18 novembro 2011

Lara, nua, pendurada no varal.

“Pousa-se toda Maria no varal das vinte e duas
 fadas nuas, lourinhas.”
(“Maria”, Carlinhos Brown)

 “Eu não sei dizer nada por dizer. Então, eu escuto.
Se você disser tudo que quiser. Então, eu escuto.
Se eu não entender, não vou responder. Então, eu escuto.
Eu só vou falar na hora de falar. Então, eu escuto. ”
(“Fala”, Arnaldo Batista)


Quando se é preguiçoso ou se está muito cansado de tanto trabalhar, ceva-se os duendes. Duendes são atraídos por pratos de papa de aveia, adoçado com mel, quente e doce. Duendes são seres que gostam de papa de aveia e se colocarmos nela uma fava de baunilha que dê mais cheiro e sabor, então eles não resistem, mesmo. Vêm na madrugada comer seu mingau, e, em troca, fazem todo o serviço da casa.
De início, duendes faziam os serviços domésticos, lavar, passar, esfregar o chão com muita água e sabão, encerá-lo depois, esfregar as fraldas e cueiros dos bebês da família, cozinhar a sopa do dia seguinte, retirar leite da vaca e fervê-lo no caldeirão, evitando doenças, deixar tudo arrumado, polir a prataria e os cristais até ficarem brilhantes. São seres hábeis, os duendes, além de gostar de muito brilho natural. Ouro, prata e cristais sempre devem estar reluzindo, segundo os duendes.
Lara sabia disso, tinha aprendido nos livros desde pequena, e então se acostumou a deixar papa de aveia e mel para eles, atraindo-os para sua casa. Não tendo sótão nem porão nas casas modernas, Lara deixava o pratinho de ágata dos duendes na lavanderia, cuidando, inclusive, para que gatos e cachorros não o comessem.
Não tendo também trabalhos domésticos a fazer, que a faxineira limpava tudo naquele minúsculo apartamento uma vez por semana, Lara deixava seus trabalhos de faculdade e, mais tarde, monografias e teses de mestrado e doutorado que fazia em troca de dinheiro. Sem escrúpulos. Não acusem Lara de corrupção, o que não se faz pelo mundo em troca de dinheiro, que todos sabemos como não é fácil se sustentar.
Lara não se preocupava de até mesmo terceirizar a corrupção; o dinheiro dos estudantes preguiçosos ou pouco inteligentes a corrompia, enquanto suas papas de aveia e mel corrompiam os duendes, que faziam todo o trabalho intelectual e braçal, de digitação e formatação dos textos, para Lara, enquanto essa dormia e descansava da vida. Com o tempo, Lara passou a pegar trabalhos de tradução das línguas nórdicas, especialidade dos duendes, como sabem todos que tenham um mínimo de cultura. São ótimos para traduzir dinamarquês, sueco, finlandês, islandês, letão, lituano, norueguês e principalmente lapão, sendo que essa última língua não costuma ser muito procurada para traduções. Se Nietzsche se relacionasse com duendes, não teria necessitado aprender dinamarquês para ler Kierkgaard no original. Azar o dele, essa coisa de racionalismo tem esse lado vil, você fica à mercê de você mesmo, solto num mundo desnaturado, sem ajuda de duendes, fadas, elfos, silfos e outros seres elementais.
Lara também costumava ser visitada por fadas, que vinham atraídas pelas papas dos duendes – se bem que fadas não a comem, para não engordar e atrapalhar seu vôos rasantes ou no céu aberto -, mas as fadas, atraídas pelo odor irresistível da aveia, do mel e das favas de baunilha acabavam se hospedando na casa de Lara. Dormiam nos vasinhos de plantas, em meio aos manjericões, salsinhas, hortelãs, violetas, lilases, lavandas, e durante a noite saíam para voar, com suas asinhas cintilantes.
Mas por uma dessas coisas que só na vida dos humanos acontece, esses períodos de dor e isolamento, períodos esses que tenho certeza que não preciso explicar, que todos já passaram ou viram alguém próximo passar – e os que nunca tiveram contato com o sofrimento e a solidão não devem ler esse tipo de história, nem estão preparados para ela -, pois num desses períodos da vida de Lara as fadas começaram a adoecer também.
