23 novembro 2011

Fênix

Para Gaudino, o índio. Não podia ser para outro. E para os kaiowás, meus verdadeiros ancestrais, dos quais somos órfãos. A bênção.
 "Que tragédia é essa que cai sobre todos nós?"
(Milton Nascimento)

Os dias e noites haviam sido longos e cansativos. Os pés estouravam em bolhas nas sandálias havaianas. Jacira não sabia o que eram havaianas, nem Havaí, nem hula-hula... Nunca tinha saído de sua terra durante os mais de cinqüenta anos que já havia vivido.
Nunca pelo menos até aquele momento, quando decidiu abandonar tudo e procurar o presidente. Haviam-lhe dito que existia um presidente que servia para resolver problemas como os seus e de seu povo. Jacira fizera uma trouxinha e saíra à pé à procura do tal. Não sabia nada dele, apenas que vivia num edifício em Brasília, e Brasília não ficava longe demais das terras em que nascera. Nada era longe demais para quem tinha tempo e disposição, pensava Jacira enquanto decidia pela viagem. Tempo era o que não faltava para quem não tinha mais nada a esperar da vida.
Deitada no banco da rodoviária, com os pés doloridos e o estômago chiando de fome - o estômago de Jacira já não roncava como onça há anos, quando havia aprendido a iludir a fome, deixando-o apenas chiar como um filhote de gata - Jacira pensava na última imagem que trazia na retina antes de sair da aldeia.
Quatro jovens mortos, enforcados, pendurados nas árvores da reserva, entre eles seus dois últimos filhos. As línguas roxas, os olhos saltados, aquela expressão de nunca devia ter nascido. Isso era o que mais doera em Jacira. Olhar nos olhos dos filhos e ler a vontade desesperada de não querer ser, a dor de viver, a falta de esperança na vida. Doía mais do que quando os meninos, ainda crianças, lhe choravam comida e ela dizia que não tinha mais, e que precisavam esperar com paciência os homens de Deus virem com a comida, as roupas velhas, os remédios para as doenças e as palavras da salvação para as almas. Doía mais o arrependimento de tê-los gerado para o sofrimento do mundo do que a morte deles em si. Jacira lembrava de quando estivera grávida dos meninos; havia tido mais de doze gravidez, e oito filhos nascidos vivos, dos quais apenas quatro vingaram das doenças de pequenos. Um deles saíra pelo mundo procurar emprego e nunca mais mandara notícias. A outra morrera de parto, junto com o bebê mulher. Os dois que haviam sobrado com vida, para dar continuidade à família e à tribo, agora estavam mortos, pendurados.
Já não era de hoje que as aldeias de seu povo andavam assim agonizando, os jovens morrendo do mal da alma vazia, pendurando-se nas árvores que encontravam, com falta de enxergar algum futuro; os homens adultos morrendo do mal da alma vazia, morrendo de beber cachaça e vomitar verde e marrom sem que ninguém pudesse fazer nada; as moças morrendo do mal da alma vazia, prenhes e sem assistência, com seus bebês atravessados dentro delas; ou abortando para não colocar no mundo mais um para sofrer de alma vazia; as crianças pequenas morrendo do mal da alma vazia dos pais, com toda sorte de doenças e diarréias, mirradinhas e amareladas; as mulheres morrendo do mal da alma vazia, enchendo a igreja dos homens de Deus, cantando hinos e esperando no Senhor. As aldeias e seu povo estavam todos morrendo do mal das almas vazias, aquele que fazia sentar, deitar e esperar, esperar e esperar, sem nunca lutar nem procurar saída. Os homens brancos do Deus branco haviam infectado as aldeias deste mal que esvaziava as almas e matava a longo prazo.
Quando viu os filhos pendurados nas árvores com a expressão de por que nasci, mãe?, Jacira resolveu que era hora de encher a alma, mesmo que fosse com restos e respingos, e fazer alguma coisa pelos que restavam de seu povo. Não passavam de três dúzias, mas tinham o direito de viver e continuar, de lavrar a terra e colher seus frutos, de comer e gerar o futuro. Foi quando, perguntando aos brancos homens de Deus, estes lhe haviam dito que havia um presidente para responder suas perguntas nunca perguntadas, e solucionar seus problemas.
