cérebro e as pessoas que teimaram em lá ficar e se alimentar daqueles peixes e daquelas águas morriam cheias de dores e dementes, sem nunca saber o porquê dessa desgraça.
Naquelas regiões da floresta também havia famílias como a de Luigi e Antonia, que lá chegaram muitas décadas antes e não puderam mais sair, por falta de oportunidade ou de vontade, e aprenderam a amar as florestas e viver delas. Mas aquelas regiões amazônicas, como o restante do país, estavam nas mãos de poucos, que mesmo não sendo proprietários legais, sem documentos oficiais e genuínos, eram os donos, os patrões, dominando as terras e as prefeituras e os governos dos estados e as vidas dos seus empregados, muitos deles transformados em escravos.
Foi o que aconteceu com um dos filhos de Antonia, chamado Antonio Mikail, Antonio por gosto da mãe, que mesmo longe de seus sertões, e feliz, nunca se esquecia do seu Arraial, e Mikail por gosto do pai, que mesmo longe de sua Itália, e feliz, nunca se esquecia dos companheiros anarquistas. Pois foi durante uma das épocas de chuvas excessivas que atrapalharam o garimpo e as explorações de ferro que Mikail saiu a procurar trabalho nas fazendas da região e conseguiu numa delas, que criava gado para os açougues do sul. Ali viveu por cinco anos, trabalhando do nascer do sol ao seu se pôr, desmatando a floresta e plantando capim, cuidando do gado, matando e embalando a carne para a viagem, e curtindo o couro, que era vendido às fábricas de sapatos do sul, sempre o sul. 
Sem nunca conseguir pagar as dívidas que se avolumavam com os anos de trabalho, invertendo tudo que seria sensato - de trabalhar e ganhar - pois tinha que pagar a moradia nos galpões onde dormia, e os alimentos que consumia para se manter vivo, e as roupas que recebia para se cobrir e não andar nu, e os instrumentos que precisava para derrubar a mata e curtir o couro, tudo isso lhe era devidamente cobrado e devidamente descontado do salário, e nos cinco anos que lá ficou acabou percebendo que nunca terminaria de dever ao seu patrão, e que havia se tornado escravo. 
Decidiu então fugir dali, não sabia como, mas descobriria um meio de escapar dos jagunços armados que cuidavam da fazenda e de evitar a fuga dos empregados, mas não faria isso sozinho, e sim levaria os companheiros juntos, pois havia aprendido com o pai que a luta tem que ser sempre coletiva e a injustiça combatida onde houver, nunca individualmente, que isso não resolve; e sua solidariedade foi sua ruína, pois os cães dos jagunços logo descobriram aquele grupo imenso embrenhado na floresta, tentando fugir a pé, e os levou de volta à fazenda, ao lugar que era deles por obrigação humana e vontade divina, e logo que lá chegaram suas contas foram acrescidas das custas da expedição de busca e até mesmo das balas que usaram para matar Mikail, que um líder nunca pode ficar impune. 
Enquanto isso, Antonia se gastava de rezar pela volta do filho são e com vida, e Luigi não tinha coragem de reclamar das rezas da mulher, por mais inócuas e inúteis as considerasse, por que ele também estava disposto a agradecer a qualquer deus que lhe trouxesse o filho de volta, mas isso não aconteceu e Luigi morreu ateu e foi enterrado sem unções e nem rezas, como havia exigido a vida inteira e como convinha a um anarquista, enterrado sem cruz como seu filho Mikail que, diferente do pai, não teve cruz nem cova conhecida por falta de opção.
Enquanto Antonio Mikail tentava viver e morria trabalhando como escravo na fazenda, seus irmãos e irmãs tentavam viver, se casavam, tinham e criavam seus filhos, cada um na sua labuta, cada um tirando da terra o que esta lhe oferecesse em troca do trabalho ressecante e do suor amargo.
Enquanto Antonio Mikail e os outros escravos eram esquecidos, seus irmãos e irmãs, filhos, sobrinhos e netos, esses procuravam se manter vivos e livres, mas para isso sabiam que a terra devia ser trabalhada duramente, e seus frutos ficarem para si próprios, e isso só seria conseguido quando fossem donos, eles mesmos, daquelas terras que enriqueciam aos patrões e matavam seus trabalhadores.
Foi pensando e pensando, e esperando e continuando sempre e apesar de tudo, que um dia chegou-lhes a notícia, sempre atrasadas as notícias, chegou-lhes a notícia que um povo do sul, expulso das terras, camponeses como eles, e pobres como eles, e despossuídos como eles, o povo do sul que resolvera se negar a desaguar nas cidades, a se favelar, a se excluir e viver na tangente e da caridade urbana; aquele povo do sul, expulso das terras a que tinham direito pelo seu próprio trabalho e o de seus ancestrais, direito atávico àquelas terras tornadas férteis pelo esforço de seus corpos, aquele povo de braços rijos, agora trocado por máquinas, e suas plantações, que alimentavam as famílias, agora trocadas por soja que alimentavam o grande capital estrangeiro, aquele povo havia se recusado a continuar o êxodo rural, e decidido lutar pela terra.
Chegavam as notícias de que os homens e mulheres e crianças e velhos do sul, enxotados de suas terras, estavam se acampando nas beiras das estradas, e marchando pelo país, e exigindo aquilo que era seu, que lhes cabia por seu trabalho. Que disseram não ao enxotamento sofrido, e esse não era definitivo, pois que não se vendiam por nenhum prato de lentilha, já que eles próprios produziam as lentilhas que lhes eram oferecidas pelos proprietários legais das terras e do poder. 
