25 dezembro 2011

Apenas um pastor


E, no fim, não é isso que somos mesmo, meu querido, apenas pastores andando por aí sem rumo atrás de nossos sonhos?
A aldeia amanheceu normalmente agitada naquele dia... nada prenunciava o que estava por acontecer... era o mesmo sol absurdamente quente, a mesma necessidade de água que levava sempre à procura de poços, a mesma areia dura que queimava as solas dos pés, mas também servia para fabricar vasos, cântaros, tigelas, onde comiam juntos, tirando os bocados com as mãos da gamela comum e levando-os à boca, agradecendo ao Senhor por aquela comida, pouca, mas que raramente faltava. Eram idos os tempos da grande fome que os bisavós recordavam e os avós não se lembravam direito, mas contavam às novas gerações, quando gafanhotos haviam destruído as plantações, as águas secado, o solo empedrado... anos em que os animais que criavam foram sendo sacrificados aos poucos para matar a fome, e os sacerdotes tinham que defender os bocados de Iavé com imprecações contra aqueles que assaltavam os altares e roubavam os animais sacrificados, alguns comendo as vísceras cruas ali mesmo... e ninguém tinha coragem de apedrejá-los, se bem que seria merecido, por que a fome era maior do que o medo, e maior que a vontade de aplicar a justiça divina era a vontade de repartir os animais do sacrifício e saciar a fome...

Naquele dia mandaram Samuel aos poços mais distantes, buscar água, enquanto pastoreavam os rebanhos de ovelhas... Samuel gostava quando era sua vez de andar aquela jornada de dois sábados, que percorria cantando, passos e coração leves, mesmo que a volta fosse cansativa, mas quando se aproximava com os cântaros com a água fresca, as jumentas balançando, todos corriam para recebê-lo aos gritos, e ele sentia que sua missão tinha valido a pena...

Mas quando chegou, já ao entardecer, a aldeia estava estranhamente vazia... apenas alguns velhos sentados lhe avisaram que todos tinham ido até Belém, para ver o Mashiach que havia nascido num estábulo... os céus ainda estavam avermelhados com a glória dos anjos que vieram anunciar o nascimento daquele bebê tão especial, e Samuel ainda pôde ouvir os ecos das hosanas cantadas pelos anjos que haviam estado ali momentos antes...

Samuel descarregou a água valiosa, e correu o mais que suas pernas de menino de dez anos permitiam, na estrada que levava a Belém... sabia que o homem que mudaria sua vida, que daria sentido a ela havia nascido, e não podia agüentar a ansiedade de conhecer aquela criança abençoada pelos anjos celestiais.

No meio do caminho cruzou com os outros pastores de sua aldeia que voltavam, maravilhados, cantando e dando glórias a Deus, contando o que tinham visto e ouvido naquele estábulo, como era bonita e mansa a criança, que tinha os olhos mais profundos e o sorriso mais suave que já tinham visto... ao que Samuel perguntou espantado: mas já estava com os olhos abertos, o bebê tão novo? Claro que não, menino, estavam fechados ainda, e o bebê soltava vagidos leves de fome e sono, mas mesmo assim sabemos que os olhos eram profundos e o sorriso suave, afinal é assim que olha e sorri o Salvador...

Samuel continuou o caminho para Belém, não podia deixar de olhar naqueles olhos que salvavam, e ver aquele sorriso que libertaria o povo da dura opressão dos romanos... afinal, eram já quatrocentos anos sofrendo sem profetas, sem juizes nem reis, quatro séculos em que Deus silenciara nos céus, e agora havia se manifestado outra vez para seu povo...  aquele silêncio longo e opressivo havia deixado alguns irritados, outros deprimidos, outros angustiados, mas ninguém havia conseguido ficar indiferente... como ser indiferente à ausência de um Deus amoroso e fiel?... e agora que Deus resolvera reaparecer em grande estilo, Samuel havia decidido que não perderia a manifestação de seu Deus de maneira nenhuma...

Ficou impressionado quando viu uma caravana de homens muito diferentes, cobertos de panos coloridos, que evidentemente não eram hebreus, mas Samuel não conseguia imaginar de que povo seriam... um deles era negro como o ébano, outro muito branco de olhos como o céu de dia, sem nuvens, e Samuel pensou se aquele homem enxergava normalmente ou se a luz passava através dos seus olhos... fez-lhe sinal, e pediu notícias do menino que havia nascido numa estrebaria, ao que os magos responderam: o Rei dos Judeus está em Belém...

Chegando na estrebaria já ao anoitecer, Samuel olhou estupefato para uma grande estrela que brilhava ali em cima, e os animais deitados nas redondezas, tranqüilos... entrou correndo, mas havia apenas panos sujos de sangue e placenta e restos de alimentos... o menino já havia sido levado por seus pais... Samuel sentiu uma dor funda e ardida em algum lugar de si, pois chegara atrasado ao seu encontro, e aquela dor o acompanharia pelo resto da vida, até que olhasse nos olhos da criança que procurava...

Voltou para sua aldeia cabisbaixo, e por dias não queria comer, sentado na porta da casa com os olhos na estrada, pra onde levaram nosso Messias? Cantava as canções que sabia de sua infância, tentando consolar-se pelo desencontro, mas nada aliviava realmente aquela dor insistente... só saiu dali da porta quando, dias depois, foi arrancado dela pelas mãos de soldados que vasculhavam sua casa, matando a fio de espada as crianças menores de dois anos de idade...  ordens de Herodes, gritavam os soldados com as roupas e as almas manchadas de sangue, gritavam em meio aos urros das mães que tentavam salvar seus filhos pequenos, dos pais que pegavam facões para defender seus bebês e eram mortos juntos com eles, em meio aos olhares apavorados das crianças mais velhas, e ao desconsolo dos velhos, que choravam, impotentes... Samuel gravou em seu coração, junto com a lembrança de seu irmãozinho morto, que aquele menino que havia nascido devia realmente ter muita importância para ser perseguido assim desde recém-nascido... e tomou a primeira, grande e última resolução importante de toda sua vida: viveria para encontrar-se com aquela criança, e só encontraria sossego quando se olhassem nos olhos. Pelo menos um olhar.

Enquanto seu olhar não chegava, foi crescendo Samuel como crescem os demais meninos; aprendeu a ser pastor das ovelhas e compor canções para elas, que cantava junto aos riachos com a alma seca de saudade de dois olhos profundos e um sorriso suave que tinha medo de nunca chegar a ver em sua vida.

Cresceu silenciosamente, apenas com suas canções, e tocava insistente aquela: "Junto aos rios de Babilônia nos sentamos, a chorar, penduramos nossas harpas nos salgueiros do lugar... Nossos chefes nos pediam, pra zombar de nossa dor, que cantássemos um hino bendizendo ao Senhor... Como agora cantaremos a canção sem nossa voz? A tristeza fez morada, nos abate, estamos sós". Samuel conhecia dentro de si essa sensação de desolação de um exilado, daquele que está no mundo contra sua vontade, daquele que sabe que está fora do lugar. Pois o lugar de Samuel eram aqueles olhos e aquele sorriso do menino que havia dado sentido à sua vida aos dez anos de idade, e angústia pelos próximos trinta e três.

Num dia, perto dos dezoito anos, mandaram-no buscar água nos poços, mas faltavam cântaros, que o jovem deveria comprar na cidade vizinha; foi lá que conheceu a bela e doce Suzana, com olhos e cabelos de mel e que cheirava a tâmaras e hortelã; a menina ajudava o pai a fabricar cântaros, mas do que gostava mesmo era de ouvir e contar histórias, que inventava na hora sem um pingo de vergonha pelo tamanho das mentiras e um pingo de medo pelas conseqüências que costumava provocar. Pois tiveram efeito assolador sobre Samuel as histórias, os olhos e o cheiro de Suzana, e voltou apaixonado à sua aldeia, decidido a se casar com ela.

Não era o casamento que havia sonhado para a filha, mas a contadora de histórias já não podia viver sem o compositor de canções para as ovelhas, e o pai acedeu resignado ante a mulice da filha, como a mula de Balaão, suspirava o velho pelos cantos da casa, enquanto girava o pedal do torno com os pés e fabricava seus potes. Mas a mula era fértil e lhe foi enchendo de netos que alegraram seus dias e descansaram sua noite dos tempos, vivi com sentido, pensava o velho sábio. Já Samuel, talvez não tão sábio, não se sentia completar através dos filhos que enchiam e alegravam seus dias; faltavam-lhe os olhos e o sorriso de outra criança, que os seus não tinham o poder de substituir.

Suzana muitas noites havia deitado entristecida com a mudez do marido, chorando em silêncio pelos toques que desejava e não vinham, e sabia que era em outros olhos e sorriso que ele pensava, e não nos dela, de mel e tâmaras, que teriam enlouquecido e satisfeito qualquer outro homem, qualquer homem normal, dizia seu pai. Mas o amor que sentia pelo marido, e a compaixão por sua dor, a faziam mansa e paciente com ele, e dentro de si evitava pensar o que aconteceria no dia em que ele encontrasse o dono dos olhos desejados, ou, pior ainda, o que aconteceria se ele nunca os encontrasse, e morresse vazio em seus braços, recordando canções de ausência de uma vida inteira de busca.

Também aceitava com condescendência as outras mulheres que passavam pela vida do marido, pois tinha a suprema compreensão que procurava nelas também aqueles olhos e aquele sorriso, que suas paixões eram substitutas imperfeitas do amor que sentia pela criança que os anjos anunciaram e levaram embora envolta nas fraldas, antes que Samuel a pudesse ver.

No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos o governador da Judéia, e Herodes Antipas (filho do que matara os bebês, entre eles o irmãozinho que Samuel tanto lamentara) tetrarca da Galiléia, naqueles dias apareceu um estranho pregador nos desertos da Judéia, que dizia: arrependei-vos, por que está próximo o reino dos céus. Samuel ouviu as notícias sobre João Batista com o coração aos saltos, havia agora um novo profeta entre os judeus, depois de quatrocentos anos de quietude divina; será ele o Messias, pensou Samuel? Evidentemente abandonou tudo, avisando Suzana que partiria numa viagem até o deserto da Judéia, para olhar nos olhos do pregador que se alimentava de gafanhotos e mel silvestre e se cobria de pelos de camelo e um cinto de couro.

Samuel se ajoelhou dentro do Rio Jordão, confessando seus pecados e sendo também batizado, mas sabia que aquele não era o seu homem, e este também reconheceu na alma de Samuel a ausência daquele do qual o profeta não era digno de desatar as correias de suas sandálias, de quem era apenas a voz que clamava no deserto; sussurrou no ouvido de Samuel: eu te batizo em água, mas aquele que vem depois de mim te batizará com o Espírito Santo e com fogo. Samuel entendeu, e decidiu encontrar aquele que não conhecia, mas que o conhecia desde antes dos tempos serem formados.

Entretanto Samuel precisou voltar às pressas à sua aldeia, avisado de que seu sogro havia morrido, e ao voltar ao Jordão para esperar o Messias junto de seu profeta do deserto, ficou sabendo consternado que este estava preso e que mais uma vez havia se desencontrado de Jesus de Nazaré, a criança que desejava ver havia trinta anos. Pelo menos agora sabia o nome da criança, e seria mais fácil achá-la.

