05 dezembro 2011

Fiapos de Estrelas

Para Rick Vallen, cuja voz ilumina o mundo... E para todos os homossexuais, mulheres e homens, que são luzes nem sempre reconhecidas.

“Luz, quero luz, sei que além das cortinas são

palcos azuis de infinitas cortinas, são palcos astrais,
arranca vida, estufa veia, e
pulsa, pulsa, pulsa, pulsa, pulsa mais”.
(Chico Buarque, “Vida”)

 Quando subia ao palco - ah!, quando subia ao palco! - os olhos brilhavam ensopados de lágrimas, como botões boiando no prato, por que sempre se emocionava ao ouvir os gritos, os aplausos, os urros de quem vinha de muito longe para vê-lo. Paris, Venezuela, Egito, sheiks árabes, iuppies norte-americanos, mexicanos ricos, operários alemães e dinamarqueses, até milionários russos, que agora já estavam aparecendo uns - o fim do comunismo tem dessas alegrias, que a velha mendiga na Praça de Moscou considerava vergonha profunda, como a erisipela escancarada que mostrava na perna gorda. Lordes ingleses pedófilos, cowboys australianos, executivos japoneses, não há quem não venha ao Brasil e não faça questão de assistir a Fiapos de Estrelas.

Mas Fiapos se emociona mais com os que são de perto, os que vivem ou trabalham em sua cidade, Fiapos sente-se comover às lágrimas com aqueles que todo dia vão vê-lo, aplaudir, e gritam, e choram, e gargalham felizes e deixam de ler, ver TV, ouvir música, andar pelas ruas, deixam de dormir para ver seu show.

O palco todo escuro, a luz magricela apenas revelando o centro do palco, o corpo magro mas de músculos definidos, costelas despontando, nada de estrias ou celulite, e são potes de cremes mágicos comprados pela TV a cabo, e horas milenares de exercícios localizados. Funcionou, nele, que dentro do collant preto, de gola olímpica (nas olimpíadas usam esse tipo de gola?, pensava durante o show, às vezes, quando a gola olímpica dava coceira no seu pescoço), braços e pernas cobertos, ficava mais magro e definido, mais sensual, mais fashion. Surtia efeito os cabelos enroscados em espirais prateadas caindo em cachoeira e rebrilhando, o collant preto coberto de pequenas estrelinhas também prateadas e também brilhando, as sandálias altíssimas, um himalaia, de salto fino, que levantava sua bunda e fazia uns urrarem e outros gemerem baixinho.

Quando começava a cantar I will survive ou New York, New York, Ronda ou Camarim, com aqueles cachos de prata deslizando pelos ombros, então ele sabia por que existia, para que tinha nascido, e era uma parte do Cosmos, um ser das estrelas, como Spock e Kirk, poeira do Universo que se juntou formando fiapos, organizando seu corpo, criando sua alma, gestando-o no ninho cósmico do planeta Terra, sem nem saudades de quando era estrela, por que Fiapos tinha luz própria e sabia brilhar. Emanava aquela luz primordial no palco, o big bang, luz das estrelas coloridas, abrindo espaço às cotoveladas na densidade escura do caos.

Uma imagem meio andrógina, homem-mulher, um taata vahine dos maoris taitianos, se fosse em outras culturas primitivas teria sido aceito naturalmente em sua ambigüidade sexual, até mesmo visto como um ser superior, com os dois sexos em si mesmo, mas não entre os brancos ocidentais, nunca os cristãos aceitariam ambigüidade, indefinição, essa religião que por si era uma religião da conversão e da definição, do absoluto, do completo, do total, não deixando espaços para nuances e diversidade.

Não aceito, viveu como pôde, sobreviveu à infância e à adolescência impregnadas de preconceito e discriminação, sendo xingado por uns, espancado por outros, enquanto outros ainda o evitavam, proibiam os filhos e filhas de fazerem amizade com ele, e outros riam dele pelas costas, ou mesmo em sua frente, chamando-o esquisito, estranho, bicha, marica, viado, e tantas outras palavras que levaram anos para serem exorcizadas de si, mas estava decidido a vencer, ser e fazer o que quisesse de si mesmo e de sua vida. Era forte, Fiapos.

Foi ainda na época da infância que começou a andar sempre pela contramão, nas calçadas e nas ruas; gostava de olhar de frente para os que voltavam de onde estava indo, ou iam para de onde estava voltando, e subia as escadas pelo lado esquerdo e descia pelo direito, dando encontrões muitas vezes e se desculpando, rindo por dentro. Aprendeu a rir de si mesmo e dos outros, ou seja, aprendeu a ser feliz. Dessa época, também, começou a fazer piões que rodava, com ou sem fieira, coloridos, de uma cor só, enfeitados ou ascéticos, e ficava vendo rodopiando no chão. Aprendeu também a fazer origami, com uns amigos japoneses que não o discriminavam por sua orientação sexual, e então passou a andar sempre com papéis de dobradura nos bolsos, e fazia pássaros, balões e aviõezinhos de todo tipo, para vê-los voar.

Um dia, pensava, vou ter um filho e ensiná-lo a cantar, e fazer dobraduras, e piões, e andar na contramão e não se preocupar com o que pensam de nós os medíocres, os insensíveis em sua crueldade; um dia vou adotar uma criança e cuidar dela como deveriam ter cuidado de mim e não o fizeram, meus pais nem nenhum adulto.

