07 dezembro 2011

Pesadelos

Pra você, Lellis, querido. Tronco de árvore na ventania, corda na correnteza, tábua no oceano. Nunca corrente nos pés, mas mão na madrugada, resgatando dos pesadelos dormindo e acordados.

“Somos a matéria de que são feitos os sonhos.”

 (William Shakespeare)

Ele massageou a mão, cheia de marcas vermelhas e arroxeadas. Friccionava o polegar firmemente sobre as marcas das mordidas, os pequenos sulcos deixados pelos dentes dela. Não conteve o riso, e, apesar da mão dolorida, também não conteve a vontade, e passou o polegar nos lábios da mulher, agora dormindo serenamente, e que começou a sugá-lo por instinto.
Quando pensava nesse hábito dela, de chupar seu dedo até dormir, lhe vinha à mente um pequeno filhote de canguru, um marsupial incompleto grudado à teta da mãe. Isso o deixava comovido. E, ao perceber que a respiração ansiosa da mulher ia se tornando mais compassada, num ritmo tranqüilo, a sucção mais leve, até que se transformava num roçar de plumas, a língua macia e úmida tão suave no seu dedo, se sentia feliz.
Às vezes aquele sentimento de plenitude, de estar no lugar certo, no tempo certo, se transformava em desejo, que crescia nele até não agüentar mais, e tirava o dedo da boca da mulher, colocando no lugar sua língua, ou seu pau, e fazia sexo com ela ainda adormecida, até que despertasse totalmente e se entregasse a ele, gemendo e se agarrando ao seu corpo, enlaçando-o com as pernas e braços, como a uma bóia no mar.
Ele sentia a fragilidade da mulher - da "sua" mulher, aquela que a vida havia lançado em suas praias - como se ela fosse uma afogada no meio de destroços, e usasse seu corpo como resgate.
Afinal, todos não buscamos no Outro o resgate de nós mesmos?, ela perguntava quando ele falava no assunto... já viu alguém completo, auto-suficiente? Se fossem, não viveriam buscando por Deus, e mesmo Deus não viveria atrás dos homens, arrastando-se como uma lesma, desejoso de adoração e louvor humanos.
No meio das algas que se enrolavam nos cabelos, dos caranguejos e camarões que roçavam suas pernas, dos tocos e galhos molhados que arranhavam suas costas, dos cavalos marinhos fosforescentes que nadavam entre os dedos dos seus pés, da água salgada e gelada que irritava seus olhos e teimava em entrar por suas narinas, ela se agarrava àquele corpo tão conhecido e amado, e sossegava.
O cheiro do corpo dele a acalmava, cheiro de barba, de sexo constante, de canela do creme dental, de cabelos e pelos molhados, de suor doce, de sabonete neutro - nada de perfume, que só servia para mascarar aquele cheiro de homem. Principalmente as mãos dele tinham um cheiro tranqüilo, de carinhos sem cobranças, e, desde que se casaram, ela trocara o próprio dedo pelo dele, que dormia chupando.
Quando cansava, e percebia que a tensão dos lábios dela havia diminuído, ele tentava retirar o dedo devagarinho, mas ela segurava sua mão e chupava mais forte, e ele acabou acostumando a dormir com a mão no rosto e o dedo na boca da mulher. Com o tempo o que era hábito se tornou vício, tanto pra ele quanto pra ela, que já não imaginavam como seria dormir sem dedo na boca e sem boca no dedo.
Quando ele viajava, por exemplo, ou ela, ele precisava pagar prostitutas para dormir com ele, chupando seu dedo, sem sexo, por que tinha resolvido que sexo era só com a mulher; mas não agüentava ficar dias e semanas sem dormir, então uma serviçal das taras era sempre bom para essa função necessária.