Duendes, elfos, silfos, fadas são seres bastante sensíveis a todo tipo de intempéries, fato comprovado pelo quase desaparecimento desses serzinhos, com as selvas, florestas, quintais e jardins cada vez menos visitadas por eles, o que é uma grande perda para os humanos, que têm de suportar um mundo inanimado, assim como eles próprios se tornaram. Mas, voltando aos duendes de Lara, com o isolamento dela eles não vinham mais comer a papa e fazer seus trabalhos, afastando-se para outras casas e humanos menos complicados e mais saudáveis – coisa rara, coisa raríssima encontrá-los (os duendes e os humanos saudáveis).
As fadas não se afastaram, que são tão, mas tão sensíveis, que, assim como os cachorros, nunca se afastam de seus donos ou amigos, muitas vezes morrendo junto com eles. Empáticas com o sofrimento humano ficaram as fadas na casa de Lara, mas também adoentadinhas e sem muita energia vital, à semelhança de Lara.
As fadas passaram a emudecer, não soltavam mais seu palavreado ciciante, que só os verdadeiramente humanos e os não-humanos podem ouvir. Suas asinhas também passaram a padecer de fraqueza, soltando pedaços que se misturavam à terra dos vasos, e as fadas já não conseguiam voar. Nem pequenos vôos pela casa elas conseguiam dar mais.
Era um pequeno enxame de fadinhas mudas de asas rasgadas, arrastando-se com suas almas agora nuas, cheirando a lavanda. Todos sabemos que fadas não têm cheiro, só presença colorida, em tons sempre pastéis, muito esmaecidos, mas cintilantes, e sussurros em cicios. Fadas só podem ser apreendidas pelos olhos de quem as sabe ver, e pelos ouvidos apurados para ouvi-las. Mas quando adoecem elas passam a captar os cheiros do ambiente, como maçãs ou pedaços de carvão colocados na geladeira para tal fim.
E, quando doentes, passam a andar nuazinhas, desfazendo-se das roupagens que as vestiam. Alguns seres andam nus de tanto pudor que têm, sendo o caso das fadas. E de Lara, que passou a andar nua, primeiro apenas dentro de casa, mais tarde na rua, também. Seus longuíssimos cabelos encaracolados e loiros arruivados cobriam seus seios, bunda e genitais, o que fazia que sua nudez não fosse tão nua assim, mas nem por isso menos escandalosa aos olhares dos humanos – que podiam achar um escândalo, mas não deixavam de olhar, pelo contrário, olhavam mais ainda, hipnotizados, mesmo que de soslaio. Vá entender os humanos. Lara e as fadas são bem mais simples e inteligíveis.
As fadas, por exemplo, são fragmentos da Mãe-Arco-Íris, a senhora dos ventos, das gotas d´água e das cores, e surgiram em grande profusão quando o ser-Homem invadiu a Natureza e debulhou o arco-íris... a partir daí as fadas passaram a se espalhar, primeiramente no norte do planeta, nos territórios nórdicos, convivendo muito bem com os humanos que ali habitavam, membros das tribos e clãs. E com renas, lobos, baleias brancas, raposas, ursos e toda a fauna e a flora do pólo.
Mas com a invasão dessas regiões pelos cristãos, isso há muitos, muitos séculos, como todos sabem (os humanos cultos), as fadas passaram a fugir desses locais, espantadas pelos hinos monocórdios e depressivos – fadas gostam de sons melodiosos e alegres.
Era insuportável para as fadas conviverem com esse tipo de música que anunciava tragédias e tristezas sem fim, como também com uma cultura que negava a existência delas, além de apregoar um Deus Único – e com D maiúsculo, tremam, seres que gostam da variedade e da tolerância – e ser absolutamente contra a nudez.
Fadas, por sua natureza diáfana, são nuas. Não possuem persona, não usam máscaras, e o que são, são, seja entre quatro paredes ou publicamente. Por isso as fadas, não podendo suportar a presença dos cristãos encapuzados, acabaram por se espalhar pelo mundo, onde ainda restasse algum tipo de humanos tolerantes e felizes, em comunhão com a natureza. Assim foi que as fadas acabaram indo para a África e vindo para as Américas nas caravelas e naus dos aventureiros, muito bem escondidas, já que os aventureiros eram cristãos – pelo menos oficialmente - e as lançariam no Mar Oceano com apenas um assopro ou assobio agudíssimo e mais forte.
