21 dezembro 2011

Metrô

Não era do tipo que dizia ao filho você me espera aqui, eu volto logo, e não voltava. O filho não precisava ter medo, o pai nunca o largava, nem sumia.
Só que naquele dia  - a gente sempre conta histórias “daquele dia”- um meio dia abafado como tantos outros, o filho desapareceu, contou o pai pelo telefone à mãe chorosa, estava procurando, claro...
O pai sumiu, andava o filho pensando... ou pensava andando. Já já o pai aparece e vamos pra casa... Enquanto isso... enquanto isso o filho passeava feliz, meio dopado de liberdade, o que descobria! Com o pai era diferente, ele ia explicando tudo, mas agora o menino via, e o que o menino via, o pai nunca veria –ou já viu e se esqueceu... memória de pai é curta...
“Não lembro a blusa, mas é calça jeans; tem cinco anos, sim. Desapareceu. Eu olhei e ele não estava, voltei procurando... quase duas horas, nem comeu ainda...”
O menino, como qualquer menino que se preze, começou a sentir fome. Sim, eu poderia dizer “as pontadas de uma fome que surgia”, mas a fome era do menino, e menino sente fome sem adjetivos, e sem complementos. Sentou para examinar os bolsos... onde sentou? Agora é você, leitor, que pergunta como um menino... embaraçosa pergunta... sente-o em seu colo e vai descobrir um mundo novo... Não havia nenhum colo disponível e o menino sentou-se no chão. Uma bala piper, restos mortais de uma maçã, uma bolinha de gude com grave crise existencial – estava lascada e já não rolava normalmente, e uma foto do Guga jogando tênis.
Qualquer leitor inteligente presume que o filho comeu a bala –literalmente triturou-a – e jogou a carcaça da maçã... é o que deve ter acontecido... apenas transmito o que ouvi truncadamente no ônibus.
O filho continuou andando. Meu pai sumiu, disse pra moça de verde. Chamava-se Rosa – devia estar fotossintetizando. Rosa de verde, verde-rosa... não havia visto um pai perdido, de camisa azul, olho azul, cabelo azulado de tão preto...se tivesse visto, agora às sete da noite, estaria com ele em algum restaurante, esperando o depois... Pai perdido e bonito nunca fica muito tempo sem ser achado.
O filho não pareceu entender essas divagações tão complexas, mas sabia que o pai não era mais o pai perdido, fora achado e jantava... e ele nem almoçara ainda...
Impossível ver a lua no túnel do metrô... e a lua e as estrelas sempre dão esperança... o menino não as tinha, nem estrelas nem esperança.
“Não vi o menino, era tão pequenininho... quando percebi, e apitei, ele já tinha se jogado”, contou o metrorista acinzentado para o pai azul-desbotado, “foi tudo tão rápido...”
O menino não era mais filho. Nem menino.


Eloisa Helena Maranhão.

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