Diziam não e se mantinham sobrevivendo nas orlas dos campos, nas beiras das estradas, ocupando as terras que eram suas desde sempre e para sempre, pois cada qual tem direito ao que seu trabalho produz e aos sonhos que realiza; recusavam as esmolas e sobras urbanas, exigindo a terra que lhes servia de sustento.
E foi assim que os do norte ouviram o que acontecia no sul, e passaram a se organizar também, e a também se acampar, e ocupar, e plantar para si, e recusar o sustento aos patrões com seu trabalho, invertendo, pervertendo, subvertendo a ordem estabelecida, aquela ordem que parecia tão natural, mas que era a ordem dos grandes e não a deles, e conforme percebiam tudo isso iam se tornando livres e lutando pelo que era seu. 
Lutando e exigindo, exigindo e lutando, aprendendo a perder o medo e a enfrentar os patrões, aquele das terras e aquele do poder político, eleito e instituído com promessas de resolver os problemas do país. E enquanto o patrão das terras se recusa a perder sua mão-de-obra farta e barata, e seus lucros fáceis, pois que fácil é tudo aquilo que conseguimos com o suor alheio, o patrão-Estado faz vistas grossas e não cumpre suas promessas e seu dever. Enquanto o patrão das terras organiza milícias pra defender suas terras férteis contra aqueles que as tornam férteis e produtivas, e exigem indenizações milionárias do patrão-Estado para entregar as terras que não lhes interessam manter, enquanto isso o patrão-Estado fecha os olhos e ouvidos, mas não a boca nem os braços armados, tudo para manter a ordem, aquela ordem estabelecida que parece tão natural, mas que é a ordem que os grandes inventaram e perpetraram contra os pequenos.
E enquanto isso viviam e morriam Maria Antonia e Luigi, ela de velhice e ele de muitas malárias, e nasciam e cresciam e morriam seus filhos e netos, entre eles Maria Antonia, que recebeu da bisavó o mesmo nome, os mesmos cabelos lisos e longos, a mesma pele morena e os mesmos olhos negros.
Enquanto o patrão-Estado fazia corpo mole e coração duro, os sem-terra do norte continuavam em sua marcha pela vida, exigindo o que precisavam para produzir e sobreviver, e marchando pela vida decidiram num abril marchar até a sede do Incra e até o governador do Estado, para negociar a desapropriação de uma das fazendas que pretendiam.
E se põem no caminho, melhor dizendo continuam no seu caminho, e caminhando vão ao longo da rodovia, com os pés no chão, os corações na fazenda desejada e as esperanças na conversa com o governador, que não foi para isso mesmo que foi eleito, resolver os problemas do seu povo?
E caminhando sentem fome, e há algo que precise de justificação outra que não estômagos roncando e filhos com rostos famintos?, e descarregam um caminhão no caminho, divinamente colocado ali pela Providência, e comem as frutas e legumes, pois que o maná nunca mais choveu dos céus desde a época do deserto, e agora é preciso plantar se quisermos comer. Pois não é para isso mesmo que existe a terra e nossos braços?
E caminhando bloqueiam a estrada e exigem que o governador os ouça e negocie com eles, que não foi para isso mesmo que foi eleito, para ouvir e resolver os problemas do seu povo?
E agora, parados na estrada esperando a negociação, veem as tropas do exército e da polícia militar chegando e cercando os dois lados, 69 homens do major Oliveira de um lado e 85 homens do coronel Pantoja do outro. E é para isso mesmo que existem os militares do país?, perguntam assustados os seus corações.
E ali parados percebem os policiais se aproximarem em posição de tiro, caminhando abaixados, encurralando-os com seus fuzis e atirando como aviso. É para isso que existem os militares?, berram assustados os corpos dos camponeses...
E ali parados, pois que o medo paralisa, veem sair de entre eles um deficiente mental surdo-mudo, quase criança ainda, na idade e no entendimento, que sem ouvir os tiros e sem compreender o que se passa se aproxima das tropas e é executado na frente de todos. É para isso mesmo que existe a polícia?, trovejam dentro de si...
E já não mais parados, pois que a injustiça gritante desfaz a paralisia, passam a enfrentar com paus e pedras os tiros e bombas dos homens do patrão, o patrão-Estado que defende as terras e as estradas do patrão do dinheiro. Pois é para isso mesmo que existem irmãos, amigos, e acima de tudo, homens. Para se defender contra a injustiça, e atacar os que a praticam.
E já não mais parados põem-se a correr, em debandada, desocupando a estrada; mas, não satisfeitos, os homens do patrão atiram e continuam o massacre. E cada um que conseguem pegar é arrastado e executado também, com tiros à queima-roupa.
Era 17 de abril de 1996. Maria Antonia olhava com olhos que nada compreendiam e com o coração se esfiapando de dor. Sabia que nunca esqueceria o pai ali ajoelhado, com os braços levantados ao céu e gritando "viva o MST!", enquanto caía lentamente naquele chão lavado de sangue inocente, morto pelo Exército e pelas milícias dos latifundiários que controlavam a região desde tempos impossíveis de se lembrar.
Virou-se no meio daquele inferno de corpos, sangue, fogo, fumaça, gritos e lamentos, cães das milícias cheirando e mordendo os sobreviventes, velhos e crianças ajoelhados implorando clemência e lamentando seus mortos, no meio da poeira suja pelo sangue de seus maridos, filhos e pais; virou-se e não sabia o que fazer, pequena nos seus cinco anos de idade, mas já com marcas de quem poderia viver oitenta e nunca passaria pelo que ela passou.
Eloisa Helena Maranhão

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