Jacira, então, começara a viagem, sempre à pé, pelas estradas de terra ou asfalto que cruzavam o país Brasil. Ela tampouco sabia o que era um país ou o que era Brasil, mas sabia que seu povo fazia parte do Brasil, falava um pouco de português e assistia novelas de amor e ódio, que não entendiam direito por que a língua daquele outro Brasil, o da televisão, era tão diferente da deles da aldeia, e, além disso, a energia vivia falhando, chegando a ficar dias sem voltar, e eles perdiam o fio da meada das histórias, e inventavam o fim; quando a novela recomeçava já não tinha graça, por que os amores já tinham sido resolvidos entre os índios, e os ódios também, e então não fazia sentido assistir mais nada.
Preferiam assistir os homens de Deus falar do Deus branco que era um só, e ao mesmo tempo acusava e julgava e dava a sentença para cada um. Eles ouviam tudo muito sérios, pois os homens de Deus levavam tudo aquilo muito a sério, mas depois, deitados nas redes, conversavam em sua própria língua e riam muito daquele Deus que fazia tudo sozinho, que miséria, um Deus tão pequeno que tinha de ser tudo ao mesmo tempo. Riam ao pensar como podia Um só criar, e manter, sustentar, dar continuidade, descer do céu e vir morrer, e salvar, e voltar pro céu, e depois vir de novo para julgar os homens, acabar com tudo e levar alguns com ele.
Jacira, então, como a mais velha do seu povo, contava para eles que não se iludissem com aquele Deus branco único, Deus na verdade era muitos, era vários, cada trovão era a voz dos deuses discutindo, e cada chuva era o choro dos deuses na mata, e cada dia que o sol brilhava eram os deuses sorrindo para eles e sustentando a vida, e cada criança que nascia era um deus que vinha morar entre eles, e era bem vindo, não era como o deus branco que nasceu e não foi bem recebido; era inconcebível que um deus não fosse bem vindo, em forma de criança, de chuva, de sol, de trovão, de folha, de onça ou em outra forma qualquer.  Só um povo muito parvo matava seus deuses, e, pior ainda, matava seu único deus. Coisa absurda.
Mas os homens brancos do Deus branco único oravam, liam seu livro, ensinavam outras coisas às crianças e exigiam que Jacira calasse sua voz e suas palavras de vento, em nome de Jesus.
Jacira não sabia o que era Jesus, nem queria saber quem era aquele que a mandava calar. Não estavam acostumados a se calar sem necessidade; ali todos discutiam, conversavam sobre tudo, decidiam em conjunto, as tarefas diárias, as doenças que tinham, os amores e os ódios; ninguém ali resolvia as coisas sozinho, escondidos nos quartos como os brancos das novelas; sentavam-se em roda para conversar, cantar, dançar, comer; ninguém ali escondia seus quereres dentro do coração, como os brancos homens de Deus. Mas isso era antes deles chegarem com a salvação que haveria de esvaziar suas almas. Depois cada um passou a viver seus amores e dores sozinho, andando pelo que sobrava das matas queimadas, nadando no que sobrava dos rios poluídos pelos garimpeiros, subindo nas árvores que sobravam do desmatamento feito pelas madeireiras. Conforme as matas eram queimadas, conforme as águas dos rios eram poluídas com mercúrio, conforme as toras de madeira desciam rio abaixo, as almas dos índios eram esvaziadas e as dos brancos preenchidas. Jacira sabia de tudo isso, mas se calava. Não sabia quem era o em nome de Jesus, mas sabia quem eram os brancos, e as armas que tinham, e eram mais fortes que ela e seu povo. Calou-se, portanto.
Entretanto, já se arrependera de ter-se calado inutilmente, por que há silêncios que aumentam, viram feridas, supuram, crescem e estouram, e o silêncio imposto pelos brancos homens do Deus único era desse tipo. Silêncio funesto, carregado de dores, prenhe de tragédias que ao menor movimento desabavam sobre todos.
