18 novembro 2011

Margarida II, Rainha da Dinamarca.

“Fechado num navio de onde não se escapa
O louco é entregue ao rio de mil braços
Ao mar de mil caminhos
A essa grande incerteza exterior a tudo
É um prisioneiro no meio da mais livre
Da mais aberta das estradas”
     (Michel Foucault)

Margarida II, Rainha da Dinamarca andava trotando micro-passinhos barulhentos, indo e voltando, voltando e indo, num pêndulo inacabável e um vai e vem insuportável. Era uma morena alta, muito magra, quase esquelética, apesar de comer comer e comer, comia a comida que lhe davam, comia restos que catava nos lixos, comia o que conseguia comprar com as esmolas que porventura ganhasse, comia as embalagens, papelão, alumínio, plástico, tecido, isopor, ia arrancando pedacinhos e mastigando, até ao ponto de ser operada do estômago e intestino para desobstrução e retirada das tranqueiras que engolia compulsivamente.
Seu corpo era um espetáculo, quase uma epifania, usava uma calça laranja e uma camisa verde ou uma violeta, que trocava quantas vezes fosse preciso de acordo com seu estado de espírito; havia dias em que passava horas tirando uma e colocando outra, evidente que na rua, mesmo, que esses pudores civilizados não existiam para ela; por baixo da calça vestia uma meia-calça preta de redinha toda rasgada, no lugar da calcinha que nunca vestia; sapatos marrom masculinos bem maiores que seus pés, e um chapéu de panamá bege acinzentado, desses de aba circular em toda a volta, para cobrir sua cabeça careca. Margarida II, Rainha da Dinamarca raspava a cabeça para retirar as mini lesmas que andavam por ela, botavam ovos debaixo do seu couro cabeludo e quando eclodiam vinham se alimentar de seus cabelos, causando coceiras que se transformavam em feridas conforme ela coçava e escavava túneis para retirar os bichos horríveis que a habitavam. Nada sanava o problema, anti-vermífugos que ganhava no hospital, pó de café, inseticida, todo tipo de gordura e álcool e produtos que esfregava na cabeça. Nada matava as mini lesmas e ela decidiu radicalizar: raspou a cabeça pela primeira vez, ficando completamente nua de cabelos, e depois, conforme os cabelos cresciam e os vermes voltavam, ela raspava novamente. O chapéu, como todos sabiamente presumiram, era para proteger sua cabeça nua do sol da chuva e do luar, que sol chuva e luar costumam amolecer os miolos das pessoas de bem. Das do mal também, mas em menor intensidade, mas isso é para os outros, pois Margarida II, Rainha da Dinamarca era do lado do bem, apesar de todo mal que pudesse fazer, imaginar e conter em si. Pelo menos era o que ela achava quando rezava e cantava hinos que escutava nas igrejas (do lado de fora, que ali dentro habitava o mal e ela nunca entraria naqueles lugares infestados de doidos e salafrários, era assim mesmo que Margarida II falava entredentes, cuspindo, bando de doidos e salafrários, sacripantas, máfia de cafuás, moluscos indesejáveis, seres viventes sem mãe, cruza de Darth Vader com Bette Davis, crias de cruz-credo com deus-me-livre. Eu nem sei se Margarida II sabia exatamente o que estava falando, mas ela falava, por que escutei e apenas repito para vocês, leitores curiosos sempre desejantes de detalhes ínfimos e escabrosos).  
Quando estava melhorzinha, sem trotar de um lado para outro absolutamente muda (a não ser quando gritava desesperadamente), Margarida II andava arrastando os sapatos grandes e pesados demais pelas ruas, varrendo a poeira do Universo. Era o que dizia, eu varro o Universo, que está cheio de poeira e porcarias, meu ofício e função nessa vida desgraçada, gritava quando estava nervosa, ou sorria quando mais conformada com sua sina de varredora das ruas universais. Sua vassoura, assim como seu corpo, era uma beleza, de palha amarela, daquelas compridas amarradas no cabo, e o cabo todo enfeitado com papéis coloridos, pedaços de fitas e rendas, e um grande laço de fita de cetim arrematando tudo, que há de se estar sempre bonita, ela ouvia todo dia, as mulheres precisam ser bonitas e se enfeitar, para atrair os homens e viverem em paz. Tudo que tocamos tem de ser limpo, belo, agradável. Nada de rugidos, gritos, falta de educação nem pensar, roupas feias desarrumadas, nada que destoe do bom gosto e do bom tom, amém. Ela limpava, varria e tentava embelezar o Universo com sua presença colorida, mesmo seu coração sendo peludo, de pelos arrepiados e hirsutos como de porcos-espinhos enfezados, mas seu coração ninguém via, mesmo, então se sentia dispensada de enfeitá-lo com fitas rendas e florzinhas.
