17 março 2012

Ana Maria dos Anjos, a que nunca foi – nem anjo.

I.
“Não olhe muito tempo para dentro do abismo, que
o abismo começa a olhar dentro de você.”
“A esperança é o derradeiro mal;
 é o pior dos males, porquanto prolonga o tormento.”
 (Nietzsche)

Ana Maria dos Anjos passou a caminhar pela casa desabada, andando pelo meio dos escombros; nem se preocupava em desvencilhar-se de nada, pois que tudo era apenas entulho, poeira, pedaços e resto do que nunca realmente havia sido, e não se pode reconstruir o que nunca foi. Andando, encontrou 282 duendes mortos, petrificados e escurecidos; encontrou também pequenos invólucros em tons de castanho, dourado e âmbar, e alguns prateados e azulados; de início considerou que eram cascas de cigarras e asas de libélulas escurecidas, mas azuis e prateadas? Só então, contando-as, apontando com o dedo para cada uma, de cada tipo, e recontando e conferindo, absolutamente surpresa e aterrorizada foi que descobriu: eram 578 fadas, 96 silfos e 40 elfos, assim de número redondinho mesmo, que a exatidão às vezes acontece de acontecer, fadas, silfos e elfos sequinhos, só os pequenos invólucros conservados.
No princípio era o frio. E a escuridão. Como era frio e escuro ali. Não “fazia” frio nem escuro, “era”. Algo difícil de entender, se não se tivesse vivido. Ana Maria dos Anjos tinha vivido na superfície a vida toda e, portanto, aquele frio e escuridão a incomodavam. No tempo da superfície ela vivia como quem não sente frio, nem se incomoda com a falta de visão, pois tinha esperança. Melhor dizendo, sofria de esperança, posto que esperar, lançar-se no futuro, projetar-se à frente não passa de mera doença da alma, engano, ilusão. Mas ao menos vivia, ou achava que.  
Só depois que passou a viver nos escombros começou a perceber que vivia procurando paixões, inventando paliativos que servem para nos desviar do único horror realmente importante: a morte, a consciência do escoamento do tempo. E as paixões e paliativos nos desviam também da própria vida. Por que uma hora – literalmente – a casa cai. O universo rui, o chão se abre e nos engole num terremoto profundo. Sobram os escombros ou se desenterrar do meio deles gerando o mito infecundo – o totem. Ou o nada. Assumir a intensa e profunda falta de significado da vida e continuar. Continuar o quê? A farsa das paixões e dos paliativos.
Meu Deus, lembrou Ana Maria dos Anjos ali no meio dos escombros, quando enfim havia se deixado demolir, eu já pensava tudo isso desde antes da adolescência, já sabia dos terremotos, da demolição, do nada, do totem, do frio e da escuridão. Como, então, consegui me manter à superfície, vivendo a farsa, durante todas essas décadas? Que tipo de artifício havia usado, pensava ela tremendo e apavorada, que artifício usara todo esse tempo para se afastar de si mesma e do enfrentamento com os fantasmas?
Foi então que Ana Maria dos Anjos passou a caminhar pela casa desabada, andando pelo meio dos escombros. Achou que tinha passado os anos de superfície alimentando os duendes com papas de aveia e mel, e que atraía as fadas, silfos e elfos com o som das flautas e bandolins, mas tudo que fizera foi assassiná-los, envenenando-os. Passara a vida matando ídolos e produzindo os fantasmas que agora, longe da luz do sol e de qualquer barulho, vinham assombrá-la, mas também lhe fazer companhia. Não havia mais o que esconder de si mesma, o que dissimular, ali no meio dos escombros, onde tudo era frio, escuridão e silêncio, só podendo saber-se a si mesma.
Ana Maria dos Anjos, por fim, percebeu que nunca tinha sido, nem anjo nem nada, e que a superfície, o que considerara quente e barulhento e iluminado também era uma parte da terra arrasada. Deserto era tudo que havia no mundo, e ali teria de viver para sempre, sem retorno, sem redescobertas – já que não existiam descobertas, sem reconstrução – já que nada havia antes para que se pudesse reconstruir, sem redenção e sem esperança.
Ana Maria dos Anjos estava curada da esperança.

II.
“Há entre mim e o real um véu...
Há, em mim, uma impossibilidade de existir
De que abdiquei, vivendo.”
 (Fernando Pessoa)