Jacira se arrependera de se calar por tanto tempo, principalmente quando pensava na menina Jandira, a que nunca falava, a mudinha Jandira; a menina não nascera muda, tinha aprendido a falar normalmente, inclusive falando mais que todos os outros, e falando corretamente nas três línguas, a dos índios, a dos brancos e a dos animais; era uma criança faladeira, que soltava as palavras e sentenças aos borbotões, rindo e pulando ao mesmo tempo, e quando abria a boca era como um bando de siriemas, de gralhas, de tuiuiús barulhentos; isso quando era pequena e descuidada, quando a vida ainda estufava dentro dela, e não se tinha esvaziado da alma; mas no dia em que o pastor branco do Deus branco único disse a Jacira que se calasse em nome de Jesus, a menina Jandira ouviu e calou-se ela própria, numa mudez eterna, escura e profunda, mudez de poço sem fundo, poço seco sem águas, de quem nunca tinha aprendido som algum; a voz de Jandira nunca mais foi ouvida na aldeia, nem nas matas, nem nos rios na hora do banho ou da lavagem das roupas, o bando de aves se calou dentro dela, e Jandira emudeceu de repente e para sempre. Tornou-se a mudinha Jandira, que tentaram fazer voltar a falar com ervas, remédios, ovos quentes recém-botados, danças e cantorias que não surtiram o menor efeito; a muda tomava todos os remédios como se fosse sua sina, seu juízo final, sem palavra alguma e reação alguma, absolutamente impassível, e Jacira aprendeu o significado de "impassível" quando olhou nos olhos da menina emudecida; aprendeu o que era impassível quando olhava a criança ao pé das fogueiras ou dos fogões a lenha, que era seu lugar predileto, o fogo, e só via o fogo arder de novo nos olhos da menina quando esta olhava as fogueiras, as brasas lambiscando e crepitando naqueles olhos completamente negros, agora avermelhados pelo reflexo do fogo; Jacira nem ninguém tinha coragem de se aproximar e pegar a criança no colo, ninguém mais tinha coragem de tocar na menina, por que aquele olhar de fogo e aquela mudez eram obra dos deuses, e os deuses eram intocáveis.
Só viram a criança reagir no dia em que chegaram, no meio dos remédios mandados pelos brancos da cidade, várias caixinhas de band-aid para pôr nos pequenos machucados. Jandira passou a pedir band-aids para qualquer tipo de arranhão que tivesse pelo corpo; qualquer esfoladura ou vermelhidão lá vinha ela com a mão estendida olhando as caixinhas milagrosas que saravam as dores pequenas; vivia com algum band-aid no rosto, na testa, nas perninhas magras, na barriga saliente, nos braços, nas mãos, no pescoço; seu lugar preferido de colocar band-aid era no peito, dois deles, em forma de cruz, bem no meio, como o crucifixo dos padres; acostumaram-se a nunca usar os band-aids para deixá-los para a mudinha, que para ela era essencial. No dia em que tiraram o irmão mais velho da menina da árvore - ele foi o primeiro a se suicidar, contaminado de vazio da alma - ouviram um grito agudo, absolutamente humano, de dor que rasga, no meio da selva desmatada, e foi a única e última vez que ouviram um som qualquer da menina desde que ficara muda; então ela apareceu na capela, o corpo dele já preparado com ervas e enrolado na rede para ser enterrado, e a menina nua trazia band-aids por todo o corpo, da cabeça aos pés, nenhum espaço de pele descoberto, como tatuagens da Yakuza japonesa; os cabelos raspados e a cabeça escondida sob os band-aids; apenas os olhos e a boca apareciam no meio dos band-aids que curavam os pequenos machucados; e quando, horas depois, retiraram o corpo da menina da mesma árvore onde se enforcara o irmão, decidiram que iam enterrá-la daquele jeito, coberta pelos band-aids que não haviam conseguido sarar os machucados da alma da criança muda. Jandira foi, portanto, a segunda de uma fieira interminável e infeliz de suicídios inaugurados pelo irmão.
Quando viu os índios brigando por restos de comida, disputando ossos ou cascas de frutas, então Jacira decidiu que era o momento de arrumar as coisas e sair na viagem à busca do homem escolhido para resolver os problemas de todos. Com certeza seria um homem sábio, de palavras que curam, de ações que saram, um ancião que aprendera com a vida a mostrar os caminhos e torná-los mais suaves, como eram os escolhidos de seu povo antes da chegada dos brancos; com certeza o presidente olharia para ela, e nos seus olhos Jacira reconheceria a chama dos escolhidos, mesmo escondido por trás das vestes puídas e dos pés descalços, que assim andam os sábios; ele estenderia as mãos calejadas de trabalhar por todos, e diria as palavras e daria as ordens que salvariam seu povo. Era assim que se portavam os escolhidos, mensageiros dos deuses e servos do povo. Jacira iria procurá-lo.
