26 novembro 2011

Trem de ferro

Vai aqui um conto, uma declaração de amor. À vida e à militância, inclusive... Só leia quem tiver estômago forte para aguentar as cartas de amor ridículas...

"Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece, nem repetidas com fervor.  
Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento. 
Porque metade de mim é o que eu ouço, a outra metade é o que calo. 
E que minha loucura seja perdoada. 
Porque metade de mim é amor... E a outra metade... também.” 
(Oswaldo Montenegro, “Metade”)


Já estava enferrujado e arfando, como um bom e velho trem de ferro. Soltava uma fumaça cinza, um apito ignorante do mundo, e deixava cair na ferrovia pedrinhas escuras, coloridas, leves e bolhosas que refletiam as cores do sol.
Quem andasse pelos trilhos cantando 99 km, 99 km, para um pouquinho, descansa um pouquinho, 98 km, contando os km guardando clínquers no bolso, guardaria com cada um deles algumas histórias: uma história de amor para o primeiro, uma de amor e uma de desilusão para o segundo, uma de desilusão, duas de fugas e uma de amor para o terceiro, duas de fugas, uma de assassinato e quatro de amor para o quarto, e assim sucessivamente; mas não me pergunte que tipo de progressão era essa, que só entendo de antecedências. O tempo é mais interessante para trás do que à frente, que atrás tudo efetivamente foi, concretamente, os sentimentos foram sentidos, as coisas experimentadas, e o futuro não é. Ainda. Nem vai ser. Pelo menos, não como achamos que seria, ou queríamos. Vai ser como será, o futuro é sempre um susto.
O trem de ferro sabia disso, desde que fora forjado e montado, sempre soube que é melhor ter sido que vir-a-ser, e cumpriu seu ter sido com coragem, apitando ignorantemente para o futuro.
O soldadinho de chumbo tentou embarcar no trem em movimento, agarrou-se, mas caiu, estava com uma perna endurecida e dolorida e não conseguia mais se firmar. Era reumatismo, não ferimento de guerra, pois seus ferimentos foram na cabeça, no peito, nas costas e na alma, mas não nas pernas. Os ferimentos do corpo deixaram cicatrizes, mas os da alma estavam sarados e esquecidos, que era forte e insensível, como deviam ser os soldados, bem treinado e endurecido. Pero sin perder la ternura, jamas. As guerras deixam seqüelas na História, mas nunca nos soldados, não pelo menos no soldadinho de chumbo caído na estação, que sabia por que lutava, e quem acredita na luta não volta enlouquecido das guerras.
Ficou na plataforma, ouvindo o trem continuando, esperando o próximo. Todos os trens de ferro são iguais, qualquer um servia, desde que passasse naquela ferrovia; a única diferença eram os clínquers com suas histórias, e a do soldadinho ficaria para o próximo trem.
Ficou. Conseguiu embarcar no que passou por ali exatamente uma hora e oito minutos depois, como passava há décadas, e passaria por mais algumas, até ser desativado, abandonado num depósito, mais enferrujado ainda, e sem nunca mais arfar, os trilhos arrancados e casas e ruas construídas por cima do que fora a ferrovia. Antes de subir no trem, o soldadinho embarcou seu cavalo de pau; desde que a última guerra tinha acabado ele só andava a cavalo, assim a perna não doía e o peito não cansava. Tirou uma vasilha d’água e um punhado de feno do bornal, deu ao cavalinho de pau, dividindo a sobremesa do animal com ele, uma maçã suculenta. Encostou-se no flanco do cavalinho e dormiram.
O sacolejo do trem homogeneizava cavalinho e soldado, chacoalhando nas três dimensões, tcha tcha tcha tcha tcha tchá, tcha tcha tcha tcha tcha tchá, e o cavalo sonhava.
Enquanto o animal sonhava sonhos eqüinos, o soldadinho sonhava seus sonhos de solidão. Estava cansado das guerras, das lutas, mas sabia que eram necessárias, caso quisesse mudar alguma coisa. E, convenhamos, há muita coisa para ser mudada nesse mundo, alguém duvida? O soldadinho não duvidava. Queria as mudanças. Vivia para e delas. Era um soldado especial, das trincheiras populares, militante das causas do povo, do qual fazia parte. Era sua fundação – ser povo. Qualquer povo de qualquer lugar do planeta, foi aprendendo o soldadinho no meio de suas batalhas, conhecendo pelo mundo seus companheiros de exército, o exército dos desvalidos, dos despossuídos, mas não dos covardes, e sabia que seu lugar era onde houvesse injustiças, e onde a desigualdade se fincasse, e onde pudesse atuar a serviço do povo.
Sua questão não era ser ou não ser, já tinha superado há tanto tempo Shakespeare e Camus, sua questão de fundo, sua música incidental que teve de compor era: a serviço de quem estou trabalhando? Cada ato seu fundava-se na consciência de classe, e isso lhe dava, além de prazer, tranqüilidade para dormir, e sentido para viver.
Soldadinho de chumbo apaixonado e apaixonante, como resistir... Foi o que pensou a bailarina quanto o conheceu. Não era nem “como” resistir, mas sim “eu quero” resistir? Por que resistir a uma paixão como essa?
Eu devia dizer aqui: “Ah, mas bem que tentou, juro, ela tentou resistir!” Mas nada. Não tentou resistir coisa nenhuma, se apaixonou e entregou, renda-se, o soldadinho disse, já nem precisava, estava rendida, arriada, de quatro por ele, mãos ao alto – e geladas – e coração disparado – ardendo em febre -, era do tipo bailarina lambida, das que assumem tudo que sentem, e nunca tenta ir contra o coração, por que sabia que isso sempre dá em caminhos e lugares errados. Tinha errado muito na vida, mas tinha errado com convicção, com fé que ia dar certo, e isso é igual àquilo “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, quem erra com fé merece perdão também, muito mais misericórdia que os que nem erram, erram pouco, erram erros pequenos, de tanto medo. Ela não tinha medo, aquela bailarininha pequena, vestida de tule rosa muito claro, de sapatilhas de cetim, que deveria ter ficado ali em cima da penteadeira, dançando na caixinha de música, isso se quisesse sossego e ficar longe das encrencas...
Mas bailarina lambida nunca fica longe das encrencas. Até tentava. Aqui posso dizer “Ah, mas bem que tentou, juro, ela tentou manter-se longe das encrencas!”, isso é verdade, sou testemunha. Mas não conseguiu. Convenhamos, é muito melhor bailar por aí sem medo de ser feliz, nem infeliz, do que no lugar ao qual te condenaram de infância, a caixinha de música, a penteadeira arrumada e sem poeira, o espelho limpíssimo, e sabe-se lá que olhos antigos e entediados olhando-a dançar. Caso olhem.
Foi um feitiço, o olhar trocado entre o soldadinho de chumbo e a bailarina. Sua bailarina. Claro que ela sabia, e esperava que ele soubesse muito bem, também, que bailarina que se preze é dona de si mesma, se desceu da penteadeira para dançar nas ruas, e bailar nas poças de lama, e tomar sol e chuva sem medo de desbotar ou pegar um resfriado, se resolveu bailar nos becos, e entre os cães e gatos vadios, se fez dos cães e gatos vagabundos sua companhia e, mais que isso, se era um deles, então ela sabia, e esperava que ele soubesse muito bem, também, que bailarina lambida não tem dono, não é propriedade, não é de ninguém, mas só sua. Mas claro, deixou que ele a chamasse “minha”, e ela também o chamou “meu”, e sem crise quanto a “sou sua, sim, meu bem”, “você é meu amor, minha querida, e eu sou só seu, agora”, por que essas mentirinhas dos apaixonados são deliciosas, e quem quer deixar de dizê-las, mesmo sabendo-as mentiras? E, mais além disso, se fez dele, e entregou-se, e se deu para ele, então agora podia ser chamada de “sua” de verdade, com aquela verdade de quem ama.
Ela tinha medo. A bailarina lambida era um poço profundo e escuro de insegurança e medo, de não ser amada, de ser rejeitada, de que ele não gostasse realmente dela, ou que a abandonasse depois, quando a paixão passasse, como passam os sarampos e as varicelas, ou que tudo fosse ótimo, mas acabasse, como se acabam todos os amores, as dores, as alegrias e tristezas. Tinha mamado demais na sabedoria de Salomão, e mais tarde nos existencialistas, e se envenenado com o relativismo. Era uma pós-moderna, nossa dançarina, mesmo contra a vontade, que adoraria ter certezas, e algumas esperanças. Não as tinha. O que não a impedia de ir em frente, por amor e paixão de viver.
O mesmo tipo de paixão e amor que nutria o soldadinho, pela vida, pela justiça, pela igualdade, aquele desejo que faz ter vontade de que todos sejam felizes, e que todos vivam bem, e que não falte para uns e sobre para outros, pois na raiz da desigualdade está a falta de paixão pela vida, por que quem ama extrapola, e exagera, e borbulha e vaza, e transborda, e quer tudo para todos, e se sente feliz com a felicidade dos outros também, e só os rasos conseguem guardar mais do que precisam, por que não gastam, são avaros, fecham as mãos junto com as experiências de vida que poderiam ter, mas não terão. O soldadinho vazava, de às vezes até irritar. A vingança dos bastardos, isso de condenar os avarentos à miséria de vida abundante. Quem ama toma chuva e toma sol, e nada nos rios e sobe nas árvores, e anda cantando pelas calçadas de concreto, e não deixa que poluam as águas e o ar, e luta para que dividam tudo e que cada um possa viver, e não apenas sobreviver.
Os dois amavam, e foi então quase natural que se amassem, também, se reconhecessem um no outro, reencontrassem suas partes perdidas ou deixadas nos cantos, quase natural que se precisassem tanto que acabassem nos braços um do outro, se consolando da vida ser como é, se extenuando no sexo e nos carinhos para vencer a vida que era mais extenuante ainda.
E quando o soldadinho de chumbo inclinou-se no cavalo, ajudando a bailarina a subir, colocou-a na sua frente e perguntou a ela “para dónde quieres que te lleve, mi comandante?”, então já não havia nenhuma dúvida para onde queriam e deviam ir, e era por isso que se reconheceram e estavam juntos, e tentariam se manter assim juntos, se apoiando, e foi sem nenhuma estranheza que ela respondeu “pras selvas de Lacandona”. Onde quer que elas estejam.
Aquele clínquer caído da maria-fumaça contaria essa história de amor e ternura.
Eloisa Helena Maranhão.

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