O que mais incomodava Ana Maria dos Anjos eram as sombras. Depois, os sonhos das noites quase insones. Quando vivia na superfície chamaria de pesadelos, mas depois do desabamento, da dor e do sofrimento, eram apenas sonhos menos ou mais angustiantes. A angústia, ali nos escombros, durava poucas horas, não mais dias, como antes. Demorava a dormir, e quando dormia logo acordava sobressaltada com os sonhos forjados sabe-se em que porões e sótãos de histórias de terror ou suspense. Suava medo e dor. Era culpa das sombras, que haviam invadido sua vida. Se tivessem continuado lá fora, ocultas pelo sol, mas não, escaparam e se instalaram. Parecia que irremediavelmente, mas era experiente demais para saber que nem sombras são para sempre, para sempre não existe.
Dormia aos soluços, um cochilo aqui, um barulho ali, um sobressalto acolá; outro cochilo, um pesadelo e acordava; mais um pedaço de sono e um grito na rua, um carro passando, o vento. Uivo de leão no meio da madrugada era o pior, acordava se chacoalhando de arrepios. Daí entendeu por que os gringos achavam que no Brasil e África tinha selva por todo lado e macacos, onças e leões soltos, era de insônia que eles sofriam – os gringos, não os macacos, leões e onças, evidente.
Ana Maria dos Anjos não parava de pensar um só instante, seu cérebro funcionava noite-e-dia-dia-e-noite-acordada-ou-dormindo, era quase uma epilepsia de pensamentos. Às vezes achava que devia estar ficando louca de tanto pensar, mas então lembrava que era assim desde pequena, inventando histórias, criando cenas – sempre trágicas e sanguinárias – e sossegava. Nunca fora do tipo filósofa, nem cientista, de ficar pensando de-onde-viemos-para-onde-vamos-deus-existe-porque-vaca-dá-leite-porque-a-chuva-chove e outras importâncias vitais. Só pensava bobagens em que era a heroína dramática, uma heroína doce e de beleza inóspita – isso se soubesse o que era inóspita, e tivesse sido doce algum dia -, e em que a mocinha nunca morria no final, e, se acaso morresse, era morte fingida só para ouvir os desesperados chorando copiosamente e dizendo oh, por que morreu, oh vida, oh céus, como o mundo empobreceu sem ela, nunca mais haverá dia ensolarado. A partir de sua morte só sobrava ressuscitar gloriosamente ou o inglório fim do mundo.
Dentro de Ana Maria dos Anjos, e agora também fora dela, na casa desolada, era um mural de Rivera, de Picasso, provavelmente Guernica, cheio de cores fortes, formas e deformações, monstros aos pedaços, muito sangue, lágrimas, enchentes e destruição, uivos e lamentos de cortar o coração do próprio Franco ou de Pinochet, de fazê-los cair de joelhos, arrancando as medalhas, deixando as fardas em frangalhos com as próprias mãos e pedindo perdão, aos gritos enlouquecidos, à humanidade. Evidente que a humanidade nem tchum, e eles morriam loucos, sedentos de lábios rachados e a língua cheia de bolhas de tons arroxeados, falando frases desconexas, com as unhas imundas e crescidas rasgando a carne dos dedos e os cabelos emplastados, emaranhados, nada poderia pentear novamente aquilo que outrora havia sido chamado de cabelos. Quase uns Nabucodonosores sem porfiria, arrastando-se pelo chão de terra dura e pedregosa. E o corvo dizendo: sem perdão, sem perdão, sem perdão.
Como era tudo só dentro dela, nem Franco e Pinochet, nem Hitler nem Mussolini puderam ter essa fantástica experiência de humilhação e arrependimento que poderia ter salvo suas almas empedernidas por mais centenas de encarnações. Portanto, estavam condenados a voltar e voltar, e sempre sem perdão. E o corvo dizendo: perdão?, nunca mais!
E o que é só de dentro, por mais dialéticos que sejam o de dentro e o de fora, o que é só de dentro só pode ser sentido, nunca compartilhado. Se estivesse certo que o que não se compartilha se perde, então tudo estaria perdido, sem possibilidade alguma de encontrar. Perdido eternamente, sem redenção - como no inferno dos cristãos -, se correto fosse que tudo se precisa compartilhar.
Dentro de Ana Maria dos Anjos o Pequeno Príncipe sussurrava, o essencial é invisível aos olhos, mas a Pequena Princesa dos dedos furados de espinhos das rosas rosnava: o essencial é incompartilhável e irrepartível, manda esse menininho doido e chato de volta pro planeta dele – yankee, go home, e se precisar mesmo de um estrangeiro fone home to ET, que ele é bem mais evoluído, e traga Ioda junto, ouça o que eu digo, mulheres sempre sabem mais que homens, do futuro e do passado, e, ah!, principalmente mais que homens meninos. Se guerreiros são meninos, as meninas são sacerdotisas, e as velhas, sábias; entre uns e outros fiquem com as umas.
A tal da Pequena Princesa não parava de falar, de falar, espetar os dedos nas rosas e chupar o próprio sangue, claro que espetava só os próprios dedos, não os alheios, pois morria de medo de ser presa, torturada, condenada e executada. Falava tanto, dando razão aos que chamam as mulheres de faladeiras, que parecia um vapor de panela de pressão no fogo, piuííííííí, tic-tac, tic-tac, piuííííííí... mas é trem ou relógio esse trem, perguntaria o Grande Rei Intelectual envelhecido e quase careca, e a Princesa, noiadinha de tanta chateação e impaciência pararia de falar, se calando para sempre, no more train, no clock, lives me alone, oh, baby, yankee go home, e vão se fuder. Suas últimas palavras, para dentro de si mesma, a respeito do de fora. Tudo rosnado baixinho, mas rosnado. Um dia viraria grito. Tudo era um dia, e nesse dia seria ou a ressurreição ou o fim do mundo. Ou o presídio. Ou o hospício.
Enquanto não vinha o dia, Ana Maria dos Anjos fazia aniversários, não havia como escapar, e a cada aniversário uma coisa mudava, uma palavra esquecida, uma frase não dita, até que se calou para sempre. Também parou de espetar os dedos, mesmo as rosas já tinham sido extintas dos jardins há décadas – as rosas e os jardins. Então trocou espetar os dedos por arranhar o couro cabeludo e provocar pequenas feridas que sangravam, lambendo o sangue que limpava nos dedos, é louca, diziam uns, é TOC, dizia o médico, é médium sem desenvolvimento, diziam os espíritas, é demo, diziam os bons cristãos. Só ela sabia: não era nada disso. Não era. O problema era justamente esse: enquanto todos eram, ou vinham a ser com o passar dos anos, Ana Maria dos Anjos não era, e a cada aniversário deixava de ser o que porventura tivesse conseguido acumular no ano. Tinha sido uma maldição ancestral, vocês nunca serão, até à 8ª geração, pois as estirpes condenadas a não ser, não serão. E ela não foi.

