05 dezembro 2011

Fluorescente


“Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.”
(Caetano Veloso)

Eu odeio a noite. A gente devia ter evoluído só de dia, ao sol, odeio acordar lambuzada de escuridão. Noite, corpo cristão nu, besuntado de betume, a iluminar os jantares romanos. Dezenas de asquerosas baratas a lhe cobrir o corpo semi-adormecido e descoberto, na selva. Isso é noite, ele nem sabia, mas sentia. E tentou dormir de novo.
Não conseguiu. As noites eram escuras demais, o silêncio carregado demais de lembranças, e as lembranças repletas demais de solidão, de falta dos seus, para poder dormir.
Por isso mesmo é que, quando ganhou aquele pedacinho de pedra azul, fluorescente, que brilhava e iluminava o quarto, se sentiu tão feliz. Agora posso dormir, olhando a luz que me faz companhia. Já não se sentia tão só.  Fazia sombras nas paredes, mas era tão estranho, diferente, não era exatamente sombra, mas coisa com brilho, sombra também reluzente, nunca havia visto algo assim, uma luz que mesmo na sombra continuasse reluzindo. Ele se sentia peixe, num aquário não de água mas de pó, de raios, que flutuavam pelo ar e preenchiam o quarto. E passavam pelo seu corpo, como se ele não estivesse ali; olhava-se no pequeno espelho pendurado num prego na parede, e podia ver as purpurinas azuladas que irradiavam da pedra atravessando seu corpo e reaparecendo do outro lado. Achava interessante ser assim como se fosse feito de ar, de um material poroso, que deixasse passar o brilho por si.
Era bom também olhar para a menininha lambendo a pedra fluorescente, esfregando-a no corpo, uns riscos nas bochechas, outros no peito, no queixo, na testa, dançando pela casa rindo muito, indiazinha, apagando as luzes para que todos a vissem brilhar no meio da sala.
No dia seguinte eram vômitos, desmaios, tonturas, enjôos, diarréias, e o brilho bem vindo passou a transformar-se em pavor, que pedra amaldiçoada era aquela que trazia no bojo de sua beleza azul fluorescente a doença, a dor, a morte?
As mangueiras tinham sido plantadas ali no quintal havia muitas décadas, e o bisneto tinha ouvido dizer que o bisavô avisava que só dariam frutos depois de quinze anos, mas depois floresceriam e frutificariam para sempre, e alimentariam os passarinhos e as pessoas que ali passassem. Nunca proíbam que comam dessas mangas, dizia o bisavô antes de morrer, aquilo que plantamos deve alimentar todos que precisem.
As mangas nunca foram negadas a quem as buscasse, e eram cheias de sumo, e doces, e pareciam pedras preciosas quando bem maduras, cintilando ao sol e deixando o ar cheio daquele perfume laranja e dourado. Naquela tarde faziam um contraste com a pedra azul ali em cima do tapete, no solo de terra nua, e não se sabia dizer o que era mais bonito, o dourado das mangas ou o brilho azul da pedra.
A menina sempre se maravilhava com o tamanho das árvores, as copas tão verdes, as frutas despontando pequenas, primeiro verdinhas, depois amareladas, até se tornarem em mangas douradas, avermelhadas, e aquelas cores todas enchiam a criança de uma alegria intensa, e pedia que a levantassem para tocar e cheirar e lamber as frutas ainda no pé. Depois, aprendeu a subir nos galhos, e tocar as mangas por si só, e seu corpo e a árvore se conheciam, se conquistaram e eram um.
Mas naquela tarde ainda não havia começado a doença da pedra radioativa, e a beleza não incomodava, só enchia os olhos e as almas, e a criança dançava feito indiazinha. O marido apaixonado decidiu levar um pedaço da pedra preciosa para dar à esposa que o esperava e nunca ganhava presentes, pois era tão pobre, mas ficava com os olhos arregalados quando olhava as madames com suas jóias. O adolescente solitário de Goiânia levou sua parte de companhia e a colocou na mesinha de cabeceira, no aquário de seu quarto de moço sozinho. Até que olhar-se no espelho com os dentes caídos fosse um susto. E a dor, tudo doía, os ossos, o maxilar, a mandíbula, tudo era dor.
Havia saído de casa tão cedo, para trabalhar e morar no quartinho, onde não pesava para ninguém, aliviando a mãe para que pudesse cuidar dos irmãos menores.
