07 dezembro 2011

O Homem-Martelo

Para Nietzsche: se alguém no mundo tivesse podido confortá-lo, meu querido...

 “Desilusão, desilusão, danço eu,
dança você na dança da solidão”
(Paulinho da Viola)

Não conseguia voltar o suficiente no tempo até o momento exato em que havia começado a matar Deus... só se lembrava que desde criança olhava a vida de modo diferente das pessoas à sua volta, que não sentia a inefável (e indizível) sensação de sentir-se protegido, amado por um deus qualquer. Assumia aquela sensação de desamparo, a orfandade de ser humano, e ia em frente.
Passara pela vida de cabeça erguida, espinha ereta, nariz empinado... não era feito da substância desprezível que compunha os ajoelhadores; não tinha predisposição mental para a subserviência, nem a mínima vocação para servo... tudo nele era liberdade, potência e virilidade. Não arrogância. Nem prepotência. E gostava disso. Sentia-se livre ao construir sua própria vida, caminhar pelos atalhos, meandrar pelos vãos.
A vida o vergará, pensavam saborosamente, cheios de esperança nos sofrimentos que lhe haveriam de advir e quebrantar, os que o conheciam... nada como a vida pra desempinar narizes e dobrar joelhos, desejavam, exercitando o "amor cristão".
Mas ele continuava seu destino de martelo, destroçando o que lhe vinha acabado pela frente; alguns nascem para destruir para que outros aproveitem as pedras e materiais dos escombros...
Sem âncora, teimava em navegar em alto mar e suas lições de abismo não o protegeram do perigo; ouviu seu chamamento na voz de um animal espancado e não conseguiu voltar à tona; abraçado ao que gemia, desumanizou-se nesse abraço, humanizando-se definitivamente com o animal em si, em nós, melhor ser um animal evoluído que um anjo decaído, martelava pela vida adentro, adentrando a existência concreta de ser humano, demasiadamente humano, doídamente humano, tragicamente humano. Da fragilidade de que somos feitos os humanos.
Nesse abraço apreendeu o ser, não conseguindo voltar à lucidez de não-ser, de ser pouco, de ser mísero, de ser incompleto, de ser deus; esse abraço gerou o homem, gestou o frágil, rompeu-lhe o arcabouço do absoluto, do divino.
Desse abraço nasceu o verdadeiro supra-homem, homem transbordante de humanidade, laços, nós, tramas e redes com o pequeno, com o excluído, com o sofrimento na forma mais sem sentido, e essa dor, todas as dores explodiram dentro dele, em gritos ecoados pela Alemanha e pelo mundo, gritos chamando por deus na hora da morte... 
Deus!!!!!-  gritava estrondosamente- onde estás?
Fica, deus, faz morada em mim, habita-me se existes...
Não me abandones, não me desampares, Eloí, Eloí, lama sabactaní?
Os céus não se revolveram... os véus não se rasgaram... apenas ele escureceu, apagando-se, como são as mortes, todas as mortes, sem glamour e sem brilho.
Não conseguia voltar o suficiente no tempo até o momento exato em que havia começado a matar Deus... mas sabia que Deus estava morto, e já não podia ouvir seus clamores... e os que o conheciam fecharam seus olhos e deram glórias, ao deus assassinado, pela loucura e dor do sábio.

Eloisa Helena Maranhão 

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