18 novembro 2011

Eleanor e o Espeto de Gato

“Hoje só acredito no pulsar das minhas veias
e aquela luz que havia em cada ponto de partida
há muito me deixou...”

(Fagner)


Depois de comer o espetinho eu queria comer outra coisa, ele disse.
Eleanor não titubeou, não se fez de rogada, pegou-o pela mão pensando vou dar pra ele, fazer esse favor, que me custa, favor a mais, a menos, uma chaga a mais pra um lazarento – lembrou-se da irmã mais velha filosofando -, a vida é isso mesmo, ações são ações, podem ser boas ou más, e com ela não tinha isso de boas ações causarem entusiasmo, e as más, inquietude, como era inteligente e quase filósofa, e ainda por cima, suprema desgraça dos clientes!, tinha experiência de vida, essa coisa que se acumula gastando ou se gasta acumulando, ela sabia que ações são ações, e suas conseqüências só dependem do acaso. Era vesga e intelectual, quase filósofa, só não digo filósofa inteira por que era pobre, proletária, e filósofos costumam ser desocupados, ociosos, vagabundos, vadios, pois vivem do suor alheio. Também não vou dizer vesga mas intelectual, pois não faz sentido essa conjunção adversativa, que tem a ver pato com ganso, o cu com as calças, todos sabemos, inteligentes que somos, nós, os humanos, com telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, pois sabemos que estrabismo é estrabismo, intelectualismo é intelectualismo, vaca é vaca, mãe é mãe. Deve estar a perigo esse cara, continuou pensando, pra cantar até vesga, vendedora de espetinho de gato.
Quem preparava os espetos era ela, todo o processo, desde o fabrico da matéria-prima, era a única artesã que restava nesse mundo todo industrializado, eletroeletrônicos, comunicações via satélite, robótica e informática, lasers, sabão em pó, refrigerante, miojo lamén, shampoo, esquis, sapatos, cuecas, óculos, livros, bombas d´água, chuveiros, garrafas, mesas, pratos, camas, camisinhas, mochilas e estojos made in Taiwan via Paraguai, como ela, loira made in Taiwan via Paraguai, daquela loirice de vassoura de palha, cabelos espichados de tanta tinta e química, mas no resto era artesã, fabricava, vendia e se apropriava dos seus espetinhos.
Matava o gato, cevado com carne de segunda que daria pra fazer muitos espetinhos, mas era um gosto catar aquele gato preto gordo, enfiar uma lâmina afiada no peito dele, lugar certíssimo entre os pelos e costelas, milimetricamente no diafragma, e ver o bichano nem miar, dando uma última estrebuchada e cair. Daí era esfolar, tirar a pele, que vendia para uns fazedores de cuíca, que não ia perder tempo fabricando cuícas, era artesã só de espetinhos, sua missão principal; se precisasse, terceirizava todo o secundário, por que o gosto era matar gato, esfolar, esvaziar o bicho, cortar a carne em cubos, preparar com sal, limão, um pouco de pimenta e suco de mamão, encher os espetos, fritar, passar na farinha e vender. Mas como não precisava, não terceirizava nada, não tinha essas pós-modernidades de reengenharia, ISO 9000, qualidade total, trabalho em equipe. Era ela e só ela e seus gatos, e até seus espetos que cortava das árvores imundas de poluição e fedendo urina, e cortava, lascava, lixava, fazia ponta e espetava a carne, e não dava pra dizer: não.
Aquele cheiro atraía todo tipo de cliente, inclusive os lógicos, os racionais, os que gostavam de comer bem e só em casa, por que não havia como resistir àquele cheiro de gato assassinado com lâmina certeira, e era impossível resistir ao sangue escorrido e lavado, nem a espetos de madeira de árvore de cidade poluída, lavado em água vagabunda de torneira, e mais impossível ainda resistir a uma vesga de pescoço torto que vendia espetinho de gato e tinha as mãos sujas de seu ofício, mas era livre, por que era artesã.
