23 outubro 2012

Capa de retalhos.


“Tudo é uma questão de manter a  mente quieta,
a espinha ereta e o coração tranquilo.”
(Walter Franco)

“Sou humano,  nada do que é humano me é estranho.”
(Terencius, séc. II a.C.)


Angelina, apesar do nome, era ateia. E anarquista. Não tinha Rei, nem Deus, nem Lei. Não vivia de acordo nem acreditava em nada sobrenatural, espiritual, transcendental. Tudo para ela era ali no chão, na terra, no corpo, matéria e energia. Também não gostava de regras, regulamentos, nenhum tipo de certezas que davam aura de absoluto às coisas – que, ela sabia muitíssimo bem, eram sempre relativas, as coisas, os sentimentos, as sensações, as relações. Tudo relativo e humano.
Ia vivendo e abandonando a fé cristã que lhe haviam ensinado na infância, bem como todas as certezas políticas, ideológicas, filosóficas que porventura tivesse aprendido. Ia vivendo como uma aranha, sempre dependurada numa teia tênue e frágil, mas que era suficiente para lhe dar suporte.
Era uma mulher forte, que agarrava o touro à unha (mesmo que não tivesse unhas, de tanto roê-las, que viver não é fácil, mesmo para os fortes), enfrentava a vida como esta viesse, considerava tudo que ocorria, lucro, e vivia como dava. Aprendera desde cedo que viver não aguenta muito pensamento, que pensar é doença da alma.
Tudo parecia estar em ordem, mesmo que a ordem fosse ilusória, que ordem, em última análise, não existe, e que, também em última análise, tudo é ilusão, menos a existência a que estamos condenados.
Mas como nem tudo que parece, é, a desordem existia, não era ilusão, e fora-se instalando aos poucos, sem que ela se desse por conta, enquanto tentava agarrar os touros à unha e viver o que considerava vida. A desordem foi crescendo, tomando conta, insidiosamente, até que causou a devastação.
Tinha ventado demais, chovido demais, feito sol demais, o chão estava empedrado e esturricado, as árvores desenraizadas, as praias batidas por ondas fortes demais, os jardins inundados, as falésias desgastadas pelos ventos e marés.
Um dia Angelina acordou totalmente atolada pelo inconsciente, sufocada pela descrença e desesperança, abandonada pelas incertezas, sem teia que lhe acolhesse o corpo. Angelina estava erodida. Tentou voltar a ter alguma fé, esperança, mas deuses, reis e leis já não lhe podiam dizer nada. Havia destruído a raiz de tudo e ilusão nenhuma lhe poderia servir de alívio ou conforto. Mesmo atolada pelo inconsciente continuava consciente demais que tudo era ilusão e invenção humana para suportar a vida.
Mas precisava desesperadamente de alívio, de tranquilidade, de alguma coisa que lhe desse descanso e servisse de pouso. Não tinha como viver sem teia que lhe desse suporte, jogada por si mesma de lado para lado, ora boiando, ora afundada, quase sem respiração, ora lançada no espaço sem nada que lhe servisse de âncora.
Passou a ter medo. De início eram medos concretos, de objetos, pessoas, animais. Depois esses medos foram-se transformando num pavor sem objeto e sem descrição, um sentimento inimaginável para quem não o tivesse vivido.
Pequena lista dos grandes medos de Angelina:
coisas de garrafa pet reciclada; crochê; toalhinhas de plástico tipo renda; coisas de gesso e de biscuit; "objetos" de jornal reciclado e envernizado; pregos não enferrujados; facas enferrujadas; gnomos de jardim; cachorro bravo (e grande); flores de plástico; cachorro de camurça de colocar no carro e que fica balançando a cabeça; borboleta e mariposa; nossa senhora aparecida sem cabeça; braços e pernas de ex-votos; cores marrom e cinza; broca de dentista; brinquedos de playcenter; caminhão desgovernado; esportes radicais; peruca de nobre francês (de inglês também); comida verde; boca banguela mascando chiclete; quadro de jesus com coração exposto lágrimas e suor de sangue e coroa de espinhos; tirar mandi do anzol; gatos, cobras e coelhos albinos; óleo de fígado de bacalhau; senhor scott da emulsão do bacalhau; cavanhaque e sobrancelhas grossas formando taturanas; pelos no nariz e orelha; mártires quando estavam - ou estão - vivos; carneirão de chifres enrolados; rebanho de ovelhinhas mudas pastando olhando pra baixo sem ver nada; música carneirinho carneirão, olhai pro céu, olhai pro chão; manada de porcos selvagens devoradores de pés humanos (e do resto também); anjinhos nordestinos, aqueles olhinhos vidrados, aquelas roupinhas e asas azuis e brancas de cetim e renda (talvez as roupinhas sejam pra procissão, não pro enterro, o que não difere), parece cena de auto do Suassuna, livro da cachorra baleia, filme de severina... tinha medo de boneca de porcelana, de olhos vidrados de bonecas de porcelana; jardinzinho florido e bem cuidado, sebe inglesa; as bailarinas do Degas também passaram a ser um pavor. Medo medo medo. Dela mesma. Mas não tinha medo do corvo do Poe nem da Virginia Woolf... ela tinha medo de placas de bronze em sinagogas, escrito "lembre-se de"; tinha medo de bifes de fígado, verdes depois de um tempo; de sandálias altíssimas de plataforma; bota de bandeirante; uniforme de escoteiro; botox no rosto deformado; xuxa, adriane galisteu, hebe camargo, luciana gimenez; música sertaneja, axé e pagode; perna peluda; cabeça com bobbies. Bobbies sem cabeça.
Notaram o beco? A sinuca de bico? Era medo demais e sossego de menos. Ar e água demais e corda de menos. Folhas demais e raízes de menos. As fúrias e harpias soltas, rondando-a. Cercada por uma matilha de lobos, na estepe, a chuva gelada, o escuro, sozinha, e os lobos furiosos, acuando-a. E menstruada, pro cheiro de sangue atrair, não deixar disfarce nem escape algum. Era a espera da dilaceração, de ser estraçalhada.
Não conseguia mais sair à rua. Medo. Barulhos, buzinas, carros. Medo. Escadas e túneis de metrô. Medo. Gente. Humanos. Que deveriam ser como ela, mas não eram. Sabiam conversar, mostrar o olhar certo, dar a resposta correta, fazer a ação perfeita, os gestos esperados. Estava sem laços. Pavor.
Não tinha como continuar vivendo dessa forma. Teve que inventar. Teceu uma capa de retalhos, cortou-os simetricamente, costurou-os, colocou sobre os ombros, enrolando-se nela. Capa mágica. Sentiu-se protegida, ao menos pra sair à rua, enfrentar o enxame de humanos sem rumo, com seus olhares e pensamentos cegos. Quem a poderia julgar? Os crentes em Deus? Os que andavam com patuás e amuletos na bolsa, na carteira, no pescoço? Os que enchiam a casa de cristais, duendes, incensos, imagens de santos ou fadinhas? Os que recitavam salmos ou cantavam mantras? Os protegidos pelas orações?
Sim, sua capa de retalhos era tão inútil quanto qualquer ideia de deus, tão gerada pelo pensamento mágico quanto qualquer criação religiosa. Mas era o que podia de si, era sua invenção que lhe trazia alívio. Pelo menos a invenção era sua. Quem a poderia julgar?

Eloisa Helena Maranhão. 

06 setembro 2012

Declaração dos (meus) direitos humanos:

Toda criatura humana tem direito de:
* ser como é;
* mudar ou não mudar de acordo com sua vontade e seus princípios (ou falta deles);
* optar pela solidão e não ser incomodado por isso;
* ter fé ou descrer de acordo (e apenas) com sua própria consciência;
* ser hetero, homo, bi, transsexual, casto, virgem, puta, pervertido, como preferir;
* casar, não casar, viver junto, separado, ermitão, o que, como e com quem quiser.#se conseguir, claro;
* não ser julgado, pois é o que é de acordo com o que conseguiu ser na sua vida;
* ficar na internet, redes sociais, etc, o quanto quiser, sem sofrer bullying;
* escolher a cor das suas comidas e se recusar a comer comidas azuis, por ex.;
* preferir bichos do que gente; ou nem bichos;
* adorar crianças (ou odiá-las); ter filhos ou não;
* ser capitalista, comunista, anarquista, socialista, liberal, niilista, existencialista, ateu, crente (de qual religião preferir).#mas não venham me catequizar;
* passear na rua com o cachorro de pijama, meias e chinelos (o dono, não o cachorro), sem ser incomodado (nem muito encarado, de preferência);
* morar numa casa, apto, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê, ao seu prazer (mas fazê-lo por opção, e não por falta dela);
* tomar banho 3 vezes por dia, por semana, por mês, por ano, ou nunca;
* ser sóbrio ou alcoólatra, à sua livre e espontânea vontade;
* ser aceito como é (mas se não for, não ter seu saco enchido, ignorem).

29 agosto 2012

Em 7 dias e 11 minutos. Ou foram 7 bilhões de anos e 8 horas e meia?


1° dia. “Estou deitado no sonho/ não perturbes o caos que me constrói” (Gastão Cruz). 
No princípio, o primeiro dia, era o caos. Tudo era escuridão e silêncio. O caos estava condensado, gestando luz, ruídos e violência dentro dele. Mas não havia ninguém que percebesse o caos condensado ali naquele pontinho minúsculo. Mesmo os que estavam envolvidos no caos não notavam que ele existia, tão envolvidos estavam, fazendo parte dele. No fim do primeiro dia o caos comprimido explodiu, lançando partículas e energia para todo lado, uma explosão imensa, intensa, e já não havia como ignorá-lo. 

2° dia. “De amor não vi senão breves enganos/ Oh! quem tanto pudesse, que fartasse/ Este meu duro gênio de vingança” (Camões) 
No segundo dia partículas começaram a se aglomerar, chocando-se umas contra as outras, formando matéria. Shiva dançava furiosamente em torno de Nanã Burukê, que moldava o barro incansavelmente, criando o Universo. Da mãe do tempo, Mnemosine, nasceram nove filhas musas. Foram criadas a Eloquência (que se chamou Belavoz ou Calíope), a História (Clio), a Poesia Lírica (Érato), a Música (Euterpe), a Tragédia (Melpômene)), os Hinos Sagrados (Polímnia), a Dança (Terpsícore), a Comédia (Talia)) e a Astronomia (denominada de Urânia). A matéria criada era fervente, fumegante, prenhe de energia e calor. O caos gerou as Fúrias (chamadas Castigo, Rancor e Interminável) que voavam raivosas ao redor da Terra, assolando e punindo. Lilith e Hera, revoltadas, repletas de raiva, se dilaceravam com cortes, arrancavam-se os próprios cabelos e clamavam: Vingança, Vingança! 

3° dia. “É eu estar existindo/ E também o mundo, Com tudo aquilo que contém, Como tudo aquilo que nele se desdobra/ E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.” (Fernando Pessoa) 
No terceiro dia, quando as Fúrias foram contidas e aprisionadas, apareceu a desilusão, um mundo meio sem jeito, um universo ateu, descrente de tudo, onde nada tinha garantias e não se podia – ou devia – esperar nada. Buda aprendeu que não desejar era melhor para sobreviver nesse mundo. 

4° dia. “E a vastidão do Mar, toda essa água/ Trago-a dentro de mim num mar de Mágoa!/ E a noite sou eu própria! A Noite escura!!” (Florbela Espanca) 
Então, no quarto dia, começaram as chuvas primordiais, que eram lágrimas de Tristeza, e chorou-se durante 65 milhões de anos, mas a Terra não era limpa nem lavada por elas, pois o calor era tão intenso que as chuvas mal se precipitavam já evaporavam, apenas servindo para resfriar o planeta. 

