18 novembro 2011

A Degustagranolas


“And now the end is near
And so I face the final curtain...
And more, much more than this
I did it my way.”
(Paul Anka)

“A dor da gente não sai no jornal.”
(Chico Buarque)

Degustagranolas era fêmea. Cheia de estrogênios e progesteronas. Não tinha marido, que ogras não os têm. Perdeu, quem acreditou que ogra e ogro se casam. São seres absolutamente solitários em sua monstruosidade rude, tosca e parva. Podem até viver juntos. Mas não se pode dizê-los casados. Degustagranolas tinha filhos. Ogros habitualmente os têm, pequenos seres que brotam de si mesmos com toda a ogrice parental. Ou não. Daí depende a sorte dos filhotes, da conjugação genética que apresentem.

Degustagranolas era mordaz. Cruel. Briguenta. Adorava dar voadoras e pernadas nos inimigos, para primeiro derrubá-los, depois esmagá-los, picá-los em pedaços médios, moê-los, fazer bolinhos deles, e por fim, degustá-los. Bem mastigadinhos. Como pequenos sucrilhos ou granolas crocantes nos dentes.

Era uma encrencreira, a Degustagranolas. Mal saía à rua atraía todo tipo de encrenca. Era um ímã, uma antena parabólica, uma pirâmide de místicos, todos os chacras abertos, sem pele pra separá-la do mundo, até seus pensamentos podiam ser ouvidos de longe, gritados, a raiva que tinha, a dor que escorria, o medo que sentia, os pedidos de perdão e os xingamentos, posto que não havia, entre ela e o mundo, uma separação. Era ouvida por todos e qualquer um, mas ouvia tudo também. As raivas, as dores, os medos, as mágoas, os ódios pequenos e grandes, os abismos. Degustagranolas ouvia o abismo que havia nas pessoas.

Pavio curto, era chamada, a tal de “paciência tem limite”, e a paciência dela era limitadíssima. Bateu, levou, falou, ouviu, escreveu, não leu, pau comeu. Não que ela fosse assim de já sair ou chegar se espalhando, causando sem motivos, pelo contrário, era muito contida, talvez pra suavizar seu sem-pele, mas se a olhavam de soslaio, de um jeito a estranhá-la, era trovoada na certa. Tempestade das grandes. Nem que fosse só por dentro. Mas geralmente era por fora, também.

Degustagranolas não tinha nariz torto, nem verruga ou pelos nas orelhas, mas era feia pra cacete. Horrorosa. Tal fora tal dentro. Pra andar combinadinha seu eu e o de fora. Não usava apetrechos de nenhuma espécie, brincos, colares, pulseiras, maquiagem, enfeites, que era tudo supérfluo, não podia confundir quem a olhasse, nem se confundir a si mesma, acaso se olhasse no espelho. De vidro ou do Outro. Degustagranolas era o que era, e estava resolvido. Eu sou o que sou, ela poderia ter dito de dentro da sarça ardente, mas não disse, por que ainda não existia. Ali, na sarça, estava o supremo Outro. O totalmente desconhecido. O que nunca poderia ser captado. Por ímã, antena, pirâmides nem pensamento algum. O que não existe não pode ser apropriado por qualquer tipo de instrumento, mesmo a mente humana.

O tempo, para Degustagranolas, também era diferente. Era estático e em bloco. Ela era a sem-passado e sem-futuro. O já, o agora, o aqui-somente. Tudo que tinha de acontecer, acontecia, ali, dentro do corpo dela, onde estivesse, e por isso Degustagranolas não gostava ou não sentia necessidade de viajar.

Onde estivesse se levaria junto, tudo aconteceria como devia acontecer, e neve ou fogo, água ou deserto, mata-virgem ou edifícios, montanha ou litoral, água doce ou salgada, tudo era o que era e sua presença não faria diferença. Nem falta. Como era uma e tudo, não interagia com o meio, apesar – e certamente por causa - dos pensamentos gritados, das brigas, as voadoras e xingamentos sem fim. Não interagia por que estava dissolvida no próprio ambiente.

