21 dezembro 2011

Rato e Humanos.

“No fundo somos todos ratos e homens vagando nesse celeiro
 onde todas as verdades são passionais.”(Vinícius Paiva)

A vida seguia normalmente, como devem ser as vidas normais e bem vividas, é o tal de nasce, cresce, morre, mas antes de morrer muitas coisas a serem feitas, e ela vivia assim, normalmente, fazendo as coisas que deviam ser feitas antes da morte. Tudo estava bem. 

Até o dia em que o avô de seu filho morreu (não era pai dela nem do marido, era pai do pai do filho, do ex-marido, essas relações familiares tão complexas a que ainda não nos acostumamos completamente nessas épocas de pós-modernidade). Morto o avô, o filho decidiu viajar para o enterro, confortar a avó viúva, e foi pegar a mala de viagem. Nesse dia se instalou a crise.

Ao abrir o armário do quarto da mãe, o armário grande onde ficavam as roupas de cama e banho, as cobertas do frio, os remédios fora do alcance das crianças, as caixas de documentos, as roupas pessoais da mãe e do pai, os sapatos... Ao abrir o armário uma coisa rápida, rapidíssima, assustadoramente veloz correu de entre as malas para algum canto mais quente do armário. Um rato. Pequeno, cinzento (parecia cinzento, que a velocidade descoloriu o bicho), mas rato. O filho pegou a mala, saiu do quarto e avisou à mãe. Tem um rato no seu armário. Crise instalada dentro da mãe, agora.

O marido (que não era pai do filho, não desse filho, o que não fazia diferença, por que tinha criado o filho desde pequeno como se filho fosse, até nas brigas e rancores domésticos), o marido havia viajado. Se estivesse em casa procuraria o rato, perseguiria o rato, daria vassouradas nele, quem sabe, até matar o intruso, ou espantá-lo para de onde nunca deveria ter saído. Mas não estava. Ela, sempre tão independente, sentiu necessidade do marido. Nem que fosse para acabar com um rato, que cada um tem suas funções e sabedorias particulares.

Não estando o marido a função passava, hierarquicamente, para a mãe. Achar o rato e matá-lo. Mas para essa mãe, esse tipo de mulher e ser humano, isso era demais. Odiava hierarquias e ratos. Começou a chover dentro dela. Respingar, é a verdade. Chuva fina, gelada, em gotas que iam rompendo as convicções. Dissolvendo as certezas. Lavando e carregando para os esgotos as verdades da vida toda, inclusive da vida dos seus antepassados, e de todos os antepassados de todos os seres e tempos. Para os esgotos de onde o rato havia saído para atormentar seus dias de rotina, apavorar com seus barulhos de roedor e sua rapidez de presa a normalidade da vida humana. Quanto poder tinha um rato, um mero camundongo, provavelmente cinzento e muito pequeno, de desestabilizar a vida alheia.

Um camundonguinho que andava pela casa, fazia cocô, roía e comia coisas, inclusive a roupa do rei de Roma, além de papéis, restos de bolachas de chocolate, comida guardada na cozinha... Um ratinho que fazia xixi, transmitindo medos atávicos de leptospirose, febre tifoide, peste bubônica, mesmo que estivesse erradicada; afinal, ratos transmitiram a peste na Idade Média, e nossos avós medievais ainda se reviravam nas tumbas com dedos e orelhas roídas. Os tempos não tinham mudado tanto assim. Ela apagou a luz do quarto, pegou seu travesseiro e seu edredom e se mudou pro quarto dos filhos. Vou dormir aqui com vocês, avisou, até o rato sumir e seu pai voltar.

Havia decidido tacitamente, consigo mesma, que o rato sumiria da mesma forma que apareceu. Não era preciso fazer nada, apenas mantê-lo no quarto, no escuro e trancado, que estariam livres dele. Não era assim que viviam "normalmente" (o normal, agora, pós-rato, era entre aspas, um normal de desequilíbrio e desestrutura), sem ver os milhares, talvez milhões de ratos que habitavam os esgotos, vivendo no submundo das cidades dos humanos? Longe dos olhos, longe do coração, dizia a sabedoria dos antigos. Sabedoria que não funcionava com ratos, pelo visto, pois ele se instalou dentro dela, fez morada nos seus dias e sonhos, enchendo-a de pavores.