Sabendo que Jesus andava agora pela Galiléia, Samuel seguiu viagem; onde chegava ouvia contar dos feitos do Homem de Nazaré, que curava; multidões de ex-paralíticos, ex-enfermos, cheios de chagas, leprosos, tísicos, gangrenados, de olhos saltados, membros tortos ou quebrados, reumáticos, anêmicos, purulentos ou ensangüentados, órgãos internos expostos, com crostas na pele,  e cegos, e surdos, e mudos, expondo em seus corpos os pecados e as doenças múltiplas e repugnantes, ex-endemoninhados, dos que babavam, vomitavam verde, falavam palavrões de todos os matizes contra Deus, uivavam nas noites de lua cheia, comiam as próprias fezes e bebiam a urina,  ex-lunáticos de todos os tipos, dos que riam muito com ou sem motivo, dos que choravam demais, com ou sem motivo também, dos que riam e choravam ao mesmo tempo, dos que tomavam banho demais ou banho de menos, dos que viviam correndo fugindo de perseguidores imaginários ou nem tanto, dos que viviam acima de suas posses, gastando o que não tinham ou esbanjando os bens de família com presentes e doces para as crianças, dos que olhavam com olhar como vidro, sempre esperando o que nunca chegava... e muitos outros, de características as mais variadas, que não se sabia se eram lunáticos ou endemoninhados, mas que foram todos curados, e deixaram para trás, nos rastros daquele homem, suas dores físicas e morais, seus terrores noturnos e seus medos diários, seus ódios, mas também seus amores ilícitos, como uma esteira de mazelas curadas, um tapete de sofrimentos que clamava por si só, só por existir, e existir por tanto tempo até que aparecesse quem os curasse.

Ouviu completamente assombrado que aquele que curava os corpos curava também as almas sofridas e cansadas, invertendo tudo que era sabidamente conhecido pelos sacerdotes, pregando a quem quisesse escutar, e ouvidos tivesse para isso, e coração forte também, pregando que benditos eram os mansos, os humildes, os pobres, os despossuídos, aqueles que perderam tudo aos pedaços ao longo da vida ou aqueles que vieram ao mundo já sem nada, ou com muito pouco, benditos os que choravam, os famintos e sedentos de justiça, os perseguidos, enfim, benditos os que sofrem sem consolo, por que serão consolados diretamente pelo Pai; ouviu com olhos e coração arregalados, por que nunca lhe passara pela sua cabeça de pastor que os fracos eram os bem aventurados da Terra, o que diria Suzana quando escutasse uma coisa dessas, ela que gostava tanto das histórias de reis, princesas, ministros e autoridades, e sempre as terminava com os fortes felizes, e os fracos fortes por obra e graça da Providência, como Rute nos campos de Boaz. Que diriam os pastores de sua aldeia de um profeta que subverte os valores estabelecidos e manda amar aos próprios inimigos, coisa que em nenhuma cabeça sã passaria?

Mais espantado ficou, a ponto de se sentar no chão e esconder a cabeça entre as mãos, quando lhe contaram que aquele Jesus dissera para não se preocupar com nada, e viver como as aves do céu e os lírios do campo, que têm tudo do que precisam, e que o rei Salomão - sim, o Rei Salomão!, rico e poderoso a ponto de ter mais de mil mulheres e construir o templo de Jerusalém!- que nem ele se vestiu melhor que um singelo lírio; Samuel sentiu um frio e uma dor na barriga, por que tinha fome há dias, mas aquelas palavras milagrosamente alimentaram seu corpo, e sentiu-se com forças para andar mais quanto tempo e caminhos precisasse até encontrar o homem que falava com tanta e tão absurda sabedoria, e que estava tão, mas tão à sua frente, que Samuel chegava sempre atrasado, onde quer que o procurasse.

Às margens do mar da Galiléia Samuel ficou sabendo que sim, ele já havia estado ali também, e sossegado o mar durante uma tormenta, repreendendo os ventos; que também havia andado por sobre aquele mesmo mar, flutuando sem afundar; era então aquela criança dos anjos, nascido de uma virgem, o senhor dos elementos? Samuel tremia ao pensar nisso, em como podia um simples homem, homem nascido de mulher, como ele próprio, domar os ventos, dominar as águas do mar, e quem sabe controlar também o fogo e a terra? Quem era aquele homem cuja voz amansava as tempestades e cujos olhos e mãos devolviam a saúde, a felicidade e a vida?

Por onde andava ouvia contar das maravilhas que estavam sendo feitas, e gemia internamente de desejo de também ver aqueles sinais feitos pelo "seu" profeta; andava como louco pelas estradas perguntando e recebendo respostas as mais desencontradas, como quando lhe disseram, em Gadara, do outro lado do lago, que aquele Jesus estava sendo procurado pelas autoridades para prestar contas de uma manada de porcos que havia destruído, mandando-a precipitar-se de um despenhadeiro no mar, trazendo grande prejuízo aos porqueiros; ou quando chegou na cidade de Caná, cansado e faminto, e lhe deram vinho a beber, um excelente vinho que, diziam, tinha sido transformado da água de tonéis e servido no casamento de uma das filhas daquela casa; aquele vinho purificava o sangue e o espírito, disseram a Samuel, e este acabou dormindo uma noite inteira pela primeira vez desde que saíra de sua casa naquela busca, abençoado vinho, pensou, que lhe trouxe um sono tranqüilo depois de meses de sonos leves ou agitados demais, com sonhos demais e descanso de menos.

Vivia nas ruas, em estalagens baratas, ou onde pudesse dormir algumas horas antes de recomeçar sua caminhada; algumas mulheres colocavam ungüentos nas bolhas de seus pés, ou lhe davam côdeas de pão e um prato de ensopado ou azeitonas, em troca dos amores que sabia fazer, e bem; pensava sem culpa em Suzana na aldeia, pois tinha certeza que ela entenderia aquela troca justa, seu corpo por aquilo que o sustentasse. Muitas delas, viúvas ou sem marido imploravam que ele ficasse, não se fosse, e apresentavam o argumento de uma gravidez para prendê-lo, mas sempre sem resultados, e não se sabe quantos filhos semeou naqueles caminhos onde seu mestre semeara milagres e histórias.

Ficou sabendo que o profeta do deserto havia sido decapitado a mando de Herodes Antipas, e ajudou a enterrar o corpo e prantear aquele homem que o batizara no Jordão; da cabeça não tiveram notícia, mas séculos mais tarde ela valia muito, aquele crânio limpo, acinzentado, tendo enfeitado muitos lares de bons cristãos, e trazido bem-aventuranças para as casas que o possuíssem, pagando por ele com ouro ao Vaticano - mas isso é outra história; contaram para ele que, quando Jesus e o Batista se encontraram naquele rio, os céus se agitaram, pois um queria ser batizado pelo outro, e por insistência de Jesus João o acabou batizando; mas, então, perguntou Samuel cheio de dúvidas, quem era o mestre e quem o senhor? Contaram-lhe então o fim da história que falava por si mesma, que quando Jesus estava sendo batizado os céus se abriram, uma pomba desceu dos céus sobre ele, e uma voz retumbou: esse é o meu filho amado em quem me comprazo. Samuel adoeceu de agonia... Filho de Deus? Era isso que Jesus de Nazaré era? O filho de Deus, o Deus encarnado, aquele que estava prometido desde antes da criação do mundo, e que os salmistas cantaram, os profetas profetizaram, os cronistas anunciaram e os reis temeram?

Mas como o Filho de Deus podia agir de maneira tão esdrúxula, brigando com os doutores da lei, desentendendo-se com os sacerdotes e anciãos do povo, com quem estava sempre discutindo, como podia o esperado Filho de Davi ser tão incoerente, ora brigando, ora curando, ora compadecendo-se, ora falando duramente contra as multidões?

Como podia o Filho de Davi, o Mashiach judeu, curar a filha de uma pagã da Palestina, uma cadela cananéia que implorava por migalhas? E se fosse mesmo o filho de Davi, por que Davi o havia chamado de "meu Senhor"? Essas perguntas e outras Samuel guardava dentro de si, onde o espetavam pontiagudamente, mas nem essas nem outras perguntas nunca encontraram quem as respondesse. Como podia esse homem ser o Messias agindo de maneira tão incongruente, compadecendo-se de estrangeiros da pior espécie? Samuel matutava nas histórias que havia ouvido sobre um casamento em que os convidados não comparecem, e o rei revoltado manda seus servos destruírem os convidados e saírem pelos caminhos e encruzilhadas chamando a quem queira vir para a festa; e multidões de despossuídos, de pobres e mendigos aceitam o convite e são recebidos com honras no palácio, comendo e se regalando, enquanto os convidados iniciais foram deixados de lado...

Samuel ficou dois dias de cama, doente de angústia, sem conseguir entender tudo que ouvia, e por fim levantou-se quando lhe avisaram que Jesus estava perto dali, no deserto, para onde havia se retirado para chorar a morte do Batista, seu primo.

Mas de novo e mais uma vez Samuel chegara tarde; Jesus já havia partido dali também; enlouquecido de tristeza e quase desmaiando de fome Samuel recebeu pães e peixes de um cesto, coma quanto quiser, disseram-lhe, que não podemos cobrar aquilo que nos foi dado de graça; e Samuel ficou sabendo que havia mais onze daqueles cestos, cheios de pães e peixes que sobraram depois de alimentar as multidões que se chegaram para ouvir Jesus, muitas horas antes; e que aqueles pães e peixes não apodreciam, mantendo-se sempre frescos como o maná no deserto; ficou sabendo que, apesar da dor que sentia pela morte do primo, Jesus olhou para a multidão e se compadeceu dela, e por isso havia multiplicado cinco pães e dois peixes, e todos foram saciados, sobrando para saciar Samuel também. Ele comeu com os olhos cheios de lágrimas, agradecendo ao Deus que enviara aquele homem, e descansou outra vez, mas acordou de um sonho agitado onde olhava as outras margens do lago e via um vulto de homem rindo dele, jogando cestos de pães e peixes nas águas e entornando barris de vinho, e os pães tornavam-se homens e os peixes punham-se a nadar, e o mar se tornou rubro, e então o homem mergulhou nas águas vermelhas e desapareceu.

Samuel começou a pensar que, se não estava enlouquecendo, louco estava então o Homem de Nazaré, se é que existia tal homem, e não eram apenas lendas o que andavam espalhando por toda a região da Judéia, Galiléia, Decápolis, Jerusalém e dalém do Jordão, afinal todos contavam histórias mas Samuel não lhe havia posto os olhos, nem ouvido suas palavras, nem experimentado de seus alardeados milagres.

Começou a pensar, cheio de dor e mágoa, que aquele homem não passava de uma fraude, que nunca havia existido, e que tudo eram invenções de quem desejava tanto um profeta quanto ele próprio. Desistiu de sua busca e voltou para casa, com o coração desiludido e a alma esvaziada.

