21 dezembro 2011

A Subida do Monte Thor.

Para você, meu amor. O único. Todos os demais foram lições que apontaram para você, meu amor. O único. Ou todos amores são um só e mesmo... único?

A eterna ampulheta da existência será
sempre virada outra vez –  e tu
com ela, poeirinha da poeira!".
(Nietzsche)
Eu só voltei pra te contar
Viajei... Fui prá Serra do Luar
Eu mergulhei... Ah! Eu quis voar
Agora vem, vem pra terra descansar
(Serra do Luar, Walter Franco) 

 Quando se viram pela primeira vez, ela ainda era visitada por duendes, que cevava com papa de aveia, e vinham lhe fazer companhia nas noites – tantas! – de insônia.
Não precisaram se seduzir, nem se acostumar um com o outro, já se tinham conquistado através das eras, desde que suas moléculas ferviam e boiavam nos mares primordiais.
Ele jogou xadrez no chão, com seus corpos, e eram peão e rainha, torre e cavalo, e há muito já sabiam se mover no tabuleiro do Universo. Depois sentou no sofá, pegou o controle da TV e ligou o futebol, comeu lasanha, arrotou e se instalou nessa outra vida dela.
Não precisaram fingir-se Hypacia e Theon, pois já haviam lido juntos todos os livros da biblioteca de Alexandria, estudado as estrelas, descrito equações e sentido no corpo esfolado por conchas a fúria devastadora do amor cristão.
Também não precisavam mais ser Eros e Psique, Deméter e Zeus, pois já traziam os deuses todos dentro de si, e suas lições. Mas um dia precisaram ser Orfeu e Eurídice, e desta vez ela desceu ao Hades e o trouxe de volta, cantando e tocando a música que ele tinha esquecido enterrada dentro de si. Não se arrependeu da descida, não havia lugar para arrependimentos ou culpas, pois tudo eram novas lições e experiências de vida. Desceria ao Hades quantas vezes fosse necessário, até que ele notasse novamente a espiral e a subida; não havia lugar para retrocesso nem para estacar. Desceria também até mostrar que os temíveis escorpiões libertam-se quando se transmutam na fênix.
Vagamente se lembravam de um monte no qual subiam em círculos, com tochas acesas nas noites de lua cheia, cantando até chegarem ao topo para executar os rituais.
Os rituais.
Teve o egípcio, de Hermes, e quantas palavras e gestos decoraram lentamente e com dificuldade, até estarem preparados; teve o grego de Elêusis, e quanto pavor passaram até serem considerados iniciados; teve o cristão, nas catacumbas, velas acesas e vozes em sussurro, e não sentiam medo, pois a fé era maior que qualquer medo. E saíram juntos ao deserto, e vagaram, morrendo antes da Terra Prometida, pois se tivessem entrado teriam defendido as mulheres e crianças filistéias, e a promessa manteve-se para depois. E tantas vezes se cumpriu, e mais tantas vezes prometeram-se de novo.
Agora já não eram mais necessários os rituais, já haviam tido todos de que precisaram; agora estavam livres desse fardo. Mas precisavam relembrar constantemente as lições aprendidas, sob pena de viverem apenas uma vida - a atual. Sem lembranças, sem lições acumuladas, só o andar em círculos, sem perceber a espiral. Não precisavam mais de alianças, nem bênçãos externas, nem flores de laranjeira, pois já não havia mais véus entre eles. Mas tinham que se recordar das bênçãos introjetadas vida após vida, das alianças que selaram em cada beijo e cada orgasmo e cada parto dos muitos filhos, para não voltarem a viver uma única vida - a atual.
Cavalgaram pelas estepes russas, construíram partes da Muralha da China, caçaram nas savanas da África, banharam-se nos rios da América.
Não era difícil se reconhecerem vida após vida, desde que se tinham lavado e lambido as feridas no Turkana, e se ajudado a fugir das presas dos leões e das risadas malditas das hienas. Quando o velho leão quase desdentado do zoológico urrava nas madrugadas, eles se encolhiam abraçados, repletos das memórias daquela outra vida, talvez a primeira na Terra.
E comer lasanha, assistir futebol, trabalhar incessantemente, gerar filhos e verem como cresciam e também se entediavam com a vida, mas na manhã seguinte arregalavam os olhos espantados de estar vivos; eram felizes. Tudo era continuar a subida do Thor, em círculos formando uma espiral, até o cume.
E novamente se precipitar e recomeçar.
E quanto se precipitaram.
Mas nunca precisaram perguntar um ao outro, vamos recomeçar?, por que tudo era um eterno continuar, em círculos, numa espiral, até o topo. E sempre juntos.

 Eloisa Maranhão.

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