Se tivessem um gato, ela o prenderia no quarto junto com o rato, abriria as portas dos armários e os dois que se resolvessem lá dentro. Não tinham gatos. Não gostavam daqueles animais misteriosos, lânguidos, solenes, que eriçavam os pelos, empinavam o rabo e partiam para o ataque, unhando e arranhando. Não gostavam dos pelos dos gatos pela casa, dos lugares ocupados nos sofás, do cheiro da urina dos felinos, e principalmente da comida deles, aquelas rações saborosas e nutritivas. Não tinham gatos que os ameaçasse, mas tinham um rato dentro do armário.

Primeira noite no quarto dos filhos, colocou um colchão no chão para dormir. O rato passou a noite apavorando-a do outro quarto, e ela não dormiu, acordava assustava, sonhando com ratos roendo os pés e orelhas dos filhos, levantava-se devagar, acendia a luz do corredor, olhava as crianças dormindo e tentava voltar a dormir, inutilmente, por que ninguém dorme com um rato dentro de si. Lembrou-se dos ratos que os torturadores colocavam nos ânus dos torturados, e estremeceu de empatia e horror. Na noite seguinte decidiu que dormiria na cama com o filho menor, pois era mais difícil um rato subir na cama do que no colchão no chão. Dormiu melhor as outras noites, mas não tranquilamente como nos dias normais da vida pré-rato.

Os dias passavam. Estava resignada a deixar o quarto para o rato viver, despejada pelo inquilino indesejado, coisa nunca antes vista, pelo menos juridicamente. Talvez deixasse a própria casa, mas logo percebeu o absurdo da ideia: para se mudar teria que levar suas coisas, e mexer no armário do rato. Ficariam, portanto, ela, os filhos, o marido quando voltasse da viagem, e o rato. Aprenderiam a conviver pacificamente. Quem sabe o rato morreria de fome dentro do armário. Quem sabe. A vida tinha muitas possibilidades, e um rato morrer de fome dentro do armário era uma delas.

Os dias passaram, o marido ligava e a chamava de "patife"... medo de um ratinho desse tamanho e categoria, dizia ele, rindo e fazendo um esgar de ironia... mulheres... compre uma ratoeira, ele sugeriu, e coloque no quarto.

Ratoeira. "Pequena armadilha destinada à captura de ratos". Essa era do Larousse, não do Aurélio. Tanto fazia. Onde se comprava uma ratoeira? No supermercado? Casa de materiais de construção? Estremecia de horror ao imaginar o rato sendo capturado pela ratoeira, aqueles dentinhos de metal destroçando o corpo, o sangue pelo quarto, no carpete. Sangue de rato. Provavelmente mais infectado que a urina deles. Infectado e manchador, imagine limpar o carpete e tirar o rato da ratoeira, esmagado, dilacerado, tripas de fora, para jogá-lo no lixo. Coloque um pano por baixo da ratoeira, disse por telefone o marido ausente tão presente, e quando o rato morrer é só juntar tudo e por no lixo, sem sujeiras. Sábio marido. Mas alguma coisa resistia nela contra a ideia da abjeta ratoeira.

Entrou no quarto decidida a dar fim ao rato. Afinal, pensou revoltada com a própria covardia, sou uma mulher ou um rato? Entrou, fechou a porta, abriu o armário e começou a procurar o bicho. Foi tirando as peças de roupa dobradas e passadas. Cada peça era um pequeno susto, a respiração devagar. Algumas tinham cocô de rato. Ele passou por aqui. Tirou as malas jogando-as no chão. Nada de rato correndo. Revirou uma por uma, malas e bolsas, com cuidado. Agora já não tinha tanto susto com as roupas, como a gente se acostuma rápido a tudo, filosofou. Continuou esvaziando cada compartimento do armário. Achou um documento roído na caixa onde estavam. Um extrato do banco. Roído de rato ou de banqueiro dá na mesma, pensou. Melhor o rato, que pelo menos rói minhas economias para sobreviver, e não para acumular.