Já ela ficava sem dormir; no início tentou voltar a chupar o próprio dedo, mas ficava irritada, e acabava passando a noite incompleta e irrequieta na cama; acabou acostumando-se a não dormir, até que o dedo do marido voltasse. E então a encontrava cansada, olhos vermelhos e com olheiras, mais magra, mas dois ou três dias depois de bons sonos reparadores, tudo voltava ao normal. Quanta falta não faz um dedo na vida de uma mulher!
Ele sentia os sonhos dela no dedo, que era sugado com mais força, ou deixado abandonado dentro da boca, ou sorrido, ou inundado de lágrimas, quando a mãe dela morreu, por exemplo, e seu dedo ficou mole e enrugado por dias, de tantas lágrimas que rolaram por ele.
Também descobriu que a mulher estava saindo com outro quando ela sonhou com o amante e abandonou o dedo dele largado na boca, displicentemente. Sonhava com o amante, de barba, sempre de barba, que todos os homens do mundo tinham que ter barba, bigode, alguns tinham cabelos longos caindo nos ombros, esfregando a barba no seu sexo exposto, as coxas separadas, pernas dobradas, enquanto ela jogava a cabeça pra trás e gemia, o dedo do marido largado no canto da boca, o amante lambendo seu sexo vermelho e latejante, as mãos espalmadas sobre seus seios, esfregando as palmas sobre os mamilos, apertando os mamilos entre os dedos, espremendo-os, ela gemendo mais alto, o dedo do marido repousado sobre seus dentes na boca estática e entreaberta, a respiração entrecortada, o sexo do amante sobre o seu, a carne dura e quente penetrando-a, abrindo caminho entre suas pernas abertas e dobradas, o púbis arqueado para cima e para frente, em direção ao pênis dele, as mãos do amante embaixo do seu corpo, levantando sua bunda, o pau entrando e saindo, a língua rija enfiando-se entre seus lábios, o dedo do marido chupado com toda força, a língua do amante explorando sua boca, o dedo do marido mordido, o jorro do sêmen explodindo dentro dela, o dedo do marido gemendo, abandonado displicentemente no canto da boca satisfeita...
Descobriu, mas não fez nada, por que todos têm seus próprios segredos, pensava o marido, e gostava tanto, mas tanto do dedo dela em sua boca, que preferia não se preocupar com os sonhos e pesadelos da mulher, já que a opção dela era estar casada com ele. Não perguntava nada, não pensava, e ignorar o que não lhe interessava saber lhe trazia sossego e mantinha seu casamento, era sua teoria matrimonial.
Ela também não se preocupava com os próprios pesadelos, nem com os possíveis sonhos do marido, afinal, pensava - quando pensava, o que era bastante raro, pois que era o tipo de mulher de sentir, e só pensar depois -, cada um sonha com o que quer, e pesadelos são apenas sonhos, também, nada tendo com nossa vida real. Freud faria a festa naquela casa, mas como já estava morto e enterrado há dezenas de anos, continuou o casal a viver como achava que devia, e Freud que se preocupasse com a própria vida, e suas relações com a filha, por exemplo, ou com seu charuto, é o que falaria esse casal tão harmonioso e pragmático, caso alguém lhes indicasse o psicanalista genial.
Sem Freud e sem interpretação dos sonhos, continuava a mulher a sonhar, os sonhos mais escabrosos, que eram os preferidos dela e do marido, e ao acordarem o primeiro ritual era ela contar, nos mínimos detalhes, os sonhos que tivera, e ele procurava relembrar o que ela fizera com seu dedo na boca, como o havia mordido, chupado, lamentado, chorado, soluçado, rido, gargalhado, abandonado, relembrando no próprio dedo cada parte do sonho sonhado por ela.
