05 dezembro 2011

Deborah e o carvalho


"Levanta-te querida minha, formosa minha, e vem.
Porque eis que passou o inverno, cessou a chuva
 e se foi; aparecem as flores na terra, chegou o
tempo de cantarem as aves, e a voz da rolinha
se ouve em nossa terra." 
(Salomão, "Cantares")
"Vem meu amor, vem pra mim, me abraça devagar,
 me beija e me faz esquecer." 
 (Marisa Monte, "Bem que se quis")

 Nunca havia ouvido histórias, desde que nascera, como as outras meninas de seu povo, que cresciam no colo das mães e tias, ou engatinhando pelo chão, entre os cheiros das comidas sendo preparadas pelas mulheres, a água buscada nos cântaros, as ervas aromáticas que além de sabor preservavam os alimentos contra a degradação tão comum no clima dos desertos.
Deborah nesse sentido era uma menina diferente, sem mãe, sem pai, sem tribo, encontrada já crescidinha aos pés de um carvalho, o único que havia naquela região onde a menina fora achada, sentada debaixo dele como se ali tivesse nascido e vivido desde então, como se ali estivesse sentada desde que as águas do mar se abriram, o povo atravessado o deserto, chegado àquelas terras, batalhado contra todos os outros povos, construído suas tendas, pastoreado os animais e plantado aqueles campos, que nas épocas de colheitas abundantes ficavam verdes, as folhas dos cereais balançando aos ventos, ouvindo a música que os ventos cantavam à noite, enquanto as mulheres contavam histórias dentro das tendas, e os homens conversavam ao pé das fogueiras.
A menininha pequena de olhos amendoados e esverdeados, com os cabelos caindo em cachos era bastante estranha aos olhos daquela tribo que a havia adotado; não devia ter mais de três ou quatro anos de idade, e falava apenas algumas palavras numa língua desconhecida, mais cantada que a língua áspera e gutural que era falada ali nos arredores de Efrata, onde habitava aquele povo nas tendas. Chamaram-lhe Deborah, pois seus olhos esverdeados e sua voz doce pareciam com abelhas e com o mel que fabricavam.
Deborah ouvia as histórias contadas, de pais e mães, avôs e avós, ancestrais que eram reconhecidos até a terceira ou quarta geração anterior, histórias dos que viveram no Egito, terras de melões e escravidão, de pirâmides que se levantavam aos céus, e participava das Páscoas, quando não se colocavam fermentos nos pães, nem os adoçavam com mel, comendo-os em todo seu amargor, para que se lembrassem que deviam estar prontos para sair a qualquer momento daquelas terras onde eram escravos, e Deborah se arrepiava toda e arregalava os olhos quando ouvia contar do sangue com que os hebreus haviam pintado as portas e ombreiras de seus casebres, e o Anjo do Senhor havia poupado da morte os primogênitos protegidos por aquele sangue de cordeiro em suas casas.
Ouvia, estremecia, e tentava encontrar dentro de si o que a fazia estremecer daquele jeito, o que era que despertava suas lembranças mais ancestrais, pois sentia dor no estômago e a boca seca, seguida de uma languidez sem fim, a cada história que lhe contavam, como se também seus avós tivessem vivido aquilo e marcado em seu corpo aquelas memórias; então as mulheres se riam do que ela falava, e diziam, você não é de nosso povo, criança, mas não se preocupe, por que quando crescer poderá ser tomada por um de nossos filhos, e os filhos de suas filhas serão como nós. Aquilo serviria de consolo para qualquer mulher, menos para Deborah, que desde criança desprezava consolo fácil, e odiava qualquer história em que sentisse o mínimo odor de mentira ou engodo.