III.
Lugar em que há decadência.
Em que as casas começam a morrer
e são habitadas por morcegos.
Em que os capins lhes entram,
aos homens, casas portas a dentro.
Em que os capins lhes subam
pernas acima, seres a dentro.”
 (Manoel de Barros)

Não, Ana Maria dos Anjos não faria como Septimus Warren Smith, nem as janelas tinham sido altas, ali, e agora enterradas, e agora enterradas. (Que se faz com janelas enterradas, que nunca mais se abrirão?) Além disso, estava grávida. Isso ficava rodopiando (sim, rodando como pião e piando como uma ninhada de pintinhos bem escandalosa) na sua mente, grávida grávida grávida, grávida entre os escombros, grávida no poço destampado – sim, mazela pouca é bobagem, tinha caído dentro de um poço sem tampa, por baixo dos escombros. E agora, grávida – mazela pouca é bobagem. Que se faz com uma criança no meio dos escombros? Mostram-se a ela os duendes, fadas, elfos, silfos, pra que brinque como bonecas-fósseis? Ou tapa-se-lhe os olhinhos, brincando de cabra-cega, isso aqui é tudo irreal, nananenê, lá fora tem um mundo ensolarado, borboletas e aves voadoras, fontes com água potável, e tudo o mais, tudo o mais, criança, nananenê. Lá fora é o real o real o real. E cá dentro são os escombros, é o poço com essa agüinha verde-vitrificada no fundo, uma água insalubre que envenena. Como explicar isso pra uma criança? E cá dentro só existe dessa água, como dar de beber dessa água a quem quer que seja? Ninguém poderia sobreviver a água de fundo de poço destampado. Deve ser domingo, pensou, estou ouvindo hinos de alguma igreja não muito longe. É incrível, continuou pensando e falando baixinho – quem sabe pras bactérias daquela água, que ainda evoluiriam, talvez? -, é incrível como os viventes religiosos cantam alto, e vibram tanto, para um deus inexistente. Louvam o vazio, domingo após domingo, ano após ano. E eu que sou maluca, pensou, dona de uma lucidez súbita e intensa. Mas deixa estar – falando novamente – laissez faire, laissez passer, que tenho eu com as vozes dos seres religiosos? Foi só falar isso e esconjurou-os, no ato parou de ouvi-los cantar.
Árvore, pensou agora, lançar raízes pro fundo do poço e os galhos para cima, rompendo os escombros, é isso que quero fazer, vou ser árvore, ervas, começou a recitar, 
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Quem terá escrito isso, Pessoa, Campos, Caieiro, ou o outro heterônimo, já esqueci o nome dele também – era assim, ali no poço dos escombros as palavras iam esfumaçando, se desfazendo, e só sobravam os pensamentos, que também se desintegravam com o tempo, seria isso morrer?
Mas não importa, não importa – nada importa, rodopiava por dentro, nada importa, criança, nada importa, mulher – serei árvore com ramos e galhos e folhas, com umas florinhas brancas grudadas em mim – tronco -, uma jabuticabeira, serei uma jabuticabeira, e quando as jabuticabas nascerem e ficarem pretas – como bulbos da peste -, os passarinhos virão bicar as frutinhas, arruiná-las com seus bicos, para que outros seres não se alimentem delas, principalmente os seres religiosos (a música estava alta, de novo, desafinada, devem cantar alto assim por que o senhor-deus-deles está velhinho, surdo, e desejam acordá-lo, como os fogos das festas juninas tentam inutilmente acordar João Batista adormecido e sem cabeça há 2 mil anos. Já a desafinação não tem motivo, nem tudo tem que ter motivo, até os religiosos deviam aprender isso).

