23 novembro 2011

Sísifo Atormentado

"Se este mito é trágico, é por que o seu herói é consciente.
Onde estaria, com efeito, a sua tortura, se a cada passo
a esperança de conseguir o ajudasse?
O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida
nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo.
Mas só é trágico nos raros momentos em que ele se torna consciente". (Albert Camus)

Tinha nascido no morro, menino franzino, negrinho claro que o IBGE classificaria como "de cor parda", olhos vivos desde que, naquela madrugada de chuva gelada, a mãe pusera-se a gemer, primeiro, e gritar, depois, vai nascer, valha-me Nossa Senhora do Bom Parto!, misericórdia, Senhor!, sem nem se lembrar que fora o próprio Senhor que a condenara a parir com dores, e, mesmo que não o fosse, os homens e senhores nada entendem das dores femininas, menos ainda das do parto, e no meio dos gritos, do sangue, dos olhos assustados das outras crianças amontoadinhas no canto, e da ajuda das comadres - ah, benditas comadres, num mundo em que só a solidariedade dessas mulheres, que tecem malhas de solidariedade em meio à miséria, servia para  diminuir o desconforto de ser pobre - naquela noite de tempestade fria nasceu nosso Sísifo, menino franzino, negrinho claro, olhos vivos e uma esperteza que ainda o faria regalar-se de prazer e de dor, nos outros anos todos de sua existência.
Sempre fico impressionada com as tempestades dos trópicos, e Sísifo ficava também, desde muito pequeno, com tanta água vinda sabe-se Deus de onde, do mar é que não devia ser, pensava Sísifo, que chuva não era salgada, nem cheirava azedo nem fazia espuma, nem trazia flores, velas e garrafas de champagne vagabunda quando chovia no Ano Novo; claro que eu, culta, detentora do saber científico, legítima representante dos bem escolarizados - eu e provavelmente você também, leitor - sabemos explicar as tempestades tropicais, os ventos e as altas e baixas pressões, as águas tumultuosas que lavam os morros, desabam as moradias precárias, provocam enchentes. Aquele tipo de chuva que começava rapidamente, enegrecendo os céus de nuvens pesadas, gotas espessas, raios e trovoadas. Que fazia as pessoas olharem agoniadas o rio subindo depressa, as águas engrossando e arrastando restos de garrafas plásticas, lixo de todo tipo, colchões velhos inchados como corpos de afogados.
Sísifo gostava do granizo, ficava na janela com as outras crianças, catando os gelinhos que caíam do céu, sentindo derreter e gelar as mãos; mas isso era antes das enchentes, pois agora a única preocupação em dias de tempestade era salvar o que desse, colocando sobre o que tivesse de mais alto na casa: armários, camas, guarda-roupa... era uma agitação de mãos e pés ensopados, carinhas de crianças medrosas mas excitadas, de um lado para outro, auxiliando no que fosse possível, até que tudo estivesse nas alturas, o cansaço desabasse sobre eles, que subiam também sobre as mesas e camas, esperando o resto da chuva passar. Ela sempre passava como vinha, inesperadamente, deixando um rastro de água barrenta, ratos mortos, pontes quebradas e inúteis, que já não podiam unir os lados do rio, e uma infinidade de famílias desesperadas com suas casas literalmente debaixo d’água, suas roupas e documentos perdidos, suas fotografias e seu passado perdidos, suas camas molhadas, o cheiro fétido empestando tudo, as paredes enlameadas, precisando de uma pintura que ficaria para depois das últimas chuvas, assim como ficaria a promessa de canalização do rio, as promessas políticas sempre reiteradas de solucionar de vez o problema... Mas pelo menos estamos todos com vida, se abraçavam os pais aos filhos, chorando lenta ou histericamente, agradecendo por terem perdido tudo, menos a vida e a fé em Deus, que eram o mais importante. Eram?
