05 dezembro 2011

Esperando Godot, o perverso


“Tu és mulher
Tu és um ser
Que pode ser mais do que é
Podes levar na bandeja
A cabeça de um cristão
Podes servir ou vir a ser
O seu próprio sim ou não”
 (Fagner)

Quem espera sempre alcança. Esperar cansa. Ela ainda não havia decidido qual das duas máximas seguir, ou se as duas estavam certas, ou nenhuma. Se sentia horrendamente infeliz de viver esperando, esperando a chuva, pois seu corpo clamava por chuva, tinha até aprendido a dança da chuva, quando pequena, para fazer chover e desanuviar a alma, esperando o sol, e põe sal no muro, e tira sal do muro, por que seu corpo ansiava pelo sol quando fazia frio demais, esperando o ônibus - aí, hein, Chico, achou que ia esperar o trem? -, esperando o marido.
Esperar marido era sempre o pior. Não havia esperado para casar, isso não, que era muito engraçadinha, como diziam as tias velhas, e gostosinha, como diziam os meninos da escola, além de inteligente, como diziam os pais e professores, mais neutros nos requisitos físicos.
Mas depois de casada... ah, leitores, que dó! Que dó daquela engraçadinha, gostosinha, inteligente, esperando o marido voltar para casa.
Tentem, por um momento que seja, sentir o que ela sentia, sejam empáticos, imaginem a engraçadinha e gostosa em casa, esperando o marido, aquele ausente, aquele ocupado, aquele distraído, que saía cedo e nunca chegava, mas quando chegava era o sol. Ou a chuva.
Ma-ri-do. Eita palavrinha desgraçada, brega, sonsa, horrível de pronunciar e digerir. Um homem, com braços para abraçar, pernas para andar, nariz para cheirar, boca para comer, cabeça (para pensar?), mãos para manusear, dedos para dedilhar, nádegas para sentar, pau para comer, pés para equilibrar, polegares opositores e telencéfalo medianamente desenvolvido (enquanto as mulheres, claro, o têm altamente desenvolvido). Marido.
Não que fosse marido, assim, oficial, de igreja, cartório e tudo, isso não, já era demais pra ela, que não queria Igreja nem Estado legitimando suas trepadas. Viu como ela era inteligente? Eu falei. Mas era marido, por que viviam juntos, tiveram filhos, tinham um projeto de vida em comum, marido era e marido esperava.
Enquanto esperava o marido, dia após dia após dia após dia após dia após dia após, infindável sucessão de dias, cheios de horas, cheias de minutos, cheios de segundos, repletos de milésimos, esperava e se agitava, e os dias foram formando meses, e anos.
Claro que a inteligente, gostosinha e engraçadinha não esperava apenas, assim sem fazer nada, sentada numa cadeira de balanço, tecendo a mortalha do sogro, evidente que não, ela vivia, também, se bem que viver, nesse caso, era menos importante que esperar. A ausência dele doía.
Enquanto esperava ela varria a casa, de início, depois aspirava, foi se rendendo à tecnologia, fazia comida, comidinhas gostosas e bem temperadas, com louro, cominho, pimenta, curry, cores e sabores variados, acho que se lembrava de algum dia, no passado, ter ouvido alguém dizer que se pegava marido pelo estômago, não custava tentar.
Enquanto esperava ela lavava roupas, na mão, de início, depois na máquina, foi se rendendo à tecnologia, fazia sexo com ele, gostoso e bem temperado, mudava as posições, com e sem beijo na boca, de pé, de quatro, lambendo, apertando, esfregando, pastando nele, deixando-se pastar, acho que se lembrava de algum dia, no passado, ter ouvido alguém dizer que se pegava marido pelo sexo, não custava tentar.
Enquanto esperava ela passava roupas, desde o início com ferro elétrico anti-aderente, é querer demais condenar a pobrinha inteligente, engraçadinha e gostosa a passar com ferro a carvão, tenham dó!, cozinhava, fazia sexo, lavava chão, fazia sexo, tirava o pó, fazia sexo, (tá complicado lembrar que serviços devem ser feitos numa casa), ah! arrumava os livros na estante, fazia sexo.
Enquanto esperava e fazia os serviços da casa, estudou e se formou, e foi trabalhar, algum dia tinha ouvido dizer que homem gosta de mulher independente e inteligente, acreditou, não custava tentar.