IV.
“Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.
Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência.
Onde os homens terão a força da indigência.
E as ruínas darão frutos.”
 (Manoel de Barros)

Enquanto andava entre os escombros, através das galerias do poço destampado, pois era um tipo de poço-catacumba, Ana Maria dos Anjos tropeçou numa caixinha de papelão pequena, muito velha e suja, escrito: jean noblet tarot. Que será isso, pensou com um resto de curiosidade, abriu a caixinha que parecia de cigarros ou baralho, e era mesmo um baralho. De tarô. O Tarô de Marselha. Só tinha uma carta dentro, também velha, suja, desbotada, muito manuseada, mas em estado bom o suficiente para ver um homem de roupas muito coloridas, com uma vara e uma trouxinha nos ombros, um andarilho?, na cabeça um chapéu de bobo da corte com bolotas coloridas, e apesar das roupas estava nu, de costas, com a bunda e o saco aparecendo, acompanhado por um cachorrinho. Ana Maria dos Anjos nunca tinha pensado em ter um cachorro, mas sentiu falta de um, não por muito tempo, que logo um cachorro a estava seguindo, lambendo seu calcanhar esquerdo a cada passo que dava. Bem vindo, cachorrinho, ela não disse, mas o cachorro entendeu e ela também. A bem da verdade era uma cadelinha, mas Ana Maria dos Anjos só notou isso quando a pegou no colo, muito, mas muito tempo depois, num entardecer escuro de nuvens de chuva, e enquanto a noite despencava sobre a casa desolada a única companhia que lhe consolou foi a cachorrinha que vinha lhe acompanhando desde o dia da descoberta do tarô, sem que Ana Maria dos Anjos tivesse dado por si.
Na noite que se seguiu à manhã (pois até nas casas desoladas, em meio aos escombros, as noites sucedem aos dias que sucedem às noites, sempre indefinidamente, ad nauseam, com ou sem sacrifício de virgens e jovens ao sol), pois na noite que se seguiu à manhã em que tropeçou na caixinha do tarô, depois de encontrar o Louco dentro da caixa, gargalhando e falando coisas incompreensíveis e empunhando a vara com a trouxa na direção de Ana Maria dos Anjos, enquanto os dois cachorrinhos – a bem da verdade, o cachorrinho e a cadelinha – latiam e pulavam e esfregavam as caras com as patas, balançando os rabinhos, nessa noite Ana Maria dos Anjos encontrou outra carta embaixo de uma pedra, no meio dos escombros.
Sosseguem, que Ana Maria dos Anjos não encontrou nem vai encontrar todas as 78 cartas do tarô, com os 22 arcanos maiores; ela só encontrou essas duas, o que já está de bom tamanho para explicar o que ali se passou, e nem precisamos de Jung pra falar de sincronicidade, por que todos entendemos intuitivamente do que se trata, assim como Ana Maria dos Anjos, a que nunca foi, não entendeu nada, por que quem nunca foi nem será também nada entende, nem intuitiva nem conscientemente. O que não significa que Ana Maria dos Anjos fosse burra, obtusa ou mesmo deficiente mental, pelo contrário, era inteligente, esperta e com todas as suas faculdades mentais funcionando normalmente (seja lá isso o que for); bom, a bem da verdade, todas é exagero, ninguém possui todas as faculdades mentais preservadas, possui?, pelo menos de perto, essa distância em que ninguém é normal, mas Ana Maria dos Anjos não era exatamente normal nem de longe, como muitos outros. Sorte dela que existem muitos outros nas mesmas condições. Mesmo que, para Ana Maria dos Anjos, os muitos outros existentes, preservados ou não, não fizessem a mínima diferença na sua vida, inclusive era ótimo que estivessem longe, no tal mundo real, enquanto ela se encontrava na casa desolada, ali onde o real não chegava perto. Apesar de existir, tanto o real quanto os demais outros existentes, e existir de maneira doentia e muito sofrida.
Pois a segunda carta que encontrou naquele mesmo dia era uma torre de tijolos vermelhos, arrebentada por um raio do céu, com dois homens sendo precipitados de cabeça para baixo, escrito “La Maison-Dieu”, sendo que Ana Maria dos Anjos, pouca afeita às interpretações formais e explicações oficiais, e às simbologias, disse, bem feito, é isso que devia acontecer com os templos, igrejas, sinagogas, mesquitas, um raio devia cair sobre cada um e todos ao mesmo tempo, pra acabar com essa encheção de sermões tradicionais e hinos desafinados e ensinamentos morais ultrapassados e hipócritas e/ou impossíveis de serem aplicados por seres humanos nas suas vidas. E tarados e pedófilos travestidos de sacerdotes.
E não venham os incautos dizerem que Ana Maria dos Anjos nem percebeu que essa carta falava de sua própria vida, da sua casa desolada, dos escombros onde estava, por que, ah, incautos vorazes em busca de frestas para julgar os que não foram, essa carta, para Ana Maria dos Anjos, era indício de libertação do aprisionamento e novo recomeço, além de destruição da rigidez. Se foi realmente isso, não sei, nem importa, mas que indicava isso, indicava, o que só prova que Ana Maria dos Anjos, como todo e qualquer um que não era nem foi nem será, era especial e merecia outra chance. Chance essa que no mundo real nunca acontecia, mas estava lá, à espera, sempre espiando pela mesma fresta que os incautos vorazes abriam para julgar.
Chance doentia, da mesma doença da esperança.