Sísifo não sabia se era, e também não sabia explicar aquele aguaceiro nos verões tropicais, e por isso se espantava. Mas eu me espanto ainda, também, talvez pelos ecos das chuvas que derrubavam nossos tataravozinhos pequenos, troncudos e peludos das árvores. Mas não enchamos o peito e a alma de empáfia e superioridade, um pouco de humildade científica cai bem, afinal, você sabe explicar as chuvas de rãs e sapos nas planícies norte-americanas? Carl Sagan e eu também não. Mas sabemos explicar, mesmo sem compreender a lógica, por que as casas dos pobres subiram morros acima, expulsas dos centros urbanizados, e por que descem morro abaixo, com as chuvas, abandonadas pelas autoridades públicas. Sísifo também sabia explicar isso, também não entendia a lógica, e desde que nasceu, nasceu de boca aberta, gritando contra quase tudo. O menino franzino conseguiu a peripécia de gritar mais que a mãe no dia do parto - sim, dia, leitor, não me venha com "mas não era noite?", que sabemos, eu, você, Carl Sagan e Galileu, que os dias têm 24 horas, e as noites são apenas aquela parte escura e variável deles, com número de horas dependendo da época do ano... Isso sem falar nos dias sem noites dos verões polares -  mas não vamos nos alongar nisso, não é?, senão você para de me ler e o pobrinho do Sísifo fica sem testemunhas para sua história. E que perda, leitor!, deixar de saber sobre ele, que grande perda para ele e para você. Para mim, não, que já sei tudo, mesmo, ou quase tudo que importa, só não sei ainda exatamente o que vou escrever a respeito do que sei. Narrador onisciente.
...Não gosto de omnisciência, e Sísifo também odiava, mas fazer o quê, assim organizaram o mundo desde que inventaram o Deus que tudo sabe e tudo vê, com aquele olho saltado de ciclope no centro da testa, tudo sabe e tudo vê mas nada faz para solucionar os problemas. Deus permissivo demais para o mal, azar o nosso. Engraçado que Deus permite que todo o mal exista e seja feito pelos humanos, mas não permite nenhum prazer, nada de desvios de conduta; tem alguma coisa esquisita nesse Deus Iavé, mas vamos em frente. Na falta de Deus que fizesse o que devia, Sísifo decidiu fazer. Não que tenha decidido conscientemente, "vou peitar os deuses", nada disso. Sua ousadia e coragem eram conseqüência de sua esperteza, daquela inteligência aguda aliada a uma visão de mundo não convencional e a uma rebeldia quase natural - falei quase!, pelamordedeus não me acuse de naturalista, às vezes não temos palavras nem conceitos que expliquem tudo rigorosamente, por mais científicos sejamos... e rigor, absolutamente, não vem ao caso para mim, nem vinha para Sísifo. O menino cresceu odiando o rigor, a inflexibilidade, a autoridade, não sofria de necessidade de adoração e desejo de reverência. Quando bem pequeno, vomitava se era pressionado. Depois aprendeu a conter os vômitos, mas ficava com a boca cheia de saliva amarga, o famoso fel dos antigos, a bile amarela subindo à boca. Aprendeu a conter os vômitos e a raiva juntamente com 2 ou 3 dentes quebrados e o sangue engolido ou cuspido, quando apanhava nas brigas, ou dos pais, dos vizinhos, da polícia. Caramba, que sociedade mais violenta a nossa, que bate nas crianças, estimula a resolução dos conflitos aos gritos e agressões, faz que não vê o Estado oprimindo e violentando seu povo. Sísifo via. E não gostava. Nem um pouco. Como tantos de nós vemos e não gostamos. Nem um pouco. Só que - adoro "só ques", são tão frutíferos, abrem flores coloridas e cheirosas, espalham-se pelos quintais, reproduzem-se e estouram as calçadas com suas raízes profundas... no jardim de casa tinha um pé de só ques que na primavera floria e enchia tudo de graça, benditos só ques que ocupam todos os espaços e não deixam o tédio da ortodoxia se instalar - só que Sísifo via, não gostava e reagia. Era pá, pum! Bateu, levou! Tolerância zero! Uma beleza aquele menino, que ia crescendo e se tornando cada dia mais