Enquanto esperava acabou grávida, duas, três, quatro vezes, e cuidava dos filhos e esperava o marido, levava os filhos passear, e esperava o marido, levava ao médico, escola, fazia compras. Cada roupinha mais bonita e elegante, precisam ver. Que Godot perverso esse marido.
No começo ela achava normal a espera. Ele tem que trabalhar; desculpava o perverso. Mas não era trabalho de 24 horas por dia, nem aos fins de semana, nem nas férias. Depois passou a ficar triste com a espera. Teve a fase da revolta, também. Um dia me vingo, ah!, se me vingo, faço-o esperar dez anos, sumida, desaparecida, faço-o desfilar com minha foto na praça da Sé, e não apareço, não dou notícias, nem um telefonema, ninguém mais me viu. A vingança da bastarda. Teve a fase da negação. Do enterro. Da ressurreição. Igualzinho doença incurável, o Godot malvado. Igualzinho processo de luto, a espera do Godot. Igualzinho, mas pior, pois ia e voltava, não sarava nem matava, isso que dói mais. Sem fim. Igual danação no inferno, sem esperança de redenção nem solução. Sem nem possibilidade de suicídio como última opção - ou falta de.
Nossa engraçadinha recomeçou a roer unhas, tinha largado na adolescência, homem gosta de unhas vermelhas e longas, acho que tinha ouvido algum dia, recomeçou a balançar-se quando sentava descansando, recomeçou a cantarolar baixinho para esquecer a espera, recomeçou a resmungar pelos cantos, irritando os filhos com aquela ladainha inaudível, recomeçou a beliscar a própria perna, recomeçou a piscar os olhos, recomeçou a freqüentar a igreja, recomeçou com tiques milenares, de todos os tipos, e nenhum trazia conforto. Tudo isso - roer unhas, balançar-se, cantarolar, resmungar, beliscar-se, piscar, freqüentar igreja - todos esses tiques, ela tinha tido quando criança e superado, ou em alguma outra vida, não tinha muita certeza. E recomeçou. A espera propicia tiques, falou uma filósofa dentro dela.
Parece que acostumou. Parece. Ninguém sabe o que se esconde por baixo, ou por trás, de uma alma feminina (nossa! parece Machado de Assis, mas juro que não copiei, a menos que algum dia, no passado, tenha decorado sem notar, e agora vomito, assim, regurgito). Vivia como quem se acostumou.
Um dia conheceu um cara. Adorável. Interessante. Inteligente. Especial. Transou com ele. Não teve dúvidas. Numa noite de lua nova, aquele escuro apavorante, sapos coaxando, corujas piando, uma cigarra que arrepiou ao fundo, ela olhou nos olhos dele, assustada, cansada de esperar o marido e terminaram na cama. Não me peçam os detalhes escabrosos do local onde estavam, era um acampamento, mas isso é segredo, mulheres gostam de segredos, juram com sangue e não contam pra ninguém, pelo menos mulheres inteligentes, engraçadinhas e gostosinhas, como ela e eu.
Mas os detalhes do resto da história eu conto, ou melhor, ela conta, pois escreveu para um amigo contando o que tinha acontecido, tinha que desabafar. Escreveu para o marido, também, o Godot querido.
Olha aí as cartas dela, para o marido e para o amigo.
Carta para o marido:
Meu amor:
Não, não estou pegando pesado te chamando assim. De meu amor. Você é e sempre será meu amor, aquele cara que amei ao primeiro olhar, e que me amou também, quando nos vimos a primeira vez, lembra?
Não faço chantagem, e você sabe disso. Estou escrevendo esta carta por que tenho mais facilidade pra escrever do que pra falar, pelo menos assuntos emocionais... e estou escrevendo com o coração nas mãos. Nas pontas dos dedos. Digito cada palavra, cada letra, como quem digita a última palavra da vida. Por que quero que cumpram o objetivo de cada uma delas, que é penetrar dentro de você, de cada parte de você, de cada neurônio, de cada célula, gritando: eu te amo. Ainda amo você, apesar de tudo.
E quero você. Quero continuar com você, meu querido. Sei que você me ama também. Sei que está machucado, magoado, triste, emputecido, e tem todo o direito de sentir isso e tudo mais que quiser. Mas me ama. Não adianta espernear, falar que não, ficar frio, tentar uma indiferença que não sente, viajar, sumir, se trancar no quarto, dormir fora de casa, desligar o celular quando vê que a chamada é minha, me olhar como gelo. Não adianta, por que sabemos - eu sei e você sabe também - que por trás de tudo isso você quer é me abraçar, dizer que está tudo bem, e voltar à nossa vida normal.