Caminhou dias e noites, alimentada pela esperança de encontrar aquele que era sustentado para resolver os problemas de todos; enchia-se de alento quando sonhava com o encontro esperado, e que voltaria à aldeia com as mãos repletas da cura do mal da alma vazia; sabia que aquele homem eleito pelos brancos teria com o quê encher novamente a alma da sua tribo; afinal, não eram todos habitantes do país Brasil? Não eram todos irmãos, povos do mesmo mundo, filhos da mesma mãe universal, a que havia gerado todos, homens, plantas e animais? Seriam, os de sua tribo, como os brancos das novelas, ricos, fartos, bem vestidos, bonitos, alegres, cheios da fala dos que realmente sabem, seriam felizes como os brancos, quando seu presidente ficasse sabendo de sua existência e cuidasse dos índios também. Imaginava o olhar estupefato do presidente quando olhasse para ela e descobrisse que havia índios no país Brasil, índios pobres, desnutridos, infelizes, com as almas esvaziadas e morrendo aos poucos. Com certeza o presidente se surpreenderia, pois não devia saber dessa tragédia que envergonhava qualquer ser humano.
Caminhou sem sentir as dores das bolhas, o inchaço dos pés, a fome no estômago, o sol estridente, as chuvas geladas. E chegou.
Entrou na cidade que parecia um pássaro, haviam dito a ela, a cidade de asas estendidas ao norte e ao sul; pensou que era de bom augúrio que a cidade em que habitavam os escolhidos se parecesse com um pássaro olhada de cima, pois são as aves que voam seres livres que conhecem os segredos todos do mundo, e decerto os homens escolhidos também eram do tipo que conhece os segredos e necessidades de seu povo, trabalhando para que todos vivessem bem. Que sorte tinham os brancos de saber escolher homens assim tão sábios, e logo essa sorte também se estenderia ao seu povo, pois a sabedoria verdadeira se espalha e tem bastante pra todos que precisam, sabia Jacira desde pequena. É como um chifre de touro aberto dos dois lados, que está sempre vertendo, como sementes sempre brotando, como plantas que se espalham e dão fruto e saciam. Abençoados os brancos, pensava Jacira, que tinham sabedoria e felicidade para espalhar para todos.
Entrou na cidade-ave ao clarear o dia, procurando onde estaria o presidente. Encontrou-o em dia de festa, comemoração de alguma coisa que não soube entender, e o presidente e seu séquito eram homens felizes, bem alimentados, bem-vestidos, bem-calçados, bem-estudados, bem-curados das doenças, ou imunes a elas.
Jacira espantou-se com a imponência do presidente, sua altura, sua seriedade, e não pôde encontrar nele o homem que esperava, o líder, o servo do povo, mas viu apenas um comandante, e pensou por que seria que os brancos escolhiam e sustentavam homens para dominá-los e sujeitá-los.
Tentou falar com ele, mas quando chegou um pouco mais perto foi afastada por mãos enluvadas, que não se sujariam naquela mulher, aquela índia velha, escória do povo, feia, suja, sofrida, um atentado à estética e à sensibilidade artística apurada. Olhou nos olhos do presidente e não gostou do que viu. Viu desprezo, indiferença, acusação pela própria miséria, exatamente o que via nos olhos dos brancos, de todos os brancos com quem tinha cruzado até então, os patrões, os donos das terras, os comerciantes, os padres, os pastores, os motoristas, os médicos, os professores, e até mesmo dos empregados domésticos das casas onde parava para pedir um copo d'água.
Sentiu-se acusada por ser pobre, índia, velha, mulher, povo. Sentiu que seu crime era imperdoável, o de vir procurar alguém que pudesse fazer alguma coisa, tomar alguma atitude.
Voltou as costas para a imponência, para a arrogância, para o poder, para o mundo dos brancos que haviam desprezado e esquecido o mundo dos índios. Resolveu descansar um pouco em algum lugar, mas onde quer que entrasse e tentasse sentar era logo enxotada.
Sentou-se num banco de praça, na frente da rodoviária, e ali havia tanta gente diferente, pobre como ela, esquecida como ela, menosprezada como ela, que ali ela sentiu que, mesmo não sendo aceita, pelo menos não seria enxotada, já que era igual a tantos.