Não existia consolo fácil para ela, nem paz dos vencidos, que desejava a luta se fosse preciso, luta para conquistar as terras onde viveriam, e nisso também era diferente das outras meninas que, enquanto enfeitavam-se e cosiam tecidos para seus enxovais, Deborah preparava-se para lutar ao lado dos homens da tribo. Por não ser filha verdadeira nem ter sangue hebreu, os homens a levavam consigo às guerras, o que a tornava ainda mais estranha às mulheres da tribo.
Foi numa das guerras próximas dali, em que outro povo tentava tomar-lhes as terras que haviam conquistado há anos, que Deborah viu, assustada, que o carvalho onde foi encontrada estava para ser destruído pelo fogo ateado pelo inimigo; começou a cavar em volta dele, com as mãos nuas, deixando alguns metros de distância, na tentativa de fazer uma trincheira em torno do carvalho, para que este não se incendiasse.
Quando olhou melhor, depois de muito tempo cavando insanamente, percebeu um jovem cavando perto dela, do outro lado do carvalho, ajudando-a em sua tarefa. Por que você faz isso, disse-lhe a moça em sua voz cantada, e ele respondeu, por que carvalhos são sagrados, desde os tempos antes dos tempos, e deixá-los morrer é matar uma parte de nós. Deborah compreendeu o que ele dizia, mesmo com aquele sotaque das tribos hebréias que ainda a incomodava nos outros, e aquele sotaque era luz entrando em seus ouvidos e iluminando seu corpo por dentro. Eu me chamo Elah, ele disse, e ela sabia que Elah era carvalho em hebraico, e alegrou-se por tê-lo conhecido, e por ele ter tido pais que lhe dessem aquele nome e o tivessem posto no mundo, nem que fosse apenas para aquele momento junto dela. Eu vivo sob um carvalho, ele disse, e julgo as causas de meu povo, quando vêm a mim.
O fogo crescia em línguas compridas e vermelhas, enfumaçando o céu, enquanto a tribo estava sendo destruída e tomada pelos inimigos. Deborah, oculta pela fumaça, percebia que já não havia nada a fazer, ouvindo os gritos tanto dos vitoriosos quanto dos vencidos, e nada podia fazer, a não ser salvar-se, fugindo dali; enquanto corria para longe ainda pôde ver Elah sendo levado ferido, prisioneiro dos inimigos.
O povo que a havia adotado estava destruído, e pela segunda vez Deborah estava sozinha no mundo.
Aquele sentimento de solidão absoluta não lhe era desconhecido, desde criança sentira-se assim tantas vezes, mesmo em meio à multidão, em meio às festas, aconchegando-se num canto e olhando aquela alegria da qual não se sentia participar.
Agora estava só, novamente, e havia necessidade de construir um ninho, mesmo que em seu coração, preparando-o para alguém; quando estamos solitários fazemos ninho para os tempos que virão, mas o único homem que havia chegado até o coração de Deborah estava longe, provavelmente morto, e ela já não tinha esperanças.
Não havia para onde voltar-se, o mundo já não a acolhia, e ela fugiu para os desertos, numa viagem ao contrário daquela que seu povo adotivo havia feito séculos antes.
Enquanto caminhava naquelas areias que queimavam as solas de seus pés, Deborah pensava no Deus que lhe haviam ensinado, o único que havia conhecido, mas não conhecimento de si mesma, pois sempre estranhara esse Deus, não o sentia como seu, mas como de sua tribo adotiva.
Debaixo daquele céu sem nuvens, sentindo sede e o sol escaldante de dia, e um frio desumano de noite, clamando por Iavé, mas nunca obtendo resposta, e nem manah desceu dos céus para alimentá-la, e nem brisa ou orvalho à noite, que a confortassem em sua sede, para que buscar, se viver é só sofrer, pensava sem falar alto, nada vale a pena, esse Deus não existe, gemeu, e deitou-se para morrer.