Tão profunda teoria econômica não combinava com a solenidade do momento, a caçadora-mulher atrás do rato invasor; talvez percebendo os pensamentos dela, o rato se mostrou. Assustado no cantinho do armário, atrás de algumas roupas, olhava para a dona das roupas, dos documentos, da comida, da casa, do mundo. O rato olhava para um ser humano. Ela riu. Como tinha sido tola, com tanto pavor de um camundongo pequeno e cinzento, um coitado de um filhotinho de rato que nasce pelado, enquanto ela era do gênero humano, espécie sapiens sapiens, inteligente, racional, com telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor. Isso fazia toda a diferença. Riu-se de novo de si própria e do ratinho, com uma pontada de piedade pela inferioridade do rato, ele sim tem que ter medo de mim, pensou, pequeno e indefeso ante a humanidade inteligente, racional, e aquilo tudo que já escrevi sobre nós. 

Aproximou lentamente a mão, tentando que o rato não percebesse seus movimentos, e, sim, polegar opositor era excelente nessas horas, por que enquanto com a mão esquerda imobilizava o ratinho com um pano, com a direita pegou-o pelo rabinho e suspendeu-o no ar. O bicho se sacudia. Ela não sabia se o que sentia era horror pelos sacolejos da vida do rato querendo escapar (o rato, não a vida que queria escapar) ou prazer pela sua superioridade, sua coragem, sua ousadia de humana racional caçadora de ratos. Desceu as escadas com o rabinho gelado e pelado do rato bem seguro entre os dedos, sacudindo-se, e podia sentir o medo dele. As crianças correram para ver, espantadas, entusiasmadas, orgulhosas da mãe que tinham. Queria assim mesmo, com testemunhas, para quando o marido voltasse e perguntasse do rato. Pegue a máquina e tire uma foto, pediu ao filho mais velho, vamos documentar a caçada do rato.

Documento feito ela não sabia o que fazer com o rato. Matá-lo? Como? Não tinha coragem de esmagar o bichinho, não assim a sangue frio. Albert Schweitzer e Gandhi gritavam dentro dela, respeito à vida, respeito à vida, qualquer tipo de vida merece respeito, não deve ser tirada. Deus gritava dentro dela, eu criei, eu dou a vida e só eu posso tirá-la. São Francisco falava baixinho dentro dela, deixe o ratinho, também são criaturas do Senhor, por que matar um pobrezinho do Pai que só quer viver, como você mesma, irmãzinha? (Se bem que ela não queria viver, mas isso é outra história).

Decidiu soltar o rato num terreno longe dali. Mas e se entrasse em alguma outra casa? Iria apenas delegar o problema para outros? E se ele voltasse para sua casa? Como os gatos, encontrasse o caminho de volta para a casa? Às vezes os ratos também aprendem coisas com seus caçadores naturais, os velociraptores não haviam aprendido a abrir portas no Jurassic Park? Por que um ratinho, muito mais evoluído, não aprenderia o caminho de volta para a casa e o armário que o haviam abrigado por um tempo?

Olhava o rato, que já estava quietinho, cansado de lutar pela liberdade e pela vida, preso entre seus dedos. Ela também estava cansada, do rato, da vida, da sua coragem de caçadora. Um dos filhos resmungou no sono, e ela acordou. Seus dedos estavam vazios e limpos, e o rato continuava no armário do outro quarto.

No dia da volta do marido percebeu que tinha que fazer alguma coisa. Caçar o rato ou comprar a ratoeira. Levantou-se cedo, foi à loja, perguntou sobre ratoeiras. Aqui não se vende isso, ratoeiras são encontradas em loja de ração para animais. Atravessou a rua decididamente, levando o filho pequeno pela mão. Ratoeira? Temos, sim. Mas por que não leva veneno para rato? 

Não havia pensado nisso antes. Nesse mundo que tudo fabrica, cheio de manufaturas e produtos de toda sorte, existem raticidas, como não pensou no óbvio? Veneno para rato não faz sujeira, só precisa deixar longe, muito longe, completamente longe do alcance das crianças, dos animais domésticos (classificação que evidentemente não incluía o rato no armário) e dos possíveis suicidas. O veneno é forte, poderoso, mata rapidamente, uma beleza de veneno para ratos. Pequenas bolinhas pretas chamadas de "chumbinho". Melhor que qualquer tiro certeiro na cabeça. Caro, mas ex-ce-len-te. Mata por hemorragia. Antídoto? Injeção de vitamina K, anti-hemorrágica, que obviamente é antídoto apenas para humanos e outros animais domésticos que por engano tenham ingerido o veneno; os ratos ficam sem antídoto, mesmo. Claro. Perfeito. Lógica exemplar.

