05 dezembro 2011

Endividado


Quem não tiver dívidas, que atire a primeira pedra.

Estava devendo.
Tinha feito dívidas. Dezenas, centenas. Não tinha acumulado, não tinha comprado imóveis, não tinha mudado de status social – pelo contrário, tinha decaído muito -, não tinha investido, não tinha nada debaixo do colchão.
E estava devendo. Nem mantinha o mesmo nível de vida, não, estava devendo cada vez mais e decaindo na mesma proporção. Fazia dívidas para comer, dar de comer aos filhos, pagar os estudos já assumidos, pagar condução para o trabalho, vestir as mesmas roupas de sempre, pagar água, luz, moradia, telefone, o básico.

Bem feito, quem mandou ter filhos. o presidente tinha dito que seus filhos tinham de comer três refeições por dia.
Estava devendo para sustentar o básico. Básico: subsistência necessária para manutenção e reprodução do trabalhador (essa é do Ricardo, não é minha nem do Marx).
Nem perdido o emprego tinha, dever sem trabalhar pelo menos tem lógica, mas como explicar que trabalhava o dia todo, fazia bicos, arrumava emprego de todo tipo, e continuava devendo? Sem conseguir pagar as dívidas velhas, e acumulando novas, sempre para sustentar o básico?
Estava com o nome sujo. Pau de galinheiro.
Cartas e mais cartas. Seu nome foi incluído no SPC. No Serasa. No CFC (não confunda com CCF). Na camada de ozônio. No IML. No FMI.
Quando já estava se acostumando a ter nome incluído, se sentindo menos excluído por isso, ao menos o nome tem inclusão, o que sempre é um consolo, um conforto nesse mundo capitalista, daí começaram os telefonemas.
Posso falar com o senhor X, responsável pela conta tal?
Sou eu, fala aí. Mas um minuto, é você quem está ligando para a MINHA casa. Não seria mais adequado dizer quem é você, de onde fala, se identificar? (Lembrava que tinha aprendido, quando os valores eram arcaicos, que quem te procura é que deve cumprimentar primeiro, se identificar e tal).
Sou Y. Sempre só um primeiro nome. Pseudônimo. Nickname. Funcionário de empresa de cobrança não tem sobrenome. Nem matrícula funcional. Imagine pedir isso a alguém que nem carteira assinada tem, que ganha comissão pelo que consegue receber dos devedores, e a cada três meses é demitido, pois o emprego é temporário.
Emprego temporário que nunca se extinguia, revezando os trabalhadores no mesmo emprego "temporário". Coisas do neoliberalismo, my God, mon Dieu, mein Gott, Dios mio! (mundo capitalista globalizado), quem vai entender essa lógica?
Senhor, olhe ali pela janela. Está vendo aqueles dois homens de preto, bem ali em frente? Sérios, acenando levemente para o senhor? Não são MIB´s. São nossos funcionários. O senhor tem exatamente 48 horas para nos pagar o que deve, ou então eles entrarão em ação, e nunca mais encontrarão seus restos. (Se sobrar restos).
Isso é uma ameaça, senhor Y?
Claro que não, senhor, é apenas o que a Justiça de olhos vendados nos permite. Imagine que nossa conceituadíssima empresa de cobranças faria algo ilegal, como ligar fora de horário comercial para sua residência, ligar aos sábados ou domingos, sagrados dias de descanso, cobrar taxas abusivas, ameaçar sua vida que Deus lhe deu. Até logo.
Senhor X, responsável pela conta tal? O senhor não está sentindo falta de nada em sua residência? Mais propriamente, em seu lar? Não, não estou falando de comida na despensa, de cervejinhas na geladeira, de uma mulher quase-julia-roberts em sua cama.... Sim! O senhor sabe onde estão seus filhos? Casa da namorada? Voltando da escola? Senhor, senhor, veja bem, três dias na casa da namorada, que pai dela iria agüentar?, e sete horas para voltar da escola a cinco quadras de sua casa? Sim, senhor! Eles estão em nosso poder. Mas o senhor tem 24 horas para fazer um substancial acordo conosco, e eles serão libertados, sem seqüelas maiores que as já sofridas...
Não, meus filhos não! Não querem ficar com minha mulher? Sogra? Cunhados? Tenho 5 deles!
Nada negociado, precisa dar um jeito. Solução. Aumento de salário mínimo, nem pensar! Governo romper com FMI e gerar empregos? O queeeeeeeeeê? Deixar de fazer superávit primário pra investir no social? Não me faça rir. Nosso governo é res-pon-sá-vel!
Vamos ver.... o que sobrou de soluções.... outro emprego, impossível. Já trabalha 19 horas e meia por dia. Inclusive aos sábados e domingos.
Claro! Lógico! Evidente! Loteria! Tantas delas pululando por aí. Na mão. Começou a jogar. Sabia, estatístico que era, que as probabilidades eram de uma em milhão, bilhão, quiçá trilhão. Mas começou a jogar. Algo tinha de ser feito. Não dava mais para ficar filando churrasco na casa dos cunhados, nhoque na sogra aos domingos. Todos estavam na mesma situação dele.
Tempo passando, nada de ser sorteado. Inventário da mãe morta, nem pensar, também. Ô Justiça lenta, coisa de louco! Procuremos outra solução.
7 novenas do aumento de salário. Rezou até.
Carteira profissional benzida. Benzeu até.
Jejum das causas impossíveis. Jejuou até.
São Judas e Santo Expedito. Muito poderosos.
Santa Clara e São Francisco. Os do sem poder.
Aliança com o Senhor dos Exércitos, o Deus da prosperidade.
Fez tudo até.
Continuava devendo, até onde sei. Devendo até!

Eloisa Helena Maranhão.


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