Você também sabe, por que é adulto, e inteligente - se não fosse, eu não estaria com você - que tudo isso que aconteceu é coisa pequena, picuinha, que parece uma grande tragédia, mas não é.
Não vou pedir perdão. Não vou me desculpar. Estou cheia de culpas, mas simplesmente por que fui criada cristã... Não vejo nada de tão grave assim em ter transado com outro. Não vou falar o nome do outro, pra não transformar essa carta no oposto do que deveria ser: uma carta pra tocar seu coração. Se falar o nome dele aqui, vou despertar as mágoas, e elas vão sair pulando, urrando, correndo ao seu redor e te devorar. Transei com outro. Outro qualquer. Poderia ser qualquer um, naquele momento.
Poderia ser qualquer um, e foi qualquer um. É assim que considero. Era qualquer um, por que não era você. Era qualquer um que cumprisse em mim a função de me aliviar da saudade que eu sentia de você. Era qualquer um que servisse para preencher minha carência - de você. Podia ser deus, por que não? Eu podia ter ido pra uma igreja, me convertido, como tentei no passado quando tive problemas de saúde, lembra? Podia ter escrito uma história de amor, ou de saudades, ou de abandono, ou de tudo isso junto. Qualquer um e qualquer coisa, deus, igreja, literatura, arte, serve como tentativa de preenchimento. Nesse caso, foi o sexo.
Transei, acabou. Foi uma transa, uma só, e que se esgotou em si mesma. E acabou tão mal, que a primeira coisa que fiz depois de transar, foi começar a chorar e chamar por você. Não estou mentindo, ele te contou. É você que eu amo, é você que eu quero, é de você que eu preciso. É de você que sinto falta.
Não entenda isso como chantagem nem muito menos como tentativa de colocar qualquer culpa sobre você. Não há culpas nesse caso. Você não tem culpa de trabalhar demais, ter sua vida pra cuidar, ter outros interesses te absorvendo tanto. Eu não te amaria tanto se você fosse um cara comum, sem outros compromissos, sem essa paixão pela vida e por tudo que faz. Eu não seria tão apaixonada por você se você não fosse o que é, quem é, do jeito que é. Você sabe disso, meu amor. Você, mais do que eu, até, sabe o quanto sinto estar longe de você, sabe a falta que sua presença me faz, sabe a necessidade que sinto de você. E, como te disse, e repito, isso não é culpa sua. Nem minha. Nossa vida é assim.
O que posso falar, que já não tenha dito? Que tipo de palavras adiantam numa hora dessas? Não quero ressuscitar suas ex-amantes (Ele também tinha tido amantes, e ela perdoado, afinal, qualquer um pode ter deslizes no casamento)... não quero falar das crianças - dos nossos filhos - que te deixei fabricar no meu corpo, por que te amava e amo mais que tudo na vida. Não quero falar de nada que esteja nesse momento fora de nós, de você e de mim, por que estou falando do nosso amor, da nossa relação, da vida que construímos juntos.
Lembra de Paulo Freire? "O mundo não é... o mundo está sendo"? Pois nosso casamento não é. Ele está sendo. Está sendo construído por nós dois nesses anos todos. E muito bem construído, reconheçamos, pois é sólido, consistente, não "oscila ao menor vento" como o jeans pendurado do Oswaldo Montenegro; estamos construindo bem esse amor que nos prendeu um ao outro.
Me sinto privilegiada - e você também deveria se sentir assim - por esse amor. Você deveria sentir alegria e privilégio por ter uma mulher que transa com você, depois de tantos anos de casada, como se fosse a primeira e a última vez, cada transa, e ainda morre de tesão e amor por você. Quantos casamentos dessa idade do nosso você conhece em que isso ainda existe assim tão forte, e tão intenso, essa paixão, esse desejo, esse... amor? Quando você me toca, você não toca só meu corpo, não manipula apenas meu sexo, mas toca minha vida toda.
Eu não só transo com você, meu querido... eu faço amor com você. Eu me deixo amar por você. Não é sexo como outro qualquer, que só traz alívio fisiológico, que apenas desfaz as tensões. É sexo de alma, também. Quando você me ama, quando se enfia em mim, quando entra dentro de mim, você entra na minha alma, penetra meu futuro, abre meu presente e faz amor com meu passado, também. É bom transar com você - e agora digo, só com você - por que só você me faz sentir isso.