torto. Torto. Retorcido. Enviesado. Dava gosto ver Sísifo assim tão danadinho, primeiro era sapeca, arteiro, danado, moleque encapetado, diziam as comadres. Depois foi virando fora do prumo, arrevesado, moleque safado, até que, por fim, era bandido, marginal, sem vergonha. Claro que Sísifo nem ligava, nem eu ligo, e acho que nem você que me lê, era tanto charme debaixo daquela safadeza, daquela bandidagem de morro, daquela maravilhosa sem-vergonhice de pobre que, tivesse ele nascido umas décadas antes, seria o romântico malandro carioca. Não era. Mas isso não importa. Ele era ele. Isso importa. Tinha prumo por dentro. Não perdia o gingado, não perdia o rebolado, nunca deixava pergunta sem resposta, nem comentário sem contra-comentar. Bateu, levou, falou, ouviu, quem fala o que quer ouve o que precisa, eram as máximas de Sísifo. Se eu não fosse um tanto mais velha que ele, tão culta e bem letrada, e além de tudo criadora do personagem, acabaria apaixonada por ele; graças a São Tomé, protetor da objetividade, que não nos deixa sair da realidade, mantenho-me bem com os pés no chão, coisa que Sísifo também fazia com grande mestria, viver com os pés no chão e a cabeça sabe-se lá onde, diziam as comadres, todas também com uma quedinha pelo safado e pelos vieses. Essas, entre elas a mãe, nunca admitiam que falassem um azinho sequer de Sísifo na frente delas; para elas ele era o mais ajuizado e prudente dos mortais, sabendo muito bem onde tinha cada mão, cada pé, cada fio de cabelo - mesmo que enrolados em cachos - uma das comadres evangélicas até recebeu um comunicado do Espírito, num dos cultos, dizendo que Sísifo tinha o dom do discernimento. Outros já eram pela teoria da bandidagem, que era caso perdido, e nem anúncio nos jornais ou nos alto-falantes seriam capazes de encontrá-lo outra vez. Alguns desses também receberam essa informação do mesmo Espírito da outra comadre, mas ninguém se preocupou em checar, a-ca-re-ar. Ficou por isso mesmo, cada qual acreditando no que queria, cada um com uma imagem do garoto.
Claro que tão charmoso como era, Sísifo acabou apaixonado e apaixonando umas e outras, mais apaixonando outras que apaixonado por umas, e numa de suas tantas paixões acabou engravidando a menina. Foi seu primeiro grande deslize, botar filho no mundo que não tinha como criar, que-fal-ta-de-res-pon-sa-bi-li-da-de diziam todos, uns condescendentes, outros indignados, mas o bebê nasceu, Sísifo apaixonou-se pela menininha de olhos de amêndoa e boca cheirosa banguela, e decidiu que ia morar com a mãe pra estar perto da filha. Levou as duas pro barraco, onde já moravam a avó, a mãe, os irmãos, irmãs, uma tia doida que catava papel nas ruas e nunca deixava vender, por que se "apegava a eles", dizia ela com os olhos marejados, acumulando os papéis atrás do barraco e as sensibilidades na sala da frente da alma, onde costumava juntar ratos, insetos, poeira, fuligem - esse onde é atrás do barraco, não a sala de entrada da alma, claro - até que uma vez por ano a própria tia queimava tudo na fogueira do revéillon, como dizia, que era bom queimar coisas uma vez por ano, desacumula a energia da vida, libera o poder da pureza, qualquer coisa assim a tia falava todo santo ano, e Sísifo adorava ajudar a queimar os papéis, mais por prazer do incêndio que pelo desacúmulo das energias. Que as dele nunca desacumulavam, mesmo, até dormindo ele sonhava alto, agitava-se, sonambulava pela casa, gritava, gemia, cantava, enfim, vivia, talvez intuindo que viver passa depressa demais. Moravam mais uns três ou quatro seres na casa, nenhum pai, que isso de pai é meio complicado nos morros, e dispensável também, além de irrelevante. Nem sei como se saiu Sísifo tão bom pai sem nenhum modelo pra seguir, ah, como Freud faz falta numa hora dessas, morreu cedo demais o homem, e isso é imperdoável, inventa as coisas, deixa pra posteridade e some, morre, vai embora, deixa órfãos desentendidos do que inventou. Eita mundinho absurdo.