Comprou o veneno dentro do vidrinho, que não podia ser manuseado de maneira alguma. Intoxicava pelo contato com a pele. Cuidado! Colocou o pacote de veneno na bolsa e foi para casa pensando no rato morrendo de hemorragia interna. Faria cocô com sangue? Seus vasos se rompendo, agonizando, sentindo dores, estrebuchando como um doente de Ebola. Azar do rato, pensou, esmagando a piedade, quem mandou sair dos esgotos e entrar em casa alheia.

Levou o veneno para casa, misturou com queijo ralado - não é disso que os ratos gostam? - colocou no armário, e embaixo da geladeira e outros lugares escondidos onde o bichinho pudesse passar. Schweitzer nem Gandhi nem São Chiquinho a demoveriam de assassinar o rato daquela maneira indireta, nem que aparecessem em pessoa diante dela. Matar ativamente é uma coisa, matar passivamente é outra, mas nem pensou nisso, apenas agiu de acordo com essa máxima que inventou na hora e que tantos outros já haviam seguido.

Naquela noite voltou a dormir no quarto, com o marido, e apesar da pontada de medo que ainda persistia, sentia-se menos insegura com ele por perto. Dormiu razoavelmente bem pela primeira vez nos últimos quinze dias, desde que o rato entrara em sua vida e o marido saíra dela para viajar.

Acordou na manhã seguinte já com esperanças que o rato tivesse fugido definitivamente, para sempre, por toda a eternidade per sæcula sæculorum, e foi fazer os doces da festa de aniversário do filho. Brigadeiros. Rato. Mexia a colher de pau dentro da panela do doce. Rato. Batia o bolo. Rato. Untava a forma. Colocava no forno. Lavava a louça. E o rato não saía de dentro dela. Se bem que ela não notava isso, entretida que estava com o trabalho, e o marido em casa. O rato agora era do departamento dele. Nada de teorias contemporâneas de administração de mundo globalizado. Cada qual que cuidasse do seu departamento. Sem ingerências nas coisas alheias. Autonomia dos povos.

O marido estava passando aspirador na sala. Afastou o sofá. Rato. Ele está aqui, avisou-a. Ela sabia que devia, que precisava, que tinha obrigação de ajudá-lo a cercar o rato, espantá-lo, matá-lo. Pegou uma vassoura e largou-a no canto. Subiu numa cadeira, continuando a mexer o doce na panela. Estava quase no ponto. O doce no ponto de tirar da panela, e ela no ponto do pavor total. 

O rato correu para baixo da estante. Estante afastada, rato na parede. Realmente é pequeno demais, e cinzento. O marido parou um pouco... Estava calculando o ângulo que não deixaria o bichinho escapar? Ou era dó do rato? Logo se recuperou, bateu a estante contra a parede, o camundongo caiu, parece morto. Parece ou está? Ela continuava a mexer o doce, em cima da cadeira. O marido pegou o rato com um saco plástico, fechou bem o saco, deu um nó, e ficou olhando o rato contra a luz. As lágrimas escorriam, chorava copiosamente - ela, claro, não o marido nem o rato morto. Colocou o saco no lixo, na lixeira. O marido, claro, não ela, nem o rato morto. 

Ela foi até a lixeira, ainda chorando, soluçando, olhada pelo marido estupefato... Tanta dó assim do ratinho? Abriu o saco de lixo, vou jogar o rato no terreno, já pensou se ele ressuscita, rói o saco, escapa e tudo recomeça como nos filmes de terror? O marido ficou com dó, afastou-a com jeito, e terminou de abrir o saco do lixo; pegou o saquinho menor com o rato dentro, chacoalhou para ver se o ratinho estava mesmo morto, enquanto ela implorava, para com isso, joga esse rato fora logo, por favor. O filho levou o rato para o terreno, jogou-o lá. Voltou vitorioso.

Ela não conseguia parar de chorar. O doce queimou. A festa perdeu a graça. A vida saiu dos eixos e teria que ser recolocada de novo. Um rato tinha entrado em casa, morrido, sido levado embora, e ela não se conformava com o alívio que estava sentindo, depois de quinze dias de pavor, quinze dias em que lutara com o rato e consigo mesma, com sua humanidade, com seus instintos, para então descobrir, desconsolada, que havia evoluído tanto, mas tanto, que nem caçar um mero rato já não podia mais.

 Eloisa Helena Maranhão

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