Quando pequena, alguém de quem não se lembrava quem era a chamava de flor, margarida, minha flor linda, mas com o passar do tempo suas pétalas foram caindo, uma por uma, até só sobrar o miolo, que também começou a se esfarelar, até ficar em frangalhos, e isso nunca poderia ser reposto. Margarida II, Rainha da Dinamarca, era um talo comprido quase seco, sem folhas pétalas nem miolo, uma desmiolada, diziam, e para compensar a falta de pétalas e miolo ela enfeitava seu corpo com todo tipo de badulaques. Fitas, flores, folhas, papéis de todo tamanho e cores, barbantes e outros fios amarrados como colares e pulseiras com pedrinhas, pedaços de coisas coloridas, plásticos e anéis de alumínio de latas de refrigerante e cerveja pendurados, e usava uma aliança feita de fio de cobre de eletricidade, para nunca esquecerem que fora casada e feliz. Seu interior esvaziado, despetalado e completamente branco se compensava pelo seu exterior coberto de belezas.
Tudo que catava e não usava no corpo ela carregava numa grande sacola ecobag – há que sermos ecológicos nesse mundo desmoronando de aquecimento global gases estufa camada de ozônio bombas e todo tipo de violência – e guardava praticamente de tudo, devidamente classificado e catalogado em saquinhos plásticos ou de pão, pedras, folhas, galhos, botões, tampinhas de plástico, tampinhas de metal, aros de metal, fios de uma cor, de outra cor, de outra cor ainda, embalagens de ovos, das azuis, das verdes, das vermelhas, das pardas, papéis grandes papéis médios papéis pequenos, sacos grandes deviam conter coisas grandes, sacos médios deviam conter coisas médias, sacos pequenos deviam conter coisas pequenas, coisas que poderiam ser necessárias a qualquer momento, cada coisa tinha seu lugar na natureza, no Universo, e ai de quem tentasse escapulir dessa sina desgramada.
Tudo no mundo fazia sentido, mesmo que fosse um sentido só para ela, por que os outros, ah, os outros nunca entendiam nada e viviam como ambulantes sem noção, como marionetes, bonecos de porcelana, sempre preocupados com trabalhar, ganhar dinheiro, comprar, gastar, e a vida passava para os outros e para ela também, igualmente, que não trabalhava mas varria o Universo, ofício muito mais importante e íntegro que qualquer outro que apenas sujava o mundo. Margarida II, Rainha da Dinamarca, vivia o caos, o desconexo, o imediato total, cada microssegundo que os relógios pudessem contar, prisioneira da desmemória e do sem sentido – para os outros, evidente -, sem solução e sem alívio. Nada aliviava, nada tinha poder de aliviar, drogas, remédios, álcool, chocolate, arte, religião, relacionamentos, televisão, circo, shows sertanejos, sexo, dinheiro, terapias psicológicas, comida, água, sol, chuva, luar, plantas, objetos, tudo tinha seu lugar no Universo e ela estava ali entre tudo, completamente desarvorada, desnorteada. As coisas eram limpinhas e bonitas, outras sujas e feias, mas todas sem norte sul leste oeste, sem sinalização que se pudesse compreender ou seguir.
Os olhos de sua mãe sempre a perseguiam, olhos azuis de vidro – boneca de porcelana -, bem como monstros vermelhos de braços muito longos, ameaçando-a com seus olhinhos rasgados de oriental, se cuida, Margarida II, que qualquer hora te pego. Ela, portanto, não se descuidava um instante sequer, totalmente vigilante para não ser pega e destroçada. Vá se saber do que são capazes monstros vermelhos de braços compridos e olhos puxados, assim como manadas de porcos, javalis e queixadas, que destroçam pessoas com sua presas, comem tudo e só largam pedaços de roupa rasgada – é assim que descobrem que foram devoradas, pelos restos das roupas ensangüentadas  e desprezadas – e por isso Margarida II, Rainha da Dinamarca não comia carne de porco, para não ser devorada de dentro para fora, como os fornos de microondas fazem para cozinhar alimentos, e não comia coisas vermelhas – melancia, tomate, balas de morango ou framboesa, goiaba, mamão, camarão nem  kanikama, nada que os pedaços vermelhos se pudessem transformar em monstros dentro dela e consumí-la de dentro para fora. Ser consumida de fora para dentro já lhe bastava nessa vida filha-da-puta.