5° dia. “E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda/ No alvo busto de Atená que há por sobre os meus umbrais/ Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha/ E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais/ E a minh´alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,/ Libertar-se-á... nunca mais!” (Edgar Allan Poe) 
No quinto dia, vendo aquele Universo instável, perigoso, sem segurança, grassou a incerteza, e o Medo foi gerado. O pavor passou a ser constante e sem esperança de cessar, como um prognóstico reservado. Tudo era aterrorizante, o mundo estava atolado no pânico, e Pan, o deus, sentia-se muito à vontade em sua casa, disseminando o temor e o terror. Coisas horríveis podiam acontecer a qualquer momento e sem qualquer aviso ou sentido, e o único deus que se podia conceber era o Acaso. 

6° dia. “Tenho dó das estrelas/ Luzindo há tanto tempo,/ Há tanto tempo…/ Tenho dó delas./ Não haverá um cansaço/ Das coisas,/ De todas as coisas/ Como das pernas ou de um braço?/ Um cansaço de existir,/ De ser,/ Só de ser...” (Fernando Pessoa)
Era o sexto dia e o Medo foi cedendo, nem ele podia ser eterno, já que nada era, e foi-se abrindo lugar para um cansaço enorme, extremo, uma vontade de não-ser, que tudo que já havia sido estava sendo devorado pelo Nada. Shiva e Nanã jaziam mortos de exaustão, com os membros decepados espalhados pelos quatro cantos da Terra. Ao final do sexto dia surgiu Amnésia, e já nada importava, Mnemosine e suas Musas estavam mortas, cremadas, as cinzas desintegradas, o passado não existia mais, nem o presente nem o futuro. Foi o dia do enfado completo. 

7° dia. “Seja bem vindo, amigo Nada”. 
Na manhãzinha do sétimo dia começou a desintegração de tudo que havia sido, o Nada avançou rapidamente, todo o caos fora extraído e agora restava a Ordem, a ordem do Vazio. O Vazio não ocupou lugar algum, era apenas a ausência total, ausência do som, ausência de calor, ausência de luz. O mundo mergulhou no silêncio, no frio e tudo ficou absolutamente branco, pois o Vazio não tem cores nem formas nem luz que possam projetá-las. Agora quando tudo era vazio e silêncio o Universo sossegou, com um prognóstico fechado, o ciclo encerrado, e não havia outra chance de recomeço, de um novo ciclo, pois até o Caos gerador de vida fora aniquilado. Tudo era paz.

Eloisa Helena Maranhão.

18 agosto 2012

Berenice de A a Z

“Meu tempo é agora. Eu não vivo no passado.
Mas o passado vive em mim.”
(Paulinho da Viola)

“Há uma rachadura, uma rachadura em tudo
E é por ela que a luz entra”
(Anthem, Leonard Cohen)


Berenice caminhava. Não para quieta, não?, perguntavam quando era criança. Tem fogo no rabo, diziam uns. Tem rodinhas nos pés, diziam outros. O que Berenice tinha eu não sei, mas o que não tinha era patente.
Não tinha siso, nem depois dos dezoito anos, quando se espera que os viventes o criem, junto com os tais dentes. Nem depois dos vinte e nove quando Saturno retorna e estava previsto no seu mapa astral que enfim criaria juízo, ela não enjuizou.
Não tinha calma. Não tinha paciência. Não tinha sossego tranqüilidade paz de espírito compostura serenidade, nada do que desejavam e esperavam que tivesse um dia que fosse. Se não para seu próprio bem, ao menos para o dos outros. Ela sabia recitar o alfabeto de cor, mas, pasmem, de trás pra frente, de Z para A, Z, X, V, U, T, S, R, Q... Tinha esperteza e sensibilidade de sobra, mas estamos falando do que não tinha, e não do que tinha.
Não tinha parada – como já disse – vivia andando pra cá e pra lá, correndo, de preferência, pensando demais, sentindo demais, falando demais, ouvindo de menos.
Berenice era uma irregular. Como uma superfície, um polígono, um verbo, um veículo, uma galáxia, uma trajetória, satélite, conta, construção, curso, ocupação, condomínio, procedimento, plural, loteamento, cartório, área, superfície. Era irregular como uma coisa qualquer, atípica, incomum, desigual, descontínua, anômala. E, superlativo da irregularidade, mesmo sabendo disso pouco se importava de ser ou não irregular, pouco se importava, na verdade, com a opinião de quem quer que fosse, mãe, pai, irmãos, avós, tias, primos, e mais tarde namorados, filhos, vizinhos, colegas. Amigos, não, que ela não se portava nem se importava, por que não os tinha.
Era, portanto, extremamente agitada, irregular e sozinha. Não uma sozinha anatômica, pois estava sempre cercada de humanos, mas sozinha fisiológica, se me entendem.
Berenice não era compreendida, ou não se achava – o que dá na mesma – que externo e interno se confundiam nela, que não sabia muito bem diferenciar realidade e fantasia.
Era, portanto, agitada, irregular, sozinha e confusa.
Mas sua confusão era especial, pois ela não se perdia dentro dela, seu caos era um lugar onde se encontrava com conforto e ali tinha extrema facilidade de viver no seu tempo e espaço.
Se Einstein estivesse vivo e a conhecesse ia notar com alegria isso, que Berenice era um ser que vivia num continuum tempo-espaço, onde tudo era, passado, presente, futuro, e os espaços não se confundiam, pois que eram uma coisa só, dentro fora, externo interno, frente lado trás, em cima embaixo, amanhã ontem hoje, lá cá aqui ali acolá. Aprender línguas, para ela, era muito simples, já que uma só palavra significava muitas das dos outros, e meia dúzia delas servia para todo seu mundo. Interno e externo. Além disso, era uma pessoa muito direta e assertiva, absolutamente curta e grossa, diziam pais tios primos namorados filhos, sem papas na língua, falando pelos cotovelos e assuntos dos mais díspares e, com o passar do tempo, insanos, assuntos que não diziam respeito a ninguém nem a nada, mas a ela, sim.
Era, portanto, agitada, irregular, sozinha, confusa, direta e insana.
E tinha uma imaginação fértil. A bem da verdade, fertilíssima. Era uma terra escura muito bem adubada com húmus, esterco dos mais variados espécimes, e dali nascia todo tipo de fantasias e realidades, heras subindo pelas paredes nuas, plátanos, rabanetes, hortelãs forrando cerquinhas de madeira, todo tipo de matinhos, plantas verdes de vários tons, ervas daninhas. Era uma belezura a terra fértil, úmida e quente de Berenice.
Tudo que lhe faltava de sossego, regularidade, companhia e sanidade lhe sobrava e transbordava em imaginação. A imaginação supria suas carências, seus defeitos, seus crimes e pecados e isso havia de ser um consolo. Isso se Berenice, além de agitada, irregular, sozinha, confusa, direta, insana e cheia de imaginação também não fosse uma radical, que tinha de viver tudo que pensava, lia e imaginava.
Por uma questão de total honestidade, de odiar a hipocrisia, de aspirar à completa integridade, Berenice tinha que viver também o que escrevia, além do que pensava, lia e imaginava.
Tudo tinha começado em criança, lá pelos cinco anos, quando ouviu uma história de uma menina cega e passou dias andando pela casa com uma venda nos olhos, pra sentir exatamente o que era ser cega. Apenas ouvir ou ler não lhe bastava, ela tinha que sentir em si, no seu próprio corpo.
Mais tarde ouviu a história de Jacó em Betel e gastou latas de azeite de oliva em cima do altar de pedra que tinha construído no quintal, depois de dormir com a cabeça na pedra, mas não ter sonhado absolutamente nada nem ter visto anjos, o que foi sua primeira grande decepção com os relatos orais e religiosos.
Mais tarde, quando ouviu sobre as santas Hildegard de Bingen e Juana Inês de La Cruz, Berenice gostou tanto daquelas experiências de êxtase que se jogava no chão e ficava tentando se desprender do corpo, vivenciar outras esferas, visitar outras dimensões, pelo menos ser visitada por anjos arcanjos íncubus súcubus mas também aí se decepcionou, percebendo que surtar é pra quem pode, não pra quem quer.
Quando aprendeu a ler e escrever, passou então a anotar os sonhos que tinha, para vivê-los depois, de dia e acordada, na mais suprema realidade, fosse lá isso o que fosse – alguma coisa suprema. E a realidade. Berenice não sabia nada bem, já nessa época, diferenciar realidade e fantasia, o si e os outros, dentro e fora.
Fez um diário e começou a escrever o que vivia, o que sentia, mas o que desejava era sempre muito maior que sua vidinha de Berenice, que era um tédio sem fim, uma realidade pequena e deprimente, uma chatice em forma de fatos. Se se contentasse com aquela vida que tinha ia se tornar o ser mais infeliz e espremido do universo, então passou a inventar e experimentar, a posteriori, o que inventava para sua vida.
E foi com a imaginação, devidamente provocada pelos livros, filmes, quadros e músicas que Berenice passou a construir sua vida, presente, passado e futuro, forjando uma identidade que era ela; e sem livros filmes quadros músicas Berenice não era mais nada, e sua vida não conseguia se individualizar nem ser capaz de ser suportada.
Os livros passaram a fazer parte dela, com Berenice se construindo por palavras. As palavras substituíram suas células, os genes foram substituídos por sílabas, seu DNA eram letrinhas organizadas – esperamos que sim, que houvesse uma organização qualquer ali no cerne de Berenice, já que isso não existia na sua macro-constituição.
Mas, como já contei antes, ela convivia bem com seu caos, se encontrava com facilidade dentro dele, e não teve, portanto, muita dificuldade de ir vivendo, o tempo passando, o tempo de fora, que o de dentro, como também já contei, era um continuum que não se diferenciava em passado, presente, futuro, como para os humanos normais. Sorte de Berenice que seus hormônios a salvaram, e assim pôde ela viver, namorar, engravidar, parir, enfim, cumprir aquela sina das espécies, nascer, se reproduzir, morrer. Morrer ainda não, que até onde sei Berenice continua viva – ou vivendo, o que dá na mesma.
Foi então, mais ou menos nessa época remota de sua infância, que o passado tomou conta dela e nunca mais a deixou. De início passou a freqüentá-la nos relatos e histórias que ouvia, que lia, que assistia, que inventava. Depois o passado a incorporou, como as palavras, livros, personagens, até que a dominou por completo, ou melhor, nem podemos dizer que houve um domínio, pois ela era o passado, seu e da humanidade toda, até das eras geológicas quando ainda não havia humanos, e nem o passado a dominava nem ela ao tempo, pois que eram uma coisa só, indefinida. Ou seja, Berenice não vivia no passado, mas vivia num presente onde passado e futuro viviam também, e no qual Berenice e o tempo eram felizes. Acho. Espero. Desejo.
A primeira vez que assistiu O Mágico de Oz ela precisou de um sapatinho vermelho todo bordado de strass e brilhante de purpurinas, sim, era uma necessidade ter um sapatinho vermelho de Doroty, e, mais necessário ainda se fez quando leu o conto dos Sapatinhos Vermelhos; ela queria por que queria por que precisava por que necessitava por que ansiava ter sapatinhos vermelhos brilhantes e lindos, e fabricou um par para si, devidamente paramentados de todo brilho, fitas de cetim, strass, purpurinas, miçangas e lantejoulas e usou seus sapatinhos até que se gastaram e não serviam mais nos seus pés crescidos, e só não fez outros por que aí já não se importava mais com sapatos vermelhos, agora gostava de sapatinhos com laços cor de rosa, como Celly Campello cantada pelo namorado; meu sapatinho eu vou, com laços cor de rosa enfeitar, tchu ru ru ru; já tinha tido os seus vermelhos e sido feliz com eles, nada de dançar sem parar e ser castigada por isso. Nem sempre os desejos são perniciosos e punidos, ela aprendeu, ao contrário do que lia em Nelson Rodrigues.
Quando assistiu Os Sete Gatinhos passou a desenhar caralhinhos voadores no banheiro, nos azulejos das paredes, na porta, no espelho, até que cansou e parou. Daí tinha lido Tibicuera, e queria ser índia, andava pelada pela casa, com o corpo todo pintado de urucum, mas aí foi o pai que cansou, deu-lhe uma boa bronca e mandou-a colocar roupa; foi então que descobriu que índios não conseguem se manter índios na civilização, vejam Diacuí e Yarima. E Pocahontas.
Contos de fadas eram o pior da lista, deviam se chamar contos de monstros, ela pensava dentro do guarda-roupa com medo do lobo, debaixo da cama com medo do outro lobo, totalmente debaixo do edredom com medo da bruxa, trancada no banheiro com medo da fera, atrás da porta com pavor da madrasta. Nunca chegava a se contorcer de terror, era um medo pesado, básico, clássico, um medo centradinho, ficava muda, paralisada, quase sem respirar quando escutava a música jardineiro do meu pai, não me corte os cabelos, que minha mãe me penteava, minha madrasta me enterrou, pelos figos da figueira que o passarinho bicou... recusou-se a cortar os cabelos a partir dali, foi deixando as madeixas compridas e enroladas, sem pentear, era uma esquisita, diziam, eita menina esquisita...
Das histórias de igreja não tinha medo, nem do diabo, aquela coisa vermelha com chifres e rabo pontudo, tinha era um supremo desprezo por um ser que sempre acabava – ou acabaria - se fudendo; ela não tinha aprendido, ainda, que no frigir dos ovos mesopotâmicos o bem nem sempre vencia o mal, isso ia depender da luta final apocalíptica entre o Bem e o Mal; sorte dela – no quesito apocalipse - que foi educada cristã, com um final hollywoodiano feliz e do bem, senão teria passado a vida inteira com medo do satã vermelho.
Mas o que Berenice nem ninguém sabia, quando era criança, era que o desprezível satã vermelho voltaria para lhe assombrar no futuro, em forma de um semi-deus hindu, metade humano, metade deus, de olhinhos orientais encobertos por cílios negros, gordo e sentado de pernas cruzadas, com longos, finos e imensos braços passíveis de lhe atingir onde estivesse, debaixodacama dentrodoguardaroupa atrásdaporta enfiadasoboedredom internadanumaenfermariapsiquiátrica...
E era esse ser horrível e pavoroso que lhe mandava desastres, desgraças, tragédias... Tragédias na mais pura acepção grega da palavra, aquelas coisas que lhe aconteciam sem ser desejadas, e, pior que isso, sem que ela tivesse a mínima responsabilidade ou influência sobre elas, acontecimentos nefastos que só podiam ser atribuídos ao destino mais ateu, ao acaso. Berenice soube, desde o início, que o único deus em que poderia crer era o acaso.
Era, portanto, travestido de semi-deus hindu que o acaso se lhe apresentava e dominava, exigia coisas, dava-lhe ordens esdrúxulas, e ai dela se não as cumprisse. Doenças, acidentes, afogamentos, atropelamentos, catástrofes naturais de todo tipo, terremotos, tsunamis, deslizamentos, desabamentos, e as sociais, também, balas perdidas, bêbados na direção, patrões exploradores condenando os pobres a morrer de fome, loucos no metrô empurrando incautos para os trilhos, tudo poderia acontecer nesse mundo entregue ao acaso e às forças desordenadas impostas pelo humor do seu semi-deus hindu de braços compridos. Bastava-lhe esticar um braço e as coisas começavam a acontecer. Os mudos carneiros do rebanho saíam em debandada, pisoteando quem por perto estivesse, os porcos partiam para cima de sua vítima mastigando-lhe o corpo aos poucos, devagarinho, começando pelos pés e mãos, subindo pelos braços e pernas, para que a morte fosse lenta e bem sofrida.
Por sentir medo dessa morte em vida, lenta e bem sofrida, e também de uma vida morta, também lenta, também sofrida, mesmo que parecesse rápida demais (a vida, não a morte), abandonada ao humor – altamente instável, fique aqui documentado - de um semi-deus hindu qualquer, Berenice passou a trancar-se em casa, preferindo a casa à rua, o quarto ao resto da casa, a cama ao resto do quarto. Debaixo da cama enrolada num edredom era ideal.
Ficou mais esquisita ainda, abandonando o trabalho, os encontros, desobrigando-se de interagir socialmente, as reuniões de qualquer tipo, as atividades na rua, o que ocorria no mundo, que absolutamente não lhe interessava mais, televisão, rádio, jornais, revistas, notícias na internet, nada mais lhe dizia respeito, na verdade nunca lhe dissera, ela apenas conseguira fingir por um tempo, mundo paranóico onde vivia e onde todos cuidavam de todos, intrometiam-se como vermes à cata de podridão, observando e sendo observados, julgando e sendo julgados, condenando-se a si mesmos e aos outros, mais raramente absolvendo, tudo ao sabor do mesmo humor instável de um deus hindu. Ou babilônio, grego, romano, judeu, árabe, africano, japonês, índio, tailandês, de que etnia nação ou cultura fosse, todos instáveis, gerados e geridos pela mais completa instabilidade humana.
Por conta desse mundo paranóico é que Berenice assim também se tornou, apavorada com medo de ovelhas silenciosas, manadas de porcos devoradores, carros desembestados, bestas descarrilhadas, humanos abestalhados, velhos imbecilizados, mulherzinhas histéricas em seu culto ao corpo, crianças tiranas que não paravam de gritar e exigir o que quer que fosse, homenzinhos com seus falos sempre eretos a qualquer custo à caça de um buraco qualquer, sempre violentos, vazando testosterona, e armados, então, sai da frente.
Berenice desenvolveu um medo estúpido e irracional, mas não absurdo, de qualquer pessoa armada, com farda era ainda muito mais devastador, soldados, policiais, milícias de quaisquer gênero ou senhores, grupos de punks, metaleiros, neo-nazistas, alunos fazendo bullying, torcidas uniformizadas, que mesmo sem armas tinham seu corpo e sua agregação de grupo como arma. Não podia ver um PM na rua que fugia correndo para o outro lado, tentando e nem sempre conseguindo não gritar, vomitando e se urinando toda, como as vítimas das feras selvagens e dos humanos armados faziam ao longo da pré e da história.
O corpo de Berenice passou a reagir completamente aos filmes, quadros, músicas, livros e histórias sobre as ditaduras, as tiranias, os torturadores e seus torturados, os ratos, porcos e ovelhas, os assassinos, facínoras, autoridades, mesmo os que pareciam mais doces e dotados de razão, que esses eram os piores. E ela já não sabia o que era arte, o que era realidade, o que era fantasia, o que inventava ou inventavam e ela fazia parte. Vigiar e punir, gritava Foucault dentro dela, corra, Lola, corra, mas não para mudar nada, e sim apenas safar-se seja lá do que for, que a vida é apenas isso, correria e tentativa de salvamento, e tudo termina na morte, a correria e a salvação que nunca vem, pois que não existe. Não há como fugir pras colinas.
E era exatamente ali, naquele Z final de Berenice, o único lugar onde a luz podia entrar. Quando luz ou treva já não fariam mais nenhuma diferença.

