26 novembro 2011

Pirata no Caribe




"Todas as sociedades tremem quando a desdenhosa
 aristocracia dos vagabundos, dos inacessíveis, dos
 únicos, dos que governam sobre o ideal, e dos
 conquistadores do nada, avança resolutamente"
(Renzo Novatore, 1920) 

"Eles nos difamam, os canalhas, quando há apenas
esta diferença: eles roubam os pobres sob a cobertura
da lei, sem dúvida, e nós roubamos os ricos sob a
proteção de nossa própria coragem. Não é melhor
 tornar-se então um de nós, em vez de rastejar atrás
 desses vilões por emprego?"
(Capitão Bellamy, pirata, de Daniel Defoe) 

As águas do Mar do Caribe eram cálidas. E transparentes. Mil peixes coloridos, e plantas, e seixos rolados, e algas e moluscos, e conchas de todo tipo formavam aquele mosaico natural e escondiam de quaisquer olhos os tesouros afundados.
Séculos de pirataria haviam provocado o naufrágio de meia dúzia de sonhos e milhões de moedas, ouro, prata, cobre, pedrarias que chamamos preciosas, verdes esmeraldas, rubis vermelhos parecendo pitangas maduras, negros ônix como a pele dos ex-escravos trazidos da África para as ilhas e continente, a colher bananas verdes, amarelas e avermelhadas, a plantar tabaco e enrolar charutos, produzir café para ser consumido na Europa.
É para lá que eu vou, pensou o pirata, o coração transbordando de vontade de ser feliz naquelas terras rochosas, de clima e florestas tropicais, e a cabeça antecipando a liberdade e a riqueza que obteria.
Começou a se despedir das praias do sul do continente, e das cidades industrializadas cheias da desigualdade que arrebentavam seu coração, a injustiça que se deixava ver escancarada como puta velha sem vergonha, e não sabia se dava vontade de chorar de dó e desgosto, ou espancar até à morte.
Esterçou o leme da velha chalupa, orientando-se para o norte, para onde iria, no centro do continente, e seu olhar passou a fixar-se lá.
Já não tinha olhos para as Três Marias e o Cruzeiro do Sul, e só pensava naquela lua de barco e arco que iria mirar acima da linha do Equador.
Os vínculos que ainda mantinha no sul iam se tornando rotos, a maioria já tão puídos, e esfarelados.
Pasárgada e Babilon estavam agora no centro do continente, e já se esquecera de em quantos lugares diferentes estiveram.
Não se apercebia, também, aquele pirata tão cansado e cheio de medo, que, se havia vínculos frouxos, outros se estavam construindo, e rompê-los acarretaria dor.
Os grumetes que havia acolhido em seu navio, e estavam no meio do treinamento, quem iria continuar a tarefa de ensiná-los, agora que estava indo embora?
Iria abandonar também o casal de velhos que costumava hospedá-lo quando precisava de amparo e o mar estava bravo demais, ou a chalupa avariada. Eram tantas as divergências, mas tinham-se uns aos outros, e se cuidavam como podiam. Mesmo que o pirata aceitasse os cuidados com má vontade, e desejo de lançar-se ao mar logo que possível.
O Mar do Caribe tornava-se irresistível, quando comparado àquela terra firme indesejada e aceita só por necessidade de sobrevivência. Mas ali não era sua praia. Aliás, nenhuma praia era a sua, por que piratas só sabem os mares, os sete mares do sul e quantos outros houvesse mais ao norte.
O pequeno escorpião que ele vira nascer, romper as ovas, piscar os olhinhos amendoados e sair pro mundo, tão frágil!, e tinha acolhido nas próprias mãos calejadas de controlar o timão, e feito com elas uma concha que o envolvesse, e o criado com um amor intenso, e o atraído para si, tão diferentes e tão um só naquele amor mútuo, o pequeno escorpião largou-se na areia tórrida, quando soube da partida do seu pirata, aquele que se fizera pirata em seus sonhos de criança. Largou-se debaixo do sol, contorcendo-se todo com tão grande sofrimento, já não teria concha para acolhê-lo, aquelas mãos não o guiariam mais, e a chalupa não lhe serviria mais de embarcação, de onde mirava o mar, e sonhava ser pirata e conquistar as terras e todas as águas do planeta. Contorcia-se sem dó de si mesmo, transbordando de raiva e dor, e ameaçando aferroar a própria nuca, de desespero e desamparo. Não teria mais seu pirata para indicar-lhe as estrelas, mostrar-lhe o plâncton no microscópio, desvendando-lhe uma ótica tão nova desse mundo envelhecido e sem graça. Que importância tinha viver, se podia ser abandonado a qualquer momento. Sentia que os sonhos de riqueza do pirata, seduzido por tesouros imaginários, eram mais importantes que o amor dos dois e que aqueles anos de convivência tão íntima. Não iria se conformar nunca, e promessa nenhuma teria poder de aplacar a mágoa e consolar o bichinho do abandono.