Levou pra casa, assumiu, tinha que sustentar, não deixar faltar o mingau da criança, o arroz dos adultos, umas fitas coloridas pra tia enfeitar os cabelos, umas correntinhas com santinhos pendurados, que pra mãe eram indispensáveis, velas pra avó queimar pros santos, também indispensáveis como todos sabemos. Sísifo assumiu o sustento da casa, dos amigos, dos vizinhos, e fazia o necessário, o impossível, até o que não devia ser feito, pra colocar comida em casa, carro na favela, roupa nos armários, cigarro no bolso, e tudo mais que é tão vital pra humanidade, se todos podem ter, por que não Sísifo? Se falavam de escrúpulos ele logo rebatia, escrúpulos? "Escrúpulo" é coisa de rico com culpa ou de pobre idiota, e encerrava questão. Como não era rico, nem sentia culpa por quase nada, nem era idiota, Sísifo não sofria de escrupulose. Fazia o que tinha de ser feito e o que não tinha também, pra sobreviver. Era sua filosofia de vida.
Uns roubozinhos aqui, umas drogazinhas vendidas ali, uns contrabandos dos pequenos, pequenos deslizes legais pra garantir a sobrevivência sua e alheia. Nada que pudesse ser comparado aos crimes de colarinho branco, a prédios mal construídos com areia salgada, a apartamentos vendidos na planta e nunca terminados de construir, deixando os compradores desabrigados da confiança, nada que se comparasse a desvios de verbas da previdência, à lavagem de dinheiro do narcotráfico, à salvação de bancos falidos com dinheiro público, a quebras fraudulentas de empresas públicas para privatizar depois, a falências privadas também fraudulentas deixando os empregados desassistidos, a dinheiro, muito dinheiro!, depositado nas contas dos paraísos fiscais, a apóstolos, bispos, pastores, padres, missionários que tiram o pouco pão dos pobres, e tantas outras formas de fraudar, enganar, iludir, tirando de quem já não tem para aumentar a fortuna de quem já tem muito e quer sempre mais.
Sísifo não, não era capaz dessas formas de acumular tirando de quem tinha pouco; seus deslizes legais eram sempre pra cima de quem tinha muito, que para ele o mundo se dividia entre os que nada têm e dividem com boa vontade o nada, e os que têm demais, e esses últimos merecem dividir um pouco também, mesmo que à força. Era sua segunda filosofia de vida.
Uma única vez havia assassinado uma pessoa, sentido o gosto da morte alheia nas mãos, ficando gravado com a marca de Caim; mas não guardava culpas, nem remorsos muito menos, que sabia que tinha sido por absoluta necessidade de defesa, e o morto não merecia destino melhor que esse, mesmo; morrera pela mão de Sísifo como morreria logo depois pela mão de qualquer outro, já que certos destinos estão inscritos na testa dos donos, e só não enxerga quem não quer. Sísifo havia enxergado e percebido que seria um ou outro, melhor o outro que teria vida pequena, mesmo, e ele, Sísifo, muita vida pela frente, a eternidade toda para amargar seu próprio destino de rolar pedras.