Quando estava muito animada cantava sambas e dançava na calçada, mais enfeitada e colorida ainda, quase uma Carmen Miranda, notável de se ver, mas esses estados de ânimo muito eufóricos acabavam se transformando em irritação, agressividade e impulsividade descontrolada, o que a fazia ser internada, então. Quando era apenas depressão não precisava de internação - a menos que se deixasse morrer de inanição na cama no tapete na calçada - por que depressão não incomoda como a agressividade. Certa vez no hospital o médico lhe disse olho no olho, cara na cara, eu não gosto de você, dona Margarida II, Rainha da Dinamarca, a senhora me é muito desagradável com sua grosseria e agressividade, vou cortar-lhe a cabeça, dona, decepar-lhe os pés com minha faca afiadíssima, e Margarida II começou a matutar, o que posso fazer, tem gente que gosta de nós e tem gente que não gosta, nós também gostamos de uns e não gostamos de outros, aliás, não gostamos de muito mais gente do que gostamos, gente que gosta de nós são azuis claras ou lilás ou verdes, e muito macias ao toque, enquanto as que não gostam são vermelhas ou laranja ou amarelas e ásperas, as que gostamos têm voz suave baixa e nunca ardida, as que não gostamos são cinza ou marrom e têm pelos nas orelhas e no nariz, algumas usam terno e gravata, outras usam sapatos de salto muito alto e bico fino, e fazem toc toc quando andam, as que gostam de nós cantam músicas e contam histórias, mesmo que de terror, as que gostamos comem pudim e detestam bifes de fígado, principalmente quando ficam verdes, e miolo de animais, as que não gostam de nós têm braços muito compridos e sempre nos olham ameaçando, com olhos orientais ou azuis vitrificados, prontas a dar o golpe fatal, e cada uma deve ser embalada no seu saco correto, guardada em sua caixa especial para tal finalidade, no seu devido lugar e ali ficarem, amém.
Por vezes, quando olhava para pracinhas com algum verde via ovelhas pastando nos campos verdejantes, e aquilo lhe dava um medo que não se descreve, por que não há palavras para esse sentimento. Ovelhas brancas e bege, sujas, com aquela lã encarapitada pelo corpo, pastando tranquilamente de cabecinhas baixas e sem nenhum bé. Uma cena que seria bucólica e feliz para quase todas as pessoas, aquela nostalgia do campo, para ela era um terror, ser encarcerada num lugar daqueles, com rebanho de ovelhas, pastos verdes, campinas floridas, rios de águas límpidas e refrescantes, o céu imenso muito azul, as nuvens se locomovendo com o vento, como no paraíso cristão, tudo aquilo era aterrorizante e dava-lhe uma aflição da qual precisava fugir, de preferência correndo e berrando o bééé que as ovelhas não faziam, sem olhar para trás.
Outras vezes Margarida II esquecia longos períodos de tempo, do tempo de sua própria vida, esquecia fatos completos e tudo que se relacionasse a eles, voltando a uma época mais tranqüila em que porventura vivera; quando voltava ao presente, e tomava consciência da amnésia, seu grande pavor era de um dia ficar nesse passado idílico e não voltar mais. Apavorava-se só em pensar em esquecer os filhos e marido, as únicas pessoas que realmente amava e desejava a presença, mas isso fora antes, antes deles sumirem ou ela sumir-se nela mesma. Com o passar dos anos as amnésias foram se tornando mais constantes e dilatadas no tempo, até que apagou praticamente todo o passado e o possível futuro, só restando um presente imediatíssimo de demência ligado às necessidades do corpo, comer, beber, urina e fezes, respirar, andar.
Um dia – que tudo que a gente conta tem um dia, aliás, vivemos pra ver e contar esse um dia -, Margarida II parou de varrer as ruas do Universo, ficando internada definitivamente, oh, coitada, ela não está em condições de viver ao relento, tomar sol, chuva, vento, luar, seus poucos miolos moles que restam vão se desmilingüir se ficar lá fora, vamos trazê-la para dentro, cuidar dela, que até as margaridas desmioladas e despetaladas merecem ser cuidadas. E, caso não mereçam, grosseiras, desagradáveis e mal educadas que são, sempre com as pernas balançando e fazendo barulhos e gestos que nos atormentam profundamente, cuidamos da mesma forma, nós, os bons, os limpinhos, os bonitos, os bem adaptados, os sãos, os de coração macio e lisinho, os que andam na luz. São nossos sacrifícios individuais e diários suportar e ter paciência com esses viventes enviesados, para que o mundo se mantenha nos eixos e o sol nasça toda manhã, já que não se degolam mais virgens nem rapazes jovens para oferecer ao sol.
Foi então que conheci Margarida II, Rainha da Dinamarca, a que não foi degolada por pura distração e sorte de ter nascido em outros tempos, tentando se acostumar a ser planta, regada, adubada e inconsciente pelo resto dos seus dias.

Eloisa Helena Maranhão

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