Suzana olhava seu homem entristecido, sem ilusões, nem irritado mais ele ficava, apenas trabalhava, ganhava o pão para si e sua família, e tudo estava bom; ouvia os monossílabos com que ele respondia às perguntas insistentes que ela fazia, na tentativa de trazê-lo de volta à vida, de fazê-lo falar novamente e novamente ter brilho nos olhos e novamente sonhar; mas Samuel estava sofrendo de profundo enfado, e só queria ser deixado morrer, como um bicho doente que se esconde num canto da toca e fecha os olhos. Sentava-se depois do dia de trabalho na frente da casa, olhando a estrada com olhos extraviados, e nada fazia diferença; lembrava-se de quando era criança e ouvia os antigos contando que se sentavam ali também olhando a estrada na esperança de virem voltar os mensageiros com boas novas; nas épocas de guerra ficavam lá sob o sol queimando, os olhos ardendo espiando ansiosos a estrada poeirenta, esperando o ataque dos inimigos, passando sede, fome, vendo os filhos e amigos morrerem, seus campos e cidades destruídos, e de repente apareciam nos montes, lá longe, pés pequenos que iam crescendo ao chegarem perto, as sandálias dos mensageiros vindo contar que foi feito um acordo de paz, que a guerra havia acabado. Samuel lembrava-se da canção que ouvia no templo, "formosos são sobre os montes os pés dos mensageiros que trazem a paz", mas esse cântico já não lhe falava nada, pois as boas novas que desejava ouvir é que Jesus de Nazaré existia e estava perto, podendo ser tocado e visto, mas disso Samuel já havia abdicado. Mantinha-se vivo somente, sobrevivendo à falta de sonhos e de esperança.

No entanto, como nem os sonhos são eternos, e nem a falta deles, um dia chegaram à aldeia dois homens que se diziam enviados do Senhor, e faziam parte de um grupo de setenta que tinha a missão de preceder seu Senhor nas cidades por onde ele ainda passaria; Samuel os recebeu de bom grado em sua casa, onde se hospedaram, juntamente com a paz que traziam, comeram, e curaram os enfermos de toda a redondeza. Numa noite acordaram ouvindo gritos de uma das noras de Samuel, grávida de alguns meses, que sangrava e dizia que Lilith estava lhe levando a criança de dentro de si; haviam esquecido um copo d'água no sereno, e este tinha atraído os demônios do deserto, sempre à procura de água, sempre sedentos de alminhas de crianças, quanto mais tenras melhor, que disso se alimentavam; a aldeia se reuniu para orar, clamando por ela ao Senhor, mas de nada adiantavam os clamores, até que um dos enviados levantou-se, colocou a mão espalmada sobre aquele ventre e bradou: arreda-te Satanás, em nome de Jesus; então a noite se acalmou, o ventre voltou a pulsar normalmente, e Samuel viu, espantado e aliviado, que sua nora e neto estavam salvos.

Depois que os enviados partiram, Samuel passou tempos pensando em tudo que tinha visto e ouvido, e decidiu recomeçar sua busca; pôs-se de novo na estrada, perguntando e perguntando; sua jumenta estava grávida, e acabou parindo na estrada; Samuel amarrou o novo jumentinho, que nunca havia sido montado, numa árvore ali perto de onde dormia ao relento; mas chegaram dois homens que soltaram o jumentinho e o foram levando; Samuel correu atrás deles e perguntou por que estavam fazendo aquilo, e como resposta ouviu um "o Senhor precisa dele, mas logo o mandará de volta"; tiveram que levar também a jumenta que ainda amamentava seu filhote, e Samuel ficou ali mesmo, esperando que devolvessem seu animal, o que foi feito alguns dias depois; e Samuel decidiu então seguir viagem até Jerusalém, que estava perto.

Encontrou em seu caminho uma mulher que voltava de Betânia e lhe pediu para acompanhá-lo até Jerusalém já que era uma prostituta e estava só, e só ficaria pelo resto da vida, havia decidido isso naqueles dias, afinal tinha tido seus pecados perdoados, e não pretendia voltar a praticá-los; Samuel ficou enlouquecido pela proximidade daquela mulher de grande beleza e ao mesmo tempo a mais perfumada que já havia visto, mas sentia que realmente não podia tocá-la, pois seus olhos inchados resplandeciam uma espécie de santidade; seus cabelos cheiravam a perfume fino, perfume derramado do seu vaso de alabastro nos pés do seu Senhor, ungindo-lhe e perfumado os pés com ungüento, depois de lavá-los com suas próprias lágrimas, e afinal enxugado com seus cabelos, que, desde então, nunca mais perderam aquele perfume, por mais que os lavasse, até o fim de seus dias anos depois, quando então foi martirizada numa cruz por ordem do rei Agripa, e seus cabelos continuaram exalando em seu túmulo, e toda flor que sobre aquela terra nascia, pelo resto dos séculos e milênios não cheiravam a rosas, nem lírios, jasmins ou dálias, mas àquele perfume, e isso também já é outra história.

Samuel e aquela mulher, a quem passou a chamar de Betânia, partiram juntos para Jerusalém, e ela lhe contava tudo aquilo que Jesus de Nazaré havia feito naqueles três anos, e que era o homem mais doce mas mais amargo, mais puro mas mais amigo de todos os impuros, mais feliz mas mais triste de todos que já havia conhecido; que cumpria toda a lei, e ao mesmo tempo a descumpria toda, pois que era o Filho de Deus com poder para isso, e guardava os sábados e quebrava os sábados, e lavava as mãos antes das refeições e comia com mãos sujas, e curava e ressuscitava mortos e orava nos montes e chorava desconsoladamente quando via multidões sofridas e amigos mortos, mas que também secava figueiras com os olhos, e um simples olhar seu desnudava os pecadores e os fazia fugir envergonhados. E que dizia aos seus seguidores que fariam isso tudo também, e muito mais, se tivessem apenas um pequeno grão de fé.

Sentavam-se para comer debaixo das árvores, sempre conversando sobre Jesus de Nazaré, e aquelas histórias alimentavam a alma de Samuel; numa das manhãs em que comiam ouviram um barulho na estrada, e era uma mulher que corria desabaladamente de uma pequena multidão que a perseguia; Betânia reconheceu naquela corrida os passos da adúltera que foge depois de ter sido pega com seu amante, e sentiu o medo que sempre sentia quando amanhecia o dia na cama de algum homem, e esgueirava-se sorrateira com medo daqueles mesmos homens que usavam seu corpo à noite, para de dia apedrejá-lo sem piedade, caso fosse achada na cama de algum deles. Escondeu o rosto no ombro de Samuel, que tudo olhava aterrorizado, pois nunca havia se acostumado com aqueles apedrejamentos, e cada pedra doía sem misericórdia em seu próprio corpo, até que se deitou extenuado junto de Betânia, depois de terem recolhido e enterrado ali mesmo o corpo da outra mulher. Vendo a dor de Samuel, Betânia tentou consolá-lo dizendo que se Jesus estivesse ali tudo seria diferente, e ela mesma havia visto uma adúltera sair ilesa de entre a multidão quando Jesus se postou entre a mulher e seus juizes, e dito quem não tiver pecado que atire a primeira pedra. E a multidão cheia de vergonha havia abaixado as mãos já levantadas, soltado as pedras no chão e voltado para seus lugares com seus próprios pecados, deixando a adúltera em paz e perdoada.

Samuel afligia-se dentro de si, tudo que queria e precisava na vida era colocar seus olhos uma só vez nos olhos daquele homem, e implorava a Betânia, nas noites em que a lua lhes excitava os sentidos, que o deixasse experimentar daquele perfume que havia ungido os pés de Jesus, que era O homem, e o homem deles dois. Numa daquelas noites Betânia finalmente acedeu aos toques de Samuel, por pena de início, mas cheia de desejo conforme ele lhe acariciava os cabelos, cheirava-os profundamente, beijava seus lábios e suas mãos como desejava fazer com seu homem, penetrava-a, e ela se deixava possuir no corpo como já havia sido possuída na alma por Jesus de Nazaré, gemendo e enroscando suas pernas na de Samuel; nunca havia sido tão amada assim por homem nenhum, mas sabendo que todo aquele gozo nada era comparado com os olhos do homem deles. E assim seria com ela até morrer por seu Senhor.

Entraram em Jerusalém numa sexta-feira à noite, e tudo estava estranhamente quieto; não havia a balbúrdia normal de uma grande cidade, e lhes contaram que naquela tarde os céus se haviam escurecido bem mais cedo, e o sol não brilhara mais; caía a noite, e tinham medo que Deus tivesse lhes retirado o Sol da Terra, por que haviam matado seu Filho no Gólgota, a montanha da caveira careca. Samuel e Betânia olharam-se desesperados e correram para o templo, onde encontraram o véu do santuário rasgado de cima em baixo, e ecoando ainda lá dentro um grito "deus meu, deus meu, por que me desamparaste?", e Samuel e Betânia compreenderam que nunca havia tido, nem nunca mais haveria grito como aquele, e desamparo como aquele e dor como aquela; encontraram também o sumo-sacerdote ajoelhado com a morte nos olhos, e assim foi até sua própria morte, Caifás carregava no centro de seus olhos a cruz daquele justo que deixara assassinar pelos romanos; seu olhar passou a secar tudo à sua volta, e as pessoas fugiam aterrorizadas quando o fitavam, e ele acabou por furar os próprios olhos, mas a cruz continuou no meio daquele olhar vitrificado; vendou os olhos, mas a cruz resplandecia por sobre a venda; então se retirou para os cômodos do fundo do Templo, e de lá exerceu suas funções, mandando perseguir, prender e matar a todos que ousassem seguir as idéias daquele homem, obcecado pela cruz que morava em seus olhos, e lá morreu velho, maldizendo e chamando por Jesus de Nazaré e nunca o ouvindo responder.

Mostraram o túmulo de Jesus a Samuel e Betânia, que choravam juntos, e este resolveu voltar para sua aldeia e os seus. Pegou um pouco daquela terra que rodeava o túmulo, como sinal de que seu homem estava realmente morto, e nunca soube que seu gesto seria repetido por muitos que no futuro se diziam cristãos, como sinal de que se encontrava vivo aquele Jesus, guardando em casa terra santa, e água santa, e madeira santa da mais santa cruz, madeira suficiente para crucificar Jesus numa floresta inteira, e terra suficiente para transformar Jerusalém numa rocha dura, caso houvessem retirado aquela terra toda de lá, o que Samuel consideraria uma loucura, se tivesse imaginado. Seus sonhos haviam sido mortos naquela cruz e enterrados naquele túmulo, e com as costas arqueadas e a respiração lenta e difícil dos velhos, pôs-se no caminho de volta, sozinho, que agora seria assim, sempre sozinho até que Deus se apiedasse dele e lhe tirasse a vida também.

A cada passo na estrada do retorno, para longe de Jerusalém e de Jesus, Samuel sentia a alma minguar, e minguou até que se tornou em lua nova; "ah, Jerusalém, se eu me esquecer de ti, que se me apegue a língua ao paladar e me resseque a mão direita"... Samuel sentia isso a respeito daquele Jesus, e sabia que mesmo morto não se esqueceria jamais daquela promessa e esperança malogradas... Recusava consolos, palavras vãs, batidas nos ombros ao som de "a vida é assim mesmo, Samuel" ou "esquece tudo isso e volta a viver". Foi o que fez, ou pelo menos tentou fazer, continuando a cuidar das ovelhas e agora dos netos, sob o olhar atento e amoroso de Suzana, sua Suzana, que já não cheirava a tâmaras e mel, mas começava a ter os odores amargos da velhice; e ele a amava mais ainda por isso. Manteve sua vida, mesmo sem esperança, pois a única esperança que tinha tido e lhe dizia respeito eram os olhos daquele Jesus, e isso nunca mais veria. Sua alma estava escura, sem sol nem lua, como o céu de Jerusalém no dia daquela morte que matou também sua vida. Jesus não existia mais e nada mais importava no mundo.

