18 novembro 2011

Rosinha de lilases e azul clarinho

“Mar sou: baixo marulho ao alto rujo,
Mas minha cor vem do meu alto céu.
E só me encontro quando de mim fujo.”
(Fernando Pessoa)

“Senhor, enche meu quarto de alto mar.”
(Filipa Leal)


Rosinha era uma singeleza e meigura de lilases e azul clarinho. Gostava de se alimentar de arroz cozido e ervinhas cruas. Bebia chá de hortelã. Era bisonhinha. Retinta de bisonhices, pensava o avô, mas não falava. Não queria esfarelar a menina com seu olho de amor. Esperava que o carinho escorresse dos seus olhos bem lentinho sem pressas cruéis. Rosinha não tinha frestas pras heras entremearem. Nem pros escorridos encharcarem. Não fora catequizada. Pensamentos e sentires brotavam só de dentro. O de fora ficava paralisado. O de fora eram só as pedras, galhos, folhinhas, musgos, areia, bichinhos verdes, hortelã. Tudo pequeno e calmo. O grande botava medo, fazia correr e gritar. Rosinha só gostava das pequenices quietas. Ela não queria velocidades, só desejava sossegos.

A primeira vez que Rosinha se percebeu foi de susto. E dor. Tinha lá seus quatro anos. Uma formiga vermelha saúva mordeu seu dedo investigador de quintais e jardins. Ai. O dedo doeu. A formiga mordeu. Formiga formiga, dedo de Rosinha. Rosinha tinha nascido a eu.

Conforme crescia Rosinha foi se enchendo de palavras. De primeiro com os bichinhos os passarinhos as árvores as pedras as pequenas plantinhas verdes úmidas. Necessitava falar. Para se despir. De segundo necessitava escrever. Somente uma avalanche de palavras conseguiria conter Rosinha. O que falava nela era o mato. A cidade não lhe falava. Só a selva faz barulhos. Todos seus sons eram caipiras. O pântano chamava seus pés. As luzes da cidade repeliam Rosinha pra longe de si.

Num entardecer alaranjado uma gavinha de uva se enroscou no seu sentir. Rosinha esqueceu a fala. Só lhe saíam letras. Rosinha passou a se procurar nas letras vazadas. Trancada no sótão os duendes a sustentavam com papas de aveia e mel. As aranhas lhe teciam fios babados. Nas amoreiras encontrava casulos de seda pra lhe compor o corpo desnudo. Resolveu aproveitar o corpo e deixar a alma de molho pra cozinhar no dia seguinte. Ou quando estivesse bem molinha. Bebia muita água escorrida das paredes chovidas. Necessitava de água pra dissolver os sentimentos. Que pesavam a lesmas gordinhas. Cada dia era mais um que não fez digestão.

A vida foi aumentando Rosinha até o nada. Ela se procurou por todo lado, embaixo dos sofás velhos, dentro dos armários, nas teias de aranha, dentro dos ratos que abria com uma faquinha afiada, nos casulos desmanchados, nos ninhos de passarinhos e em seus ovinhos já brotados. De tanto não se achar ficou ótima.

Ao depois de tanto regurgitar palavras veio o estio de reguardá-las. Para se vestir. Andar nua tantas eras tinha deixado marcas e seqüelas. Rosinha volveu as palavras a emudecer. Vestida encapuzada. Dentro do eu Rosinha era aquecida.

Com o que restava ou sobrava, Rosinha montou-se em epílogo.


Eloisa Helena Maranhão.

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