Eloisa Helena Maranhão

27 maio 2012

Ismália e o lago da Patagônia

“Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...”

(Ismália, Alphonsus de Guimaraens)

Antes de Ismália pôr-se na torre, a sonhar e verificar as duas luas, ela emudeceu. Ela via as duas luas, sabia que eram duas, e não uma, como dizia o senso comum, a pouco sábia humanidade mal acabada de evoluir de uma turva pré-história para o pensamento filosófico e científico. Mas Ismália sabia. Que as luas eram duas, e que a vida era uma só. Isso fazia dela uma pessoa bastante desconfortável, sempre se sentindo pisando em ovos quando tinha de explicar o que quer que fosse. Imagina explicar o que pensava. E o que sentia, então, mais complicado ainda. Nunca dava certo, falava a, entendiam h, dizia p, ouviam mê. Foi por isso que emudeceu, só pode, de fadiga intensa de tentar se comunicar devidamente e não conseguir.
E foi de repente, de supetão, nada assim paulatinamente, de forma que desse pra se acostumarem com o silêncio dela, e ela se acostumar também. Simplesmente ela acordou muda num dia, não tinha mais nada a dizer, nem a quem dizer, nem por que dizer. Simples assim. Então não falou mais. As palavras tinham-se escoado como um lago da Patagônia, no alto da cordilheira. Hipóteses pro sumiço do lago (não das palavras de Ismália) – sim, sabões científicos, hipóteses existem quando não se sabe ao certo, levantam-nas, então:
1.       As águas fugitivas foram pro oceano, vazaram do lago e correram pro seu destino, coletivamente, por absoluta necessidade ontológica;
2.       As águas escoaram-se para dentro da cordilheira, por uma rachadura feita por um micro-terremoto na região;
3.       ET´s abduziram as águas do lago, necessitando de água doce da Terra e não desejando competir com os ET´s norte-americanos, bem armados, muitíssimo bem armados, nos rios e igarapés da Amazônia;
4.       Foi a boiada do Renan Calheiros que passou por lá a pastar e bebeu a água, gado tem uma sede do caralho, por causa do sal ingerido. É muito gado pra um laguinho só.
Não sabemos da hipótese correta, uma há de ser, ou outra. Mas sabemos que as palavras de Ismália e as águas do lago sumiram e o Lula não viu nada, sabia de nada.
Sobraram exatamente quatro palavras monossilábicas pra que se comunicasse com os cachorros, os gatos, os passarinhos e a humanidade e demais primatas: é, ta, não e hãn (que era uma expressão idiomática para as emergências, onde as outras três não coubessem). Por exemplo – vou me comunicar no lugar de Ismália para que vocês vejam como o caso era sério, quase sem salvação, alguma coisa tipo um pecado mortal: se diziam vem jantar, Ismália, ela respondia “ta”; se diziam vamos ao shopping?, era um “não” definitivo (tanto pra shoppings quanto pra parques, cinemas, supermercados, comércio de qualquer tipo, igrejas e outros templos, principalmente); se diziam isso é assim ou assado, era “é”, independendo de ser de anssim ou de anssado. Mas se diziam qualquer coisa que não fosse uma pergunta direta ou uma afirmação que deveria ser respondida com outra afirmação – é -, então usava-se o hãn (sempre num tom de voz baixinho e rascante, de contralto, por favor, que hãn de soprano é histeria pura). Nossa, que música bonita!... hãn... esqueci o paletó, voltei pra buscar... hãn... Qualquer coisa abstrata também, os filosofares eram todos recebidos com um hãn na cacunda, pra aprenderem que Ismália emudecida não estava para brincadeiras, estava centrada, estava pairando sobre as mazelas da humanidade. Como Nietzsche, que, se tivesse emudecido, talvez não tivesse morrido cedo. Hãn.
Enquanto verificava, aliviada, que as duas luas ainda estavam lá, no céu e no mar, e que a do céu não estava rachada, esfacelando-se no espaço sideral, não havia hãns nem és nem tas nem nãos. Não precisava. As coisas eram como eram, uma rosa era uma rosa era uma rosa, e uma lua eram duas luas eram duas luas, sempre duas, em par, como uma meia são duas meias duas meias duas meias e podem ser rasgadas por uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra.
Até aí problema nenhum, não é?, hãn, sem crise. Mas os problemas começaram a balir em uníssono quando Ismália pensou na possibilidade de descer da torre. Podia enjoar. Podia cansar. Podia necessitar. Descer um dia da torre. Precisaria falar, para isso. Tinha de buscar as palavras no fundo da cordilheira, ou nos mais profundos oceânicos, ninguém sabe, ninguém viu, quem manda os guardas-florestais ficarem um mês inteiro sem olhar pro lago, por isso Ismália, que nem era omissa nem negligente, cuidava de verificar suas luas toda noite. Isso quando não estava chovendo ou eram luas novas, que aí não tinha jeito, mesmo. Mas como boi engorda sob o olhar do dono, as luas de Ismália estavam sempre lá, não eram nem malucas de sumirem feito lago, elas sabiam sua função e os afetos de Ismália.
Mas isso não solucionava o problema de trazer de volta ao menos meia dúzia de frases, de preferência de efeito, que servem para se comunicar, para educar filhos, para mostrar cultura, para desfazer silêncios constrangedores – e os não constrangedores também. Muitas utilidades têm as frases de efeito, pensou Ismália, vamos escolher algumas e treinar.
Passou a mirar-se na lua do mar, quando cheia e clara, um verdadeiro espelho para treinar seus trejeitos, suas expressões, que ficam melhores, as frases de efeito, quando acompanhadas de efeitos especiais. Já sabia George Lucas, intuitivamente. Ismália sabia intelectualmente, o que dá na mesma, o sabido é sabido de que forma for, em poesia, em prosa, em receita culinária, em rol de agenda.
Treinou, treinou e treinou. Exatamente seis frases, as melhores, as mais sábias, as do tipo “cachorro mordido de cobra tem medo até de lingüiça”, que podia ser usada em ocasiões como “por que você está muda?”, ou “o que está acontecendo, Ismália?”. Não vou falar das outras cinco, que nem precisa, sabões entendem de tudo.
Treinou, treinou e treinou, e num dia em que olhou pro céu, a lua não estava mais lá. Nem a do mar. Caracas, sentiu um frio derradeiro por dentro, que é isso, deustodopoderoso, cadê minhas luas? (Nem estava chovendo nem era fase de lua cheia, não vão os incautos levantando hipóteses fáceis, plausíveis demais). Sob tal pressão interior, sob tal desespero em seu ser mais autêntico (aquele que nem Sartre previu), era hora de Ismália descer da torre com suas seis frases de efeito.
O único porém é que ela resolveu descer pela janela, não pelas escadas do lado de lá.
Foi isso. Ficamos sem Ismália e sem saber o destino das duas luas nem as frases de efeito, o que não é grande prejuízo, que o mundo tem tantas delas, em todas as línguas e lábios. E, se olharem o céu em noite sem chuva nem nuvens demais nem fase de lua nova, verão a lua, também, ta lá, sosseguem. Hãn.