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Algum tempo depois resolveu Samuel fazer nova viagem a Jerusalém, a pedido de Suzana, que queria passar a Festa da Colheita lá; já se haviam passado cinqüenta dias da Festa das Primícias, e naquele ano Samuel não havia ido a Jerusalém para a festa, vender seus cordeiros, que eram os mais bonitos, mais gordos da gordura que cheirava melhor nas narinas divinas, e os que choravam lagriminhas mais sofridas e silenciosas quando sacrificados, sendo disputados pelos ricos que os podiam pagar; naquele ano, entristecido desde a crucificação de seu Jesus de Nazaré, Samuel mandou os filhos venderem os cordeiros, e ficou em casa com Suzana; mas agora ela havia insistido em que fossem à outra festa, e Samuel separou sete cordeirinhos sem defeitos, de um ano de idade, um novilho e dois carneiros para oferecerem a Iavé, que se regozijaria com aquele aroma agradável de quando a fumaça subisse até seu altar.

As ruas se encharcavam do sangue dos animais, que escorria e cheirava longe até que a terra se empapasse e absorvesse o sangue no lugar da água, que era rara e tão benvinda.

Samuel estava impressionado com o barulho e a agitação daquele dia, tão diferente da última vez em que lá havia estado e voltado sem luar no coração; agora era clima de festa, mas não havia festa na alma de Samuel. Nunca mais haveria, pensava ele cheio de dores.

Mas ainda cedo, na hora terceira do dia, surgiu do Cenáculo um som de vozes, uma gritaria ensurdecedora, e Samuel e Suzana correram para lá junto com a multidão; e as vozes eram como uma Babel ao contrário, pois que a original havia separado a humanidade em línguas e nações, e esta deveria unificar de novo os homens num só povo, todos falando a mesma língua e todos se entendendo, e em meio à multidão atônita e perplexa, doze homens se levantaram e um deles começou a falar, e cada palavra sua penetrava como lança no coração de Samuel, que não sabia o que fazer, pois ouvia que Jesus de Nazaré, o seu Jesus, aquela criança dos anjos, profetizada pelos profetas, salmodiada pelos salmistas, e esperada pelos que sabem esperar, aquele homem que havia feito sinais e milagres de todo o tipo, e morto na cruz como rebelde insubmisso, sim, aquele homem era verdadeiramente o Mashiach e estava vivo, havia ressuscitado e estava agora exaltado à direita de Deus.

Samuel ouviu tudo com o coração fazendo espuma e transbordando em bolhas com essa nova esperança, e foi batizado pelos apóstolos daquele Cristo.

A espera e a busca de Samuel haviam acabado. Seu próprio nome passou a fazer sentido, pois sabia agora que Deus o ouviu, ouviu tudo que se passava em seu coração, sua busca e sua angústia, desde antes dele próprio sabê-las.

Enfim ele havia entendido que nunca olharia aquele Jesus nos olhos, por que estava fadado, desde a formação do mundo, a ter aquele Jesus morando dentro de si. E doravante, se O quisesse olhar, teria que olhar em seus próprios olhos e para dentro de si mesmo.



Eloisa Helena Maranhão.

Alma lambida

"Há sensações sentidas só com imaginá-las, que são
mais nossas do que a própria vida". (Fernando Pessoa)

Era um dia, um dia qualquer como quaisquer dias, que são eles todos iguais, todos incontados, como incontados são os anos de vida de qualquer pessoa daqueles tempos, que nasce fragilzinha nos braços e seios da mãe, se sorte tiver de não tê-la matado no parto, cresce e murcha, morrendo fragilzinha nos braços e seios do Senhor e de Abraão, se sorte tiver de não ter matado a Deus em vida.

Mas vamos à história de Beatrice, a bela, inteligente, sensível e apimentada Beatrice, melhor seria pintá-la doce e de matizes suaves, mas mentira seria, e não minto aqui, não aqui, quando a verdade do que conto é tão importante quanto a verdade do que se passou com a herege Beatrice.

Era bela, de olhos claros como um dia de verão e cabelos longos e finos, sempre brilhantes apesar dos piolhos, da gordura, das tranças e do cheiro da fumaça; dentes brancos e fortes, apesar da comida faltosa de verduras, que se comia o que tivesse e quando tivesse, quando os invernos não fossem rigorosos demais, nem rigorosos demais os impostos, que eram muitos, arrancando sangue das mãos, suores do corpo e alquebrando as almas, que se cansavam cedo e cedo se entregavam ao pó e a Deus, que as deu e delas não cuidou. Assim começou a nascer a herege dentro de Beatrice, quando olhava os avós e pais e sentia um pesar profundo dessa vida que estavam fadados a carregar mesmo sem querer, e que decreto nenhum poderia mudar, mas com ela seria totalmente diferente, nem Deus nem os nobres nem o clero fariam dela o que fizeram de seus pais. Mas isso conto depois.

Era inteligente, como inteligente é o leitor que já notou isso, identificando-se com a herege que questiona e sonha acordada, e pensa que pode fugir do destino e de seu estrato social; e olha que questionar hoje em dia, para nós filhotes do iluminismo, crias da modernidade, olha que questionar hoje é muito fácil e desejável, mas questionar naqueles tempos era difícil, duro e doloroso, doído na carne e na alma, alcançada em seu cerne pelos instrumentos de suplício, se preciso fosse - e quase sempre preciso era, ou, se não era preciso, fazia-se do mesmo jeito, que dava prazer tocar a alma dos hereges através dos toques nos seus corpos. Mas isso também conto depois.

Era sensível, de amar a qualquer um, entregar-se de coração aberto, mãos acariciantes e olhos cheios de lágrimas, e entregava-se sem qualquer acepção de pessoa, amava incondicionalmente homens, mulheres, crianças, ricos e pobres, cachorros, mulas, gatos de cores variadas, inclusive os pretos nefastos que despertavam medos, amava as cabras, as ovelhas, os bois que mugiam languidamente nos pastos, as estúpidas galinhas dos quintais, os porcos dos currais, as aves dos céus, os peixes do mar e as bestas-feras do campo. Escondia-se quando era dia da matança dos porcos e galinhas, pra não ver seus amados sacrificados, e prometia nunca mais comer carne, mas quebrava essa e todas as outras promessas, que era outro de seus muitos defeitos, prometer e não conseguir cumprir, mesmo que prometesse com a alma de joelhos, com todo seu ser, mas na primeira dificuldade, ou na segunda pontada de fome ou vontade voltava a comer, e se divertir, e fazer tudo que lhe desse na telha, pois só era fiel a si mesma, aos seus instintos, intuições, à linha mestra que permeava sua vida desde que se percebera gente, e gente decidira ser então, diferente das galinhas, vacas, ovelhas e águias, pais e avós, e tão igual a todos eles.

Também era apimentada, das que brigam, xingam, levantam a voz e gesticulam, de gestos ativos, subindo e descendo quando melhor lhe aprouvesse, sem nunca esperar que lhe dissessem como agir, ou, pior ainda, esperar que agissem por ela; era exatamente daquele jeito de quem nasceu pra ser queimada na fogueira, benziam-se as avós, sofria a mãe, deplorava o pai, morriam de invejas mudas os irmãos (sim, por que inveja represada é muda, e não surda, pois que ouve tudo e tudo cala, parindo e fazendo crescer o ódio até vazar, mas isso conto depois).

Ela também deixava tudo para depois, que o agora servia pra viver e fazer o que tivesse de ser feito, e o que tinha de ser feito era o que sua alma ansiava, deitar nos pastos ao sol, contar nuvens, tomar chuva, pular pedras, entrar nos rios e fontes, comer fora de hora, rezar muito até Deus se tornar presente (e isso nunca aconteceu, por mais que se esforçasse e desejasse, mas não foi culpa dela, coitada, que esfalfou-se na capela da paróquia, sangrou os joelhos em terra, fez jejuns intermináveis, extenuou-se de tanto clamar, chorar e implorar pela presença daquele Deus misericordioso que sempre atende às preces e ouve as orações, buscai-o enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto, Beatrice ouvia comovida e cria, pobrezinha, até ao ponto de enlouquecer ou de ser considerada louca, o que não fazia muita diferença, por que a loucura, como sabemos, e eles não, depende tanto de quem é quanto de quem vê... mas não se preocupem, como Beatrice não se preocupou, que assim como vem a loucura vai, passa como sarampo, se não matou nem deixou seqüelas... por sorte ou desígnio divino, que não sei julgar, nem ela sabia, sua loucura passou logo, ela sarou os joelhos com ungüentos de ervas cicatrizantes pois isso de quando casar sara não era com ela, que tudo queria na hora ou no dia anterior, e voltou a viver normalmente como as vacas e galinhas, esquecendo os santos que queria imitar).

Quer dizer, voltou a viver normalmente já foge um tanto à verdade absoluta que aqui pretendo e prometi contar, se bem que não sou muito afeita de nascimento a verdades absolutas nem a cumprimentos de promessas, assim como a doce Beatrice, que apesar de toda pimenta era tão doce, e por isso queimá-la na fogueira seria tão desastroso e dolorido para toda a aldeia, por melhor fosse o cheiro adocicado daquele corpo. Mas não nos antecipemos, que talvez ela nem seja queimada, pode ser que Deus misericordioso dela se compadeça e livre-a das mãos inquisidoras e cruéis do seu próprio Santo Ofício, nunca se sabe com certeza o que pensa o Senhor, e isso é o que dá graça ao mundo, e Graça também, por que se soubéssemos de antemão seria um tédio sem graça, e sem Graça seria também, que só precisamos da Graça divina justamente por nada saber do futuro, que a Deus pertence e só a nós interessa, é nisso que reside a suprema tragédia humana.

Voltando Beatrice a viver normalmente, pegou gosto pelas ervas, depois de criar aqueles ungüentos que melhor cicatrizavam os joelhos sem deixar marcas; passou a colher todo tipo de plantas e experimentar pomadas, chás, pós e pastas nos animais quando doentes ou acidentados, depois em si própria, o que numa das vezes lhe fez caírem todos os cabelos após tomar uma quente infusão de ervas, mas considerou isso apenas um erro de percurso, voltando aos seus chás e ungüentos logo que os cabelos cresceram novamente e os adultos a deixaram em paz; até que perceberam que aquelas ervas eram boas e curavam, e o jovem pároco, doente, foi curado de suas dores e suores por um dos bálsamos de Beatrice, que tudo guardava de cabeça, ervas, quantidades, como fazer, até que sentiu vontade, mais que isso, necessidade de aprender a escrever para anotar os remédios tão benvindos. Ao que o pároco, depois de muito orar e pedir a orientação do Senhor, como convém a um servo fiel, teve enfim a revelação numa noite de insônia em que anjos pousaram em seu quarto, teve a revelação que pelos frutos se conhece a árvore, e os frutos daquelas ervas não eram daninhos, longe disso, saravam os corpos e as almas, e, portanto, Beatrice poderia continuar fabricando-os e aplicando-os, tratando as feridas com seus dedos e canções, não devendo ser incomodada. E além do mais aprenderia a escrever, ensinada pelo próprio pároco, que era o único letrado da redondeza, e faria isso por obediência ao Senhor, que nunca pedia nada diretamente, como convém a um verdadeiro Senhor, mas mandava anjos pedirem em seu nome, e ai de quem O desobedecesse.

