05 dezembro 2011

Indo embora

"Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.
Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza"
(Chico Buarque) 

Estou indo embora.
Já fiquei tanto!
Comi, bebi, descansei, me banhei nas águas dos rios, dos lagos, do oceano que fica ali pertinho...
Pesquei nos rios, nos mares daquele oceano ali tão pertinho, mas tão difícil de chegar e com algumas ondas tão altas, que me enchiam de medo, e espuma que me davam prazer, mas iam passar...
Cacei, também, corri atrás das presas, derrubei-as com flechadas certeiras, outras vezes nem tão certeiras, mas pesquei, e cacei, e comi a carne crua tantas vezes, e outras assada, e noutras, cozida... E a carne saciava minha fome...
Subi nas árvores, comi das frutas todas, e eram tão boas, e tinham tanto sumo, e saciaram minha fome.
E agora estou indo embora.
Preciso ir.
Não sei como explicar esse desejo, essa necessidade, essa coisa que cresceu dentro de mim, olhar a paisagem em redor, e ver que tudo já é tão conhecido, as árvores, das mesmas frutas, as águas, dos mesmos rios, e lagos, e mares, daquele oceano que fica tão pertinho daqui...
Conheço cada peixe de cada rio, e cada peixe do mar, e cada fruta de cada árvore, e cada raiz embaixo da terra, e cada semente, sei que planta vai nascer de cada uma, e por isso preciso ir embora.
Conheço cada presa, cada fera, e sei fugir para não ser predada, e sei caçar cada presa... passei anos espreitando, aprendendo, conhecendo seus hábitos, ensaiando cada gesto que deveria usar, e agora conheço, e agora preciso ir embora.
Conheço cada nuvem desses céus, e as cores delas, e quando vão chover e quando vão se dissipar – ah! essas nuvens que eu tanto amava, e que eram tão carregadas de significados quanto de chuvas em gestação, ah, essas chuvas que me lavavam, tiravam o calor, e o suor, e o cansaço do corpo, e quanto bebi de suas águas deitada no chão de terra e no chão de mato, ah!, essas nuvens que eu amei tanto, mas já não me dizem nada... Preciso ir embora.
E tudo que não conhecia, o sol ardido, criando bolhas na pele, a terra sequíssima, empedrada, queimando os pés e arrancando a pele, e tornando-os tostados e cheios de cicatrizes doloridas, e os espinhos e os galhos retorcidos, que enchem os dedos, mãos, braços e pernas de arranhões, menos ou mais doloridos, e menos ou mais sangrando, e que deixam cicatrizes doloridas, todas elas doloridas, e já conheço os animais mortos e putrefatos, e cheiram tão mal, e não me deixam respirar, e já conheço os restos de árvores derrubadas, e restos de plantas já ocas por dentro, e que dão tanto desgosto da devastação ocorrida, tudo que não conhecia agora conheço, então preciso ir embora.
Quem matou a caça e não deixou as fêmeas prenhes de seus filhotes, e quem derrubou as árvores, e queimou o húmus, quem impediu as nuvens de choverem, e quem deixou os animais e plantas apodrecendo ali, na frente dos nossos olhos e narinas, e quem poluiu os rios, e os lagos, e os mares e tornou aquele oceano tão distante? Não faz diferença, quem devastou e criou essa desolação toda, não importa. Mas eu preciso ir embora.
Então me deixe ir embora, meu querido.
Me segura mais não, tira esses tocos de árvores que colocou no caminho, e remove os galhos e a lama que deixou acumulados aí na saída, só pra eu não ir. Cata as pedras e joga longe. Não joga em mim, não.
Devolve minhas roupas que costurei com tanto esforço, meu bem, peguei folhas e cipós na mata, e pelei animais, e fabriquei roupas com tanta dificuldade, e você escondeu, e está contando com que elas apodreçam guardadas e eu nunca mais saia, assim despida, assim nua com a pele flácida, e cheia de rugas, e os seios caídos, e os passos trôpegos de tanto tempo sem andar por outros caminhos...
Vai lá agora, pega todos os pedaços de mim que estão largados pelo chão, e jogados nos cantos, e empilhados no meio da lenha, e abandonados na nossa cama, e grudados no seu corpo. Cata tudo, já, por favor, e me devolve.
Me devolve a mim mesma, meu amor.
Pois eu preciso tanto ir embora.

 Eloisa Helena Maranhão.

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