V.
“Altas horas da noite ela vagueia…
E ao luar suavíssimo, que anseia,
Põe-se a falar de tanta coisa morta!”
“É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!”
  (Florbela Espanca)

Margarida II, rainha da Dinamarca, apareceu exatamente à meia noite no portão da casa desolada. Quando Ana Maria dos Anjos a viu, levou um pequeno susto com aquela mulher morena, muito alta e magra, de cabelos desgrenhados, sem a maioria dos dentes, sorrindo de uma maneira meio idiota, de calça comprida laranja e blusa verde abacate, sem meias e com sapatos masculinos marrom escuro, provavelmente vários números maiores que o pé da rainha, e ela pediu água, estou com uma sede, minha súdita, traga-me um pouco d´água bem gelada em taça de cristal, pediu assim desse jeitinho mesmo, falando traga-me, e não “me dá” como pediria qualquer mortal que não fosse da realeza.
Ana Maria dos Anjos ficou preocupada, não tenho taças aqui, nem nada de cristal, só uma caneca de lata em que bebo água do poço destampado, pode ser, minha monarca? Que seja, se outro jeito não tem, ajeitado está, retrucou imponente Margarida II, rainha da Dinamarca, bebendo sem pressa aquela água gelada depois de um dia inteiro sob um sol de rachar, varrendo as ruas com sua vassoura de palha amarrada com um laço de fita de cetim vermelho muito brilhante, que é a cor da realeza, explicou gentilmente Margarida II, como se falasse a uma criança bobinha (ou a uma súdita, o que dá na mesma), há que se ter instrumentais belos, beleza é fundamental, minha criança, em tudo que fazemos colocamos nossa alma, o que significa, senhorita, que devemos demonstrar o mais belo de nós, até mesmo na amarração de uma vassoura.
Claro, claro, minha realeza real, até mesmo numa vassoura, mas o que uma rainha faz varrendo ruas? Oh, tolinha (Margarida II, rainha da Dinamarca tinha essa postura maternal, fluida e leve que os verdadeiramente superiores demonstram ante seus subalternos naturais), oh, criança, os seres viventes varrem ruas por dois motivos essenciais: limpá-las para que o lixo e a sujeira não se acumulem e apodreçam e causem doenças, e para ganhar a vida, evidente. E por qual dos dois motivos minha rainha varre as ruas, perguntou Ana Maria dos Anjos, se fazendo de desentendida. Pelos dois, evidente, respondeu Margarida II, rainha da Dinamarca, pondo fim a uma pergunta tão tola. Será que há algo de podre no reino da Dinamarca que justifique uma rainha varredora, pensou em perguntar Ana Maria dos Anjos, mas evidente que tal pergunta tola nem seria respondida pela monarca.
Margarida II, rainha da Dinamarca, gostava de falar “há que” e “evidente”, que era seu vocábulo predileto, conforme explicou a Ana Maria dos Anjos, há que nos comunicarmos de maneira digna e uniforme, continuou, os vocábulos são tudo, os pensamentos são nada, as ações não existem, e Deus tudo olha cofiando sua barbicha branca fininha como de um sábio mestre K´ung, Confúcio para os ignaros. Claro, claro, concordava Ana Maria dos Anjos de forma meio retardada, se sentindo uma.
Quando nos encontramos em estado de gravidez, sentenciou Margarida II, nossos cérebros femininos encolhem 8% de seu tamanho normal, mas nada com que devamos nos preocupar, pois que voltam ao normal seis meses após o parto... além disso, os cérebros femininos têm por volta de 10 a 20 milhões de neurônios a menos que os masculinos, mas nada com que devamos nos preocupar, pequena, já que há muito mais conexões axiônicas no cérebro feminino. Ou seja, foi interrompendo Ana Maria dos Anjos, isso significa que, ou seja, reatou Margarida II, interrompendo a interrupção, nada significa nada, posto que os vocábulos são nada, os pensamentos não existem e as ações são tudo, finalizando a conversa e recomeçando a varrer a rua na frente da casa desolada, sem ao menos agradecer pela caneca de água, afinal, vocábulos e pensamentos não são nada, e a ação de beber a água e encetar uma conversa deve ter se justificado por si só, pensou Ana Maria dos Anjos contemplando a rainha no seu ofício real e tentando entender de onde havia saído aquela conversa sobre gravidez, visto que a sua estava tão no início que não se dava para notar barriga nem nada.
Ah, sim, virou-se Margarida II antes de desaparecer na esquina, seu nariz está bem dilatado, criança, parecem asas de borboletas, mas nada com que devamos nos preocupar, já que crianças não nascem a contento nem florescem no epicentro de uma casa desolada uma torre em ruínas uma vida em escombros em um poço destampado. E continuou, muito solene, deus se alimenta de sucrilhos no café da manhã; nós somos os sucrilhinhos de deus, criança.