Temeu o padre apenas quando descobriu que era canhota a menina, escrevia com a mão esquerda, mas quem era ele, um pobre pároco de aldeia, para questionar os desígnios de Deus, que a criara assim canhota e enviara os anjos para advogar em seu favor. Continuou o padre então a ensinar a menina, e isso foi feito até os homens da Visitação chegarem em seus cavalos ataviados como as éguas dos carros do faraó, requisitarem os remédios e as anotações da herege e considerarem tudo aquilo prova cabal da mais pura heresia (o que é cabal, leitor? Procure você no dicionário, que eu escrevo e você interpreta, como convém à literatura), mas como dizia, considerou o Santo Ofício que Beatrice praticava cabal heresia, mesmo contra o que haviam dito os anjos que tinham visitado o padre anos antes, agora ignorados como mensageiros de Satanás, e ante autoridade tão suprema o padre calou-se e esqueceu-se das mensagens angelicais, afinal maior é o Senhor do que nossas experiências pessoais, passíveis de erros e falhas de interpretação. O que evidentemente não ocorre com a Santa Inquisição, nem com outra autoridade eclesiástica, que nunca erra nem interpreta mal, glória a Deus.

Enquanto aprendia a escrever e ler com o padre, e tinha liberdade para perambular pelas hortas, pastos e até pelos bosques à cata de suas ervas e plantas, Beatrice começou a pensar demais, pois que tinha tempo sobrando (e não se esqueçam que mente desocupada é oficina de Satanás, já dizia a avó de Beatrice e a minha também, e de nada, sempre às ordens pela sabedoria ancestral que aqui ensino mesmo ainda não sendo avó, o que espero ser um dia, pra dar doces às crianças e contar histórias sábias e edificantes a elas), e pensando demais começou Beatrice também a demais sentir, demais intuir, ler demais, e tudo isso foi tão demais que ela transbordou, passando a falar demais, o que foi sua desgraça. Falava o que pensava, sem medo de ser feliz, ou infeliz, como sentia sua mãe em algum lugar oculto de seu ser maternalmente intuitivo, falava, cantava, criava poesias, que recitava aos velhos e crianças, fazendo-os rir, pois que são raros os que pensam no que ouvem de profundo, e muitos os que riem sem nada entender. Pelo menos riam, mas a semente lançada acabou frutificando em muitos, crescendo a árvore, botando galhos, copas frondosas, enraizando, até que era tão grande a planta que já não havia como não ser vista, e os homens da Visitação sentiram-se na obrigação e no prazer de visitar a aldeia, pra ver que árvore era aquela que nascia e crescia e fendia o solo firme da fé cristã e da sã ortodoxia.

Chegaram, viram, e não gostaram nada do que viram, uma aldeia inteira, com mais de duas centenas de almas, entregue a devaneios heréticos, a sonhos heréticos, a gestos heréticos, e heréticos atos, e heréticas falas; a heresia grassava solta, voava, nadava, corria pelos campos, aprofundava-se nos pântanos das almas, borbulhava e soltava fagulhas, pipocava, dava cambalhotas e gargalhava sem pudor, como convém às boas heresias, àquelas que mais atraem e mais devem ser destruídas rápida e eficientemente antes de se espalharem demais e se tornarem irrevogáveis.

Mas tão grave quanto aquela aldeia tomada pela heresia era o estado da alma e do corpo da herege-mor, apaixonada perdida e irreversivelmente pelo pároco que a ensinava com carinho e dedicação, mas tão apaixonada que não teve o menor escrúpulo nem pudor de deitar-se com ele, deixá-lo amá-la, acariciar seu corpo, ensiná-la a gemer em suas mãos, enroscar-se toda nele e deixá-lo enroscar-se em sua alma, possuí-la até que se tornou dele a ponto de não saber mais como viver sem aquele amor, e ver seu ventre crescer, grávida e em paz.

Contaria ele mais tarde aos santos inquisidores, de olhos baixos, que havia sido enfeitiçado pela herege, as mulheres são isso, vasos do demônio, seres terríveis que nos lançam olhares, cabelos e pernas torneadas como redes que pescam nossa alma e nosso corpo, enchendo-nos de desejos, suores e gemidos, fazendo-nos esquecer quem somos, de onde viemos, para onde vamos e o que viemos fazer aqui, neste mundo tão necessitado de Deus, e mais necessitado ainda por acolher as mulheres, se fosse feito somente de homens necessidade de Deus teria, mas menos, pois que o Diabo não rugiria tanto e nem tanto atacaria, como faz através das bocas, dos risos, das lágrimas e dos corpos das mulheres. Contava tudo isso o infeliz e tremelicante padre, perante os visitadores que o compreendiam e tiveram grande pena de seus sofrimentos, piedade que não tiveram da pobre Beatrice, a rebelde, a herege, a desviada e apóstata, que por isso mesmo e mais um pouco que nunca confessaria, mas que eles podiam adivinhar, era mais precisada de toques no corpo que a fizessem reconhecer e confessar seus pecados, como feridas exsudadas que só saram depois de muito vazar.

Passaram então aos sagrados suplícios, de início até com certo cuidado, pois que a herege também era de Deus criatura, mesmo tendo sido destituída de seu status de filha pela sua apostasia, mas que como criatura, se bem tratada e devidamente penitenciada, poderia reconhecer tudo de mal que fizera, e se não fizera diretamente, indiretamente provocara; então, tocavam-na com delicadeza, torcendo seus membros com carinho, quebrando-lhe os dedos com mansidão, com dedos carinhosos espremendo seus mamilos protuberantes de grávida, lanhando-lhe as costas bem feitas com fitas de couro e nós, e também com unhas lúbricas de puro amor cristão, o agape com que Deus dotou seus servos e que tudo faziam para sua honra e glória, em meio a rezas que gemiam e suavam, enquanto Beatrice tudo suportava pensando em Deus e no padre Bartolomeu. E enquanto Beatrice gemia, chorava ou gritava, nos momentos de dor insuportável, Bartolomeu escutava a amada de seus aposentos, pois a cela da herege ficava nas dependências da paróquia, e gemia, chorava e gritava também, esfregando-se nas paredes, na palha de sua cama, flagelando-se e deitando por terra seu próprio sêmen, sêmen esse que melhor teria sido recebido no corpo da amada, mas que agora já não tinha receptáculo adequado, e caíam chorando por terra - o sêmen e o padre.

Instada a confessar de quem era aquela criança bastarda que esperava, Beatrice se recusava à denúncia, por amor e lealdade ao pai de seu filho, enquanto o pai, por covardia, mas também amor e fidelidade à própria vida, nada contou, com medo de ser com a amada envolvido numa acusação de bruxaria. E foi ele próprio, num momento de grande inspiração - só podia ser de Deus tamanha inspiração salvadora!- que fez saber de púlpito que aquela criança era filha de um cão, O Cão, que havia possuído Beatrice inconsciente durante seus sonhos, entrando pelas portas da heresia, e saindo pelas janelas da fantasia da herege.

Satisfeitos ficaram os habitantes da aldeia com aquela explicação divinamente inspirada, satisfeitos ficaram os santos doutos da Visitação, satisfeita ficou a própria Beatrice, que se sentiu feliz e realizada de ter sido amada de maneira tão profunda e gratificante por um cão, um cão magrelo, falante, dominado pela lubricidade, mas tão doce, como doces e lúbricos são os cães consagrados ao serviço do Senhor, os cães com sacerdócio santo, mais ternos e mais tomados pelo desejo que qualquer outro homem, do que qualquer laico; a história do cão magro que havia possuído o corpo de Beatrice se espalhou pela aldeia e pelos arredores, um cão quase lobo, que uivava para a lua, chamando a moça para fora dos aposentos, convocando-a nas noites de lua cheia, e ela atendia aos apelos, deitando-se com ele sobre as plantações, e naqueles anos de amores heréticos e caninos nunca houve tanta fartura de cereais e de rábanos, nunca os campos produziram tanto como naqueles tempos, sob os corpos da herege e seu cão, que rolavam sobre a vegetação, lambuzavam-se na lama, possuíam-se nos rios, amavam-se sob as pontes e sobre elas, dentro e fora dos moinhos, em qualquer lugar onde o desejo os encontrasse, em qualquer tempo em que a vida tomasse posse deles; e o cão, ao possuí-la, penetrando-a de olhos fechados e coração escancarado, beijando-a longamente na boca, enfiando-lhe a língua dura e comprida entre os lábios, abrindo-os e amolecendo sua língua na dela, até fundirem-se numa só, enquanto a possuía penetrava-a tão profundamente que o corpo da amante já não o satisfazia, era pouco demais para aplacar tanto amor e tanto desejo, e então o cão passou a lamber-lhe a alma, deixando-a pegajosa de saliva e assolada de paixão, e assim tornou-se Beatrice a herege de alma lambida.

Com paciência e em pormenores os algozes procuravam no corpo de Beatrice as marcas que o amor do cão devia ter deixado, marcas de dentes das mordidas, procurando entre as coxas da prisioneira e em sua nuca agora visível depois de raspados seus cabelos, faziam-na por-se nua de quatro e andar engatinhando pela cela, enquanto examinavam com santos e atentos olhos para ver se alguma marca havia escondida, pesquisavam arranhões das afiadas unhas caninas nas costas e entre os seios da herege, buscando ávidos de furor divino fios de pelos animais emaranhados nos pelos humanos, que rasparam com todo cuidado, desfiando-os e desenrolando-os na investigação; nunca acharam nada, apesar dos esforços rigorosos, e nunca achariam, por que não procuraram na alma da moça apaixonada; se o tivessem feito encontrariam a saliva viscosa e doce que nela se havia impregnado, os olhares, as carícias nos cabelos, mas principalmente as palavras que enredaram aquela alma e a teceram, e isso também fez dela uma herege de alma tecida com palavras apaixonadas, mas não a única, pois que todos os hereges (e os ortodoxos também) se enredam e são tecidos por palavras, mas só ela, a afortunada Beatrice, foi a herege de alma lambida por um cão magro e falador.

Beatrice passou meses naquela cela, uma pequena masmorra úmida, mal cheirosa, escura e fria, exatamente como convém às prisões de hereges, e lá começou a perder as esperanças, a chorar copiosamente, a recusar-se a comer e beber, emagrecendo enquanto o ventre crescia de maneira assustadora, o que levou o santo inquisidor a alimentá-la pessoalmente, sentando-a no colo e dando-lhe de comer na boca, às colheradas, que não queria perder aquele corpo para a morte sem que antes sua alma se salvasse, afinal era essa sua função, salvar almas, pastoreá-las, mesmo a da mais horrenda e pervertida herege (que, convenhamos, de horrenda não tinha nada, mas em nome da verdade não posso dizer o mesmo sobre a perversão); fazia a pervertida beber sopinhas quentes em gotas, e quando notou que já podia tomar alimento mais sólido, mas ainda não tanto, ele mesmo mastigava os bocados e colocava-os na boca da moça, para que esta se fortalecesse; quando após umas semanas percebeu-a mais forte e quase recuperada voltaram às sessões de tortura, afinal o corpo saudável e forte só deve continuar assim se dentro tiver uma alma também sã, o que não era o caso, e quando o caso não é como se acha que deve ser, tudo se justifica, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