Degustagranolas começou a estranhar a casa, em primeiro lugar, logo que se notou fazendo parte do ambiente. Casas eram lugares com coisas demais. Armários, camas, mesas, roupas, pias, privadas, tapetes, cortinas, móveis. Começou a limpeza pelo mais supérfluo, tirou tapetes, cortinas, enfeites. Qualquer tipo de enfeitinho brega. Coisinhas de biscuit, gesso, madeira, quadrinhos mal pintados, toalhinhas de renda, ímãs de geladeira em formato de tudo que existia no mundo – e muitos com formato de nada reconhecível. Não sabia como tanta tralha tinha se acumulado em sua casa, não se lembrava de ter ganho e muito menos comprado aquelas pequenas indecências. Tentou lembrar se tinha comprado nalgum bazar de grupo de natal de terapia ocupacional. Ou se eram as lembranças de dia dos paismãesnamoradosformaturas de seus pequenos ogrinhos rebentos. 

Juntou tudo, levou pro quintal e fez uma belíssima fogueira bem no meio dele. Coisa mais linda de se ver, o sol se pondo, começando a escurecer, o fogo crepitando e a fumaça subindo. Aquelas estrelinhas que saíam raspando de dentro do fogo, fazendo barulho de téquetéque. Ficou feliz como ficava nas festas juninas, olhando o fogaréu consumir aquele monte de coisinhas imprestáveis.

Depois passou para os móveis, armários, estantes, guarda-roupas, prateleiras, tábua de passar, caixas, gavetas, roupas, enxovais, um dia desmontou tudo em madeiras e tecidos, levou pro quintal e tocou fogo. Segunda fogueira, durou uma noite e o dia seguinte todinho. Linda, um fogaréu bem maior que a outra, tanto que chamou a atenção dos vizinhos que vieram ver aquela belezura inusitada. Claro que Degustagranolas não deixou nenhum estranho entrar em sua casa, mas podiam olhar da rua e ver. Ninguém tinha o direito de julgá-la. Pois Degustagranolas era sua própria vítima, réu, juiz e carrasco. Só não tinha advogado.

Quando passou a arrancar pias, privadas, janelas (e fechava os buracos com madeiras pra nunca mais se descolarem), portas internas, azulejos coloridos, pisos, não dava pra simplesmente queimar. Passou semanas, meses quebrando tudo na marretada, era sua função a partir dali, transformar tudo em destroços que pudesse enterrar no quintal, bem onde as fogueiras tinham sido acesas. Queria sua casa branca. Pura. Limpa. Completamente esvaziada. Como a si mesma. Fez um tremendo buraco no quintal, até chegar a uma aguinha, jogou todos os escombros ali dentro, fechou, trabalho que lhe rendeu mais semanas de labuta e prazer. Tirar terra, mais terra, mais terra ainda, encher tudo com tranqueiras, e soldar por cima, com mais terra, cimento e uns cacos de cerâmica guardados exclusivamente para esse fim: transformar seu quintal numa instalação artística. Mosaico. Bienal. Não sem querer levou exatamente dois anos até desmontar a casa toda por dentro, queimá-la e enterrá-la no quintal. Obra prima, sua obra-eu.

Próxima fase: pintar tudo de branco, por dentro e por fora. Com cal. Tinha de ser cal, misturado com água e esfregado com brochas nas paredes. Não servia tinta moderna, acrílica, a óleo, PVC. Era cal e estava decidido. Casa branca, caiadinha, totalmente vazia. Perfeita.

Mas ainda era pouco. Degustagranolas tinha de ir até o final. Beber a água toda. O vinho também. Depois de muito pensar, desejar, planejar, encharcou todo o interior vazio de querosene e gasolina, fechou as portas e ateou fogo. Ficou ali no meio da sala, sentada de pernas cruzadas, em posição de lótus, dedinhos pra cima, cantando My Way. Em inglês. E degustando suas últimas granolinhas secas.

Degustagranolas tinha achado seu destino: ser fogo e fogueira, consumindo-se de dentro pra fora e de fora pra dentro.


Eloisa Helena Maranhão.

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