Mas isso foi depois, bem depois da primeira pedra que rolou na vida, e que veio ajudar a abrir o caminho para as outras. Era um período de greves. Muitas. Pipocando pelo país, e pelo sudeste principalmente. Sabe essas épocas de mudanças, que os intelectuais chamam "período de transição", quando o tradicional já não resolve mais, e o novo ainda apavora? Esses momentos em que tudo convive, sem harmonia, e os conflitos estouram, as leis não conseguem ser obedecidas, a justiça arfa como cachorro velho, os governantes tentam - uns poucos que tentam - mas é impossível? Era um desses momentos da história, e levava quem brigava mais e quem mais podia. Era dia de greve. Todos sabemos que greves são para ser levadas a sério, feitas até o fim, inclusive por uma questão de democracia, pra quem não tem consciência. Sísifo também sabia disso. Que furar greve era antidemocrático. Afinal, oras bolas, não temos uma legislação que exige assembléia com maioria para aprovar a greve, aviso prévio da greve e seus motivos ao empregador, com as reivindicações formuladas por escrito, de acordo com a lei, em ata, com representação da justiça do trabalho, e tal e coisa? Pois então, raciocinava Sísifo, se todas as exigências foram cumpridas, e mesmo assim a greve decretada, então todos têm obrigação de entrar em greve até a próxima decisão da assembléia. Não era assim que funcionava com a política? O governante ou representante era eleito pela maioria, e era governante e representante de todo o povo, mesmo daqueles que não votaram nele? A lógica pra greve devia ser a mesma. Decretou tá decretado, mesmo quem ficou contra ou não quis votar, ou não foi à assembléia, tinha que acatar a decisão da maioria. Que raios de democracia é essa que só cumprimos o que nos interessa ou o que nos obrigam?
Pois foi num dia de greve que Sísifo ficou revoltado com os fura-greves, que teimavam em entrar para trabalhar, e entravam de cabeça erguida, nariz empinado, com ar de "eu peito os sindicalistas" - suprema imbecilidade, suprema subserviência, suprema ignorância ficar contra quem é como nós, e a favor do patrão que nos explora, suprema lástima a servidão voluntária - e Sísifo não agüentou ver os empregados entrando no trabalho, na frente dos companheiros em greve, que faziam piquete, portavam faixas e cartazes, tentavam convencer os fura-greves, ao mesmo tempo que apanhavam, eram xingados, ridicularizados, numa inversão de valores e da lógica que irritou Sísifo profundamente, apesar de nem ser da categoria.
Quando viu um dos grevistas ser preso e levado para dentro da empresa, espancado pelos seguranças, Sísifo nem pensou duas vezes, resolveu que tinha que fazer alguma coisa, e enquanto rodeava o prédio pensava em como reagir. Ora, então foi que viu a paralelepipedeira. Sim, uma árvore alta, frondosa, carregada de lindos e verdinhos paralelepípedos, ainda pequenos e fora da estação. Só tinha um grande, temporão, bem cinzento, pronto para ser colhido. Sísifo não titubeou. Chegou perto da árvore, deu um chacoalhão nela, até que o paralelepípedo maduro caiu, bem em cima do carro do segurança da empresa, um dos que espancava os grevistas, um dos que furavam greve, pois também trabalhavam para o mesmo patrão, um dos que ficavam a favor do patrão e contra os próprios companheiros. Ninguém viu, ninguém comentou, Sísifo saiu dali com o coração leve e vingado, se vingança pudesse ser chamada, o dever cumprido, a honra lavada. Ali sentiu que se tornou homem, e que dali para frente sempre haveria paralelepípedos e quantas outras pedras fossem necessárias para derrubar sobre quem fizesse por merecer.
Foi uma pequena mostra do que nosso herói era capaz em caso de necessidade de justiça.
Mas então, anos depois, Sísifo cometeu seu primeiro grande, grave, imperdoável erro, que o levaria à desgraça e à maldição. Nessa época ele já era bem conhecido nos meios mais diversos, era convidado às festas dos ricos, aos palanques dos políticos, aos púlpitos das igrejas carismáticas, tratado bem na delegacia, afinal tinha respaldo no morro. Era falar e ser feito. Controlava o tráfico de drogas no seu pedaço, organizava festas, distribuía pros pobres o que precisavam. Perto dele ninguém passava necessidade, fome não existia, nem criança fora da escola, era tudo realmente uma belezura.