O mundo parecia estar-se dissolvendo, esgarçando, abrindo um buraco que iria tragá-la ali no meio do deserto, e só os mortos lhe pareciam reais. Ouvia as vozes das mulheres conversando na cozinha, das moças rindo-se e dançando, dos cantos que cantavam nas noites estreladas, e já não suportava viver cheia de mortos dentro de si, dos fantasmas deles que se aninharam dentro dela.
Não me perguntem quanto tempo ficou assim, ali debaixo do sol escaldante de dia e do frio desumano de noite, mas não deve ter sido demais, senão teria ela morrido. Nem sentiu que alguém a havia levantado da areia, e a carregava pelo deserto para um vale onde havia águas e sombra, e em meio ao seu delírio chamava por Iavé, julgando-se adotada e carregada pelo único Deus que havia aprendido.
Quando enfim conseguiu abrir os olhos, e já não havia bolhas em seus lábios, era Elah que estava ao seu lado, consegui fugir dos inimigos, ele disse, e não a encontrei entre as ruínas e os corpos dos de sua tribo, enterrei-os todos, refiz as cabanas que não haviam sido destruídas pelo fogo, e então entendi que você devia ter fugido para o lado contrário, o lado dos desertos. Iavé preservou sua vida, Deborah, ele disse, aliviado. Eu a trouxe de volta aqui para as ruínas que antes foi sua tribo, para repovoar o lugar abandonado.
Iavé não existe, disse Deborah baixinho, desconsolada, enganaram você com histórias, de que servem palavras que nos iludem e não nos alimentam quando precisamos? Palavras são uma forma de exorcismo, ele disse também muito baixo, com compaixão, e contar histórias é uma forma da gente se exalar de si mesmo; é espantar os fantasmas e os mortos de dentro de si, e chamar a vida de volta.
O moço sentiu pena dela, ali, esgotada, espancada, vencida, como Jacó no Vale do Jaboque, e contou a ela a história do pai das doze tribos, lutando com o Anjo, que ela tantas vezes já tinha ouvido, mas nunca compreendido o sentido, e novamente a história não lhe disse nada. Nada lhe fazia sentido, mais. Nunca havia feito realmente, e agora, menos ainda.
Elah contou-lhe, então, de sua própria busca por Deus nas terras onde estivera, em meio aos povos idólatras, quando lutava nas conquistas, e que havia procurado entre todos os deuses, até que conseguira a prova de que Iavé era o verdadeiro Deus, pois havia clamado a Ele do meio de uma batalha, e seus anjos o haviam socorrido. Então tornei-me profeta e juiz sob o carvalho.
Eu também clamei, pensou Deborah, e anjos nem Deus algum olharam para mim. Do meio de sua dor e desesperança, Deborah só conseguiu virar o rosto, pois Iavé lhe era indiferente; deixe-me aqui em paz, Elah, quero morrer.
Veja Deborah, esses bulbos, pegue nas mãos, disse o moço, retirando bulbos das dobras de sua capa, plante-os, enterre-os bem fundo, e vamos regá-los com um pouco da água dessa fonte. Vamos enterrar seus fantasmas, meu amor, cada bulbo um dos mortos que traz dentro de si, cada semente um fantasma que a apavora.
Que diferença faz plantar ou não, pensou Deborah, plantando, que nem força mais tinha para contradizê-lo, pois nessa terra exausta, seca, abandonada, nada nascerá. Não, eu não vou te deixar morrer, Deborah, não vou te deixar sozinha, mesmo que peça e me mande embora. Eu vou libertá-la da sua dor e do seu desespero.
Naquela noite, embaixo de uma das tendas que haviam sobrado do ataque, sob as estrelas do céu e ouvindo as águas da fonte borbulhando, Elah tomou Deborah como mulher, e a amou sob o carvalho, que era tudo que havia restado naquelas terras desérticas, o carvalho e o amor. Elah e Deborah.
Na manhã seguinte os bulbos haviam florescido, e então, nos braços de Elah, debaixo do carvalho, Deborah conseguiu enfim aceitar que viver talvez importasse.

Eloisa Maranhão.

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