11 maio 2012

Canção sem estribilho (ou Madalena foi pro mar)

MARAVILHA-TE, memória!
Lembras o que nunca foi,
E a perda daquela história
Mais que uma perda me dói.

(Fernando Pessoa)


"Feliz  é o destino da inocente vestal
Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida
Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Toda prece é ouvida, toda graça se alcança.
(Alexander Pope)

Lembrar é trabalho interessante – tantas vezes as mágoas exsudam, mas outras tantas as alegrias é que pulam ao nosso redor, gritando e batendo palmas: valeu a pena!
Madalena não tinha mais lembranças, ou tinha, mas rapidamente se esquecia delas. Os fatos ou sentimentos que formariam sua memória não chegavam a ser gravados. Era, pois, uma desmemoriada.
Mais grave, ainda, nesse mundo machista, ser mulher desmemoriada. Homem sem memória ainda possuía a possibilidade de fundar-se na ação, mesmo que mil vezes repetida e mil vezes esquecida. Mas num mundo em que a ação cabe ao homem e a introspecção à mulher, como ter identidade sem memória alguma?
O que a fundaria como ser humano e mulher? Sem memória que una as lembranças num fio, colar de pérolas falsas, mesmo que algumas contas caiam e alguns trechos do fio se esgarcem. Mas há algo palpável que dê unidade à pessoa.
Madalena era uma canção sem estribilho. Como as longas e sem rimas canções de Bob Dylan e Leonard Cohen, em que as coisas acontecem e se sucedem, mas nada se repetiria. Tudo era novo, cheirando terra recém chovida, e nada tinha outra chance, não podendo ser reinterpretado. Nada poderia se repetir. O que aconteceu, foi. Daquele jeito vivido, mas nunca re-vivido, recriado. Nada tem outra chance quando não há memória.
Madalena começou a perceber que estava perdendo a memória quando acabava de virar a página de um livro e já não se lembrava do que tinha lido. Estou cansada, pensava meio desconfortável, preciso de férias. Já não consigo me concentrar nem na leitura. Depois, notou que as palavras desapareciam, queria falar algo específico, sabia que tinha uma palavra perfeita para descrever o que queria dizer, mas não a encontrava dentro de si. Passou a perguntar aos filhos, ao marido, que palavra a gente usa quando quer dizer tal coisa, ah, é isso, e vinha a resposta com tanta facilidade. É estresse, pensava. Mente cansada.
Mais um pouco, e esquecia o nome dos filhos, trocava o nome deles, eu não sou o ele, mãe, eu sou o eu, claro, sei que você é o você, foi só confusão. Mais tarde começou a reler os livros que já tinha lido tantas vezes que antes até se lembrava de cor de passagens inteiras, mas agora era tudo novidade novamente, tudo de novo no front, brincava de parafrasear, relia um por um, arrumava numa ordem inventada para não se esquecer das histórias, “Otelo” junto com “O amor nos tempos do cólera”, porque, afinal, ciúme é ciúme, mas como falam de amor, então vai ao lado “A odalisca e o elefante”, porque, afinal, amor é amor, e já que se fala de odaliscas coloca junto “As mil e uma noites”, porque, afinal, oriente é oriente, então cabe “A noite”, do Érico Veríssimo, junto com “Estorvo”, que se passa de noite, e, se não se passar, as noites nos deixam mais frágeis e estorvados como o personagem do Chico. E assim, ia compondo uma ordem na sua biblioteca, por temas, palavras, nomes, personagens, uma ordem desesperada para tentar não se esquecer do que tinha lido. Leda esperança. Continuou a esquecer uma coisa atrás da outra.
Até que um dia, em que havia chegado mais cansada que sempre, naquele dia a fadiga era imensa, ultrapassando qualquer limite do bom tom, era uma fadiga sem sensatez nem educação alguma, era um cansaço pesado, carrancudo, um algoz, se me entendem, e que sono nenhum recuperava, dormia e acordava mais cansada ainda, nesse dia deitou e sonhou.
Vai saber com o que Madalena sonhou, nem ela se lembrava quando acordou, e não estou aqui pra inventar sonhos alheios, e quando acordou é que Madalena deu por si, ou pela falta de si, acordou sem lembrar de nada, estava oca da memória.
Ficou ali sentada na cama, matutando um pouco, mas nem referências pra saber que estava oca ela tinha, ficou ali como fica um gato na janela, um corvo num pedestal, uma alface sobre a pia esperando pra virar salada, ficou ali respirando, se mexendo de vez em quando (Madalena, não a alface, claro), sentindo cheiro de alguma coisa que não sabia como chamava, era café quente, mas ela não lembrava.
Então o filho pequeno disse, vamos jogar xadrez, mãe, isso ela lembrava, que aquele menino magro de cabelos escorridos era seu filho e ela gostava de estar com ele, além de ter obrigações, tipo dar atenção ou jogar xadrez, vamos, então, ele trouxe o tabuleiro e colocou na cama.
Rapidamente Madalena contou as casas, 64, colunas de 8 por 8, casas brancas e pretas alternadas, então isso se chama xadrez, ela pensou, por que xadrez, o que é xadrez, para que serve um xadrez, e aquelas coisinhas brancas e pretas, de formas diferentes, vamos, mãe, coloca as peças, ah, são peças, foi colocando seguindo o que o filho tinha feito, mãe, rainha branca na casa branca, rainha preta na casa preta, troca a sua, claro, e foi logo trocando, pra começarem o jogo. Ela sabia mover as peças, cavalo em L, bispo em diagonal, rei só no fim, peão só uma casa. Não sabia como tinha aprendido aquilo, nem conservado aquela lembrança, já que tinha esquecido todo o resto.
Madalena nem pensou o que mais eu esqueci, por que um desmemoriado não se lembra de que teve lembranças, presume-se.  Ela foi vivendo daquele jeito de alface de gato de corvo, no começo estranharam, resolveram levar no neurologista, mas acabaram se acostumando, fazer o que, é estresse, uma hora ela melhora, vamos fazer uns exames, ressonância, tomografia, e seria bom psicoterapia também, que não tem nada melhor pra fazer relembrar do que terapia. Ou pra fazer se adaptar a viver sem lembranças, se fosse o caso. Ou seja, com ou sem terapia, com ou sem neurologia, com ou sem psiquiatria, com ou sem qualquer coisa ela teria de viver com ou sem lembranças, e viver como desse, de preferência da melhor maneira possível. Esse negócio de ficar descascando o passado é igual cebola, só faz chorar.
E assim o tempo foi passando e Madalena continua oca, e, o que é mais grave e perturbador, o oco foi aumentando, isso é cheiro de café, café, olha, café, mostravam o pó de café, o café coado, ela bebia, achava muito bom, queimava a língua, e dali a algumas horas tinha que começar tudo de novo, olha aqui, arroz, é branco, os grãos nas mãos, o arroz na boca, achava muito bom, não queimava a língua, e dali a pouco tinha de começar tudo de novo, isso é café, olha aqui, pó de café, cheiro de café, café quente, língua queimada, arroz, feijão, batata frita, água, banho, cocô, xixi, menstruação, sofá, televisão, telefone, xadrez. Gato, corvo, alface.
De tanto esquecer Madalena acabou se acostumando com aquela desmemória, a gente se acostuma com tudo na vida, dizia uma semi filósofa dentro dela, viver é assim mesmo, assumir o que vier, e o que vier é melhor tomar como lucro, já que há coisas que independem de quem quer ou de quem corre (dizia Paulo, o apóstolo), de quem vive ou de quem morre (completava Madalena, apocrifa e hereticamente).
E, depois do costume, não tinha mais o que a segurasse na casa, na família, já que também havia se esquecido dos filhos, do marido, dos poucos vínculos que ainda a haviam prendido à sociedade, e mesmo à vida. Com a perda das lembranças foram-se também os vínculos esfacelando, desfarelando, puindo, esfiapando-se.
Nem o suicídio resolveria isso, por que suicídios são para desesperança total e dores intensas e incuráveis (ou que se presumem incuráveis) e nem isso Madalena tinha – junto com a memória foram-se as dores, o sofrimento, qualquer ligação com coisa qualquer que pudesse fazer sofrer, e até mesmo foi-se a desesperança, ficando apenas um imenso vazio e  uma indiferença completa.
Por isso Madalena, um dia, simplesmente acordou, levantou-se da cama e, de pijama mesmo, saiu para a rua, andando e andando, e perdeu-se nesse abismo sem fim a que chamamos mundo.
Dissolveu-se na cidade, tornou-se mais uma anônima, nunca mais sendo encontrada ou encontrando-se, apesar dos esforços do marido, que não parava de procurá-la e repetir, como mantra: Madalena foi pro mar e eu fiquei a ver navios... e não parava de perguntar, a quem encontrasse, você viu Madalena por aí?; o sujeito continua a perambular procurando-a, ele que não esqueceu de nada, mas que não tem mais nada de que se recordar, também, pois que se vida sem memória – gato, corvo, alface - não é nada, memória sem vida também não é.

Eloisa Helena Maranhão

24 abril 2012

Ato vil

Para Morgana, Le Fay, que me ensinou que ninguém é tão bom quanto deseja nem tão mau quanto parece. Ou vice-versa?

"Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
que confessasse não um pecado, mas uma infâmia."
(Fernando Pessoa, "Poema em linha reta")


Ela acordou de manhã ensopada de culpa. Acordou é modo de dizer, pois passou a noite em claro, com medo de ser descoberta, que seus crimes fossem expostos em praça pública, arrastada, nua, os seios caídos, a alma em pelancas aparecendo, amarrada aos cavalos dando galope em volta da praça. Sangue, sujeira, o corpo todo esfolado, até morrer no castigo pedagógico. Bem feito.