Quando conheceu Dedéu, no Largo do Arouche, parecia um pacotinho, a criança, embrulhada nos restos de roupas que possuía e num cobertor velhíssimo cor de caramelo, parecia caramelo queimado de tanta sujeira. Quase tropeçou nele, sob a marquise de uma loja, o menininho resmungou no sono profundo regado a cola, estava sonhando com uma coxa de frango que vira pelo vidro de um restaurante, como é seu nome, garoto?, Dedéu, Dedéu?, que nome é esse?, nome de Dedéu, oras, nunca num viu uma pessoa com nome de Dedéu?

Foi amor à primeira vista, mútuo, aquela coisa que todos sonhamos, e raramente acontece, que passamos centenas de vida desejando, e quando acontece raramente se concretiza, que amor à primeira vista dá medo, assusta, e mútuo, então, meu Deus!, dá pavor, paúra, nos deixa paranóicos de tanto medo de sofrer de amor mútuo à primeira vista.

Nem Fiapos nem Dedéu se tornaram persecutórios, assumiram o amor que sentiam um pelo outro, e Fiapos decidiu adotar o menininho quase negro, crioulo, mulato, mestiço e abandonado. Claro que brancos também podem ser abandonados, mas todos sabemos que o são em menor número, e em maior número adotados pelos pais brancos que desejam filhos como eles, pequenos espelhos, mesmo conscientes que não são filhos, malhas e armadilhas que o preconceito tece.

Fiapos não tinha preconceitos, por tudo que havia passado na vida, e Dedéu nem tempo tinha tido de formar preconceitos e arraigá-los em si. Se amaram, e isso bastava, como irmãos, como pai e filho, como órfãos largados na soleira da porta de uma casa e que ninguém quis acolher.

Tornaram-se bálsamo um para o outro, amigos que se curam e lambem feridas, pequenos lobos solitários que só tinham um ao outro, verdadeiramente. Reconheceram-se e ficaram imensamente felizes de se terem encontrado. Não tinham mais ninguém, só a eles próprios.

Processo de adoção: Prezado Senhor Juiz da Vara de Menores.

Não adiantou nada advogado experiente, nem termos técnicos. O advogado experiente tinha avisado, a causa é difícil, quase impossível, mas sempre se pode tentar. Perderam a causa. Onde já se viu dar um menino de rua abandonado para um gay adotar. Quem tem essa orientação sexual não tem direito a filhos. Não sabe nem pode educar. Melhor deixar a criança na rua. Na Febem. Numa casa de uma família mais normal, mesmo que o criem aos gritos, forçando-o a comer sob ameaças, obrigando-o a estudar em escolas medíocres, usar roupas e corte de cabelo patéticos, enfim, que o ensinem a ser um comum. Normal. Típico. Um ser inócuo socialmente. Inútil. Mesmo que o tornem infeliz. Mesmo que destruam o único amor que conheceu na vida. Talvez nas últimas 637 vidas que teve. Melhor um infeliz, um desajustado, que um criado por um gay. Era a lógica. Perderam a causa. O juiz ofereceu Dedéu para um casal com só um filho, e que não podia mais ter outros. Queriam muito um irmão para o filho verdadeiro, de três para quatro anos. Filho “biológico”, diziam, pois Dedéu também seria “verdadeiro”. Amor é amor, não importa se de sangue ou não. Fiapos entendeu, tinha lógica. Era filho de sangue e tinha sido tratado com a mesma falta de amor e incompreensão pelos pais “biológicos”. Não fazia diferença o sangue, os genes. Amava Dedéu como filho, mesmo sem sangue nem genes iguais ao seu.

Antes de buscarem Dedéu definitivamente - o processo ainda estava correndo-, os pais adotivos resolveram fazer uma viagem ao litoral. Levar o filho biológico à praia. O menino adorava a praia. E todas as vezes pedia banana-ouro na viagem, para comer no carro. Com casca. Conseguir comer só a polpa, por dentro da casca grudada. Decerto recordava-se, na pouca idade, de seus atavismos de macaco. Macaco: primata inferior na escala evolucionária. Meu macaquinho, dizia o pai, comovido. Não queria comprar as bananas, estamos com pressa, compramos na próxima. Que custa comprar as bananas, arrazoava a mãe, ele tá com vontade. Compraram as bananinhas maduras, cheirosas, douradas. Ele comeu algumas. Tem um bicho aqui, disse no banco de trás do carro, a barriguinha estufada de bananas. Pai e mãe não viram bicho, deve ser algum insetinho, sossega. O menino dormiu o resto da viagem. Quando chegaram, foram tirá-lo do carro, estava mole, esquisito. Filho esquisito é uma dor muda, um susto, um grito encruado. Tinha uma cobra coral sob a blusa do menino. Quatro picadas, na barriga, no peito, na virilha, na perninha. A cobra, saída do cacho de bananas, tinha passeado sobre a criança. Que estava morta. A mãe foi internada em choque e desespero de viver.

Fiapos mudou de emprego. Fugiu da cidade. Levou Dedéu consigo, foi para o Rio de Janeiro, fazer shows lá. O juiz, preocupadíssimo com o futuro da criança, quando julgou Fiapos incapaz de educá-la, esqueceu-a minutos depois da sentença.

Moral da história: a história não tem moral. Muito menos a vida.

Eloisa Helena Maranhão.

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