21 dezembro 2011

Morcego e violão


“Madrugada chegou, o sereno caiu, meu amor de cansado caiu nos meus braços, sorriu e dormiu... Eu só queria que não amanhecesse o dia, que não chegasse a madrugada... Eu só queria amor, amor... E mais nada”... (José Messias)

Aquela caminhada pelas trilhas da Mata Atlântica era um dos passeios que ela mais gostava; mosquitos, pés doendo, bagagem pesada, nada se comparava com olhar a mata, sentir sua energia pulsando, a sensação de ser parte da natureza. Muito verde, muita água gelada e refrescante, os banhos de cachoeira!...  E à noite a barraca montada, lua e estrelas, papo em volta da fogueira e violão... a vida se encaixava, nada ficava fora do lugar.
Enquanto a tarde deslizava, ela pensava que não havia nada mais gostoso de sentir no corpo do que o entardecer, o sol avermelhando devagarinho, o vento fresco espantando pra longe o calor do dia... ia pensando e cantando internamente (cantar internamente era o que melhor fazia, consolando e lavando sua alma nas canções)... “na hora que o sol se esconde, e o sono chega, o sinhozinho vai procurar... a velha de colo quente que conta casos e conta histórias para ninar...”
Quando deu por si não havia ninguém mais por perto... uma agulhada de medo espetou-a por dentro, mas decidiu manter a calma e continuar andando até reencontrar seu grupo, ou por eles ser encontrada, antes da noite cair... pensar na noite caindo sobre sua solidão no meio da Mata alfinetou-a novamente, e de novo resolveu manter a tranqüilidade e prosseguir seu caminho. Afinal, filosofou, sozinha também se vive, e não desistimos de viver por causa da solidão nem dos perigos a serem enfrentados... não mesmo?, incomodou-a uma vozinha de sobrancelhas erguidas... Resolveu que era melhor não pensar, não filosofar, pois aquele momento era de ação, de lucidez e não de lambuzar-se no medo ou na angústia. Continuou, portanto.
A noite não deslizou como a tarde, mas desabou sobre ela, que foi então procurar uma caverna onde pudesse esperar o sol; sua barraca estava na bagagem de um amigo e ao relento seria difícil e perigoso enfrentar o frio, cobras, insetos; preferia um teto, e notou ironicamente que apesar de tão sensível à natureza, era humana além do que imaginava, a cultura havia se impregnado nela mais do que gostaria, mas era assim e assim teria que viver.
Andou uma meia hora, sem encontrar seu grupo, nem caverna, embrenhando-se cada vez mais... segurava a angústia no fundo de si, não a queria à tona para que não se transformasse em desespero e medo, precisava manter-se no caminho... pra onde?, outra vez a vozinha, de olhos espiando, que ela enxotou para manter-se continuando...
Foi então que viu uma sombra pendurada num galho de árvore... não quis gritar pra não espantar a si própria, pois sabia que se gritasse sairia correndo e não pararia nunca, nem de correr nem de gritar, até que encontrasse seu caminho novamente... preferiu manter o grito preso, nem que fosse por um fiozinho pequeno como a teia de aranha para a qual olhava fixamente... foi nesse momento que percebeu do que era a sombra que a assustara... era um pequeno morcego, balançando no galho, cego de visão, mas que a chamava com seu sonar... ela sentiu que era chamada, e resolveu atender... dentro de si a vozinha de coração tranqüilo não a incomodou quando disse: e por que não?...
O morceguinho levantou vôo, trotando micro-passinhos enquanto ela o seguia... foi cantando “amor, vim te buscar em pensamento; cheguei agora, no vento... amor não chora de sofrimento, cheguei agora no vento”... Ela não pensava em nada, hipnotizada pelo morcego que a chamara, e ele só sentia que estava acompanhado por quem esperara tanto tempo... levou-a para sua caverna, onde muitos outros morcegos viviam, pendurados nas rochas dos tetos...
Assustada e não querendo amedrontar os morcegos que se debatiam pelo ar tirou o violão da capa e começou a cantar, sentada no chão... “eu tenho medo de ver as criaturas da noite... estátuas sem rosto me olhando eu já vi das criaturas da noite”...
Os morcegos se aquietaram, parando de se debater inutilmente (é inútil aquilo que fazemos por que temos que fazer?); ela cantou até sentir a alma sossegada, e depois de acender uma fogueira que evitaria os animais e o frio indesejados, deitou-se sobre folhas secas que cobriu com sua blusa... ficou deitada de sutiã e calcinha, sentindo o calor da noite dissolver seu corpo e suas preocupações... o morcego que a guiara dependurou-se no teto e ficou olhando na direção dela...
De olhos fechados ela olhava as fagulhas beliscando o ar noturno, enquanto ele tirava o resto de suas roupas, arrepiando seus mamilos com beijos e esticando-se sobre sua pele macia... conforme a penetrava ela não conseguia deixar de gemer em seu ouvido e sentir a música ecoando dentro de si, com todos seus movimentos e ritmos, “eu quero sentir o seu corpo pesando sobre o meu, vem meu amor, vem pra mim, me abraça devagar, me beija e me faz esquecer...”
Quando acordou com o sol alto já não queria esquecer nada, mas apenas lembrar a noite passada nos braços... de quem?... importunou-a a vozinha estridente de olhos arregalados... vestiu-se pensativa e pôs-se a andar...
Foi encontrada pelos amigos de caminhada; recebida com abraços, foram tomar um banho de cachoeira antes de terminarem o passeio...
Entrou nas águas geladas e perceberam que estava com marcas no pescoço e nos seios... se fosse só ali, sorriu ela pra si mesma, com a alma também marcada por aquela noite... e ao se lavar notou que havia sêmen humano dentro de si.

Eloisa Maranhão.

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