Não queria morrer. Queria continuar viva, exercendo suas vilezas. Escondendo de todos o que todos escondiam até de si mesmos.

Passou a noite rezando para que Deus matasse seus algozes, seus acusadores também, nem precisava ser morte doída, bastava que morressem e dessem sossego. Que não a desnudassem em público. Uma coisa é ser vil. Outra é ser descoberta.

Não conseguia sentir raiva dos algozes, a raiva não cai bem nos réus, é prerrogativa das vítimas, apenas. Tinha que sentir culpa, medo, vergonha, vergonha de ser humana, de cometer vilezas em meio aos puros, de almas alvíssimas, omo, cloro e anil, de ser gente em meio aos deuses. Vergonha de ser torpe e sacana, quando todos tentavam - ao menos tentavam! - não cometer vilezas nem sacanagens nem infâmias nem crimes. Dos grandes nem dos pequenos.

Olhou para o marido no travesseiro ao lado - ele, sim, tinha dormido o sono dos justos, até roncado e babado na fronha de tanta integridade de caráter, voltou a chorar o choro da noite em claro, e perguntou: você me perdoaria se eu tivesse cometido um crime bem grave, um assassinato, um crime muito criminoso?

Ele olhou-a intrigado, esforçando-se para não se assustar: mas você não cometeu esse crime criminosíssimo, cometeu? Ela teve certeza, ele não perdoaria. Era melhor não assassinar ninguém. Ou não confessar, caso o fizesse. Ele estendeu a mão, acariciou-a nos cabelos e chamou, deite aqui no meu ombro, vem. Ela recusou. 

Réus não têm direito a ombros, colos, consolo, álcool, drogas. Réus têm que sofrer. Sozinhos. Conforto é para os justos. Apenas.

Ficou lembrando - era sábado de aleluia - dos criminosos da Bíblia. Davi era um dos piores, adultério, mandante de assassinato, abuso de poder. Jacó era ladrão e usurpador do próprio irmão. Tinha muitos outros, incluindo as putas como Raabe e Madalena - ao menos na história judaico-cristã oficial, os estupradores e curradores, os invasores que destruíram povos inteiros, genocidas, chamaríamos hoje. 

Lembrou-se com certo alívio de Jesus, quem não tiver pecado que atire a primeira pedra. Lembrou-se com desgosto e medo mais intenso dos cristãos, dois mil anos e continuam com pedras nas mãos, inclusive apedrejando legalmente os pecadores. Judas, então, nem se fala! Traidor. Hijo de la Malinche. Só ele. Os espanhóis das esquadras de Pizarro e Cortez, não. Foram descobridores, não invasores. Bush não. Nenhum dos dois com suas guerras justas, Bush pai nem Bush filho. Ela, sim. Criminosa, culpada.

Não queria ser bode expiatório, queria continuar praticando sua vida vil, suas fantasias vis, seus crimes às escondidas. Não daria mais, se a descobrissem. Era horrível não ter telhas, e todos os outros viverem sob um teto sólido. Protegidos do sol e da chuva. Ela era sem teto. Nascera no abandono, crescera desamparada, ficara adulta ao relento.

Tinha filhos. Lavava, cozinhava, trabalhava fora, botava band-aid nos machucados. Quem poderia imaginar que fosse capaz de uma infâmia? Quem ousaria olhar para uma mulher grávida, uma mãe amamentando, e supor a capacidade de um crime? Mães não são criminosas, a priori. Filhos, sim, jovens, rebeldes, ambiciosos de uma vida que preste viver, drogados. Pais, sim, podem ser, quase velhos, descontentes, frustrados da vida que levavam à revelia. Mocinhas talvez, mesmo as de olhos claros e almas transparentes, cabeças de vento, apaixonadas por um safado qualquer. Mães nunca. 

Nutrizes, geradoras, colunas da família, estacas da sociedade. Se os filhos ou o marido chutavam o pau da barraca, os esteques ficavam lá, plantadinhos, altaneiros, esperando o arrependimento e que levantassem novamente a barraca. Estáveis. Sensatas. Não estrangulariam pintinhos, não puxariam o rabo do gato, não atirariam num bandido - nem pra defender a prole, por que o Senhor cuida deles, vivem protegidos pelas orações das mães -, não esmagariam uma barata sequer, não envenenariam a sogra, não cortariam o pau do marido.

Mães são seres incapazes de uma torpeza, desde Maria, recendem a vítimas, nunca a rés. No máximo cheiram a algum perfume francês, um amante no armário, um motel esporádico. Mas isso é perdoável, se nunca confessado. Não se pode chamar vileza. Mães passam noites em claro velando o filho doente, cozinham canjas e sopas de cebolas douradas, fazem chás de limão e canela, espremem o suco das frutas que fortalecerão os amados. Não seriam capazes de uma abjeção, de pensar torpe, de sentir torpe, quem dirá agir torpemente.

Não têm sótãos escuros na vida, cinza na alma, música em ré menor dentro de si. Não as mães. Ah, as mães...

Você é maluca, espicaçou o filho. Pois uma mulher que escreve desse jeito só pode ser maluca. Aliás, doida de pedra, falou o menorzinho dentro dela. Ele gostava de falar aliás. Era uma palavra sonora. Aliás, ninguém normal escreve assim. Aliás, ninguém precisa escrever. Aliás, ela precisava. E, aliás, ela escrevia. Mesmo quando não estava escrevendo, escrevia dentro de si. Seus dedos percorriam rapidamente um teclado imaginário, podia ver mentalmente onde estava cada tecla, cada letra que tinha de digitar, frases se formavam, cada palavrinha mais linda, mais bem encaixada nas outras, redondas, eram seixos rolados as palavras dentro dela, formando anéis de corais, atóis, as palavras rústicas, rudes, toscas, que cortavam pés de quem não sabia caminhar sobre elas, e quanto sangue arterial esguichava do corte profundo.

Olha só, "esguichava", não era seixo rolado, era batida demais, dicionário, vamos trocar por jorrava, batida também, em jorros, que diferença o verbo ou o substantivo?, quando não encontrava a palavra, inventava, o sangue mangueirava do corte, também não serve, desconhecido demais, "mangueirava", quantos leitores tontos a vil não vai esbarrar por aí, ou esbarrarem com seu texto. Fica esguichava, mesmo, dois pontos: suspiro resignado.

O bebê precisava comer, e ela escrevia, não queria amamentar e a criatura chorava alto de fome. Azar o dela. Da criatura e da mãe, também.

O de quatro anos estava imundo, melado de leite condensado que mamava na lata, quando tinha fome, e depois regava no estômago com coca-cola ou guaraná, que sede que leite condensado dá, grudento de suor de tanto brincar de bola sozinho, chutava e corria pro gol, não conseguia defender, e saía gritando e comemorando o gol feito, era só correr pro abraço dele próprio e a torcida vibrava.

A menina de sete e dentes trocando fazia lições compulsivamente, desenhava as letras, mastigava a ponta do lápis, apagava, fazia de novo com mais perfeição, ai que cacete essa menina, vai virar uma chata, só pode.

O de treze, adolescendo, se masturbava no banheiro, gastava meia hora empinando o topete com gel, e saía pra jogar bola na rua, não sem antes arrancar o caderno da menina pra vê-la berrar feito uma surtada, chutar a bola do de quatro e fazer gol, para vê-lo chorar por que aquele gol desequilibrou o empate e deu a vitória para o adversário. Adorava ver todo mundo chorar seu choro reprimido.

Quantos filhos tem essa mulher, parece coelho, pensavam, mas ter um é ter mil, todos, é ser mãe da humanidade, quantos filhos têm os humanos, que dão trabalho e exigem atenção, famintos, carentes, olhando em acusação, você me abandonou, você descuidou de mim, você não me quis, tentou me abortar, você me achou na soleira, no lixo, nem teve vergonha de me registrar como seu – e eu não sou seu! -, que merda de mãe, que fiasco, que fracasso de mãe que não tem tempo nem paciência nem vontade de brincar com os filhos, conversar com eles, ouvir suas histórias, ir às reuniões na escola, ralhar quando falam palavrão, impor limites, dar exemplo, citar frases de efeito, que a humanidade inteira foi educada com elas, que raio de mãe que não incutia valores, e não servia para nada. Era vil até na maternidade, essazinha.

Tinha que escrever. Alguma coisa ela precisava fazer bem, já que era mãe fracassada e assumida. O filho de vinte anos tinha dito com todas as palavras, que bosta de mãe você é, e ela não teve coragem de se defender, encará-lo e esmagá-lo com seu amor, pois o lado mais frágil sempre são os filhos, e ela não ousou – por amor – desabar sobre ele e perguntar, mas o que você quer de mim, o que você quer que eu faça para ser boa mãe, o que te falta em mim, meu filho? Como descobrir o que nos falta no Outro. Deixou passar a agressão magoada, deixou quieto, não queria destruir o filho com seu amor, carinho era uma coisa devastadora, achou que podia poupá-los do excesso de amor e cuidados que vazava dela, mas parece que não deu certo.

A de dezesseis nem olhava para ela. Era como se não existisse, ou não devesse existir, o que era pior ainda. Aqueles olhos sempre escorrendo rancor, vermelhos de raiva, lágrimas e auto-comiseração, como chorava essa menina, meu Deus! Só pedia dinheiro, fazia cobranças, você me pôs no mundo porque quis, eu não pedi pra nascer. Recordava de quando era adolescente e pensava a mesma coisa dos seus pais.

Mas quanto filho tem essa mulher, pensavam. E quanta solidão. Cada filho uma solidão a mais. E mais uma culpa pelo fracasso. E mais uma vileza inconfessada, que criar filhos exige atos vis. Como não se sentar à mesa na hora das refeições, no meio daqueles bolos e chás e leites e sucos e frutas e geleias e manteigas e pães e almas famintas, e se alimentar apenas das migalhas que caíam na toalha branquíssima, como um passarinho. Ou uma cadela cananeia. Vilezas como amar e cuidar mais dos próprios filhos, e ser injusta com os filhos alheios, sempre do lado dos seus, esquecendo da espécie em função dos genes familiares, família cada vez mais nuclear, nem dos sobrinhos gostava mais, nem das tias, mas só dos filhos e pais.

Família nuclear, nada das grandes famílias italianas, coloniais, vivendo todos juntos, dando suporte e apoio uns aos outros. Agora era cada um por si, inclusive nas vilezas, sem ter a quem confessar, confessar o quê, onde andam aqueles padres que tudo ouviam e calavam e fingiam compreender e usavam os pecados contra o pecador, para mantê-lo submisso?

A confissão seria uma atenuante, mas vilania não tem atenuante, nem consolo, nem o consolo póstumo de ter sido injustiçada, bem aventurados os perseguidos por causa da justiça, tinha que purgar, sem dó nem piedade, sem perdão passado, presente ou futuro.

Lembrou-se do Carandiru, visto por seus olhos aflitos da janela do metrô em movimento, aquelas mãos para fora das celas, abanando a qualquer humano que tivesse olhos para eles, como fazia falta um olhar humano sobre a desumanidade ali confinada, aquelas janelinhas com as roupas e as mãos penduradas e os olhos - dos de fora e dos de dentro - pendurados e os crimes pendurados e as almas penduradas, mal lavadas, cheirando mofo. Ainda bem que o Carandiru não existe mais, aquelas paredes marcadas da varíola da sociedade, aqueles gritos e todo o sofrimento que passara por ali. Não existindo, não corro o risco de parar lá, também.

Cansei de pagar para ver meus próprios blefes, pensou desconsolada, chega um dia em que a gente cansa.