Até que a filha do governador foi seqüestrada. O próprio queixou-se com Sísifo, onde já se viu seqüestrar minha menina, dou o que quiserem para tê-la de volta. Mal sabia o pai que a moça tinha sido seqüestrada não por bandidos em troca de dinheiro, mas sim pelo prefeito, que não conseguia nada com ela por bem. Mas Sísifo, de quem nada escapava, sabia o que tinha acontecido realmente. Qualquer coisa para tê-la de volta?, perguntou, sim, qualquer coisa, Sísifo, você sabe de alguma informação que possa me ajudar?
Claro que Sísifo sabia. Ofereceu-se para contar tudo em troca de apenas uma coisa, é aceitar ou largar.
O pai aceitou. Sísifo exigiu que o governador ligasse água nos morros vizinhos ao seu. O "seu" morro já tinha água encanada, conseguida por Sísifo com o governador anterior, e luz também, conseguida puxando "gatos" dos fios da vizinhança. Mas os outros morros dos lados também precisavam, o senhor entende, governador, sem água é difícil viver, imagine essas pessoas todas andando com baldes e vasilhas pra lá e pra cá, sujos, cansados, empoeirados, lavando a louça na mesma bacia e mesma água onde antes haviam lavado as verduras e o arroz, tomando banho primeiro os adultos e depois as crianças na mesma água, que só então era jogada fora nas privadas improvisadas. Água, governador, é essencial. As primeiras civilizações foram fundadas ao longo dos rios. Os desertos são desertos por não terem água que propicie a vida e a ocupação do lugar. Quero água, governador.
Claro que o governador estava disposto a dar qualquer coisa pelo retorno da filha, menos água pros morros. Recusou-se, fez ameaças, mas Sísifo estava irredutível. Não tinha medo dos raios dos deuses. Sem opção, encurralado, o governador aceitou. A água foi levada para os morros, e a moça libertada.
No meio da festa nos morros, estava criada a confusão.
O prefeito ficou revoltado com a delação. Apesar da revolta do prefeito e da indignação do governador, preferiram culpar Sísifo pela situação. Onde já se viu tamanha ousadia, tão grande petulância, a imensa cara de pau de um zé mané que não respeita o poder? Onde já se viu um nascido nos morros, negrinho safado, encurralar o governador e denunciar o prefeito, eleitos pelo povo, a quem todos deviam respeito, e coisa e tal, e tal e coisa? Mas continuavam de mãos atadas, apesar do ódio que crescia, da inveja que já estava grande há muito tempo, da vontade de dar o troco.
Enquanto o ódio e os conchavos eram cultivados, Sísifo vivia sua vida, sem saber de nada sobre isso. Ele, tão esperto para todas as outras coisas, nem imaginava os rancores e invejas que despertava, os olhares tortos, a vontade de vê-lo destroçado.
Sísifo continuava no seu caminho, vivendo como devia, fazendo o que achava correto. Num dia de enterro de uma criança, decidiu que era hora de fazer alguma coisa contra a mortalidade que assolava os morros. Sonhou que a morte zombava deles com um sorriso de dentes podres e uma AR-15 nas mãos. A morte usava uniforme, boné, botas, capa, mas tinha dentes estragados e passava fome em casa.
Sísifo organizou o povo dos morros, e começaram uma grande campanha. Vamos acorrentar a morte, dizia, prendê-la bem amarrada, deixá-la pálida de desgosto, por que somos fortes, e podemos viver muito mais que o pouco tempo que nos dão.
Passaram então a exigir médicos, remédios, hospitais que funcionassem, segurança nas favelas, salários melhores para comprar mais alimentos e adoecer menos, e a morte acabou vencida. Ela urrava, tentava soltar-se, esperneava, mas nada. Ficou ali quietinha, com correntes nas pernas e braços, com mordaça na boca, sem conseguir mais sorrir com seus dentes cariados, sem poder soltar seu hálito putrefato.
