18 novembro 2011

Joyce, a debulhada

“A criação toda é abstrata. Os espaço inteiro é abstrato.
A água é abstrato. O fogo é abstrato. Tudo é abstrato.
Estamira também é abstrato.”  (Estamira)



Não dá pra começar dizendo “Joyce era...” Tinha-se que dizer “Joyce tinha sido”. Ou talvez nem isso, talvez Joyce nem tivesse sido, mas apenas existido. Como continuava a existir, sem ser.
Deixe-me explicar. Que frases sem explicações costumam ser mal entendidas, ou nem entendidas. Quantas frases começamos, paramos pelo caminho, e os humanos – os que se dizem e acham tal – ficam olhando com cara de O, esperando o fim da frase e sua interpretação. Como se só fosse possível entender alguma coisa no fim desta, e não pelo catado no caminho.
Joyce costumava catar frutas, flores, pedras, galhos, folhas, raízes pelo caminho. Que era uma catadora se pode dizer, sem susto. Catava, olhava, guardava o que lhe dissesse respeito, e o resto enterrava bem direitinho, não tinha coragem de descartar, deixar abandonado, como os humanos fazem com seus amores, com seus filhos, com seus pais, largando-os pelo caminho quando não mais têm o que investir neles. Joyce nunca fazia isso. Depois de catar e selecionar enterrava ou arrumava um lugar entre outras pedras, folhas, galhos, raízes, águas, para depositar – com extremo cuidado e carinho – o que fosse deixar pra trás.
Deixado para trás significava o extremo esquecimento, o total não preciso de você, por parte de Joyce, mas as coisas continuavam lá, por parte delas próprias, para outros que porventura precisassem ou quisessem. Joyce não destruía nada, para que outros pudessem querer. Ou porque não era dona de nada, as coisas e humanos encontrados no seu caminho não lhe pertenciam, quem era ela para descartar o que quer que fosse. As coisas existiam por si próprias.
Como Joyce existia por si mesma, independente dos olhares sobre ela ou do que os humanos pensassem a seu respeito. Ela podia não ser, mas existia, e esse status de existente lhe bastava. Tinha um corpo, nem sempre agradável ou cômodo, mas que interagia com o ambiente. Tinha pele, sangue, carne, veias, nervos, órgãos, respirava, comia, excretava e cagava. Ela existia, portanto. Era o que devia bastar.
Mas não, aos humanos existir não bastava. Não queriam saber-se rúcula e rabanete, queriam pensar-se deuses, demônios, anjos, estrelas, qualquer coisa que os “elevasse” da condição de humanos. Passaram então a inventar-se como divinos, como “seres”. Deixavam sua condição de meros existentes para ser.
Mas não Joyce. Ela tinha a perfeita noção que não era, e ninguém era ser algum. Que todos são meras existências, como pequenos meteoritos que entram na atmosfera, acendem-se e logo depois se apagam. E no entremeio desse acender-se e apagar-se inventam artes, ciências, religiões, tudo para explicar por que não são, mas apenas existem, ou, ao contrário, tudo para negar a existência e afirmarem-se como seres. Humanos. Ha. Suprema inocência (se existissem inocentes e não apenas não-espertos, como diria Estamira).
Mas o fato de saber-se rúcula não a eximia de ser usada, como rúcula ou como ser. Ela sabia o que era ou deixava de ser, mas os humanos não sabiam. Os humanos, com suas centelhas espirituais, divinas, transcendentais, além de não se saberem meras existências, ainda se davam ao trabalho de comprovar isso atuando sobre si mesmos, os outros e a natureza.
Invadiam, matavam, cortavam, depredavam, destruíam, debulhavam. Joyce tinha sido debulhada por eles. Cada mínimo pedaço seu tinha sido invadido por mar, terra ou ar, pelos ouvidos, nariz, boca, olhos, poros, vagina, ânus, buraquinhos do couro cabeludo, tudo lhe tinha sido invadido desde que nascera, e mesmo antes, ainda no útero, coisa que não se lembrava, mas sabia. Nem tudo que sabemos é fruto da memória. Cada grão de Joyce tinha sido debulhado, deixando-a apenas espiga vazia, seca, largada na estrada, queimada do sol, encharcada das águas, imunda dos detritos. Não-ser. E não-existência.
Sabendo-se sempre morta, ou zumbi, morta-viva, Joyce sabia, também, que era melhor morrer definitivamente, pondo fim, assim, a essa morte cotidiana em vida. Joyce tinha tanto pavor da morte, da aniquilação, que a única saída era morrer o quanto antes, para nunca mais sentir esse horror.
Morrendo, só assim Joyce poderia negar a morte real, essa do dia-a-dia que transforma existências em seres, que finge transformar viventes em humanos em espíritos em energias em estrelas em astros em anjos em demônios em deuses.
Morrendo, Joyce deixaria de ser debulhada, pois nem espiga seria mais, nem grãos – esses já tinha sido despojada há muito tempo -, não seria, não existiria, passaria a não ser e ser o nada.
Pensando isso, Joyce percebeu que tudo isso era bom, que pensar em não-ser era bom, que morrer era bom, que existir não era nada, só os humanos gostavam de existir. E Joyce não era humana. Era uma abstração, uma espiga virtual debulhada por quem a quisesse alcançar.
Então, naquela noite, depois de tudo pensar e recordar, Joyce resolveu que era tempo de não ser mais, de morrer, e foi invadida – pela primeira vez na vida um pensamento um sentimento ou coisa ou pessoa que a invadia era bem recebido – pois Joyce, invadida pela sensação de não mais existir sentiu um extremo alívio, a chamada paz, a bênção suprema que só competia aos renegados.
Joyce havia se libertado dos humanos e do mundo, e dali em diante, longe de tudo, sozinha, ermitã num mundo virtual, lúcida de sua liberdade, de não ser mais para ninguém, poderia enfim realmente gozar sua não-existência.

Eloisa Helena Maranhão.

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