Beatrice, teimosa que era, e afeita à verdade - ao menos à sua própria verdade - nada confessava, calava-se, e também os silêncios passaram a ser considerados confissões, pois significavam que não tinha nada que a desculpasse; assim como os silêncios qualquer palavra também era de culpa confissão, junto com as anotações, poemas, receitas curativas e testemunhos dos habitantes da aldeia, chamados um a um para depor perante o Santíssimo Tribunal. Tudo de que poderiam ser acusados eles confessavam em Beatrice, vícios, crimes, ódios aos pais e aos filhos, adultérios, práticas de amor carnal contra a natureza, heresias de todos os tipos, trinitaristas e unitaristas, bruxarias das mais variadas, com gatos, sapos, aves e fígados de mamíferos. Uma das depoentes contou em seu testemunho que numa manhã ensolarada enquanto catavam piolhos umas às outras, Beatrice havia dito que Deus não era uma pessoa, mas apenas eflúvios etéreos (e ela nem sabia o que isso podia significar, mas havia gravado aquelas heréticas palavras e por isso as repetia sob juramento) que envolviam tudo, e que por isso tudo era Deus, e Deus era tudo, e que o Mal era apenas o que os homens faziam na Terra, já que de Deus não podia ter saído. Outra testemunha contou que numa tarde fria quando teciam juntas, Beatrice havia recitado poesias que muito faziam rir, e uma dessas poesias falava que (e aqui a testemunha parou, suando, de medo de repetir tão execráveis palavras, mas o inquisidor incentivou-a a ir em frente, nesse caso você não se tornará cúmplice das palavras da herege, sossegue, mulher, e ela então continuou), a poesia falava sobre Maria, mãe de Deus, que como poderia ser mãe de Deus se Deus era anterior a ela, como a causa podia ser filha da causada, ou algo assim, mas pior que isso era a outra parte que dizia ser Maria uma galinha, santa, mas galinha, pois era chamada de ave, ave Maria cheia de graça, qualquer ave podendo ser, faisão, codorna, bem-te-vi ou cotovia, mas que galinha era por que além de ave era mãe de filho sem pai. Nesse ponto o inquisidor, seu notário e o assistente pararam ante tamanho sacrilégio contra a mais pura, santa e doce mulher que o mundo já havia conhecido, aliás, a única com esses predicativos, e dispensaram a testemunha que se pôs a correr, urinando nervosamente pelo caminho.

Conclamaram Beatrice a contar seu amor carnal com o cão que a havia engravidado, e ela, com a alma lambida repleta de saudades de Bartolomeu, dera detalhes tão exóticos que levaram o Inquisidor a exigir que renegasse tão impuro amor, ou verá os cravos da cruz que purifica, gritou o santo padre espumando de amor cristão; certamente possuída por demônios naquele momento, pois que só demônios respondem de forma tal às autoridades, Beatrice respondeu que cães lambem a alma e cravos cravam-na, provocando dores, e sendo assim preferia a língua canina cuja saliva é bálsamo. Desse jeito ia crescendo a lista dos pecados, sacrilégios e heresias da desventurada Beatrice, que era nova demais, inocente também, e nem tempo tivera para praticar todos os pecados que lhe eram impingidos, mas alguém havia de tê-los cometido, e melhor ela que qualquer um de nós. Homens testemunharam que viram a herege cantarolando canções que enfeitiçavam os pássaros, fazendo-os pousar em suas mãos, e então eram rapidamente estrangulados, sendo que ela devorava os olhinhos passáricos dando estalos com a língua bifurcada em Y; outros juraram pela santa virgem que haviam visto Beatrice jogando pó de sapos nas nascentes e envenenando as águas dos rios, coisa nunca antes atribuída a um cristão, pois que era monopólio dos amaldiçoados hebreus, levando o Inquisidor a investigar possíveis e ínfimas parcelas de sangue judeu na moça, mas só conseguiu descobrir que ela era da mais pura estirpe de cristãos de sangue e alma, mas poderia ter-se bandeado para a heresia judaica que havia o Cristo assassinado. Gravíssimo também, tanto quanto o testemunho sobre a ave Maria, foi quando um profeta contou que ao ouvir seu testemunho de um milagre divino Beatrice se rira, aliás, gargalhara, aliás, jogara a cabeça para trás e soltara uma risada da mais descrente, debochada e escarnecedora; isso por que o profeta contara que sua mãe havia perdido uma pá, instrumento esse da maior valia e que tinha sido tomado de empréstimo de uma vizinha mais afortunada; pois não é que a pá sumira, escafedera-se sem deixar vestígios, angustiando sobremaneira a honesta mãe, que não tinha como contar esse desaparecimento à dona; vendo-a assim agoniada, o profeta orara a Deus, na verdade clamara pela divina intervenção, e saiu pelo quintal, orando e clamando; foi então que, louvado seja nosso Senhor, só Ele digno de toda glória e louvor, uma galinha poedeira começou a cantar na frente do profeta, e este, ao procurar o ovo, encontrou, sim, não somente o ovo, como também a pá, escondida no ninho da ave; saltitando de alegria (sim, mas saltitando comedidamente, como convém aos verdadeiros e humildes cristãos), o jovem voltou para casa com o ovo e a pá, que estava perdida e fora achada, para grande regozijo de todos, alívio de sua mãezinha querida, e festa dos anjos nos átrios celestes, sim, que os anjos sempre se regozijam e festejam quando os perdidos são achados; a partir daí passaram-lhe a chamar profeta e a muito respeitá-lo por ter desencadeado tão perfeito e maravilhoso mistério com sua oração cheia de fé, fazendo com que Deus se manifestasse através daquela singela ave de quintal, singela, sim, mas nem por isso menos importante em sua humildade, o que levara o Senhor a manifestar seu amor e sua preocupação através daquele santo cacarejar e daquele santo ovo (ovo, esse, inclusive, guardado com veneração, sagrada relíquia que era, à disposição dos santos padres, se o quisessem ver, o que traria imensa honra àquele lar); e quando contou esse testemunho ante os ouvintes com lágrimas nos olhos e júbilo nos lábios, Beatrice soltara aquela risada que só os demônios e os possuídos soltam, e tecera seus heréticos comentários; sim, disse a perversa, mostrando com suas palavras total desentendimento das coisas sagradas e espirituais, "que testemunho mais edificante e mimoso o seu, ó Cesário, temos mesmo que louvar a tão misericordioso Deus por sua preocupação com pás e galinhas, que demonstra seu amor descendo de sua glória para procurar pás perdidas... sim, esse Deus é digno de toda honra e louvor por achar pás sumidas, que são elas, as pás, muito, mas muito mais importantes que crianças famintas, e jovens leprosos, e velhos cegos que não têm quem os sustente, morrendo no abandono, mais importantes são as pás que os campos quando não florescem e as árvores não dão frutos, e mães jovens que entregam suas almas nos partos difíceis de seus bebês sentados, sim, a Deus toda a glória, o louvor e a honra pela justíssima preocupação com as perdidas pás e as agonias das pobres e honestas vizinhas"; essas palavras se me sangraram o coração em grande dor, contou Cesário, e por isso as repito aqui pois que nunca me sairão da memória, a menos que o queira o Senhor. E de testemunho em testemunho foi sendo a herege cada vez mais enredada nas malhas da Santa Inquisição, e já não havia dúvidas ou esperanças de que seria condenada.

Foi numa noite de chuvas estrondosas, em meio a sonhos funestos, que Bartolomeu pela segunda vez recebeu a visita dos anjos, trazendo a mensagem urgente e inadiável de que Beatrice deveria ser auxiliada a fugir, o que lançou o padre em grande angústia: como podia uma herege, prisioneira do Santo Ofício a serviço do Senhor, ser ajudada por anjos a serviço do mesmo Senhor? Como pode um reino lutar contra si mesmo? Sossegue, disseram os anjos em coro, com suas lindas vozes de barítono e soprano (a voz grave cai bem no Senhor, mas não em seus anjos), tranqüilize-se e ajude a moça, e garantiremos sua participação anônima; foi mais ou menos isso que ouviu Bartolomeu naquela noite, e apressou-se sem conflitos a cumprir a ordem divina, abrindo a porta da cela com uma segunda chave que só ele sabia existir, e deixando tudo arrumado depois da saída da agradecida e mais apaixonada herege, que fugiu apenas com as roupas do corpo - um camisolão de prisioneira da Igreja - cobrindo sua alma lambida e seu ventre prestes a dar à luz.

Nem é preciso dizer que grande foi a indignação dos santos e doutos padres da Santa e Douta Inquisição quando, na manhã seguinte, descobriram o sumiço da moça; nenhuma busca adiantou, na paróquia, nas casas da aldeia, nos campos ao redor, em todos os lugares onde ela pudesse estar escondida, e por falta de arrombamento, de pegadas, ou de qualquer outro tipo de evidência de uma fuga, tempos depois deram a herege por sumida, carregada pelos íncubos e súcubos que sempre ajudam esse tipo de alma lasciva e pervertida como a dela, lavrando-se a minuta do Santo Ofício como "caso encerrado" por falta de herege que pudesse ser queimada, já que Deus, em sua infinita sabedoria e insondáveis desígnios, havia permitido que a herege fosse raptada por demônios lúbricos que agora eram seus algozes e a estariam punindo ad æternitatum, per sæcula seculorum, amém.

Sem saber de sua condenação e punição nas demoníacas mãos, Beatrice só cuidava, desde o momento de sua fuga, de manter-se escondida até conseguir chegar às florestas mais próximas, que era lá, naqueles ermos e vastíssimos lugares, que ela poderia viver sem ser molestada, parindo e criando seu filho e quem sabe voltando à aldeia depois de alguns anos, quando a poeira dos santos e doutos cavalos da Inquisição baixasse definitivamente.

Embrenhou-se na floresta ao entardecer de um dia ensolarado, sentindo o alívio dos ventos refrescantes em seu corpo grávido; desde que fugira, Beatrice sentia-se mal por muitas vezes, cansando-se facilmente, perdendo a respiração e mesmo a consciência por breves momentos, ficando com os olhos embaçados e os pés inchados, coisas que muito a agoniavam, e ela não sabia como resolver com as ervas que encontrava em seu caminho; aceitava os sofrimentos passivamente, pois não era de chorar o leite derramado; o que pode ser resolvido, resolvido será e o quanto antes, mas o que não depende de nós, isso ela deixava estar, sábia nossa doce herege em sua pouca idade. Pois aliviada pela presença da floresta em seu corpo e alma, Beatrice compreendeu instantaneamente que aquele era seu lugar; o deserto que, sem o saber, procurara desde criança, era a floresta, e ali se sentiu finalmente filha de Jabal, o pastor, filho de Enoque, aquele que fora arrebatado em vida por sua ímpar santidade. Passou a viver ali, colhendo seus frutos e, quando não os havia, era alimentada por sarracenos homens-negros que lhe deixavam alimentos à entrada do pequeno casebre que construiu para si com galhos e folhas, aprendendo a viver do muito que a floresta lhe propiciava. Aprendeu o valor e a bênção da solidão, mas nunca deixando de se preocupar com os que dela precisavam. Voltou a colher ervas e preparar chás e ungüentos que deixava à disposição dos muitos habitantes da floresta, caçadores, carvoeiros, coletores de mel e de cera selvagem, fabricantes de cinzas que eram utilizadas na indústria do vidro ou do sabão, tiradores de cascas de árvores que serviam para curtir o couro ou trançar as cordas, e eremitas que no deserto se refugiavam para sofrer suas provas e ganhar o céu. Mas nunca os via, nem eles a ela, que ali sim, no seu deserto-floresta, agora só se relacionava com as aves do céu, os peixes dos rios e as bestas-feras do campo, como sempre ansiara em seu íntimo. Recolhia em seu refúgio os pequenos animais, lebres, coelhos, esquilos perseguidos pelos caçadores, dando-lhes asilo nessas horas difíceis, o que os fazia voltarem sempre e depositarem nozes e frutos secos sobre sua caminha de palha.

