21 dezembro 2011

Em cima do muro

Não restará na noite uma só estrela.
Não restará a noite.
Morrerei e comigo irá a soma
Do intolerável universo.
Apagarei medalhas e pirâmides,
Os continentes e os rostos.
Apagarei a acumulação do passado.
Farei da história pó, do pó o pó.
Estou a olhar o último poente.
Ouço o último pássaro.
Lego o nada a ninguém. (Jorge Luís Borges)

Todo mundo prestava atenção naquele menino por que ele era incomum. Tinha cabelos ruivos, olhos azuis e o rosto muito corado - de tanto comer tomate maduro e tomar sol, explicava quando indagado.
Parece um anjo!, diziam.
Aí o menino se irritava. Anjo!... não gostava dos anjos; eram muito etéreos, insípidos, inodoros e incolores; não dava pra pegar, nem pra sentir. Pra quê servia uma coisa dessas?
Os meninos, sim. Serviam pra jogar bola de gude, rodar pião, empinar pipa e pegar rabeira de caminhão; ah! e jogar videogame também.
Mas e anjo?
Um dia explicaram pra ele que os anjos guardam as pessoas. São empregados do céu... Deus manda um anjo pra cuidar de você, e ele fica sempre por perto, tomando conta.
O menino ficou satisfeito. Então era isso... Coitados dos anjos! Vai ver que são varados de vontade de viver, andar de bicicleta, tomar sol e banho de mar... aí eles ficam perto da gente, aproveitando tudo por tabela...
E assim o menino ia vivendo.
Mas havia outra coisa que o fazia incomum. É que ele gostava de andar em cima dos muros.
"Cuidado que vai cair!"
"Você não tem medo de cair daí?"
"Desce daí, moleque, que é muito alto!"
Era sempre a mesma conversa. Todo mundo tentava convencê-lo a descer. Mas ele gostava dos muros. Tinha medo, sim... às vezes sentia um arrepio, então sentava e ficava balançando as perninhas, experimentando a vertigem.
Outras vezes, não. Aí corria, dançava e pulava em cima dos muros... era mais fácil empinar pipa daquela altura... e o vento também... ah! o vento era tão fresco, passando dentro dos cachos alaranjados do seu cabelo... e isso era muito bom.
Bom? Mas e se ele cai? Deste lado tem escada, ele pode descer. Mas e do outro? O problema do menino em cima do muro era o outro lado...
Vocês não sabem, mas do outro lado era tudo escuro. Não se enxergava nada, e as pessoas então imaginavam coisas.
Monstros horríveis, areia movediça sempre pegadiça e puxando para baixo, um abismo sem fundo... alguns diziam que não, que o outro lado talvez fosse melhor, com praias de areia macia, rios clarinhos de águas transparentes, talvez um jardim. É... no outro lado bem que pode ter um jardim, ocultando tudo aquilo que não temos por aqui...
E o menino debruçava no seu muro pra olhar...
"Vai cair!"
"Segura a perna dele!"
"Desce, benzinho, aqui é melhor, aqui é sempre melhor!"
E o menino balançando sobre o muro.
Um dia resolveu descer. Acordou de uma noite repleta de sonhos, o coração pesado de tantos sonhos gritados. Estava cansado do seu muro alto, olhar tudo acontecendo longe, as pessoas sempre insistindo para que descesse, o medo do outro lado. Hora de decisão, sentiu em algum lugar de si.
E começou a descida. Mas já no terceiro degrau percebeu que a escada não era tão firme. Ela chacoalhava e não havia ninguém segurando. Não havia ninguém em lugar algum. Nesse momento só existia ele, seu muro, e uma escada comprida e muito frágil.
O chão estava tão longe, e não tinha o que fazer lá.
Subiu de novo, derrubou a escada, olhou pro lado escuro e pulou.
Nunca mais viram o menino.
Ainda hoje comentam que ele criou asas e está voando do outro lado; uns contam que ele foi engolido pelos monstros, seus ossinhos e cachinhos laranja estão ainda sobre a areia... outros sentem saudade dos seus olhos azuis e das perninhas balançando.
Mas o que ninguém notou é que outros meninos, sobre outros muros, também não conseguem descer sem que segurem as escadas.

Eloisa Helena Maranhão.

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