Não sei mais o que dizer. Não sei mais como te pedir pra ficar, pra não ir. Você não vai embora de casa, da sua casa, da minha, da nossa casa. Seu lugar é aqui, comigo. Sempre. Mas é pra ficar inteiro. Não quero você simplesmente dentro de casa como um fantasma, não quero rezar missa de corpo presente, não quero que transe comigo só por que não resistiu - como no dia que foi me buscar no acampamento - não quero ter que tarar você, quase te obrigando a fazer sexo comigo. Não quero seu pau. Quero você. Quero que volte a fazer amor comigo, e que volte a deixar seu amor fluir. Quero que me beije outra vez, muito, bem demorado, sentada no seu colo, pastando sua barba, e você mexendo devagarinho no meu sexo, e eu no seu, até me deixar desvairada, tocando no meu corpo, como sempre fizemos até aqui.
Não quero que me olhe com raiva, com mágoa, com os olhos encharcados de mágoa e de dor de traição. Não traí você. Nunca trairia você. Sou leal a você, como você é a mim. Isso importa. Essa lealdade de olhar nos teus olhos, que tentam ser frios, mas não conseguem, e dizer: transei com outro, Bruno (Os nomes foram trocados para preservar a privacidade dos personagens. Mas é tudo real, eu juro!). Mas queria estar transando com você naquele momento. Ele me tocou, sim, mas era você que eu queria. Foi fraqueza, foi carência, foi fruto da solidão - da imensa solidão que sinto quando você não está perto de mim.
Quero que me olhe com amor, que ria pra mim de novo, que me deixe fazer você dar risada... quero que durma do meu lado, ou abraçados, e não sinta ressentimentos quando me olhar dormindo, que não me seque, mas me ame com o olhar, como eu olho para você, e te amo, acordado ou dormindo, longe ou perto.
Mas isso é só com o tempo, não é? A dor também vai passar, essa mágoa, essa tristeza, essa raiva, tudo vai passar, e vamos voltar a ser nós dois de novo...
Te amo, meu querido. Me perdoa por ser como sou, e amar tanto você a ponto de não te deixar livre de mim.
Estou emocionada. Bruno também ficou. Chorou, abraçou-a e perdoou. Mulheres também deslizam no casamento.
Mas olha aí a outra carta, dela para o amigo:
Sérgio (Os nomes continuam trocados.):

Que chata, né?, ficar escrevendo pra você a essa hora da manhã. (Eram cinco horas de uma madrugada insone. Ele não recebeu a carta nesse horário, mas isso não importa, por que ela escreveu.)
Você deve estar dormindo, depois de uma noite cansativa demais - o que você fez essa noite?, fico imaginando... Leu? Transou? Estudou química? Curtiu seu filho, talvez tocou violão e cantou para ele? Ou apenas caiu morto de sono na cama, depois de comer qualquer coisa, e dormiu o sono dos justos (os justificados pelo trabalho extenuante)?
Mas preciso escrever, como maneira de colocar as idéias em ordem... por mais que eu pense, ou sinta, enquanto não escrevo é como se tudo estivesse lá em desordem, como se o caos continuasse instalado (o caos é instalado, ou é a não-instalação?; isso não é hora para filosofar); se eu fosse deus , teria escrito o mundo em sete dias, acho, e seríamos todos personagens da ficção - da divina ficção, escreveria você, com seu jeito de inverter substantivos e adjetivos. (Ela escrevia deus com minúscula, mesmo, por que era atéia, convicta, nada de agnosticismo com ela, tinha decretado que deus não existia, e era assim que vivia, apesar de orar e ler a Bíblia quando necessário. Bíblia escrevia com maiúscula, não por respeito, mas por que era nome de coisa existente, humana, demasiado humana, diferente de deus.)
Estive pensando no que conversamos ontem, sobre minha transa com o R. (vou chamá-lo assim, não estou com vontade de chamá-lo pelo nome, não sei por que; ou talvez saiba; sem denominá-lo ele é apenas mais um, sem rosto, um corpo, um amigo, um amante, e não um... um  o quê, mesmo?)