Deus não existe, pensou mais desconsolada ainda, a história não me absolverá, vou ter que esperar virar pó, para descansar.

Parou de chorar, que chorar não resolvia o problema, e pensou, a pérfida: sou melhor do que pensam, e muito pior do que ousam imaginar.

Foi esse seu único consolo.

Eloisa Helena Maranhão.

17 abril 2012

De outubro a abril

Para todos os sem-terra de todos os tempos, inclusive os que não resistiram e vieram se tornar os excluídos das cidades; e, principalmente, aos que resistiram tanto que acabaram sendo tombados na luta.

"Atrela o teu arado a uma estrela e põe-te a sulcar a terra." 
(Provérbio Árabe.) 



Era 05 de outubro de 1897. Maria Antonia olhava com olhos que nada compreendiam e com o coração se esfiapando de dor. Sabia que nunca esqueceria o pai ali ajoelhado, com os braços levantados ao céu e gritando "viva o Conselheiro!", enquanto caía lentamente naquele chão lavado de sangue inocente, morto pelo Exército e pelas milícias dos latifundiários que controlavam a região desde tempos impossíveis de se lembrar. 
Virou-se no meio daquele inferno de corpos, sangue, fogo, fumaça, gritos e lamentos, cães das milícias cheirando e mordendo os sobreviventes, velhos e crianças ajoelhados implorando clemência e lamentando seus mortos, mulheres e meninas sendo violadas ali mesmo, no meio da poeira suja pelo sangue de seus maridos e pais, virou-se e não sabia o que fazer, pequena nos seus cinco anos de idade, mas já com marcas de quem poderia viver oitenta e nunca passaria pelo que ela passou.
Na partilha dos despojos da guerra coube a jaguncinha morena de grandes olhos negros e longos cabelos lisos a um jornalista do sul, que a levou no colo para o navio, comprometendo-se a protegê-la, desgraçada orfãzinha do Arraial de Canudos; ainda no navio que os levaria ao Rio de Janeiro o jornalista Floriano escreveu os artigos para seu tabloide, e também ele nunca se esqueceria das cenas que havia visto, melhor que aquilo tudo fosse logo enterrado e submerso nas águas da memória, o que realmente aconteceu tempos depois, quando o Arraial em que mais de 30 mil almas haviam vivido e tentado ser livres foi transformado em açude naqueles sertões secos entre os rios Sargento e Vaza-Barris. 
Ainda no navio, Floriano banhou a jaguncinha para tirar-lhe o sangue respingado no corpinho franzino, mas o respingado na alma ele nunca conseguiria limpar, maiores fossem seus esforços de entreter a criança, distraí-la com doces e brincadeiras, fazê-la trabalhar muito, pois que o trabalho é bálsamo que faz esquecer o que deve ser esquecido das dores da vida, e Antonia, a que havia recebido esse nome em homenagem ao Conselheiro, continuava a olhar com olhos sem rumo e a fazer tudo que lhe era pedido ou mandado, como se esperava de um ser daquela idade, daquele sexo e daquela classe social, a escória  do mundo.
Passou a viver na pequena casa de solteiro de Floriano, varrendo e limpando o chão dos cômodos, trocando e lavando as roupas de cama, cozinhando as comidas que ele comia na mesa e ela na cozinha, de pé ou agachada junto ao fogão de lenha, ajudando-o em seu banho, e era ela quem carregava a água e enchia a tina onde ele se sentava, e derramava a água devagarinho sobre ele, e ensaboava e esfregava as costas e os pés dele com buchas, e depois esvaziava a tina, e lavava as ceroulas e ternos do jornalista, e passava tudo caprichosamente com ferro a carvão, e quantas vezes queimou as mãozinhas nas brasas.
Mas nada se comparava com as brasas de sua memória, que continuavam a arder enquanto Floriano dava-lhe banhos demorados, ensaboando-a e esfregando seu corpinho com as mãos sem calos, lavava-lhe os cabelinhos e depois penteava-os, tecendo as duas tranças com dedos sábios, enxugava a menina com toalhas macias, a começar dos pés, cada dedo de uma vez, e depois as pernas, os joelhos, as coxas, o sexo, cada dobrinha dele, na frente e atrás, as costas, a barriguinha e o umbigo, o peito liso e magro, o pescoço, o rosto, braços e mãos, cada dedinho de uma vez. Depois vestia a menina, a calcinha, a camiseta de baixo, a saia e a blusa, ou um vestidinho, as meias e os sapatos, que fazia questão de amarrar ajoelhado enquanto sentia o cheiro de gata molhada da criança, e que ela logo tirava, mal ele saía para trabalhar, ficando descalça o dia todo e só voltando a calçá-los pouco antes dele chegar.
Gostava de sair às ruas daquela cidade tão grande e desordenada, ir à praça onze, onde caminhava no mercado, entre camelôs e toda sorte de ambulantes que ofereciam mercadorias e serviços de todo tipo, negros de todos os tons e com todas as histórias que contavam e cantavam, e Antonia ouvia de olhos arregalados e ia aprendendo que outras vidas havia além da dela, e outras histórias, e outras tristezas e mágoas, mas nenhuma que pudesse comparar com a destruição que havia visto aos cinco anos de idade.
Morria de medo do fim do mundo, aquele que viria com a lua se tornando em sangue e o sol se apagando e caindo sobre a Terra, aquele que aconteceria quando o mundo se tornasse completamente subvertido, virado de ponta-cabeça, que aconteceria logo depois do sertão virar mar e o mar virar sertão, e o Cristo voltaria das nuvens montado num cavalo, vestido de couro como um jagunço vingador, botando fogo pelas ventas e empunhando uma espada incandescente que julgaria e condenaria o Anticristo, e junto com ele todo o Mal que havia na face da Terra, e seriam queimados e sofreriam torturas pela eternidade num lago de fogo e enxofre que nunca se consumiria. 
Antonia se lembrava  dessas coisas com o coração encolhido, e quando chegou a noite do Grande Dia, a noite da passagem do século, a fatídica data de 31 de dezembro de 1899, e o mundo não se acabou, e depois a outra fatídica, pois o Senhor misericordioso havia dado um ano de prorrogação, de chance para que os pecadores se convertessem de seus maus caminhos e caminhassem pelo caminho reto, quando chegou a noite de 31 de dezembro de 1900, Antonia correu junto com a multidão para a Igreja da Candelária, e ali chorou, se arrependeu - sabe-se lá de quais pecados, que a menina praticamente não os tinha - e enquanto chorava e se arrependia, outros mais destemidos ou desesperados gozavam os últimos minutos da vida, e se beijavam freneticamente, e se deitavam e se possuíam nas ruas mesmo, ex-escravos com suas ex-sinhás, e ex-escravas com seus ex-senhores, homens com homens, e mulheres com mulheres, pobres e ricos, feios e bonitas, velhas e moços, sábios e ignorantes, que nada mais importava, diferenças sexuais nem sociais nem econômicas nem  intelectuais, já que o mundo ia se acabar, mesmo.
E ajoelhada e soluçando, Antonia viu a madrugada passar e o sol aparecer, e então já não sabia mais o que estava acontecendo ou em quê acreditar dali pra frente, e só sossegou quando o padre explicou que Deus havia prorrogado o fim do mundo por mais cem anos, de piedade das almas que ainda viriam a se arrepender; um alívio, pensou Antonia, que dali a cem anos já estaria morta e não precisaria ver o Sol vindo em sua direção e inaugurando o inferno na Terra. Dali pra frente viveu menos amedrontada, e até se ria quando ouvia a modinha que os negros cantavam nas praças "anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar; por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar; até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada; por causa disto nesta noite lá no morro não se fez batucada ".
Em casa ouvia os comentários de Floriano com seus amigos nos almoços de domingo, e contavam que no norte a borracha estava enriquecendo a muitos e que agora havia um novo presidente da República, o cafeicultor paulista Rodrigues Alves que tinha idéias de transformar o Rio de Janeiro numa cidade moderna e maravilhosa como Paris, acabando com a sujeira, a pestilência, a feiura, a falta de ordem, enfim, acabando com os pobres e miseráveis que lá sobreviviam, fazendo do Rio a sala de visitas do país.
Antonia ouvia isso tudo, e via o contentamento de Floriano, e se benzia, não sabia por que, mas toda vez que ouvia aquela palavra "República", assim mesmo com R maiúsculo, nariz empinado e armas em riste, Antonia tremia e um eco dentro dela repetia: "sacrilégio! abominação!"; não sabia o que era nem de onde vinham aquelas palavras, mas quando ouvia República sabia que o Anticristo estava no meio de nós, já havia nascido e logo se revelaria. Havia mamado nas tetas da mãe aquelas palavras que agora lhe voltavam como ecos, mas se calava, que não era nem boba de falar contra o Anticristo, que isso era da alçada de Deus, e Ele cuidaria na hora certa.
Via as demolições sendo feitas pelos homens da prefeitura, transformando o centro da cidade num sertão de poeira e entulhos, e num mar de desabrigados que não tinham mais onde repousar a cabeça, e iam subindo os morros e construindo barracos para passar as noites, e desciam durante o dia, com tabuleiros de cocadas e doces de abóbora e tijolinhos de goiabada-cascão, caixas de sapateiros para deixar lustrosos os sapatos dos brancos, jarros de sucos e refrescos que vendiam em canecas para matar a sede naquela cidade sempre quente e abafada, frigideiras que acomodavam sobre tijolos e onde fritavam camarões e pastéis e acarajés que vendiam aos gritos; outras desciam para pegar roupas sujas nas casas das madames, e subiam de novo com as trouxas equilibradas na cabeça, e de novo desciam com as pilhas de roupas brancas e passadas, e subiam e desciam, num sobe e desce contínuo e interminável que só os verdadeiramente pobres e condenados conhecem, só eles e Sísifo, seu padroeiro.
Enquanto as casas iam sendo demolidas para dar lugar às amplas e modernas avenidas - que qualquer um sabe serem as avenidas e praças muito mais importantes e necessárias que as habitações dos pobres - enquanto o Rio de Janeiro ia sendo remodelado e urbanizado, Antonia ouvia falar de um médico que estava acabando com as pestes e epidemias, combatendo como um cruzado a varíola e a febre amarela, e só de ouvir falar, não, só de pensar, nem isso, só de imaginar esse médico e seus óculos e suas injeções com agulhas descomunais, Antonia se tremia toda e benzia e se lembrava da República e do Anticristo que aprendera a temer, se encolhendo atrás do fogão entre as lenhas e os escorpiões, que melhor lhe eram as picadas de mil escorpiões do que ser catada pelos da prefeitura e vacinada à força, aquele bracinho magro rompido pelas agulhas do poder.
Mas foi, mesmo assim, caçada e achada e vacinada, e viu seus quintais revirados e esfumados com venenos contra os mosquitos, e que destruíram as plantas também; enquanto gritava e esperneava e lhe enfiavam a vacina alma adentro viu cada canto de sua casa devassado pelos da prefeitura, e quando Floriano chegou da rua encontrou a menina estrelada no chão com pernas e braços e olhos abertos, rouca de tanto chorar e gritar, e pegou-a no colo, deu-lhe banho e colocou-a na cama, e percebeu que lhe haviam chegado as regras. Tinha agora doze anos e já era uma mulher, explicou-lhe carinhosamente Floriano, a menina que havia cultivado naqueles sete anos desde que a havia trazido de Canudos agora tinha florescido e se tornado uma mulher de verdade, e entre chás que acalmaram as cólicas e os terrores da menina vacinada, e entre palavras e carícias Floriano acabou de cultivar a menina para si, e logo seria a hora de colhê-la, quando o sangramento das regras parasse.