VI.
“Tudo o que sou não é mais do que abismo.”
(Fernando Pessoa)
 “Tudo vai, tudo volta, eternamente gira a roda do ser.”
(Nietzsche)


Ana Maria dos Anjos entrou e voltou a caminhar pela casa devastada, andando pelo meio dos escombros; nem se preocupava em desvencilhar-se de nada, pois que tudo era apenas entulho, poeira, pedaços e resto do que nunca realmente havia sido, e não se pode reconstruir o que nunca foi.
Achou que tinha passado os anos de superfície alimentando os duendes com papas de aveia e mel, e que atraía as fadas, silfos e elfos com o som das flautas e bandolins, mas tudo que fizera foi assassiná-los, envenenando-os. Passara a vida matando ídolos e produzindo os fantasmas que agora, longe da luz do sol e de qualquer barulho, vinham assombrá-la, mas também lhe fazer companhia. Não havia mais o que esconder de si mesma, o que dissimular, ali no meio dos escombros, onde tudo era frio, escuridão e silêncio, só podendo saber-se a si mesma.
Meu Deus, recapitulou Ana Maria dos Anjos, eu já sabia disso tudo desde antes da adolescência, já sabia dos terremotos, da demolição, do nada, do totem, do frio e da escuridão. Como, então, consegui me manter à superfície, vivendo a farsa, durante todas essas décadas?
Foi então que Ana Maria dos Anjos notou mais uma carta caída no chão, bem à sua frente, enquanto sua cadelinha gania de mansinho e se enrodilhava aos seus pés, mas sem aquecê-los, que em terra desolada nem cães aquecem nossos pés. A Roda da Fortuna, viu Ana Maria dos Anjos quando pegou a carta, o destino virando e virando e virando, indo e voltando, voltando e indo, ao sabor do único deus que Ana Maria dos Anjos conhecia, o Acaso  (e sua consorte, Aleatória), num eterno arrastar de todos os seres viventes, pensou lembrando-se de Margarida II, rainha da Dinamarca, será que ao menos a monarca tinha sido?
Ana Maria dos Anjos aceitou, agora menos desconsolada, que nunca tinha sido, nem anjo nem nada, e que a superfície, o que considerara quente e barulhento e iluminado também era uma parte da terra arrasada. Deserto era tudo que havia no mundo, e ali teria de viver para sempre, sem retorno, sem redescobertas – já que não existiam descobertas, sem reconstrução – já que nada havia antes para que se pudesse reconstruir, sem redenção e sem esperança.
Por fim, Ana Maria dos Anjos compreendeu tudo.


Eloisa Helena Maranhão

Ana Maria dos Anjos II – o retorno: surtada no sótão.


“Não é muda a morte. Escuto o canto dos enlutados
selar as rachaduras do silêncio. Escuto seu dulcíssimo
pranto florescer meu silêncio gris.” (Alejandra Pizarnik)