O povo andava feliz, com a morte acorrentada. Até que o administrador dos cemitérios municipais começou a não gostar do seu reino deserto, sem movimento, aquele silêncio profundo e sinistro, nenhum enterro em meses.
Falou com o secretário da segurança, que mandou seus homens soltarem a morte. Onde já se viu tamanho absurdo, se todos forem viver pra sempre, ou muito, que há de ser do mundo? Quem agüenta um mundo com excesso populacional?
Com a morte solta tudo voltou ao normal, mas Sísifo, na batalha contra os homens da guerra que vieram soltar a morte, foi ferido. Os seus o recolheram para dentro do barraco, quase à morte.
Olhou delirando para a mulher, em casa, com os filhos, dia após dia olhando-se nos olhos, dormindo na mesma cama, e Sísifo, em segundos, compreendeu que aquilo não devia ser amor. Não podia ser amor aquele casamento de anos, os olhares de acusação, as pequenas mágoas acumuladas que amargavam os dias, os silêncios quando estavam sós, as saídas sozinhos, cada um para seu lado, as brigas, as reclamações, as indiferenças de um com o outro. Decidiu que precisava ter certeza do amor da mulher. Queria colocar à prova aquele amor depois de anos. Não suportava a idéia de continuar junto de alguém que talvez já não o amasse mais, nem se importasse realmente com ele. Então ordenou à mulher que o jogasse moribundo na praça pública. Ela chorou, disse que nunca faria isso, mas ele exigiu. Quero que você me ajude a chegar à rua, e me jogue lá na praça. A mulher obedeceu.
Por que não obedeceria? Ela não queria aquilo. Resistiu o mais que pôde à idéia de lançar o marido quase morto no meio da praça, na imundície, os ratos e insetos passando, os passantes olhando estarrecidos, pior seria olharem indiferentes, e passarem sem parar.
Mas ela estava acostumada a obedecer. Não sabia mais a diferença entre amor e submissão, não tinha aprendido a amar livremente, e ser amada pelo que era. Sentia desde pequena que só a amariam se fosse boazinha, se fizesse tudo que lhe pediam, se nunca dissesse não. Obedeceu. Levou o marido até a praça e jogou-o ali.
Os guardas o recolheram. Foi levado para a delegacia e para o hospital, preso. Foi condenado. Presídio de segurança máxima e trabalhos forçados. Era o que merecia quem enfrentava os poderosos daquele modo. Era o que merecia, castigo pedagógico, para que outros nunca quisessem imitá-lo na sua ousadia de homem pobre e negro.
No presídio ainda não se conformava com a falta de amor da mulher. Fora uma demonstração muito clara de que não o amava. Quando alguém que ama obedeceria uma ordem como a sua? Onde já se viu alguém que ama jogar o corpo ferido e moribundo do próprio marido no meio da praça, para escárnio e putrefação? Pediu permissão para o diretor do presídio, para voltar e punir a mulher. Ela merecia, como não. Um belo dum castigo, que ele iria preparar muito bem, para ensiná-la a nunca mais agir daquela maneira impiedosa.
Foi liberado por três dias. Teria três dias para preparar o castigo e implementá-lo, voltando depois ao mundo dos esquecidos, o presídio, onde cumpriria sua pena. Três dias dava de sobra.
Saiu, e sentiu o sol na pele. Estava quente aquela manhã, e a brisa do mar era deliciosa. Fechou os olhos, respirou pausadamente, abraçou-se a si mesmo para sentir o vento circulando seu corpo. Era bom estar vivo. Era bom estar no mundo dos vivos. Era muito bom estar livre, e sentir o sol, a chuva, o vento, olhar para o céu noturno e ver estrelas, e a lua, e os rostos das pessoas.
Sentiu uma urgência das chuvas tropicais, daquelas com granizo, com ventos que sibilavam, mesmo as que provocavam enchentes, as que deslizavam os morros. Sentiu uma urgência de ver os filhos, abraçá-los, respirar o hálito deles, pegá-los no colo e contar histórias, e ouvir as histórias que tivessem para contar.