Uns dias depois, naquele novembro quente como nenhum outro, Floriano acordou com o cheiro do café que Antonia fazia toda manhã e com um barulho ensandecido nas ruas; correu para a janela e viu um povo que gritava, e desconheceu aquele povo sempre tão cordial e festivo, que quebrava, e destruía as belas praças e avenidas que a prefeitura havia construído, e em meio a gritos de abaixo a vacina colocava fogo nos bondes, e revirava os carros de aluguel que se atrevessem a continuar, massa enlouquecida que era enfrentada por guardas, e atirava pedras e imprecações contra o presidente, e contra o governador, e contra o prefeito, e contra a polícia e contra todos que os havia feito chegar a esse ponto de miséria e horror, e Floriano viu tudo aquilo e lembrou-se de um outro povo enlouquecido e miserável enfrentado pelas milícias anos antes, e temeu, temeu por si, temeu por Antonia, temeu por aquelas pessoas nas ruas, pois sabia de olhar próprio o que o Estado e os patrões podiam fazer contra o povo revoltado. 
Três dias duraram aquela agitação e desvario popular, como num carnaval, até que se cansaram, se esvaíram e se esvaziaram, e sob golpes e patas de cavalos voltaram para suas casas nos morros e seus abrigos sob os viadutos e nas portas das igrejas; e tudo se acalmou como antes dos tempos começarem.
Na primeira noite daqueles três dias, Antonia apareceu apenas de camisola na porta do quarto de Floriano, assustada e cheia dos ecos dos dias de guerra do seu Arraial, e o jornalista deitou-a ao seu lado e falava já passou, tudo já passou, Antonia, agora você está segura e protegida, sossegue, e no meio de suas palavras sussurradas com saliva nos ouvidos da menina ele se percebeu enrijecido como tantas outras vezes ficara quando banhava ou era por ela banhado, mas se controlava pois era apenas uma criança a jaguncinha, mas agora não, era já uma mulher, e sem se conter, pois que aquela mulher havia florido da menina que cultivara, começou a retirar a camisola dela, arrancando-a de um só golpe pela cabeça, e retirou também a calcinha branca que jogou no chão, enquanto a cheirava toda, e lambia-lhe toda, e mordia de leve aquele corpinho tão desejado por sete anos, e experimentava na língua e nos lábios o gosto de cada pedaço daquele corpo, aqueles seios muito pequenos e durinhos, com os mamilos empinados que lhe espetaram os lábios, até que chegou entre as pernas de Antonia, e lhe abriu o sexo ainda virgem com a língua, e sugou e chupou até que sentiu as unhas dela em suas costas e as pernas dela agarrando-o pelo pescoço, e então deslizou para cima e penetrou-a de uma só vez, fazendo-a gritar, e aquele grito rompeu o seu dique e o fez desaguar dentro dela, enquanto beijava e mordia a boca carnuda da jagunça, que esse era o destino de toda jagunça e de toda mulher daqueles tempos e dos outros tempos também.
Na segunda e na terceira noite daqueles dias, e em quase todas as outras que vieram depois daquelas, colhendo os frutos que considerava seus por direito, Floriano desaguava-se na menina, agora mulher, agora mais encorpada, agora com os seios crescendo e empinando, agora com as coxas mais grossas e rijas, agora com a cintura mais fina e os cabelos mais brilhantes, agora com pelos no sexo, que ele fazia questão de ensaboar e depilar com a navalha, deixando-a de novo a criança que desejava para si.
Até que recebeu a incumbência de pegar um navio e ir ver o que estava acontecendo no norte do país, entre Brasil e Bolívia, onde estavam construindo a mais moderna ferrovia que o país teria, com a tecnologia mais avançada. Floriano mandou que Antonia preparasse as malas dele e dela, para aquela viagem de muitos meses por navio e estradas de terra e florestas, que não queria ir sozinho e uma mulher silenciosa de dia e que arrulhava e miava de noite em sua cama e seu corpo, como Antonia, era sempre de grande ajuda e valia.
Fizeram-se companhia um ao outro naqueles meses de viagem, refrescaram-se do calor, passaram-se unguentos que aliviaram um pouco as picadas dos muitos pernilongos e insetos, enquanto Floriano escrevia e Antonia cozinhava e lavava e o recebia dentro de si, como era de costume e praxe, até que começou a se sentir lânguida e cheia de enjoos, e Floriano percebeu apavorado que a jaguncinha, agora com quase 15 anos, estava grávida.
Ficou umas semanas na região para onde havia sido enviado, até que acabou de escrever seus artigos e zarpou no primeiro navio que chegou por lá, abandonando Antonia, que dormia sem nem suspeitar que estava sendo abandonada grávida pelo jornalista que a havia levado de Canudos e prometido proteger, sem nem suspeitar que fazia parte de uma grande legião de meninas como ela, doadas como ela, despojos da guerra de Canudos como ela, abandonadas como ela e que agora tinham que se virar sozinhas pra sobreviverem. Como ela.
Cheia de tristeza pela partida do homem que aprendera a amar como irmão, pai, protetor, amante e pai de seu filho, mas sabendo que agora estava por sua própria conta, Antonia passou a procurar trabalho, se oferecendo para qualquer tipo de serviço doméstico que soubesse fazer; ofereceram-lhe trabalho numa casa de prostituição, pois as adolescentes e grávidas sempre tinham clientela garantida, quem vai entender as taras e fantasias dos homens, mas Antonia recusou, pois uma voz dentro dela repetia que no reino de Deus que estava para se instalar na Terra, aquele reino que faria o sertão virar mar e o mar virar sertão, naquele reino não entrariam os adúlteros, nem os impuros, nem os fornicadores, nem os corruptos, nem os republicanos e nem as madalenas, a não ser, é claro, as que se arrependessem de seus múltiplos pecados e se vestissem puramente como convinha às mulheres virtuosas; Antonia não sabia de onde lhe vinham aquelas palavras, mas sabia que eram verdades eternas, e então preferiu passar fome a se prostituir.
Contando com a solidariedade dos pobres como ela, que só isso resta a quem nada tem, conseguiu sobreviver aos meses de gravidez, ao parto, à tristeza, à saudade de Floriano, lavando as roupas dos trabalhadores da ferrovia, cozinhando para eles, buscando água nos rios, e em troca era alimentada e aceita com o bebê num dos galpões da Madeira-Mamoré Railway, a companhia ferroviária que estava reconstruindo a grande estrada de ferro que havia sido abandonada anos antes, depois de conseguirem assentar apenas sete quilômetros de trilhos em um ano e meio, vencidos pela malária, pela loucura, pelos ataques indígenas, numa debandada geral que deixou para quem quisesse os barracões, armazéns, depósitos, olaria, serraria a vapor, botica com os remédios inúteis, tudo ali abandonado na região das quedas que formavam o Caldeirão do Inferno. 
Então a Companhia americana resolveu ressuscitar o projeto, levando para lá trabalhadores de todas as nações, numa Babel que se agitava mais de 18 horas por dia, e para lá afluíram mais de vinte mil trabalhadores - contando-se só os regularmente contratados - mas haviam os sem contrato, os esporádicos, os que aceitavam qualquer trabalho em troca de pão, e as mulheres, as Antonias, as Marias, as Jaciras, as Jussaras e Beneditas, e crianças que iam nascendo e morrendo, como iam morrendo também os trabalhadores extenuados pelas doenças e pelo trabalho insensato, chegando a quase 30% a cifra dos mortos, e eram enterrados juntos - pois que na morte, naquelas florestas, se tornavam todos iguais - eram enterrados sob a cruz e em covas coletivas turcos e árabes, chineses e japoneses, irlandeses e ingleses, espanhóis e holandeses, mexicanos, índios e brancos norte-americanos, argentinos, paraguaios, uruguaios e brasileiros, gregos e troianos, russos e alemães, austríacos, belgas e franceses, dinamarqueses, húngaros, equatorianos, peruanos, antilhanos, todos assim juntos, conforme iam morrendo de peste e miséria e trabalho duro, esquecidos de suas guerras, esquecidos de suas pendengas nacionalistas e de seus conflitos religiosos, e esquecidos por todos.
Antonia flutuava graciosamente sobre a miséria, acostumada que estava desde o ventre materno à penúria e à força de caráter, criando sozinha o filho que sonhava em ser aceito pela réluêi quando tivesse idade para o trabalho contratado, até que numa noite de chuva se deitou ao seu lado, no galpão, um italiano alto e falador, e contou em sua língua, e ela milagrosamente entendeu em português, que já havia trabalhado ali, assentando aqueles trilhos, mas tinha fugido depois de uma greve fracassada, feita por 218 trabalhadores amotinados, e 75 deles haviam conseguido fugir e vagado durante anos pelas florestas, vendo seus companheiros morrerem um a um, até que só havia ficado ele, e resolvido voltar agora que a ferrovia estava sendo retomada. 
Foi a primeira vez que Antonia ouvia aquela palavra, greve, e achou um contra-senso alguém empregado deixar de trabalhar, onde já se viu, se todos só desejam um trabalho nesta vida, mas o anarquista italiano lhe explicou pacientemente para quê servem as greves e por que devem ser feitas, e Antonia entendeu perfeitamente. Se houvesse empregos nos sertões, então o Conselheiro teria feito greve também, tinha certeza, em seu coração, a moça, e todos parariam as lavouras, abandonariam o gado nos campos, deixariam de colher e plantar a cana, o algodão e o tabaco, e sentariam de braços cruzados e corações de pé, até que os patrões se dobrassem e devolvessem aos trabalhadores aquilo que era seu direito desde tempos imemoriais, a terra e seus frutos. Pois quem planta tem direito de colher, e quem produz tem direito de se alimentar do que produz, e quem trabalha tem o direito ao fruto do seu trabalho. 
Essas palavras encontraram suas parceiras dentro de Antonia, naquelas palavras que a menina havia ouvido e mamado no colo da mãe, e gostou do italiano anarquista que se chamava Luigi; gostou do nome dele, e do cheiro dele, e das mãos dele que sabiam deslizar gostosamente pelo seu corpo, e dos beijos dele, mas principalmente daquilo que ele lhe falava e o fazia tão diferente de todos os outros trabalhadores que também têm nomes dados pelos pais, e cheiros, e mãos sábias em tocar mulheres, e beijos, mas poucos, pouquíssimos, sabem desejar e falar de igualdade, e de solidariedade, e de greves, e mais raros ainda são os que falam tudo isso em italiano e se ouve em português, e que ficam vermelhos de furor quando ouvem falar de pátria, deus ou patrão. 
Diante de tão retumbantes e fluorescentes predicados, Antonia se rendeu e passou a parir os filhos dele, que cresciam ouvindo o pai lhes contar histórias de greves e massacres, nenhuma delas inventada, pois que o que não falta são greves de trabalhadores massacrados pelos patrões, e viveram juntos até que Luigi morreu de muitas malárias, vomitando bile verde, e Antonia morreu de velhice.
Mas isso foi muito tempo depois, muito tempo mesmo, quando a estrada de ferro já estava pronta e os trabalhadores que sobreviveram se haviam espalhado de novo pela Terra, e sem trabalho nem comida Luigi, Antonia e os quatro filhos que sobreviveram resolveram se mudar, mas não queriam voltar para os sertões nem para o Rio de Janeiro de Antonia, pois que estavam completamente impregnados da floresta e já não sabiam nem podiam viver fora dela.
Andando e andando, navegando pelos rios e igarapés varados de piranhas e abrindo caminho a golpes de facão, como são abertos os poucos caminhos dos pobres na vida, chegaram numa região com alguns povoados indígenas e de seringueiros, e decidiram viver ali, entre os povos da floresta, onde Luigi e seus filhos encontraram trabalho na construção de uma nova ferrovia, a Carajás-Marabá, e ali as crianças cresceram, casaram e tiveram filhos e Luigi e Antonia foram enterrados, ele de malária e ela de velhice.