Daí que ele – chamava Gimenez, o cliente, era filho bastardo de espanhol com uma puta do cais do porto, acabaram sem porto na cidade, o pai, a puta e o filho, mas a puta cansou daquele espanhol chato, machista, falando alto e querendo ser dono, caiu fora, e deixou o menino com o pai, que, bem ou mal, o criou nos princípios cristãos, mimado em berço católico com a madrasta que o pai arranjou, uma mulher feia, calada, quase estúpida, mas não vesga, agora cabe aqui a adversativa, já que o espanhol escolheu uma não-vesga, pouco se preocupando com o nível intelectual dela, desde que fosse apresentável – o que significava não ser vesga nem manca nem que falasse muito e muito menos palavrões-, e que fosse fiel e nunca o abandonasse, como a puta, mãe do Gimenez. Nesse caso, toda regra tem exceção, acabamos confundidos com isso de vaca é vaca, mãe é mãe, mas exceções não contam, só reforçam a regra.
Pois foi levado, o Gimenez, pela vendedora de espetinhos para uma casa em demolição, e quão encantado ficou, sem nem perceber isso, de tão excitado que estava, só pensava agora com a cabeça de baixo, pois nem pensou mas ficou encantado com aquela casa em demolição, tão parecida com a de seus pais, e a sua própria, e, caso tivesse pensado, caso o cérebro pudesse funcionar quando o pau dava as ordens, teria percebido que toda casa está em demolição, é da natureza, é da normalidade, acabou de construir começa a degradar, tá ligado naquilo de começo, meio, fim, início, auge, decadência, dizem que é natural isso, nada é permanente e muito menos estável, impérios que surgem e desaparecem, viram o romano?, vão ver o norte-americano, também, veja o big bang, ele teria pensado, se não estivesse quase gozando, acabou de iniciar, o universo já começou a caminhar pro fim, mas como não era momento pra filosofar nem pensar cientificamente, muito menos teologicamente, ela subiu numa escada, ele trepou num banquinho de três pernas, tão instáveis, mas tão absolutamente imprescindível, se conseguisse pensar - já avisei que não dava -, notaria com seu cérebro anatomicamente perfeito (não vou comentar da fisiologia), e sua mente tão normal, ele notaria que quando o corpo manda nada segura.
É da natureza, e por isso a vida é assim tão cruel e bruta, um vale de lágrimas, e as pessoas adoecem e deixam de fazer o que queriam, e chegam a ficar dias sem tomar banho, e até fedem, quando se revoltam contra o corpo, pois é da natureza que, quando o corpo pede, sábio é quem atende, e anormal quem resiste, retruca, bloqueia, trava, controla, domina, discute, questiona o que o corpo pede.
Como ainda lhe restava alguma sabedoria, olhou dentro dos olhos vesgos da vesga, não pensou em mais nada e gozou. Ele tinha, sim, pensado em todos os gastos que teria ou achou que teria, há pessoas assim, que medem tudo, mensuram tudo, as ações boas e más, o que vale a pena ou não, se é melhor de dia ou de noite, se espetinho de gato vale o preço, mesmo com aquele cheiro irresistível de bichano assassinado e madeira verde fedendo urina queimando no óleo, e esses seres que tudo mensuram são aqueles que foram ensinados que a vida é uma contabilidade e que o céu também, que deus fica lá, com livro caixa, passivo de um lado, ativo do outro, vermelho e azul, boas ações pra cá, más pra lá, vamos ver o que vai dar no balanço final. Outros vivem da graça, e gozam e peidam e matam gatos sem dó.
Não pensou em mais nada, olhos nos olhos, gozando. Ela deu um suspiro profundo, desvirou os olhos pro normal – nunca tinha sido vesga, era só arapuca, armadilha -, deu um beijo longo, demorado, lentíssimo nele, que engoliu sua contabilidade e quase engasgou, e envesgou, e passou o resto da vida vesgo, pescoço torto e mancando de uma perna, jogando com o corpo pra tentar se reequilibrar daquele beijo e daquele gozo. Nunca conseguiu.
Eleanor voltou aos gatos, sem vesguice, filosofando e muito fagueira.
Eloisa Helena Maranhão.

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