No princípio era o nada. No fim era o nada, também. Que demônio ou deus tinha inventado que o meio era alguma coisa que não o nada?
Ana Maria dos Anjos, olhando o rebanho de carneiros que pastava lenta e silenciosamente do outro lado da rua, começou a dissolver-se em água, primeiro flutuando, depois ficando encharcada por dentro e por fora, a pele enrugando toda, afundando até que se dissolveu completamente, mas com sua consciência funcionando normalmente. Seja lá o que for normal. Tudo nela se dissolvera, menos sua consciência. Por enquanto, que mais tarde vocês verão até onde chegou.
De um lado da rua onde seu sótão ficava tinha um rebanho de carneiros pastando numa pracinha verde, e do outro uma manada de porcos, todos marrons, diferentes das ovelhas que eram creme clarinho ou brancas. Ana Maria decidiu-se mandar o bebê engatinhando até as ovelhas, e a cadelinha até aos porcos.
Era uma lindeza de se ver aquele bebê gorducho, com covinhas nos braços e pernas, todo rosadinho de sol, engatinhando em direção às ovelhas. Mas a cadelinha era mais linda ainda, toda vestida de branco, de organza de seda muito leve, quase transparente, toda bordada em pedrarias e fitas coloridas de seda formando florzinhas, uma cadelinha mimosa vestida de noiva indo ao encontro da manada a que se destinava.
O bebê, seu filho e único dos amores de Ana Maria, juntamente com a cadelinha branca, de branco vestido bordado, engatinhava peladinho, vestido apenas com uma fralda descartável, um boné de marinheiro azul e branco e meinhas nos pés fofinhos, ao encontro das ovelhas a que se destinara.
Ana Maria dos Anjos olhava ansiosa e com muito cuidado para os dois lados da rua, postada na janelinha de seu sótão, acompanhando o destino do bebê e da cachorrinha.
Por que enviara seu bebê e sua cadelinha tão amados para os porcos e as ovelhas? Acaso não sabia que alguma coisa de ruim podia acontecer com um deles, até mesmo os dois, um atropelamento ao atravessar a rua, uma bala perdida, uma enxurrada levando-os pra um bueiro e o afogamento, uma insolação seguida de desidratação, um raio na tempestade que se aproximava, tanta coisa poderia ocorrer nas ruas, ao relento, fora do abrigo doméstico onde tudo parecia mais seguro. Sim, ela sabia de todas essas hipóteses e muitas outras mais, aviões caindo, trens desgovernados, terremotos não detectados, carros e caminhões desembestados dirigidos por alguma besta alcoolizada, sim, Ana Maria dos Anjos sabia mais que qualquer pessoa dos perigos que andam à solta e rondam nossas vidas. Mas ela precisava mandar o bebê e a cadela para a rua, era necessário e absolutamente impostergável, já que o homem vermelho havia lhe aparecido novamente e dado as ordens. 
Não, não eram ordens verbais, o homem não falava com ela dali do canto do sótão onde estava e a olhava com seus olhinhos rasgados de deus hindu (ou seria chinês, perguntava-se Ana Maria dos Anjos, mais uma vez sem conseguir resposta alguma), pois o homem vermelho de longuíssimos braços a olhava e ela sabia o que devia fazer, ele lhe ordenava como agir dentro de sua própria mente, como uma telepatia. Está na hora, Ana dos Anjos – ela não entendia por que ele nunca a chamava de Maria também, abreviando seu nome tão bem escolhido pela mãe, tias e avós mais de quarenta anos antes, está na hora de enviar seu bebê e sua cadelinha à rua, um aos carneiros e outra aos porcos. E se está na hora, a hora é essa, faça e não discuta. Aja. Sim, você tem livre arbítrio, Ana dos Anjos, pode escolher se manda o bebê aos porcos e a cadela às ovelhas, ou a cadela aos porcos, ou os dois aos porcos, os dois às ovelhas, ou, ou, ou. Você é livre, Ana dos Anjos, tem liberdade de escolha, como os espíritas tanto desejam e pregam, dizia-lhe mansa, pausada e telepaticamente o homem vermelho, agora vá e faça, avante!, go, go!, voilá!, e apesar do livre arbítrio – ou talvez justamente por ele mesmo - alea jacta est.
Naquele dia começou a chover. Ana Maria ainda não se dissolvera, isso foi depois da chuva, aquela chuva quase primal, um temporal ruidoso, carregado de raios estridentes e trovões atormentados, uma chuva de evaporação das muitas águas dos rios, mares, lagos, lagoas, açudes, represas, calotas polares descongelando, águas que teimavam em não ficar paradas e tranqüilas num planeta de chuvas, terremotos, maremotos, tsunamis, onde um raio de sol leva 8 minutos para chegar do sol aqui, e só saberíamos se o sol explodisse ou esfriasse ou acontecesse qualquer outra coisa com ele, 8 minutos depois, quando então veríamos a explosão ou a outra coisa qualquer.
Pois isso tudo dava em Ana Maria dos Anjos, postada na janela de seu sótão, uma intranqüilidade, uma sensação de estranheza, e para passar o pavor que tomava conta dela ela se deitava no chão, esticada como uma estrela de cinco pontas, mas isso não resolvia o problema – nem a estranheza nem o pavor – por que deitada ali sentia o chão se mover sob ela, a rotação da Terra atingindo hum mil seiscentos e setenta e quatro quilômetros por hora, vamos ver em números que dará mais pavor ainda que escrito – 1.674 km/h, é rápido pra cacete, e Ana Maria dos Anjos suava e angustiava-se com essa velocidade toda da Terra rodando em torno do Sol e, pior ainda, rodando sobre si mesma também.
O mundo era um lugar vertiginoso, violento com suas explosões e buracos prontos a engolir até a luz, a vida era assustadora e nada mudaria isso, nem religiões, nem filosofias, nem monges recitando a sílaba omm, nem freiras rezando milhões de terços, nem hippies de mãos dadas concentrando-se na paz universal, nem psiquiatras receitando seus medicamentos, nem psicoterapeutas com suas terapias mágicas, nem budistas meditando em ondas alfa, nem místicos fazendo mentalizações e relaxamentos, nem desesperados entupindo-se de drogas ou correndo com seus carros, o universo era apavorante, como deveria ser para todos os humanos que tivessem cérebro pensando. Quando pensava, a única importância que urgia e rugia era: preciso morrer. Desejo morrer. Cansei de viver. Viver é perigoso e cansa, como cansa. Viver é como estar enterrado num terremoto, sem saída, morrendo aos poucos. Morrer de vez é bom, é saudável, alivia e soluciona. Ana Maria dos Anjos não tinha problemas com a morte, não a sentia como estranha, era a única não-estranheza, e essa ela conhecia e amava. Estava a um centímetro dela, Ana Maria e a morte.
Talvez fosse esse o maior defeito e problema de Ana Maria: pensar demais; cada dia um pensamento novo, uma estranheza nova, ou antiga, que voltava a incomodar. Como os sentimentos ilhados do Fagner, pensar incomoda, sentir dói, e a meio caminho dos pensamentos e sentimentos, sem saber o que fazer com eles, Ana Maria foi se introjetando a si mesma e ao mundo, numa tentativa desesperada de ser rúcula, agrião, quiçá um rabanete. Por que a mãe da Rapunzel precisava tão desesperadamente de rabanetes, pensava Ana Maria dos Anjos, sem respostas e sem consolos. Viver não era confortável para ela, que pensava e sentia demais.
Sentia o sol, a chuva, os raios, as rajadas de ventos em si mesma, na sua pele, entrando pelos poros e tomando conta dela. Era como um ataque epilético, aqueles raios chuvas trovões ventos e sóis dentro dela e iam se transformando em lesmas gosmentas, tomando forma, criando massa corpórea, e saíam para sua pele, de dentro para fora, aqueles vermes que cuidariam de seu corpo na morte, mas já agora anunciando sua presença.
Nessas horas, mais que nunca, sentia necessidade de rotina, de um canto seu, um lugar na cama, marcado por seu corpo, comidas conhecidas, roupas velhas e já muitíssimo usadas, palavras já ditas há anos, ou nenhuma palavra, de preferência. Ana Maria dos Anjos já não suportava sair de casa, mas precisava sair. E fazer coisas. Tomar decisões. Pensar. Sentir. Reagir. Agir. Viver exigia dela algo que ela não suportava dar, ou nem tinha para dar.
Nesse impasse passou a sentir uma necessidade extrema de cortar os pés, a sola deles, assim bem cortadinhas devagarinho, passando a lâmina do estilete, fazendo cortes que aos poucos começavam a gotejar sangue, até formar um fio fininho escorrendo e pingando. Cortava em fatias paralelas, bem cronometradas, pra ficarem todas iguaizinhas em tamanho e profundidade. Primeiro apenas passava a lâmina afiadíssima, fazendo sulcos rasos e longos, depois ia aprofundando como criando pequenos igarapés fundos e curtos. A dor que sentia era muito bem vinda, era uma dor que aliviava, que desviava a atenção do que estaria pensando ou sentindo.
Além disso, tinha o ganho secundário de não poder sair com os pés feridos daquele jeito, impossibilitados de pisar no chão, com risco de infeccionar ou continuar sangrando, e era ótimo ser obrigada a ficar no sótão, no máximo olhando pela janela.
Vejam só como funciona a vida, foi só Ana Maria dos Anjos se distrair com o estilete nas solas dos pés e pensamentos sobre Rapunzel e rabanetes, budistas, monges, hippies e outros desesperados, que quando novamente prestou atenção nos lados da rua a tragédia se tinha instalado.
Seu bebê gorducho e rosado era agora uma massa no chão, pisoteado pelos mansos e inofensivos carneirinhos, estava ali do outro lado todo amassadinho como um pastel. Nem tinha chorado, acho, que se tivesse feito algum barulho Ana Maria dos Anjos talvez tivesse notado, mas de qualquer modo não teria como intervir ali da janela do sótão com seus pés feridos e sem condições de sair.
Desviou o olhar pro outro lado, ali onde sua cachorrinha fofa vestidinha de bordados brancos, fitas, rendas e sedas estava, e só o que viu foi o vestidinho ensangüentado, esticadinho e todo mastigado no chão, sem nem um pedacinho de cachorro dentro, devorada que fora pelos porcos marrons.
Ana Maria dos Anjos pensou, num lampejo de lucidez, antes de dissolver-se na chuva, que o negócio era aprender-se a ser rúcula, agrião, nabo, rabanete. Como os da mãe da Rapunzel.

