16 novembro 2011

Sibila, a imortal.

Que proveito ao fazedor no afã do que faz?
Eu vi a tarefa que Elohim deu aos filhos do homem para atarefá-los O todo ele o fez belo a seu tempo Também o eterno-sempre ao coração lhes deu sem que  possa o homem devassar a obra qual ele a fez Elohim da cabeceira do começo até onde tem fim.

(Eclesiastes, tradução Haroldo de Campos)

Sibila só falava por sussurros, às vezes macios cheirando a algodão, às vezes rascantes, e ela sabia que iam ferir e sangrar por séculos, talvez milênios, e quanto arrependimento de ter dito aquelas palavras que já não podiam ser recolhidas. Mas ela só sabia falar por sussurros, e não era para menos, estava muito, muito velha, e sua voz era apenas um sibilar, às vezes de cotovia, às vezes de gralha. A cada ano Sibila encolhia um pouco de tamanho e sua pele escurecia, a cada ano, junto com a tal sabedoria que nunca vinha, Sibila se tornava menor e mais escura, e a sabedoria não chegava.
Chegavam os cheiros avinagrados, os suores mais densos, os olhos embaçados que já não enxergavam tudo que devia – ou queria -, chegavam as dores nas juntas, nos pés, as dores que continuavam pelos braços e pernas, que subiam e desciam e nunca deixavam em paz, chegavam as respirações mais curtas e difíceis, o andar mais lento e oscilante, a mente oscilante a cada lembrança que tentava achar. Ou esconder.
Sibila cansava-se com facilidade, ou o cansaço já se tinha instalado, apoderado dela, envolto aquela pele enegrecida e flácida, aqueles olhos baços mas nunca cegos, aqueles suores mais acres mas que não terminavam, aqueles movimentos mais lentos mas constantes. Sibila não envelhecia como todos, fizera um acordo de se tornar imortal, em troca da diminuição e do escurecimento, até se tornar como um pequeno passarinho negro numa gaiola, a sussurrar suas palavras, às vezes macias, às vezes cortantes, mas sempre, sempre sussurradas a quem ou o que a pudessem ouvir.
Japu, xexéu, chopim, assum preto, às vezes andorinha, às vezes confundida com um tordo, Sibila já tinha visto e ouvido tudo em todos os lugares possíveis, antes de fechar-se naquela gaiola, por vontade própria, que estava muito, muitíssimo cansada de ver, ouvir e sibilar.
De tanto ver e ouvir, Sibila também aprendera a prever, conhecer o que haveria de vir, que esse só é oculto a quem não vê nem ouve o que a vida tem a contar. Quem ouve histórias, quem vê a natureza, quem consegue ler o que importa, também aprende a atravessar os véus entre os tempos, a desenrolar o passado do presente e se lançar no futuro. Sibila aprendera, e, tendo-se tornado imortal, tempo não lhe faltava para se aperfeiçoar em suas predições. Sempre ouvidas, mas raras vezes acreditadas e mais raras vezes ainda utilizadas para enfrentar aquele futuro obscuro aos ouvintes, mas tão claro a Sibila.
Sibila também sabia falar com os espíritos, dos vivos e dos mortos, sabia ver o futuro no fogo, no soprar do vento, na borra do café, nas tonalidades das folhas de chá, sabia encontrar água e desdizer as misérias com varinhas das madeiras que arrancava das árvores ou encontrava jogadas no chão, sabia revirar as vísceras dos animais e também dos humanos, por quê não?, e ver o que aquele fígado, aquele baço, aqueles pulmões, aqueles rins, aqueles corações tinham a dizer. Sibila sabia, sabia, sabia o tempo todo. Sibila conhecia.
Sibila conhecia a verdade, as grandes e as pequenas, as mais verdadeiras e as menos, e as sussurrava a quem quisesse ouvir ou pudesse compreendê-las. Nunca gritava, por que verdades não se tornam menos ou mais verdadeiras ou profundas dependendo do som de quem as prega, verdades não se tornam maiores ou menores de acordo com o tom da voz, gritada ou sussurrada. Sibila sabia disso, também, e sabia o poder da voz mansa e da fala macia.