E foi sozinha que se deitou para dar à luz a criança filha do cão, chorando de medo e dor, quanto maiores eram as dores que chegavam e não traziam consigo o benvindo choro do bebê. Seus olhos se enevoaram outra vez, sua cabeça zumbiu estridente e ela perdeu os sentidos e penetrou nas brumas onde entram os desacordados, mas não mortos. Via a si mesma primeiro de cócoras e depois deitada sobre as folhas da floresta, que acolhiam seu corpo na sua úmida maciez de húmus; via um manso unicórnio branco que puxava cuidadosamente a criança de dentro de si, e lambia-lhe a testa febril, e comia a placenta, e não deixava as feras se aproximarem atraídas pelo cheiro do sangue fresco; viu leões que saíram das profundezas do deserto e lhe acariciaram o corpo com suas caudas, emitindo rugidos altíssimos como fúnebres orações, enquanto escavaram uma sepultura com suas unhas e nela sepultaram o bebê nascido morto; só acordou dias depois, com o unicórnio docemente deitado aos seus pés, e a alma lambida e os seios secos sangrando de dor pelo filho perdido. Lembrou-se do Deus que cuida das pás perdidas, mas não evita que seus filhos percam os filhos amados, e nunca mais teve coragem de orar. Deitou-se na porta do casebre, decidida a deixar-se ficar lá até que a morte chegasse.
Mas não eram esses os desígnios divinos para ela, que viu passarem os dias ali deitada, sol, chuva, noites, estrelas, e acabou se cansando de deixar-se morrer, pois que a vida que havia em si cobrou seus tributos. Numa tarde de sol fraco e tépido ouviu um choro de criança, uns gemidos de quem contem a dor dentro do coração, e levantou-se para ver o que era, pensando no próprio filho. Era um menino ainda impúbere, que olhava para ela com olhos sofridos de quem viu muitas guerras, o que lhe pareceu um contra-senso, uma criança já assim tão experimentada nas dores da vida. Maurice lhe contou que era um fugido como ela, um traidor, um execrável e repugnante traidor da mais santa causa, a causa do Cristo, que ele havia abandonado covardemente enquanto seus irmãozinhos cristãos entravam no mar cantando hinos e louvores, pois que deveriam atravessar o mar para chegar às terras santas onde o salvador havia sido enterrado, libertando-a das infiéis mãos dos mouros; contou ainda que uma parte de seu grupo havia sido vendida como escravos, meninos como ele, caçados e aprisionados por mercadores de Gênova que os haviam vendido por trinta dinheiros para servirem trabalhando nas cidades ou satisfazendo aos desejos de outros tão bons cristãos quanto os mercadores; contou com a boca e os olhos secos que a partir daquele dia Satanás havia começado a possuir sua alma com dúvidas e rancores, e que quando chegaram ao mar não tivera a coragem de atravessá-lo a pé, como conviria a um verdadeiro cruzado, mas entrara até certo ponto, mergulhando e nadando para longe dos puros meninos cristãos, abandonando a causa, a cruzada, e deixando Cristo de olhos marejados, enquanto fugia até chegar àquela floresta, deixando para trás a esteira de corpos boiando, comidos por peixes e enfeitados de camarões. Beatrice não sabia o que dizer, não sabia como consolar um fugitivo da cristandade que era como ela própria, e apenas pegou-o pela mão, levou-o para dentro, secou suas roupas e deu-lhe sopa e chá quentes que aqueceram aquele corpinho franzino, mas não aquela alma machucada. Cansada das centenas de noites que dormia ao relento, desde a morte do filho, Beatrice finalmente adormeceu, e não me perguntem por quanto tempo que não sei, nem ela soube. Acordou com grasnidos de corvos negros, e correu para fora, encontrando o pobre Maurice balançando ao vento, enforcado numa árvore, com os olhos que muito haviam visto e pouco suportado esbugalhados de terror e desgosto profundo. Beatrice chorou abundantemente, pelo seu filho, pelo menino, por todos os meninos do mundo, e todas as meninas também, e todos os homens e todas as mulheres, e todos os velhas e velhas, enfim, chorou as lágrimas que toda a humanidade havia represado durante milênios, enquanto enterrava Maurice debaixo da mais frondosa e mais cheirosa árvore que encontrou, e que dava mais frutos também, pois precisava acreditar que o sofrimento dele frutificaria e outros se alimentariam daquela dor inútil.

Então entrou no casebre, tirou os restos das roupas que a cobriam e passou a viver nua, em ruivos pelos, como Deus a fez, e solitária, como Deus a fez, e etérea como Deus a tinha feito, voando nas madrugadas de chuva de volta até sua aldeia, onde passou a lamber as almas daqueles que amava, sendo para eles o bálsamo que curava e trazia consolo às suas noites, e acordavam com a lembrança de suas palavras de conforto, doce mãe que cantava canções de ninar, acariciava-lhes os cabelos e faces dizendo que tudo ficaria bem, sentindo-se repostos para enfrentar seus dias; lambia também as almas dos que a odiaram, nas longas noites de pavor que sentiam, e acordavam com lembranças confusas de bruxas dançando ao seu redor, mordendo-os com negros dentes caninos e lacerando-os com unhas que causavam ferimentos que nunca cicatrizavam, e atormentavam-se pelo resto de seus dias.

Mas Beatrice nunca teve coragem de entrar na paróquia e lamber a alma de seu padre, que envelhecia sozinho e varado de saudades, apenas observado de longe pela herege apaixonada; não teve essa coragem por que sabia que, no dia em que lambesse a alma do amado que a havia lambido primeiro, no dia em que o fizesse dela, como ele a havia feito dele, naquele dia elas se fundiriam, as duas almas, e ele se transformaria definitivamente em cão.

E seria apedrejado pelos mansos e humildes cristãos, sempre com pedras nas mãos, prontos, em nome da doce misericórdia divina, a apedrejar cães e hereges.


Eloisa Helena Maranhão

21 dezembro 2011

Rato e Humanos.

“No fundo somos todos ratos e homens vagando nesse celeiro
 onde todas as verdades são passionais.”(Vinícius Paiva)

A vida seguia normalmente, como devem ser as vidas normais e bem vividas, é o tal de nasce, cresce, morre, mas antes de morrer muitas coisas a serem feitas, e ela vivia assim, normalmente, fazendo as coisas que deviam ser feitas antes da morte. Tudo estava bem. 

Até o dia em que o avô de seu filho morreu (não era pai dela nem do marido, era pai do pai do filho, do ex-marido, essas relações familiares tão complexas a que ainda não nos acostumamos completamente nessas épocas de pós-modernidade). Morto o avô, o filho decidiu viajar para o enterro, confortar a avó viúva, e foi pegar a mala de viagem. Nesse dia se instalou a crise.

Ao abrir o armário do quarto da mãe, o armário grande onde ficavam as roupas de cama e banho, as cobertas do frio, os remédios fora do alcance das crianças, as caixas de documentos, as roupas pessoais da mãe e do pai, os sapatos... Ao abrir o armário uma coisa rápida, rapidíssima, assustadoramente veloz correu de entre as malas para algum canto mais quente do armário. Um rato. Pequeno, cinzento (parecia cinzento, que a velocidade descoloriu o bicho), mas rato. O filho pegou a mala, saiu do quarto e avisou à mãe. Tem um rato no seu armário. Crise instalada dentro da mãe, agora.

O marido (que não era pai do filho, não desse filho, o que não fazia diferença, por que tinha criado o filho desde pequeno como se filho fosse, até nas brigas e rancores domésticos), o marido havia viajado. Se estivesse em casa procuraria o rato, perseguiria o rato, daria vassouradas nele, quem sabe, até matar o intruso, ou espantá-lo para de onde nunca deveria ter saído. Mas não estava. Ela, sempre tão independente, sentiu necessidade do marido. Nem que fosse para acabar com um rato, que cada um tem suas funções e sabedorias particulares.

Não estando o marido a função passava, hierarquicamente, para a mãe. Achar o rato e matá-lo. Mas para essa mãe, esse tipo de mulher e ser humano, isso era demais. Odiava hierarquias e ratos. Começou a chover dentro dela. Respingar, é a verdade. Chuva fina, gelada, em gotas que iam rompendo as convicções. Dissolvendo as certezas. Lavando e carregando para os esgotos as verdades da vida toda, inclusive da vida dos seus antepassados, e de todos os antepassados de todos os seres e tempos. Para os esgotos de onde o rato havia saído para atormentar seus dias de rotina, apavorar com seus barulhos de roedor e sua rapidez de presa a normalidade da vida humana. Quanto poder tinha um rato, um mero camundongo, provavelmente cinzento e muito pequeno, de desestabilizar a vida alheia.

Um camundonguinho que andava pela casa, fazia cocô, roía e comia coisas, inclusive a roupa do rei de Roma, além de papéis, restos de bolachas de chocolate, comida guardada na cozinha... Um ratinho que fazia xixi, transmitindo medos atávicos de leptospirose, febre tifoide, peste bubônica, mesmo que estivesse erradicada; afinal, ratos transmitiram a peste na Idade Média, e nossos avós medievais ainda se reviravam nas tumbas com dedos e orelhas roídas. Os tempos não tinham mudado tanto assim. Ela apagou a luz do quarto, pegou seu travesseiro e seu edredom e se mudou pro quarto dos filhos. Vou dormir aqui com vocês, avisou, até o rato sumir e seu pai voltar.

Havia decidido tacitamente, consigo mesma, que o rato sumiria da mesma forma que apareceu. Não era preciso fazer nada, apenas mantê-lo no quarto, no escuro e trancado, que estariam livres dele. Não era assim que viviam "normalmente" (o normal, agora, pós-rato, era entre aspas, um normal de desequilíbrio e desestrutura), sem ver os milhares, talvez milhões de ratos que habitavam os esgotos, vivendo no submundo das cidades dos humanos? Longe dos olhos, longe do coração, dizia a sabedoria dos antigos. Sabedoria que não funcionava com ratos, pelo visto, pois ele se instalou dentro dela, fez morada nos seus dias e sonhos, enchendo-a de pavores.

Se tivessem um gato, ela o prenderia no quarto junto com o rato, abriria as portas dos armários e os dois que se resolvessem lá dentro. Não tinham gatos. Não gostavam daqueles animais misteriosos, lânguidos, solenes, que eriçavam os pelos, empinavam o rabo e partiam para o ataque, unhando e arranhando. Não gostavam dos pelos dos gatos pela casa, dos lugares ocupados nos sofás, do cheiro da urina dos felinos, e principalmente da comida deles, aquelas rações saborosas e nutritivas. Não tinham gatos que os ameaçasse, mas tinham um rato dentro do armário.

Primeira noite no quarto dos filhos, colocou um colchão no chão para dormir. O rato passou a noite apavorando-a do outro quarto, e ela não dormiu, acordava assustava, sonhando com ratos roendo os pés e orelhas dos filhos, levantava-se devagar, acendia a luz do corredor, olhava as crianças dormindo e tentava voltar a dormir, inutilmente, por que ninguém dorme com um rato dentro de si. Lembrou-se dos ratos que os torturadores colocavam nos ânus dos torturados, e estremeceu de empatia e horror. Na noite seguinte decidiu que dormiria na cama com o filho menor, pois era mais difícil um rato subir na cama do que no colchão no chão. Dormiu melhor as outras noites, mas não tranquilamente como nos dias normais da vida pré-rato.