Você me colocou que talvez o sexo com ele não tivesse sido tão bom quanto eu disse, ou achei que senti, o que dá na mesma, a ruptura entre ser realmente e ser virtualmente. Foi bom. Ele transa bem. Come muito bem. Usou meu corpo das maneiras mais interessantes e competentes, tocando onde devia, fazendo com que cada pedaço de mim reagisse às mãos e ao toque dele. É um homem sensual, delicado no toque, sem pressa. Passamos, acho, que umas quatro ou cinco horas nos "conhecendo", tocando, sentindo, nos apossando um dos desejos do outro, do corpo do outro.
Mas... e é isso que você me fez perceber, com sua afirmação quase banal – Lívia (Ai que saco ficar inventando nomes para preservar meus personagens. Vou acabar chutando o balde e dando nomes aos bois), acho que você não gostou tanto assim do sexo com o S.-, você me fez tomar consciência da diferença entre transar e fazer amor.
Penso que é essa a questão central na comparação (inevitável, mas será ética?) entre o S. e o Bruno (esse nome me permito escrever, gosto de escrever, e ler, o nome dele; escrevo como quem vê o homem, o ser humano por trás do nome; quando leio ou escrevo ou soletro Bruno, soa doce, sinto que alguma coisa se move em mim; talvez por isso o nick daquele "Bruno" do chat mexa tanto comigo, não consigo ficar lá, olhando praquele nick impessoal, sem piscar pra ele, mostrar a língua, fazer psiu!, pulando na frente dele até que ele me olhe e diga pelo menos um ôi). Maluco, né? Às vezes penso que reproduzimos (ou, ao menos, eu reproduzo) na sala de bate-papo o que somos na "vida real".
Quando ele está lendo, escrevendo, fumando, ouvindo música, absorto, sinto essa mesma necessidade de chamá-lo pra mim, de que ele note minha presença e sinta minha falta (como eu sinto a dele), mas não sei essas "sutilezas femininas" de começar a tossir, cruzar as pernas deixando a calcinha à mostra, ou passar as mãos nos cabelos, suspirando alto e deixando o decote cair "sem querer"; sou direta demais, e me enrosco nele, sento no seu colo, ou então falo "êi, psiu!", e pisco ou mostro a língua para ele. Como ele reage? Sempre bem... é desarmado pelo humor e pelo jeito direto, odeia rodeios e ensebação; portanto, me acolhe e... sexo. Tudo entre nós acaba em sexo; um amigo diz que 90% do nosso casamento está salvo pelo sexo.
Estou escrevendo isso e me arrepiando, os mamilos latejando, o sexo pulsando; é assim que fico quando penso nele; quero os beijos dele, e aquela barba nos meus lábios, no meu rosto...
Ele também me provoca, quando estou absorta, enrodilhada em mim mesma; mas me provoca com os olhos; fica me olhando até que eu perceba seu olhar sobre mim, levante os olhos e sorria pra ele. Fico sem jeito ainda, acredita? Depois de tantos anos vivendo juntos, ainda coro sob aquele olhar irônico, nunca sei se está pensando que me ama, se está rindo de mim, se está pensando em política ou se o carro precisa de gasolina. Fico olhando sério nos olhos dele (que tesão, meu deus!) e ele me chama com as mãos ("vem cá", com as duas mãos abanando os dedos em direção ao peito, sorrindo). Eu vou (sexo pulsando, na hora e agora). Não tenho como não ir pra ele, não ser dele, não me entregar. Nem tenho por que resistir. Sou dele. E ele sabe disso, é isso que pega. Não gosto de me sentir assim tão vulnerável, apaixonada, latejando de tesão na presença dele, implorando pra ser beijada, lambida, catada, tocada, manipulada, comida, fodida, penetrada, virada de lado, de costas, de pé e ajoelhada, com os mamilos saltados, a boca salivando, os pelos arrepiados, o sexo em sopa, escorrendo na língua dele, na barba dele, o coração disparado, privada da fala e da respiração, gemendo, suando, miando, mugindo, porque a presença dele mexe comigo toda, e me faz voltar a ser a pré-histórica só corpo, só pele e sensações, afogada de desejo.
Ele tem um efeito avassalador sobre mim.
Não senti isso com o S. Gostei, sim, gozei, sim, senti seus dedos, seu pau em mim, sua barba subindo pelas minhas costas, o gosto do pau dele na minha boca, o peso dele sobre mim, sua língua me lambendo, me sugando, aquele sotaque gaúcho ("ah!, minha prenda!" - nunca tinha sido chamada assim, senti estranhamento, misturado com o desejo crescendo). Acho que foi nessa hora que o apito disparou, fechei os olhos e ouvi o Bruno me comendo ("ah, meu amor, eu te amo tanto!"), foi quando senti a diferença entre transar e fazer amor. O sexo fisiológico que alivia a tensão e sacia o desejo, e o sexo que, através do seu corpo, encosta em sua alma.