A sereia de olhos cansados, recolhida sobre o recife de corais, também se sentiu desamparada com a notícia da partida. Esmagou os óculos nas mãos, cortando-se toda, lavou o sangue na água salgada e resolveu não vê-lo partir, não olhar mais nada, e ficar nadando em círculos no seu atol tão conhecido. Pouco se lhe dava mais uma perda agora, já tinha perdido tanto naqueles mares, que se dane o pirata nas águas do Caribe, que seja feliz e fique por lá eternamente, ou volte machucado se perder as batalhas; a sereia de olhos míopes jogou os cabelos sobre o rosto, postou-se de costas e fingiu não ver mais nada. Canseira e enfado, tanto mar para nadar, não mais ficaria rodeando a chalupa e cantando suas cantigas de enfeitiçar. Não haviam dado certo. Aposentaria as canções sedutoras que não conseguiram criar laços e redes que envolvessem o pirata. Não queria enfeitiçar mais ninguém que passasse por aquelas águas, iria calar-se e recolher-se, por que só ele interessava ao seu coração de sereia. Não iria mais assar peixes que ele gostasse de comer, e depositá-los na chalupa, alimentando-o. Não faria mais sopas e caldos de caranguejo e mexilhões cozidos na concha, e nem buscaria café amargo nem guacamoles nem abacaxis doces e suculentos nem tangerinas cheirosas nem bananas-de-são-tomé, e não faria arroz de coco e palmito para ele comer. Pois ele iria para o Caribe, abandonando os mares do sul.
Sopa de caranguejo e mariscos (para ser feita na fogueira, em noite fria de lua cheia, na concha de uma tartaruga marinha morrida naturalmente):
Meia cuia de coco de caldo de peixe
Meia cuia de coco de mariscos sem conchas, já cozidos em água do mar (colhida longe de petróleo derramado, claro)
Meia cuia de coco de carne de caranguejo cozida
1 dente de alho amassado
azeite de qualquer coisa (dendê, oliva, gordura animal, etc.)
salsa picada e cebolinhas
2 fatias de pão
meia cuia de coco de leite fresco
1 tomate sem casca e sem sementes
1 pimentão verde, um amarelo e um vermelho
pimenta do reino, trazida das Índias Orientais, mas já muito bem adaptadas na América; são umas bolinhas vermelhas que se põe pra secar e se mói no pilão
Reserve o pão de molho no leite. Frite o dente de alho no azeite, refogando com o tomate e os pimentões cortados em fatias finas. Tempere com a pimenta e sal. Acrescente o pão molhado e o caldo de peixe, e bata bem, deixando apurar. Acrescente o caranguejo e os mariscos, deixe cozinhar um pouco para pegar gosto. Retire as peles dos pimentões, e sirva bem quente, em cumbucas.
É melhor servir na boca da pessoa amada, dando o caldo às colheradas um para o outro.
Mas mesmo com os cabelos cobrindo o rosto e os olhos míopes sem óculos, não conseguia desviar o olhar, e deixar de amá-lo, e desejá-lo, e sentia tanta pena de perdê-lo assim, de se perderem assim um do outro, quando tinham estado tão próximos e criado um vínculo tão forte.
Eu não vou te esperar, ela dizia com frieza – era blefe, por que esperaria quanto fosse.
Vou logo resolver minha vida e conquistar o Caribe, ele dizia angustiado – mas não queria mesmo ir.
E se torturavam assim, com ameaças mútuas de abandono, tal era o medo de ficarem sozinhos de novo, e se perderem depois de se terem reconhecido um na alma do outro. Melhor sofrer tudo de uma vez, pensavam desesperançados, do que sofrer aos poucos e por anos. Era a lógica do medo e da covardia.
Tudo que ela mais queria era olhar nos olhos dele, bem de perto, e dizer, respirando dentro da boca do seu pirata, quando ele a tomasse nos braços e o desejo crescesse tanto que as escamas de seu rabo de sereia se arrepiassem todas, e se tornasse em pernas de mulher, e então, com ele dentro de si, ela diria:
"Não vai embora não, meu querido, fica comigo. Quero viver com você, por que minha vida é melhor do seu lado. E vou te ajudar a fazer sua vida melhor, também, comigo".
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Não sei se ele ficou.
Mas sei que os mares do sul perderiam muito com aquela partida, pois perderiam o único pirata rei dos vagabundos, conquistador do nada, e que sabia governar o ideal.
Até que o pirata aprendesse a fazer de qualquer mar seu porto, e carregar sua casa dentro de si. Não adiantava fugir, se sempre se levaria junto para onde fosse.
Sua sina era avançar resolutamente, e sobre si mesmo, em primeiro lugar.

Eloisa Helena Maranhão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário