26 novembro 2011

Vôo cego


"Ah, que a miserável condição
da raça humana procurando o céu
levante a cabeça
e ao levantar, por encanto,
escorregue o seu véu"
(Oswaldo Montenegro, "Condor")

Olhar os pássaros voando sobre o vinho do mar era maravilhoso. Maravilhoso... cor de maravilha... maravilha... flor cor de vinho claro, cor do mar... ele sentia felicidade quando olhava as aves planando sobre as ondas do mar. Só muito mais tarde aprendeu a catalogar as sensações, chamando-as pelos nomes, como Adão fizera com o mundo recém-parido. Mas quando pomos nomes, duas coisas acontecem: nos apropriamos delas, as coisas se tornam dóceis, ovelhas de nosso rebanho, mas ao mesmo tempo deixam de ser fantásticas, perdem aquele sabor do desconhecido, do proibido; a domesticação das coisas, quando chamadas pelo nome, destrói a aura do sagrado. A palavra falada desenfeitiça. Quando conseguiu domesticar e entender suas sensações, Dédalo percebeu que havia perdido a parte selvagem de si mesmo. Havia assassinado uma parte dele próprio, como um suicídio dos instintos.

Mas isso não importava, esse suicídio dos instintos. O que importava eram as formas geométricas que o apaixonavam desde criança, quando ainda tão menino estudava com seus mestres. Os mestres interessavam-se mais pelo menino imberbe e alto, de pele lisa, voz fina, o jovem mancebo sério, de cabelos que caíam sobre os olhos quando se sentava para estudar, do que por aquilo que ensinavam. Já o interesse de Dédalo eram os desenhos, as equações matemáticas, os sons que tirava da lira e se relacionavam com os números, a música das esferas... e para continuar a aprender tudo aquilo ele aceitava sem reclamar os agrados dos mestres, suas mãos lúbricas que alisavam suas pernas e costas enquanto saciavam seus desejos nos meninos.

Só depois de adulto ele conseguiu entender por que os homens amavam mais aos meninos do que às mulheres, mas na adolescência ele ainda estranhava esse tipo de paixão, sentia-se até mesmo incomodado com os olhares que os filósofos e mestres lhe lançavam, antes de tocar seu corpo. Depois, quando entendeu tudo, percebia o mesmo incômodo nos olhos dos meninos, e se sentia constrangido. Decidiu-se, então, não se aproximar deles, e isso lhe granjeou fama de esquisito entre seus pares. Como um homem normal, de posse de seus instintos mais saudáveis, poderia não sentir atração por um corpo juvenil, de músculos se definindo, pele lisa, quase sem pelos, que não oferecia resistência, e, além de tudo, ainda o olhava com admiração? A admiração, para aquele tipo de homem intelectual e arrogante, desejoso de lisonja, era irresistível. Nada mais apaixonante que um olhar de admiração, e ouvidos sempre atentos. Principalmente vindo de corpos tão interessantes e jovens, tão iguais a si mesmos, quando jovens. O arrogante consegue amar apenas a si próprio.

Dédalo internou-se dentro de si, e vivia andando em círculos; foi nessa época que descobriu que criar labirintos era uma forma de conhecer-se, e sentia os labirintos em seu corpo, como se fosse feito de muitos deles em suas entranhas. Sentia as idéias se formarem dentro de sua cabeça, e imaginava que tinha um labirinto por trás dos ossos do crânio; sentia as emoções brotarem dentro do tronco, e imaginava que seu fígado era um labirinto onde elas rodavam até conseguirem encontrar a saída.

Começou a se apaixonar pelos labirintos quando viu pela primeira vez uma concha de um animal marinho, com aquelas curvas todas, reentrâncias, uma cruz no meio, de onde saíam linhas que se entrecruzavam e separavam, mas no fim levavam a um mesmo e só lugar. Elas seguiam uma seqüência, formavam uma espiral muito proporcional, que ele não sabia explicar, mas intuía.
Ele começou então a imaginar como seria se aquelas curvas fossem transformadas em retas, que desenhos formariam. Olhava os caracóis por dentro, e tentava desenhar na areia como seriam se retificados, e foi quando descobriu os labirintos. Passou então a inventar diversos tipos, de tamanhos variados, com jardins no centro ou amplos aposentos periféricos, cobertos ou abertos para o sol, com portas e janelas que davam para o nada. Depois passou a criar labirintos com andares, escadarias retas ou em espirais, e algumas não levavam a nada, enquanto outras subiam e desciam, e voltavam ao início ou se perdiam entre terraços e outros espaços infinitos. Os que mais gostava era dos que tinham uma espécie de patamar em algum lugar das curvas, e, deitado sobre o patamar, podia contemplar o céu escuro e contar as estrelas. Mesmo ao custo de algumas verrugas nos dedos, que depois sumiam.

Para ganhar a vida criava mansões sob encomenda, estruturava jardins com fontes e estátuas, desenhava canais e sistemas de irrigação para as plantações, ou inventava plantações em níveis, para que as águas das montanhas não arrancassem as raízes das plantas e as carregassem junto com a terra para os mares. Mas criar labirintos continuava a ser sua mania e seu hobby depois de adulto.

Ficou muito feliz, portanto, quando Minos, rei de Creta, convidou-o a criar um labirinto que encerrasse o monstro da cidade, na verdade uma prisão, que guardaria o Minotauro, mantendo-o vivo e satisfeito, enquanto esse guardava a reputação do reino.

Era um monstro especial, com cabeça de touro e corpo de homem, gerado nos currais da ilha, os imensos currais em que criavam todo tipo de touros, conforme os pedidos dos reis das ilhas com as quais negociavam; alguns queriam bons reprodutores, outros desejavam touros mansos que enfeitassem seus pastos e carregassem as crianças em seu dorso, ou vacas leiteiras que gerassem muitos bezerros; outros pediam touros bravos que guardassem suas terras e impedissem outros animais de se aproximarem.

Minos havia pedido aos criadores que cruzassem touros até conseguirem um que fosse espantosamente cruel em sua ferocidade, mas que ao mesmo tempo soubesse contra quem dirigir sua crueldade. Deveria saber escolher o objeto de seu ódio, numa fúria direcionada. O criador-chefe sorriu. O rei deseja um homem, não um touro. Mas como ordens são ordens, e a tecnologia serve a quem a sustenta, criou o Minotauro e manteve seu emprego bem remunerado.

Minos ficou feliz. De início visitava o estranho animal, que observava o rei com olhos agudos. Tão redondos, absurdamente pretos aqueles olhos pequenos e fixos. Mais tarde parou de entrar no labirinto, pois o bicho espreitava-o com olhos de sangue, e Minos sentia que não era querido por ele. O cheiro do poder tirânico incomodava o animal, de início, transformando-o em fera; a qualquer descuido destroçaria com prazer aquele rei e seu séquito, soldados tão bem armados, altos, fortes, empunhando espadas que usariam sem a menor cerimônia nem a mínima piedade, homens que nasceram como quaisquer outros, mas que aprenderam a obedecer e matar. E matar e obedecer é o que fariam até morrer, de uma forma ou de outra. E para cada déspota havia séquitos e séquitos de soldados, prontos a lutar e matar, por dinheiro ou prazer. Por que matar dava prazer, pelo menos do segundo em diante. A primeira morte trazia náuseas, dores na boca do estômago, dias e dias sem comer nem dormir direito, pesadelos e tristeza, geralmente camuflada de irritação e arrogância; depois ia se acostumando, voltava a comer e dormir normalmente após a morte; mais depois, ainda, acabava viciado, sem suportar viver sem sangue, como Lilith, desesperada, caçando nos desertos...

O sangue... Ah, o sangue, aquele vermelho grosso, aquele cheiro de ferrugem, a pele cada vez mais pálida, o corpo inerte... O sangue escorrendo despertava as sensações mais intensas e violentas, de quando corriam em bandos pelas savanas, tentando acuar e caçar um grande mamífero, e o cheiro do sangue excitava todos os sentidos, aplacava qualquer pensamento, até que só sobrava correr, matar, matar novamente, e novamente, e novamente, atrás daquela sensação absoluta de poder e paz que matar trazia. E nada como a paz da morte alheia, do sangue alheio, para acalmar a vergonha da subserviência, dos joelhos dobrados, da espinha curva. Matar era bom e necessário, para quem se sabe escravo, sem o saber.

Minos deixou de freqüentar o Labirinto - que medo têm os tiranos quando as coisas começam a escapar do seu controle, mesmo que imaginário -, e decidiu-se por encerrar Dédalo e seu filho ali, para que não contassem o segredo daquele lugar tão especial. Encerrar o criador em sua própria obra era garantir a destruição dos direitos autorais, e seu domínio por quem o contratou.

Quando as tardes avermelhadas começavam a cair sobre o Labirinto, e o sol se punha, escurecendo o mar, Ícaro deitava-se no chão onde estava encarcerado, e gemia, ao lado do pai, clamando por Éolo, deus dos ventos, que o tirasse dali do cativeiro, e invocava Hermes, para que o ajudasse, com suas asas nos pés; desde pequeno, no colo da mãe escrava, Ícaro havia aprendido o valor da liberdade, e pouco se conformava com aquela vida encerrado no Labirinto, que lhe haviam imposto contra sua vontade.

O menino de cabelos encaracolados corria pela praia e logo descobriu que não havia saída alguma daquela situação, por terra nem por mar, e só teria como escapar voando. Passou, então, a sonhar sonhos de liberdade e de pássaros, e até às Harpias teria se entregado de bom grado, se o tirassem dali, sem medo algum das funestas criaturas destruidoras, o que fazia sua mãe assustar-se com aquela ousadia toda, e tremer-se quando olhava as entranhas das aves que o menino caçava, pressagiando tragédias futuras.

Dédalo havia se acostumado ao cativeiro, ao menos exteriormente, nos braços da escrava que lhe haviam concedido, e olhando o filho crescer correndo na areia e nas pedras e escondendo-se nos meneios do Labirinto, onde o pai sempre o encontrava, pois conhecia todos os mistérios do que havia construído, deixando o menino furioso de não ter onde se ocultar, de não ter segredos só seus, e se sentindo vigiado por onde andasse.

Que mania dos velhos, pensava o menino, de se acostumarem a tudo, e se sentirem satisfeitos com qualquer ninharia com que fossem contemplados, e sofrerem de excesso de prudência, que o garoto chamava de covardia, de medo de mudanças.

Que menino audacioso, pensava o pai conforme ia envelhecendo, olhando o adolescente espevitado e agitado demais; em boa coisa tanto destempero não vai dar. O pai temia pelo filho, por demais intenso, e por demais indisciplinado, que fingia obediência, mas debaixo daqueles cílios se escondiam olhos de quem só fazia o que queria, sem pensar nas conseqüências. Cílios de animal selvagem, de águia pronta para o vôo, esperando seu momento oportuno.

Ao recolher o corpo do filho nos braços, e voar com ele para a ilha mais próxima, Dédalo, amargurado, não podia deixar de repassar na mente toda sua vida, seu amor pela música, pela matemática e pelos labirintos, e o amor do filho pelos pássaros e pelo vôo, aquele desejo intenso de ser livre e sugar tudo da vida. Enquanto enterrava sua pequena águia que havia voado para a morte por vontade de se expandir demais, sem desconfiar dos limites do corpo, pensou também na mulher que havia ficado em terra, a escrava abandonada, que olhava o mar e o vôo de pai e filho com os olhos apertados e a alma espremida de dor e resignação.

O sol que tinha derretido a cera das asas escondeu-se atrás das nuvens, o céu escureceu, cinzento, gelado, os pássaros silenciaram e tudo se fez noite em plena tarde. Éolo aprisionou os ventos, nada se movia, como no mundo antes de ser mundo, antes dos deuses se gerarem e olharem a massa amorfa do caos com seus olhos criadores. O coração do pai inchou de dor ... Era Dédalo e sua dor, suspensos no centro do mundo... Nem uma onda no mar...as penas das asas de Ícaro boiando, suavemente, marcando o local da tragédia... Dédalo inclinou seus braços, abraçando o corpo do filho como um pássaro no ninho.

Não deixaria que o mar fosse o ninho do jovem, de sua exuberância, que as águas dissolvessem aquele corpo, e os peixes e camarões o devorassem. Dédalo era terra, com seus labirintos de pedra, suas construções estáveis e que pretendia eternas, e enterrar o filho era essencial para ele.

Depois do enterro continuou seu vôo, para as ilhas do sul da Itália, pois a vida sempre haveria de continuar, qualquer que fosse o destino dos heróis como Ícaro; e ali gravaria nas pedras a história daquele vôo cego.


Eloisa Helena Maranhão

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