Adolescente também era o menino de Recife, que catava lixo com a mãe para sobreviver. Mas não se sentia só, pois ainda não tinha sido obrigado a ir viver sozinho para se sustentar. O lixo servia de quitanda e mercado, por enquanto. Restos de leite para a irmã mais nova, roupas velhas que ainda serviam para uso, pedaços de frutas, legumes, batatas e tomates dos quais tirariam as partes podres para comer o que sobrasse.
Sorte! A mãe gritou, estamos com sorte, achei carne hoje. Levaram para a casa o pedaço de carne encontrado, parecia carne de frango, talvez, era branco, meio mole, e quando fritaram na frigideira preta e já tão torta, aquela gordura amarelada levantou um cheiro adocicado que encheu o menino de nojo, mas comeu mesmo assim, a fome era mais urgente que o enjôo.
Só não sabiam, nem os de Goiânia, nem os de Recife, que estavam consumindo e se contaminando com lixo hospitalar, abandonado nos terrenos baldios e nos lixões.
Estavam consumindo seios humanos fritos, de tanta fome que sentiam, e encantando-se com uma pedra de césio radiativo, de um aparelho de radioterapia enterrado no lixo comum. Os seios amputados também haviam sido jogados no lixo comum, e não incinerados.
Ah, se as águas dos rios pudessem gritar, e os lamentos das mangueiras fossem ouvidos, e a lama dos manguezais gemesse, e o rumor das ondas do mar dissesse o que os humanos ocultavam, ah, se as montanhas se encurvassem de vergonha, e as nuvens escondessem a humilhação do sol, e a chuva pudesse lavar essa infâmia toda de ser povo, de ser pobre, de ser simples, de só contar consigo mesmo, de ser desamparado. Ah, se as pedras falassem, quando não havia mais profetas que falassem pelos humanos, e nem cantores que cantassem suas dores.
Um desamparo tão imenso que se transformava em mesquinharia, tentando apedrejar o caixão da menina que dançava de índia e experimentava na boca a beleza da pedra encontrada, como qualquer criança saudável e feliz.
Sentir a textura da cor azul fluorescente, como o menino sentiu a textura da carne mole frita e enjoou, mas se obrigou a comer, que a fome era mais urgente que qualquer enjôo.
Sentir as lágrimas correndo pelo rosto, enquanto a filha era enterrada num caixão de chumbo, sob os olhares amedrontados da população desinformada, que não queria o enterro naquelas terras onde viviam, temendo contaminar-se.
Já não bastavam as mortes, as feridas que não cicatrizavam nos corpos nem nas almas, ossos frágeis dissolvendo-se dentro de si, as queimaduras, as dores, a cegueira, os dentes que caíam todos juntos, assim como os cabelos, a pele engruvinhada, mudada de cor, e o medo, meu Deus!, o medo era tanto e ninguém sabia o que fazer.
Não havia reza que exorcizasse o medo, nem igreja que chegasse para os pedidos de salvação, passa de nós esse cálice, afasta essa maldição daqui, Senhor, tem misericórdia de nós, inocentes. Mas quem pode se dizer inocente num mundo como o nosso...
Não havia governante nem cientista que explicasse o mal que desabava sobre a cidade, e que trouxesse informações que aliviassem.
Quando as informações chegaram – a ciência tão sábia do final do século XX, quase século XXI – era tarde demais para aquelas pessoas. Aqueles humanos, tratados como gado.
Quando as informações chegaram era tarde demais, também, para que se fizesse justiça, se cobrassem responsabilidades e se indenizassem as vítimas; e não era tarde por que não dava mais tempo, mas sim por que não havia vontade de se usar o tempo e as informações para se fazer justiça.
É isso que dá viver num país em que o Estado se importa absolutamente nada com os pobres.
E os goianos continuam vivendo – os que sobreviveram -, continuam votando, a ciência continua avançando e os governos continuam pouco se lixando.
Mas a mangueira já não dá frutos e a terra daquele bairro continua contaminada. Como nós, contaminados pela omissão que afeta os covardes e os insensíveis.

Eloisa Helena Maranhão.

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