Eloisa Helena Maranhão

11 março 2012

Pequena lista de grandes medos


"Teus medos tinham coral, e praias e arvoredos"
(Fernando Pessoa)




Eu tenho medo de:

coisas de garrafa pet reciclada; crochê; toalhinhas de plástico tipo renda; coisas de gesso e de biscuit; "objetos" de jornal reciclado e envernizado; pregos não enferrujados; facas enferrujadas; gnomos de jardim; cachorro bravo (e grande); flores de plástico; cachorro de camurça de colocar no carro e ficar balançando a cabeça; borboleta e mariposa; nossa senhora aparecida sem cabeça; braços e pernas de ex-votos; cores marrom e cinza; broca de dentista; brinquedos de playcenter; caminhão desgovernado; esportes radicais; peruca de nobre francês (de inglês também); comida azul; boca banguela mascando chiclete; quadro de jesus com coração exposto lágrimas e suor de sangue e coroa de espinhos; tirar mandi do anzol; gatos, cobras e coelhos albinos; óleo de fígado de bacalhau; senhor scott da emulsão do bacalhau; cavanhaque e sobrancelhas grossas formando taturanas; pelos no nariz e orelha; mártires quando estavam - ou estão - vivos; carneirão de chifres enrolados; rebanho de ovelhinhas mudas pastando olhando pra baixo sem ver nada; música carneirinho carneirão, olhai pro céu, olhai pro chão; manada de porcos devoradores de pés humanos (e do resto também); anjinhos nordestinos, aqueles olhinhos vidrados, aquelas roupinhas e asas azuis e brancas de cetim e renda (talvez as roupinhas sejam pra procissão, não pro enterro, o que não difere), parece cena de auto do suassuna, livro da cachorra baleia, filme de severina... tenho medo de boneca de porcelana, de olhos vidrados de bonecas de porcelana; jardinzinho florido e bem cuidado, sebe inglesa; as bailarinas do degas também são um pavor. medo medo medo. de mim. Mas não tenho medo do corvo do poe nem da virginia woolf... eu tenho medo de placas de bronze em sinagogas, escrito "lembre-se de"; tenho medo de bifes de fígado, verdes depois de um tempo; de sandálias altíssimas de plataforma; bota de bandeirante; sandália gladiador; coturno de militares; uniforme de escoteiro; botox no rosto deformado; xuxa, adriane galisteu, hebe camargo, luciana gimenez; música sertaneja; perna peluda; cabeça com bobbies. Bobbies sem cabeça.