Numa noite, era uma menina de calcinha de algodão rosa, na praia, brincando na areia e o homem pegou-a pela mão e chamou, vamos pro mar, vamos!, e a água era gelada até seu corpo acostumar-se, levada pro fundo no colo dele, só a cabeça de fora, e o pau quente do homem pressionando seu peito de peitinhos lisos, os dedos dentro da calcinha, se enfiando no buraquinho mínimo e sem pelos, vontade de fazer xixi naqueles dedos que a penetravam, a cabeça forçada para baixo, dentro d'água, o gosto do pau pulsando e salgado, esfregado em seu rosto, a respiração difícil, a volta à tona, o pau duro e melado no seu peito, o dedo do homem se esfregando no reguinho da bunda da menina, o dedo do marido mordido com força, não, papai, não!, o jorro do sêmen no seu peito e pescoço, o abraço apertado, a entrega lânguida, o xixi na calcinha misturado na água do mar, o pai de pernas bambas, a menina de ego bambo, de sexo fechado, de boca entreaberta e lábios secos, o dedo do marido cheio de lágrimas e mastigado com raiva.
Ela então acordava muito cansada, extenuada, e nessas noites só chupar o dedo não resolvia, então se debruçava no peito dele, soluçando, e adormecia até acordar e contar os sonhos, que ele ouvia acariciando as rugas que se formavam no rosto dela, enquanto contava, e ele tentava traduzir no dedo o que ela havia sentido.
Noutra noite era uma odalisca envolta em sete véus, dançando para um sultão de barbas negríssimas e olhos mais negros ainda, de nariz adunco e mãos gulosas que esfregavam o próprio sexo enquanto ela rebolava ao som de mil tambores e uma cítara alucinada, e o dedo do marido dançava em seus lábios, alegre e tensionado, enquanto o sultão pegava no ar os véus que ela tirava do corpo e jogava sobre ele, as pernas começando a aparecer no primeiro véu, a barriga exposta totalmente no segundo, a perna esquerda desnudada no terceiro, as nádegas sem cobertura no quarto véu, no quinto véu lançado o sexo despontando, e no sexto o sultão gemendo, de olhos arregalados e o sexo duríssimo, e o sétimo véu o próprio sultão havia arrancado, possuindo-a de pé, por trás, encostada na janela, gemendo ao simun que assobiava na varanda florida, penetrando-a num vai e vem com seu pau duro, o dedo do marido mordido com força, fremente na boca da odalisca, as mãos do sultão agarrando-a pela cintura, espremendo seus seios fartos, apertando sua barriga, agarrando-a e puxando-a de encontro ao pau duro, o dedo do marido gemendo alto, suspirando, a língua do sultão lambendo suas costas, sua nuca, enfiando-se na sua orelha toda aberta, o dedo do marido sugado pedindo mais, mais, mais, até ser deixado caído sobre o travesseiro, mole e destroçado por aquele sultão de membro avantajado.
Enquanto contava o sonho, o marido tentava se controlar, mas acabava tomando-a nos braços e imitando o sultão no harém, mesmo sem véus, mesmo sem tambores, mesmo sem cítara alucinada, mesmo sem membro avantajado, mesmo sem barba e olhos negros e nariz adunco e mãos gulosas no próprio pau, mas completamente enrijecido e enfiando-se nela, de pé, apoiada na janela, gemendo e mordendo a mão dele, enquanto era penetrada por trás, pedindo mais, mais, mais, até ser largada sobre a cama, mole e destroçada por aquele marido excitado com seus sonhos.
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É a convivência que transmuta sonhos em sexo. Na fogueira incandescente, no caldeirão onde se cozinha o dia-a-dia, pesadelos são transformados. Do banho-maria da rotina, da água morna que tantas vezes torna o casamento insuportável – ou, ao contrário, que justamente nos faz suportá-lo -, um sonho novo faz borbulhar outra vez a fervura. Ou um pesadelo no meio do sono, um grito e um pedido de socorro, a mão que afaga a cabeça, alisa as costas, o beijo assustado, o abraço de resgate. De tudo isso se consegue fabricar vida. E histórias.

Eloisa Helena Maranhão. 

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