Naquelas regiões da floresta muita gente chegava e partia, eram hemorragias de gente tentando um trabalho na ferrovia, ou na companhia Vale do Rio Doce, que explorava o ferro abundante dali, ou garimpeiros em busca do ouro das ricas Serras, que antes do ouro ser encontrado eram recobertas de vegetação, mas logo se tornavam calvas, desmatadas, por fora e por dentro, tornavam-se calvas e peladas nas mãos ambiciosas e cheias de esperanças dos garimpeiros que, da mesma forma rápida e inesperada que chegavam, partiam, e que ganhavam, gastavam tudo em pouco tempo, pagando putas, comendo banquetes com os companheiros menos afortunados, e um ou dois anos depois voltando ao garimpo, pobres e cheios de esperança outra vez, como sempre foram e continuariam sendo; e quando se iam de vez deixavam as serras carecas e os rios empesteados de mercúrio, e muitos anos depois ainda nasciam crianças sem cérebro e as pessoas que teimaram em lá ficar e se alimentar daqueles peixes e daquelas águas morriam cheias de dores e dementes, sem nunca saber o porquê dessa desgraça.
Naquelas regiões da floresta também havia famílias como a de Luigi e Antonia, que lá chegaram muitas décadas antes e não puderam mais sair, por falta de oportunidade ou de vontade, e aprenderam a amar as florestas e viver delas. Mas aquelas regiões amazônicas, como o restante do país, estavam nas mãos de poucos, que mesmo não sendo proprietários legais, sem documentos oficiais e genuínos, eram os donos, os patrões, dominando as terras e as prefeituras e os governos dos estados e as vidas dos seus empregados, muitos deles transformados em escravos.
Foi o que aconteceu com um dos filhos de Antonia, chamado Antonio Mikail, Antonio por gosto da mãe, que mesmo longe de seus sertões, e feliz, nunca se esquecia do seu Arraial, e Mikail por gosto do pai, que mesmo longe de sua Itália, e feliz, nunca se esquecia dos companheiros anarquistas. Pois foi durante uma das épocas de chuvas excessivas que atrapalharam o garimpo e as explorações de ferro que Mikail saiu a procurar trabalho nas fazendas da região e conseguiu numa delas, que criava gado para os açougues do sul. Ali viveu por cinco anos, trabalhando do nascer do sol ao seu se pôr, desmatando a floresta e plantando capim, cuidando do gado, matando e embalando a carne para a viagem, e curtindo o couro, que era vendido às fábricas de sapatos do sul, sempre o sul. 
Sem nunca conseguir pagar as dívidas que se avolumavam com os anos de trabalho, invertendo tudo que seria sensato - de trabalhar e ganhar - pois tinha que pagar a moradia nos galpões onde dormia, e os alimentos que consumia para se manter vivo, e as roupas que recebia para se cobrir e não andar nu, e os instrumentos que precisava para derrubar a mata e curtir o couro, tudo isso lhe era devidamente cobrado e devidamente descontado do salário, e nos cinco anos que lá ficou acabou percebendo que nunca terminaria de dever ao seu patrão, e que havia se tornado escravo. 
Decidiu então fugir dali, não sabia como, mas descobriria um meio de escapar dos jagunços armados que cuidavam da fazenda e de evitar a fuga dos empregados, mas não faria isso sozinho, e sim levaria os companheiros juntos, pois havia aprendido com o pai que a luta tem que ser sempre coletiva e a injustiça combatida onde houver, nunca individualmente, que isso não resolve; e sua solidariedade foi sua ruína, pois os cães dos jagunços logo descobriram aquele grupo imenso embrenhado na floresta, tentando fugir a pé, e os levou de volta à fazenda, ao lugar que era deles por obrigação humana e vontade divina, e logo que lá chegaram suas contas foram acrescidas das custas da expedição de busca e até mesmo das balas que usaram para matar Mikail, que um líder nunca pode ficar impune. 
Enquanto isso, Antonia se gastava de rezar pela volta do filho são e com vida, e Luigi não tinha coragem de reclamar das rezas da mulher, por mais inócuas e inúteis as considerasse, por que ele também estava disposto a agradecer a qualquer deus que lhe trouxesse o filho de volta, mas isso não aconteceu e Luigi morreu ateu e foi enterrado sem unções e nem rezas, como havia exigido a vida inteira e como convinha a um anarquista, enterrado sem cruz como seu filho Mikail que, diferente do pai, não teve cruz nem cova conhecida por falta de opção.
Enquanto Antonio Mikail tentava viver e morria trabalhando como escravo na fazenda, seus irmãos e irmãs tentavam viver, se casavam, tinham e criavam seus filhos, cada um na sua labuta, cada um tirando da terra o que esta lhe oferecesse em troca do trabalho ressecante e do suor amargo.
Enquanto Antonio Mikail e os outros escravos eram esquecidos, seus irmãos e irmãs, filhos, sobrinhos e netos, esses procuravam se manter vivos e livres, mas para isso sabiam que a terra devia ser trabalhada duramente, e seus frutos ficarem para si próprios, e isso só seria conseguido quando fossem donos, eles mesmos, daquelas terras que enriqueciam aos patrões e matavam seus trabalhadores.
Foi pensando e pensando, e esperando e continuando sempre e apesar de tudo, que um dia chegou-lhes a notícia, sempre atrasadas as notícias, chegou-lhes a notícia que um povo do sul, expulso das terras, camponeses como eles, e pobres como eles, e despossuídos como eles, o povo do sul que resolvera se negar a desaguar nas cidades, a se favelar, a se excluir e viver na tangente e da caridade urbana; aquele povo do sul, expulso das terras a que tinham direito pelo seu próprio trabalho e o de seus ancestrais, direito atávico àquelas terras tornadas férteis pelo esforço de seus corpos, aquele povo de braços rijos, agora trocado por máquinas, e suas plantações, que alimentavam as famílias, agora trocadas por soja que alimentavam o grande capital estrangeiro, aquele povo havia se recusado a continuar o êxodo rural, e decidido lutar pela terra.
Chegavam as notícias de que os homens e mulheres e crianças e velhos do sul, enxotados de suas terras, estavam se acampando nas beiras das estradas, e marchando pelo país, e exigindo aquilo que era seu, que lhes cabia por seu trabalho. Que disseram não ao enxotamento sofrido, e esse não era definitivo, pois que não se vendiam por nenhum prato de lentilha, já que eles próprios produziam as lentilhas que lhes eram oferecidas pelos proprietários legais das terras e do poder. 
Diziam não e se mantinham sobrevivendo nas orlas dos campos, nas beiras das estradas, ocupando as terras que eram suas desde sempre e para sempre, pois cada qual tem direito ao que seu trabalho produz e aos sonhos que realiza; recusavam as esmolas e sobras urbanas, exigindo a terra que lhes servia de sustento.
E foi assim que os do norte ouviram o que acontecia no sul, e passaram a se organizar também, e a também se acampar, e ocupar, e plantar para si, e recusar o sustento aos patrões com seu trabalho, invertendo, pervertendo, subvertendo a ordem estabelecida, aquela ordem que parecia tão natural, mas que era a ordem dos grandes e não a deles, e conforme percebiam tudo isso iam se tornando livres e lutando pelo que era seu. 
Lutando e exigindo, exigindo e lutando, aprendendo a perder o medo e a enfrentar os patrões, aquele das terras e aquele do poder político, eleito e instituído com promessas de resolver os problemas do país. E enquanto o patrão das terras se recusa a perder sua mão-de-obra farta e barata, e seus lucros fáceis, pois que fácil é tudo aquilo que conseguimos com o suor alheio, o patrão-Estado faz vistas grossas e não cumpre suas promessas e seu dever. Enquanto o patrão das terras organiza milícias pra defender suas terras férteis contra aqueles que as tornam férteis e produtivas, e exigem indenizações milionárias do patrão-Estado para entregar as terras que não lhes interessam manter, enquanto isso o patrão-Estado fecha os olhos e ouvidos, mas não a boca nem os braços armados, tudo para manter a ordem, aquela ordem estabelecida que parece tão natural, mas que é a ordem que os grandes inventaram e perpetraram contra os pequenos.
E enquanto isso viviam e morriam Maria Antonia e Luigi, ela de velhice e ele de muitas malárias, e nasciam e cresciam e morriam seus filhos e netos, entre eles Maria Antonia, que recebeu da bisavó o mesmo nome, os mesmos cabelos lisos e longos, a mesma pele morena e os mesmos olhos negros.
Enquanto o patrão-Estado fazia corpo mole e coração duro, os sem-terra do norte continuavam em sua marcha pela vida, exigindo o que precisavam para produzir e sobreviver, e marchando pela vida decidiram num abril marchar até a sede do Incra e até o governador do Estado, para negociar a desapropriação de uma das fazendas que pretendiam.
E se põem no caminho, melhor dizendo continuam no seu caminho, e caminhando vão ao longo da rodovia, com os pés no chão, os corações na fazenda desejada e as esperanças na conversa com o governador, que não foi para isso mesmo que foi eleito, resolver os problemas do seu povo?
E caminhando sentem fome, e há algo que precise de justificação outra que não estômagos roncando e filhos com rostos famintos?, e descarregam um caminhão no caminho, divinamente colocado ali pela Providência, e comem as frutas e legumes, pois que o maná nunca mais choveu dos céus desde a época do deserto, e agora é preciso plantar se quisermos comer. Pois não é para isso mesmo que existe a terra e nossos braços?
E caminhando bloqueiam a estrada e exigem que o governador os ouça e negocie com eles, que não foi para isso mesmo que foi eleito, para ouvir e resolver os problemas do seu povo?
E agora, parados na estrada esperando a negociação, veem as tropas do exército e da polícia militar chegando e cercando os dois lados, 69 homens do major Oliveira de um lado e 85 homens do coronel Pantoja do outro. E é para isso mesmo que existem os militares do país?, perguntam assustados os seus corações.
E ali parados percebem os policiais se aproximarem em posição de tiro, caminhando abaixados, encurralando-os com seus fuzis e atirando como aviso. É para isso que existem os militares?, berram assustados os corpos dos camponeses...
E ali parados, pois que o medo paralisa, veem sair de entre eles um deficiente mental surdo-mudo, quase criança ainda, na idade e no entendimento, que sem ouvir os tiros e sem compreender o que se passa se aproxima das tropas e é executado na frente de todos. É para isso mesmo que existe a polícia?, trovejam dentro de si...
E já não mais parados, pois que a injustiça gritante desfaz a paralisia, passam a enfrentar com paus e pedras os tiros e bombas dos homens do patrão, o patrão-Estado que defende as terras e as estradas do patrão do dinheiro. Pois é para isso mesmo que existem irmãos, amigos, e acima de tudo, homens. Para se defender contra a injustiça, e atacar os que a praticam.
E já não mais parados põem-se a correr, em debandada, desocupando a estrada; mas, não satisfeitos, os homens do patrão atiram e continuam o massacre. E cada um que conseguem pegar é arrastado e executado também, com tiros à queima-roupa.
Era 17 de abril de 1996. Maria Antonia olhava com olhos que nada compreendiam e com o coração se esfiapando de dor. Sabia que nunca esqueceria o pai ali ajoelhado, com os braços levantados ao céu e gritando "viva o MST!", enquanto caía lentamente naquele chão lavado de sangue inocente, morto pelo Exército e pelas milícias dos latifundiários que controlavam a região desde tempos impossíveis de se lembrar.
Virou-se no meio daquele inferno de corpos, sangue, fogo, fumaça, gritos e lamentos, cães das milícias cheirando e mordendo os sobreviventes, velhos e crianças ajoelhados implorando clemência e lamentando seus mortos, no meio da poeira suja pelo sangue de seus maridos, filhos e pais; virou-se e não sabia o que fazer, pequena nos seus cinco anos de idade, mas já com marcas de quem poderia viver oitenta e nunca passaria pelo que ela passou.
Eloisa Helena Maranhão