Aqui chegando, tentaram se adaptar o melhor possível nas selvas e florestas tropicais, mas não conseguiram, era tudo agitado e exuberante demais para esses pequenos elementais sensíveis e muito frágeis, sendo que então passaram a habitar os jardins e quintais dos humanos.
Também, nessa mesma época, as fadas deixaram de falar, emudecendo. De início elas falavam, entre si, com os humanos e outros animais e até mesmo com os vegetais, falavam, ouviam e eram ouvidas e compreendidas. Mas com a necessidade de esconder-se, trazida pelos novos ventos racionalistas, as fadas passaram então apenas a ciciar e se deixar ouvir por quem lhes interessasse e não significasse perigo. Tornaram-se mudas, portanto, apesar de continuarem a ser habitadas pela linguagem, mesmo não a usando. Seres habitados pela linguagem não precisam falar, como é do conhecimento de todos – ou devia ser -, posto que tudo se fala e escuta dentro deles, não sendo necessário interagir com o ambiente nem com nada de fora. O de dentro é tudo que importa, para quem é habitado pela linguagem.
Mas mesmo sem falar, apenas ciciando e fazendo pequenos barulhinhos quase inaudíveis, esses cicios das fadas são mais fortes e profundos que a fala dos humanos e as formas de comunicação dos outros animais.
Lara, também desconfortável entre os humanos, e sentindo-se esfarelar na linguagem, tornou-se então muda, passando a se comunicar apenas com as fadas de seus vasinhos. Em Lara a linguagem também fazia parte do seu corpo, como nas fadas. As palavras eram sensoriais, esfregando-se nela, dando prazer ou causando dor. Lara, portanto, também era um ser habitado pelas palavras. Batizada no não-alfabeto.
Foi então que Lara passou a andar nua, posto que cobrir-se, esconder-se, era uma agressão a si própria; tornou-se muda, posto que falar e ouvir eram excessos desnecessários e dolorosos, e aí percebeu Lara que existia para descobrir, desnudar; tirar a cobertura, tornar nu, retirar o véu que encobre. Desvelar. Assim desnudada, desvelada, sem nada que a encobrisse, Lara passou a conversar apenas com as fadas, que a entendiam e sabem o que ela pensa. As fadas nunca pedem de Lara o que ela não sabe o que é, como fazem os humanos entre si.
Passou também Lara a só ciciar, por que a palavra, nela como nas fadas, foi deformada. O cicio é poesia, tendo melodia e harmonia em suas rimas, sendo som puro, e não tendo necessidade de sentido, como a palavra. Como o canto das sereias, os cicios são sons curtos, que atraem e prendem, ritmo ancestral, diferente das palavras, longas e que repelem. A vida, como os cicios, é formada por temposons curtos e não pela palavra, seja ela falada ou escrita.
Tendo chegado às Américas, o que mais agradou às fadas foram as cachoeiras, tanto as imensas quanto as formadas nas corredeiras dos rios. Era um prazer e uma exuberância mergulharem nas águas geladas das cachoeiras, ensopando-se, bem como dar vôos rasantes sobre as águas delas, apenas sentindo um respingar muito suave, sem nem chegarem a se molhar.
Assim foi que as fadas pegaram gosto pela queda, começando pelas quedas d´água e passando a qualquer queda, o que treinavam e sentiam o prazer mergulhando e dando vôos embicados para o chão, arremetendo pra ganhar altura e pondo-se a planar.
Lara também pegou gosto pelas quedas nas cachoeiras e mergulhos, mesmo nunca tendo – evidentemente – voado, embicado, arremetido e planado. Mas os mergulhos de grandes alturas nos rios fizeram com que Lara aprendesse o mesmo que as fadas, em seu próprio corpo.
Pois após a depressão, a nudez, o emudecimento, os cicios sem palavras, foi que o gosto pelas quedas falou mais alto, e Lara e as fadas tiveram como única saída precipitarem-se no abismo.

Eloisa Helena Maranhão.

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