Me senti um pedaço de carne crua, sangrando, sendo devorada gulosamente, e gostei, sim, não queria parar de ser comida, rasgada, dilacerada pelos dentes daquele homem. Fêmea. Dele ou de qualquer outro. Não que ele fosse um troglodita, não, era carinhoso, atencioso, "você gosta, minha prenda?", "quer assim?", "quero, Roberto (Sem comentários sobre a troca do nome), quero, quero, quero tudo, quero qualquer coisa".
Quero, Roberto, quero qualquer coisa... qualquer coisa que me sacie (a fome dele), qualquer coisa que me faça esquecer (a presença dele), qualquer coisa que substitua o Bruno em mim. Quero meu marido, Roberto, meu companheiro, quero aquele sexo sem sangue nem carne crua, quero os beijos e abraços que me devoram, mas que levam anos pra me devorar, quero aquele pau que se enfia duro, queimando, desesperado, na minha boceta, mas é desespero tranqüilo; que arromba meu cu, e enche minha boca de porra, mas faz isso em anos, aos poucos, me completando devagarinho, e não em uma noite, me esvaziando e deixando largada - carne crua - na cama. (Claro que não disse nada disso para ele, seria indelicadeza exagerada).
"Gostei muito, minha prenda, você é uma mulher deliciosa" (ou algo assim). Eu já tinha virado uma fonte, um rio, voltada pra parede e chorando, por que, Bruno, por que eu estou aqui?, por que você me deixou vir, meu amor?, por que me abandonou aqui? Não quero ser independente, não esse tipo de independência, não quero ser livre, não a esse preço, não quero outro homem em mim, me limpando de você. Não quero o R. ("Você também é o máximo, Roberto, desculpe" - soluçando - "não é nada com você, eu que não estou legal").
Preciso tomar banho, fazer xixi, vomitar, deitar e me deixar largada, esgotada, sem vontade nem mais nada. E se ele não me quiser mais, nunca mais? E se me deixar aqui ("ela que se foda"- eu diria!) Se me expulsar de casa, tomar as crianças, me olhar com ódio e com voz gelada "sai da minha frente, não quero te ver nunca mais... você morreu pra mim". E se?
Então veio a febre, o suor, o tremor, que frio, tá tão frio, Bruno, vem me buscar, por favor, não quero morrer aqui sozinha sem você. (Nem viver).
O resto você sabe. ("O que aconteceu, meu amor? Por que você tá assim desse jeito? Tá doente?", "Transei com o R., Bruno. Dei pra ele.", "Depois a gente fala sobre isso, dorme um pouco, agora", "Não, não levanta, não sai daqui de perto, por favor, fica aqui comigo, fica, por favor", "Eu fico, mas agora dorme, fica calma, já vai amanhecer, e a gente vai embora", "Dá a mão pra mim, por favor, isso, segura minha mão, me segura, meu amor").
O resto você sabe. ("Eu te amo... me abraça, por favor", "Depois a gente conversa, agora estou dirigindo", "Eu te amo, pára o carro, por favor... quero falar com você", "Me deixa dirigir, tô cansado", "Eu te amo.. se não parar o carro, vou me jogar pra fora... e não estou blefando, você sabe", "Pronto. Fala", "Eu te amo... me abraça").
O resto você sabe. Sexo, no carro, eu sentada no pau dele, ele passivo, com raiva, até começar a gozar ("Eu te amo, eu te amo, eu te amo, por que você fez isso comigo, por que?, eu te amo, eu te amo, caralho, não precisava dar pra ele, você é minha, é minha, é minha, eu te amo, porra!, por que deu pra ele, porque?, é minha, eu te amo!", "sua, sua, eu sou sua, sim, só sua, você sabe, você sabe, eu te amo, sou sua, sim").
Sou dele. E tenho medo de dar pra outros, de novo, procurando por ele. Sou dele. Então, ele que seja - mais - meu, também.
(Isso aqui vai virar um conto. "Traição conjugal". Ou "Trepadinhas esporádicas").
Resolvi escrever o conto pra Lívia. Eu disse que ela era engraçadinha, inteligente e gostosa.

Eloisa Helena Maranhão.

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