Com o passar do tempo Sibila não precisava mais de rituais, de invocar as divindades, de consultar os mortos, de ser incorporada, de acender incensos, olhar vísceras, manusear varinhas, não precisava mais jogar e esperar que o acaso rearranjasse conchas, búzios, ossos, para que fossem estudados, ela simplesmente sabia. O tempo faz isso, faz aprender sem que se precise ensinar. Às vezes. Nem sempre. Até quase sempre, não faz. Com Sibila, fez. Talvez porque ela tivesse muito mais tempo que os outros.
Sibila conhecia o tempo e era conhecida por ele, Sibila se lembrava de tudo por que havia passado, mas também tinha memórias que já não tinha certeza se eram suas ou ouvira contar.
Ela gostava muito de lançar conchas para adivinhação, por exemplo, vê-las se reagruparem em uma ordem que parecia incerta aos olhos não conhecedores, mas que para ela era uma ordem absolutamente óbvia, que lhe permitia prever o que aconteceria, a partir daquelas conchas. Mas quando viu Hipácia, em Alexandria, na frente da biblioteca, ser linchada e descarnada pelos cristãos, com o bispo Cirilo à frente, sim, quando viu (ou ouvira contar?, já não se lembrava direito) os cristãos retirando a carne de Hipácia dos seus ossos com afiadas conchas de ostras, Sibila não quis mais consultar através de conchas, cada vez que via uma lembrava-se dos gemidos e urros de Hipácia, da dor de Theon no enterro dos restos da filha. Conchas adquiriram um novo significado para Sibila, o significado da indignação contra a intolerância, o significado da morte mais dolorosa, o significado da imbecilidade cristã, especificamente, e humana, em geral.
Sibila também gostava de tecidos listrados de azul e branco, até que viu tantos judeus e ciganos e homossexuais e deficientes, especificamente, considerados impuros, em geral, nos campos de concentração, que passou a detestar listras azuis e brancas, davam-lhe mal-estar, o mal-estar que deveria ter dado aos alemães, italianos, norte-americanos e todos aqueles que mantiveram esse tipo de prisão.
Malhas que a memória tece. E que nos enroscam pela vida afora.
Um dia estava já Sibila em sua gaiola, tentando descansar, já muito menorzinha e negra de tanto tempo passado, quando novas crianças a descobriram, ali, quieta no seu canto. Rodearam aquela visão espantosa, aquele serzinho tão ínfimo e escurecido, parecia mais um pequeno passarinho engaiolado. Deram-se as mãos, as crianças, cantando uma canção que fazia Sibila estremecer, pois tantas vezes tinha-se perguntado a mesma coisa.
Sibila, Sibila, você que já rodopiou pelo mundo, que já viu cidades novas e as antigas, que conhece de ver ou ouvir contar as histórias dos velhos e os motivos dos choros das crianças, que conhece os sonhos dos homens e mulheres, de ouvi-los contar ou de tê-los sonhado por si própria, você, Sibila, que já sentiu os cheiros mais doces e mais amargos, já experimentou os sabores mais delicados e os mais rústicos também, que tem olhos que tudo vêem, apesar de baços, que tem uma mente que tudo abarca, pelo tempo em que está no mundo, diga, Sibila, diga, Sibila, o que você mais amou, o que te faria mais feliz, o que você mais deseja desse mundo?
Morrer, continua sussurrando Sibila baixinho, eu só quero morrer.

Eloisa Helena Maranhão.

2 comentários:

  1. Olá Senhora Eloísa,
    Como que você escreve bem,meu bem!
    Que lindo conto.
    Já sou fã de poltrona da 1ª fila, melhor ainda, sou fã de camarote, de frisa!
    beijinos e carinhos sem ter fim...

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  2. uau, Marly, que honra, que glória, vc ler e gostar do que escrevo.... tive uma quase epifania aqui.... rssssss.... obrigada, garota!

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