Deitada ali no banco da rodoviária, com os pés doloridos e o estômago chiando de fome, Jacira pensou na última imagem que tinha visto antes de sair da aldeia, o filho ajoelhado na base da árvore, enforcado na própria calça (pressentindo o suicídio, a índia havia inutilmente retirado do moço a cinta e os cadarços dos sapatos, uns dias antes), e a cena novamente doeu tanto que ela voltou os olhos para a rua de trás. Era noite de missa, e um imenso crucifixo com o Cristo morto iluminava-se na torre da igreja.
A índia não pôde deixar de falar àquele homem o que havia vindo dizer ao presidente. Seu coração espumava de conter as palavras por tantos anos, desde que o pastor a havia mandado calar em nome de Jesus. Olhando o crucifixo Jacira entendeu que aquele era o Jesus em nome de quem a haviam feito silenciar, e decidiu falar diretamente a ele o que precisava.
Contou que seus filhos e outros jovens da tribo estavam se suicidando, que seu povo estava sendo exterminado pela doença das almas vazias, e que já não havia esperança para eles.
Contou que a menina Jandira gemia na cova nas noites sem luar, e que não havia band-aid enterrado que a fizesse sossegar e descansar.
Contou que as almas dos mortos passeavam de cabeças baixas, penduradas nos pescoços, olhos saltados e línguas roxas, imensa procissão dos enforcados, por entre as plantações de soja e maconha dos fazendeiros brancos, e que eram pisoteadas pelo gado, se tentavam entrar nas terras dos pecuaristas. E que não havia rezas nem danças que as fizessem sossegar e descansar.
Falou baixinho que as mães já não se agüentavam de tanto sofrer pelos filhos doentes, mirradinhos e famintos, pelos maridos alcoólatras, pelos avós descarnados e cegos, que já não queriam ver mais nada, voltados contra a parede até serem encontrados pela morte. E que não havia chás nem canções de consolo que os fizessem sossegar e descansar.
Contou que seu povo já não tinha alimento, remédios, terra, deuses, esperanças, por que tudo tinha sido tomado pelo branco, que tinha também destruído as matas, os rios, os mares, transformado tudo em desertos, nivelado os montes, secado as fontes, poluído os ventos, matado os animais, destruído a vida, que era isso que os brancos sabiam fazer, acabar com a vida onde quer que ela se encontrasse, e acabar com o desejo de viver  também.
Contou que até mesmo a palavra tinha sido retirada de seu povo, a palavra, as danças, as músicas, as pinturas que sabiam fazer no corpo, os enfeites de penas de aves e peles de animais, e no lugar deixaram apenas silêncio e devastação.
E que já não havia nada que servisse para sossegar e descansar.
Explicou para aquele deus crucificado que os brancos ainda não haviam compreendido que antes deles outros já conheciam a verdade, e muito depois que tivessem passado, por que todos passariam, outros a conheceriam, e que a verdade era variada e colorida como as penas das araras, como as folhas e frutos das plantas, como os pelos e escamas dos animais.
Também não viu nada nos olhos do deus branco pendurado na cruz, e teve dó dele, pois pressentiu que para ter sido morto daquela maneira, também ele foi um desprezado, acusado pelas próprias misérias, e que passaram indiferente pelo sofrimento dele. E que também ele não devia ter nunca sossegado nem descansado.
Fechou os olhos, encolhendo-se no banco, esperando que aquela imensa noite passasse, por que recomeçaria sua marcha de volta no dia seguinte, quando o sol aparecesse novamente, para acabar de morrer junto de seu povo.
Sentiu que estava sendo molhada, que chovia sobre ela, mas o cheiro era forte, não era água de chuva. Abriu os olhos aterrorizada, e viu jovens que podiam ser seus filhos e netos com um fósforo aceso e uma risada demoníaca no rosto. Atearam fogo no corpo molhado de gasolina e fugiram, deixando-a queimar, as roupas derretendo e colando no corpo, a pele descolando, os cabelos soltando um cheiro horrível, os pulmões formando bolhas. Jacira não teve tempo de entender por que fizeram aquilo, nem ninguém poderia entender, mesmo com todo o tempo do mundo.
A velha índia dissolveu-se em cinzas, e depois levantou a cabeça pequena de olhos amarelos, sacudiu o pó grudado nas penas, abriu as asas e alçou vôo. A natureza continuava em transformação, e branco, poder, nem deus nenhum a poderia conter.

Eloisa Helena Maranhão

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