Os dias passavam. Estava resignada a deixar o quarto para o rato viver, despejada pelo inquilino indesejado, coisa nunca antes vista, pelo menos juridicamente. Talvez deixasse a própria casa, mas logo percebeu o absurdo da ideia: para se mudar teria que levar suas coisas, e mexer no armário do rato. Ficariam, portanto, ela, os filhos, o marido quando voltasse da viagem, e o rato. Aprenderiam a conviver pacificamente. Quem sabe o rato morreria de fome dentro do armário. Quem sabe. A vida tinha muitas possibilidades, e um rato morrer de fome dentro do armário era uma delas.

Os dias passaram, o marido ligava e a chamava de "patife"... medo de um ratinho desse tamanho e categoria, dizia ele, rindo e fazendo um esgar de ironia... mulheres... compre uma ratoeira, ele sugeriu, e coloque no quarto.

Ratoeira. "Pequena armadilha destinada à captura de ratos". Essa era do Larousse, não do Aurélio. Tanto fazia. Onde se comprava uma ratoeira? No supermercado? Casa de materiais de construção? Estremecia de horror ao imaginar o rato sendo capturado pela ratoeira, aqueles dentinhos de metal destroçando o corpo, o sangue pelo quarto, no carpete. Sangue de rato. Provavelmente mais infectado que a urina deles. Infectado e manchador, imagine limpar o carpete e tirar o rato da ratoeira, esmagado, dilacerado, tripas de fora, para jogá-lo no lixo. Coloque um pano por baixo da ratoeira, disse por telefone o marido ausente tão presente, e quando o rato morrer é só juntar tudo e por no lixo, sem sujeiras. Sábio marido. Mas alguma coisa resistia nela contra a ideia da abjeta ratoeira.

Entrou no quarto decidida a dar fim ao rato. Afinal, pensou revoltada com a própria covardia, sou uma mulher ou um rato? Entrou, fechou a porta, abriu o armário e começou a procurar o bicho. Foi tirando as peças de roupa dobradas e passadas. Cada peça era um pequeno susto, a respiração devagar. Algumas tinham cocô de rato. Ele passou por aqui. Tirou as malas jogando-as no chão. Nada de rato correndo. Revirou uma por uma, malas e bolsas, com cuidado. Agora já não tinha tanto susto com as roupas, como a gente se acostuma rápido a tudo, filosofou. Continuou esvaziando cada compartimento do armário. Achou um documento roído na caixa onde estavam. Um extrato do banco. Roído de rato ou de banqueiro dá na mesma, pensou. Melhor o rato, que pelo menos rói minhas economias para sobreviver, e não para acumular.

Tão profunda teoria econômica não combinava com a solenidade do momento, a caçadora-mulher atrás do rato invasor; talvez percebendo os pensamentos dela, o rato se mostrou. Assustado no cantinho do armário, atrás de algumas roupas, olhava para a dona das roupas, dos documentos, da comida, da casa, do mundo. O rato olhava para um ser humano. Ela riu. Como tinha sido tola, com tanto pavor de um camundongo pequeno e cinzento, um coitado de um filhotinho de rato que nasce pelado, enquanto ela era do gênero humano, espécie sapiens sapiens, inteligente, racional, com telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor. Isso fazia toda a diferença. Riu-se de novo de si própria e do ratinho, com uma pontada de piedade pela inferioridade do rato, ele sim tem que ter medo de mim, pensou, pequeno e indefeso ante a humanidade inteligente, racional, e aquilo tudo que já escrevi sobre nós. 

Aproximou lentamente a mão, tentando que o rato não percebesse seus movimentos, e, sim, polegar opositor era excelente nessas horas, por que enquanto com a mão esquerda imobilizava o ratinho com um pano, com a direita pegou-o pelo rabinho e suspendeu-o no ar. O bicho se sacudia. Ela não sabia se o que sentia era horror pelos sacolejos da vida do rato querendo escapar (o rato, não a vida que queria escapar) ou prazer pela sua superioridade, sua coragem, sua ousadia de humana racional caçadora de ratos. Desceu as escadas com o rabinho gelado e pelado do rato bem seguro entre os dedos, sacudindo-se, e podia sentir o medo dele. As crianças correram para ver, espantadas, entusiasmadas, orgulhosas da mãe que tinham. Queria assim mesmo, com testemunhas, para quando o marido voltasse e perguntasse do rato. Pegue a máquina e tire uma foto, pediu ao filho mais velho, vamos documentar a caçada do rato.

Documento feito ela não sabia o que fazer com o rato. Matá-lo? Como? Não tinha coragem de esmagar o bichinho, não assim a sangue frio. Albert Schweitzer e Gandhi gritavam dentro dela, respeito à vida, respeito à vida, qualquer tipo de vida merece respeito, não deve ser tirada. Deus gritava dentro dela, eu criei, eu dou a vida e só eu posso tirá-la. São Francisco falava baixinho dentro dela, deixe o ratinho, também são criaturas do Senhor, por que matar um pobrezinho do Pai que só quer viver, como você mesma, irmãzinha? (Se bem que ela não queria viver, mas isso é outra história).

Decidiu soltar o rato num terreno longe dali. Mas e se entrasse em alguma outra casa? Iria apenas delegar o problema para outros? E se ele voltasse para sua casa? Como os gatos, encontrasse o caminho de volta para a casa? Às vezes os ratos também aprendem coisas com seus caçadores naturais, os velociraptores não haviam aprendido a abrir portas no Jurassic Park? Por que um ratinho, muito mais evoluído, não aprenderia o caminho de volta para a casa e o armário que o haviam abrigado por um tempo?

Olhava o rato, que já estava quietinho, cansado de lutar pela liberdade e pela vida, preso entre seus dedos. Ela também estava cansada, do rato, da vida, da sua coragem de caçadora. Um dos filhos resmungou no sono, e ela acordou. Seus dedos estavam vazios e limpos, e o rato continuava no armário do outro quarto.

No dia da volta do marido percebeu que tinha que fazer alguma coisa. Caçar o rato ou comprar a ratoeira. Levantou-se cedo, foi à loja, perguntou sobre ratoeiras. Aqui não se vende isso, ratoeiras são encontradas em loja de ração para animais. Atravessou a rua decididamente, levando o filho pequeno pela mão. Ratoeira? Temos, sim. Mas por que não leva veneno para rato? 

Não havia pensado nisso antes. Nesse mundo que tudo fabrica, cheio de manufaturas e produtos de toda sorte, existem raticidas, como não pensou no óbvio? Veneno para rato não faz sujeira, só precisa deixar longe, muito longe, completamente longe do alcance das crianças, dos animais domésticos (classificação que evidentemente não incluía o rato no armário) e dos possíveis suicidas. O veneno é forte, poderoso, mata rapidamente, uma beleza de veneno para ratos. Pequenas bolinhas pretas chamadas de "chumbinho". Melhor que qualquer tiro certeiro na cabeça. Caro, mas ex-ce-len-te. Mata por hemorragia. Antídoto? Injeção de vitamina K, anti-hemorrágica, que obviamente é antídoto apenas para humanos e outros animais domésticos que por engano tenham ingerido o veneno; os ratos ficam sem antídoto, mesmo. Claro. Perfeito. Lógica exemplar.

Comprou o veneno dentro do vidrinho, que não podia ser manuseado de maneira alguma. Intoxicava pelo contato com a pele. Cuidado! Colocou o pacote de veneno na bolsa e foi para casa pensando no rato morrendo de hemorragia interna. Faria cocô com sangue? Seus vasos se rompendo, agonizando, sentindo dores, estrebuchando como um doente de Ebola. Azar do rato, pensou, esmagando a piedade, quem mandou sair dos esgotos e entrar em casa alheia.

Levou o veneno para casa, misturou com queijo ralado - não é disso que os ratos gostam? - colocou no armário, e embaixo da geladeira e outros lugares escondidos onde o bichinho pudesse passar. Schweitzer nem Gandhi nem São Chiquinho a demoveriam de assassinar o rato daquela maneira indireta, nem que aparecessem em pessoa diante dela. Matar ativamente é uma coisa, matar passivamente é outra, mas nem pensou nisso, apenas agiu de acordo com essa máxima que inventou na hora e que tantos outros já haviam seguido.

Naquela noite voltou a dormir no quarto, com o marido, e apesar da pontada de medo que ainda persistia, sentia-se menos insegura com ele por perto. Dormiu razoavelmente bem pela primeira vez nos últimos quinze dias, desde que o rato entrara em sua vida e o marido saíra dela para viajar.

Acordou na manhã seguinte já com esperanças que o rato tivesse fugido definitivamente, para sempre, por toda a eternidade per sæcula sæculorum, e foi fazer os doces da festa de aniversário do filho. Brigadeiros. Rato. Mexia a colher de pau dentro da panela do doce. Rato. Batia o bolo. Rato. Untava a forma. Colocava no forno. Lavava a louça. E o rato não saía de dentro dela. Se bem que ela não notava isso, entretida que estava com o trabalho, e o marido em casa. O rato agora era do departamento dele. Nada de teorias contemporâneas de administração de mundo globalizado. Cada qual que cuidasse do seu departamento. Sem ingerências nas coisas alheias. Autonomia dos povos.

O marido estava passando aspirador na sala. Afastou o sofá. Rato. Ele está aqui, avisou-a. Ela sabia que devia, que precisava, que tinha obrigação de ajudá-lo a cercar o rato, espantá-lo, matá-lo. Pegou uma vassoura e largou-a no canto. Subiu numa cadeira, continuando a mexer o doce na panela. Estava quase no ponto. O doce no ponto de tirar da panela, e ela no ponto do pavor total. 

O rato correu para baixo da estante. Estante afastada, rato na parede. Realmente é pequeno demais, e cinzento. O marido parou um pouco... Estava calculando o ângulo que não deixaria o bichinho escapar? Ou era dó do rato? Logo se recuperou, bateu a estante contra a parede, o camundongo caiu, parece morto. Parece ou está? Ela continuava a mexer o doce, em cima da cadeira. O marido pegou o rato com um saco plástico, fechou bem o saco, deu um nó, e ficou olhando o rato contra a luz. As lágrimas escorriam, chorava copiosamente - ela, claro, não o marido nem o rato morto. Colocou o saco no lixo, na lixeira. O marido, claro, não ela, nem o rato morto. 

Ela foi até a lixeira, ainda chorando, soluçando, olhada pelo marido estupefato... Tanta dó assim do ratinho? Abriu o saco de lixo, vou jogar o rato no terreno, já pensou se ele ressuscita, rói o saco, escapa e tudo recomeça como nos filmes de terror? O marido ficou com dó, afastou-a com jeito, e terminou de abrir o saco do lixo; pegou o saquinho menor com o rato dentro, chacoalhou para ver se o ratinho estava mesmo morto, enquanto ela implorava, para com isso, joga esse rato fora logo, por favor. O filho levou o rato para o terreno, jogou-o lá. Voltou vitorioso.

Ela não conseguia parar de chorar. O doce queimou. A festa perdeu a graça. A vida saiu dos eixos e teria que ser recolocada de novo. Um rato tinha entrado em casa, morrido, sido levado embora, e ela não se conformava com o alívio que estava sentindo, depois de quinze dias de pavor, quinze dias em que lutara com o rato e consigo mesma, com sua humanidade, com seus instintos, para então descobrir, desconsolada, que havia evoluído tanto, mas tanto, que nem caçar um mero rato já não podia mais.

 Eloisa Helena Maranhão