05 dezembro 2011

Dependurada na teia


" Quando sinto no pescoço um nó,
vem o vento e me sopra: eu sou pó".
 (Beto Brasiliense)

Era assim: nunca tinha se sentido estável. Nunca. "Nunca" também não existia para ela, nunca era tempo demais, longe demais, e ela não conhecia coisas estáveis, quem dirá imutáveis, constantes, eternas ou quase, como um nunca.


Procurava, sim, tinha nostalgias de coisas estáveis, um amor que não terminasse jamais, filhos que não crescessem, cachorros, gatos, passarinhos, pai e mãe que não tivessem que morrer um dia.

Mas sabia, isso ela sabia, que era uma procura inútil, mas não inglória, que há uma certa glória heróica em buscar e inventar caminhos estáveis e, mais, muito mais que isso, finais concretos, imutáveis, uma coisa como um lugar em que todos chegariam, e dali não sairiam mais, a suprema glória de chegar ao lugar certo. E ali habitar. Dali não arredar pé. Um final exato, correto, marcado pelo ponto final. Enfim, achar algo absoluto.

Era assim: apesar de buscar – às vezes, sejamos honestos, só às vezes, que buscar o absoluto é tão cacete, meu Deus, não há nada mais cacete que o absoluto, que o eterno, que o imutável, que um Deus!, imagina se vivesse na Idade Média, tudo ordenado segundo uma ordem imutável, imexível como o ex-ministro do trabalho, aquele do cachorro que também era gente, lembram?, se vivesse naquela água morna em que servos eram servos, e seus filhos e netos, servos, e seus bisnetos e tataranetos, servos, e nobres eram nobres por nascimento, por divina delegação, e nada se transformava, nada podia mudar, por que Deus não muda, as cidades celestiais não mudam, não mudam os anjos gloriosos, e não mudam os condenados, se vivesse lá, coitada!, teria morrido de tédio. Ou queimada. Ou dos dois, um tédio profundo de vaca no pasto, e uma fogueira bem quente que a salvasse desse tédio insuportável.

Apesar de buscar, nunca achou, e, a bem da verdade, nem sei se procurou direito, se se esforçou na busca, se agiu com competência, racionalidade, dedicação e direcionamento que uma busca dessas exige.

Eu acho, não a estou julgando, espinafrando, criticando, imagina, nunca faria isso, cada um cada um, mas eu acho, e posso achar o que quiser, afinal quem está escrevendo aqui, e contando o que ela sentia e pensava e agia, eu!, então como estava dizendo e minha consciência cristã me fez interromper, acho que ela não buscou direito, não, pois todos sabemos, bons cristãos que somos, todos sabemos que quem procura, acha, quem pede, recebe e quem dá, fica sem. Amém.

Pois tentou, diz que buscou, mas não encontrou. Não sei se, em minha empatia com ela, digo tadinha, ou se, em minha empatia com o Bem e os bons, digo azar dela, quem mandou não buscar direito, com determinação, competência – deixa eu ver lá em cima, que já esqueci o resto - ah, sim, racionalidade e direcionamento. Serei imparcial em minha crônica, não vou ser empática nem tomar partido, fica um comentário sem conclusão, como os do Jornal Nacional ou o da Cultura. Imparciais. Sérios. Corretos. Aqueles jornalistas arrumadinhos, bem comportados, suprema frieza na notícia. Da mais pura correção e imparcialidade. Serei como eles, só vou passar informação. Seja lá isso o que for, e se existir. Presumamos que exista.

Era assim (a informação): buscou estabilidade, não achou. Teve que reaprender a viver na fímbria, na tangente da vida, aquele frio na barriga, de tanto poder cair no centro quanto ser centrifugada e lançada fora. Teve que reaprender a andar no fio da navalha, sem se cortar, que andar no fio da navalha se cortando não tem sentido, qualquer um consegue. Teve que reaprender a se equilibrar na corda bamba, nas pernas de pau, e fazer com graça e leveza, que andar na corda bamba gemendo e chorando e pedindo socorro e ajoelhada e agarrada na corda também é fácil, qualquer um faz.

Ela já sabia, mas como andou procurando a bendita (estabilidade), e por tanto tempo a procura, acabou esquecendo-se do que era ser aranha.

Ela tinha sido assim: aranha.

De viver dependurada na teia, suspensa no ar, sempre um risco de cair, de passar um inseto maior, uma ventania, uma chuva bem aguada e derrubá-la de lá.

Mas daí a sereia cantou. Não tinha marinheiros que tapassem seus ouvidos e a amarrassem e dissessem: sai dessa, é só ilusão. Ela achou que existia e buscou.

Num emprego com salário fixo e garantido, numa casa própria, nuns filhos que seriam seus para sempre, num país sem guerra nem terremotos nem furacões nem maremotos, com todos os vulcões extintos há milhões de anos (socorram-me, geólogos, milhões ou milhares?), nuns braços e nuns beijos que a acolhessem, e nunca deixassem de amar, num sexo garantido, sem AIDS mesmo que sem camisinha, num Deus provedor, num anjo guardador. Amém.

Era assim: passou anos buscando. Sabia que não tinha achado. Mas fingiu. Fingiu tão bem que até acreditou. Era bom achar que achou.

Na falta da bendita, da inútil, da inglória, da absoluta e da inexistente – estou falando da estabilidade, não de Deus, cidadãos, não de Deus! (afinal, todos sabemos que deus é bendito, útil, glorioso, absoluto e existente. Pelo menos pra quem quer e consegue achar). Na falta do que procurou, achou que tinha encontrado, mas não, era só ilusão, ela teve que reaprender a ser aranha.

Era assim: ela reaprendeu.

Viver suspensa, dependurada na teia não era assim tão mau. Acabou gostando tanto, mas tanto, que nunca mais quis procurar coisas estáveis, quem dirá imutáveis, constantes, eternas ou quase, como um nunca.

Era assim.


Eloisa Helena Maranhão

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