Sentiu uma urgência das feijoadas aos domingos, com muita água no feijão, as caipirinhas, as cervejas geladas, o violão, o samba, o pagode. Sentiu que suportaria e gostaria até do pagode, imaginem só a premência de vida de nosso Sísifo.
Sentiu uma urgência de sexo, não daquele às pressas, mas do sexo bem feito, como arte, aquele que fazemos para viver, e realmente vivemos por que o fazemos. Sentiu falta até da mulher, e decidiu que não iria mais castigá-la. A vingança perdera o sentido no mundo dos vivos, só fazia sentido entre os mortos, os esquecidos.
Decidiu que ia fugir, e continuar entre os vivos, livre.
Foi assim. Sísifo conseguiu viver muitos anos olhando a baía da Guanabara, a curva dos golfos, sentindo o salgado da água do mar na boca, o sol queimando a pele.
Até que o juiz despachou a ordem de busca e prisão de Sísifo, e esse entrou para o rol dos procurados.
Com tantos procurando um só, não se admira que o encontrassem. Foi pego pela gola, arrastado pelas ruas, enquanto gritava de desespero, e levado de volta ao presídio. Tinha sua pena para cumprir.
Acorrentado, foi colocado na encosta de um dos morros de trás do presídio, onde tinha que arrastar uma imensa rocha até em cima do morro, deixando-a rolar de volta então, e de novo carregá-la ao alto, deixá-la rolar, descer e buscar novamente a pedra, carregá-la para cima do morro, suando, gemendo, cansado do trabalho inútil, que era mais castigo que trabalho; se ao menos seu esforço lhe trouxesse prazer, ou algum tipo de retorno, ver algum resultado para quem quer que fosse, poderia chamá-lo trabalho e não condenação; mas era carregar a pedra morro acima, vê-la voltar declive abaixo, descer e pegar, levando-a para cima outra vez, e outra vez morro abaixo, até que vencido pelo cansaço podia dormir algumas horas, e então era acordado pelos guardas, e tinha que recomeçar.
O tempo passava, mas parecia não acabar nunca. Aquele trabalho demente e estafante, absolutamente sem sentido algum deixava qualquer um desesperançado. Sísifo teria que fazê-lo até morrer. Os deuses estavam vingados da petulância do negro pobre, que havia ficado contra eles e a favor dos seus iguais.
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Ah! Mas vocês não me esperaram terminar. Pensaram que tudo se esgotaria naquele trabalho insano, na desesperança de Sísifo. Não foi exatamente assim.
O negrinho claro, de olhos espertos e rebeldia quase natural, o menino que nunca se submetia, o homem que odiava injustiças e reagia quase naturalmente contra elas, um dia cansou-se de carregar a rocha morro acima.
Ele era Sísifo, mas poderia chamar-se Sansão.
Esperou um dia de festa, de posse do novo governador eleito, e do novo diretor do presídio, indicado. Enquanto os presidiários e as autoridades faziam a festa da posse, e os jornalistas assistiam e tudo documentavam, babando de prazer de serem tão bem recebidos entre os poderosos, enquanto se divertiam sem pensar em porque estavam ali, e porque existiam presídios como aquele; enquanto passavam mais um dia de suas vidas inconscientes, sem pensar seriamente em nada, levando à frente suas existências medíocres e vergonhosas, sem vergonha alguma de sua mediocridade e podridão, Sísifo rolou a pedra mais uma vez morro acima, colocou-a sobre uma rampa que havia planejado há tempos, e a fez rolar com violência sobre o pátio do presídio, onde acontecia a festa dos poderosos e dos sem poder submissos.
A rocha imensa desceu como raio vingador, como chuva tropical que desmorona o que está construído, e caiu ali bem no meio, esmagando o poder, ao menos uma parcela daqueles micropoderes que tanto atormentaram a vida de Sísifo. De Sísifo e de Foulcault.
O negro pobre estava vingado da arrogância dos deuses.


Eloisa Helena Maranhão.

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