27 maio 2012

Ismália e o lago da Patagônia

“Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...”

(Ismália, Alphonsus de Guimaraens)

Antes de Ismália pôr-se na torre, a sonhar e verificar as duas luas, ela emudeceu. Ela via as duas luas, sabia que eram duas, e não uma, como dizia o senso comum, a pouco sábia humanidade mal acabada de evoluir de uma turva pré-história para o pensamento filosófico e científico. Mas Ismália sabia. Que as luas eram duas, e que a vida era uma só. Isso fazia dela uma pessoa bastante desconfortável, sempre se sentindo pisando em ovos quando tinha de explicar o que quer que fosse. Imagina explicar o que pensava. E o que sentia, então, mais complicado ainda. Nunca dava certo, falava a, entendiam h, dizia p, ouviam mê. Foi por isso que emudeceu, só pode, de fadiga intensa de tentar se comunicar devidamente e não conseguir.
E foi de repente, de supetão, nada assim paulatinamente, de forma que desse pra se acostumarem com o silêncio dela, e ela se acostumar também. Simplesmente ela acordou muda num dia, não tinha mais nada a dizer, nem a quem dizer, nem por que dizer. Simples assim. Então não falou mais. As palavras tinham-se escoado como um lago da Patagônia, no alto da cordilheira. Hipóteses pro sumiço do lago (não das palavras de Ismália) – sim, sabões científicos, hipóteses existem quando não se sabe ao certo, levantam-nas, então:
1.       As águas fugitivas foram pro oceano, vazaram do lago e correram pro seu destino, coletivamente, por absoluta necessidade ontológica;
2.       As águas escoaram-se para dentro da cordilheira, por uma rachadura feita por um micro-terremoto na região;
3.       ET´s abduziram as águas do lago, necessitando de água doce da Terra e não desejando competir com os ET´s norte-americanos, bem armados, muitíssimo bem armados, nos rios e igarapés da Amazônia;
4.       Foi a boiada do Renan Calheiros que passou por lá a pastar e bebeu a água, gado tem uma sede do caralho, por causa do sal ingerido. É muito gado pra um laguinho só.
Não sabemos da hipótese correta, uma há de ser, ou outra. Mas sabemos que as palavras de Ismália e as águas do lago sumiram e o Lula não viu nada, sabia de nada.
Sobraram exatamente quatro palavras monossilábicas pra que se comunicasse com os cachorros, os gatos, os passarinhos e a humanidade e demais primatas: é, ta, não e hãn (que era uma expressão idiomática para as emergências, onde as outras três não coubessem). Por exemplo – vou me comunicar no lugar de Ismália para que vocês vejam como o caso era sério, quase sem salvação, alguma coisa tipo um pecado mortal: se diziam vem jantar, Ismália, ela respondia “ta”; se diziam vamos ao shopping?, era um “não” definitivo (tanto pra shoppings quanto pra parques, cinemas, supermercados, comércio de qualquer tipo, igrejas e outros templos, principalmente); se diziam isso é assim ou assado, era “é”, independendo de ser de anssim ou de anssado. Mas se diziam qualquer coisa que não fosse uma pergunta direta ou uma afirmação que deveria ser respondida com outra afirmação – é -, então usava-se o hãn (sempre num tom de voz baixinho e rascante, de contralto, por favor, que hãn de soprano é histeria pura). Nossa, que música bonita!... hãn... esqueci o paletó, voltei pra buscar... hãn... Qualquer coisa abstrata também, os filosofares eram todos recebidos com um hãn na cacunda, pra aprenderem que Ismália emudecida não estava para brincadeiras, estava centrada, estava pairando sobre as mazelas da humanidade. Como Nietzsche, que, se tivesse emudecido, talvez não tivesse morrido cedo. Hãn.
Enquanto verificava, aliviada, que as duas luas ainda estavam lá, no céu e no mar, e que a do céu não estava rachada, esfacelando-se no espaço sideral, não havia hãns nem és nem tas nem nãos. Não precisava. As coisas eram como eram, uma rosa era uma rosa era uma rosa, e uma lua eram duas luas eram duas luas, sempre duas, em par, como uma meia são duas meias duas meias duas meias e podem ser rasgadas por uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra.
Até aí problema nenhum, não é?, hãn, sem crise. Mas os problemas começaram a balir em uníssono quando Ismália pensou na possibilidade de descer da torre. Podia enjoar. Podia cansar. Podia necessitar. Descer um dia da torre. Precisaria falar, para isso. Tinha de buscar as palavras no fundo da cordilheira, ou nos mais profundos oceânicos, ninguém sabe, ninguém viu, quem manda os guardas-florestais ficarem um mês inteiro sem olhar pro lago, por isso Ismália, que nem era omissa nem negligente, cuidava de verificar suas luas toda noite. Isso quando não estava chovendo ou eram luas novas, que aí não tinha jeito, mesmo. Mas como boi engorda sob o olhar do dono, as luas de Ismália estavam sempre lá, não eram nem malucas de sumirem feito lago, elas sabiam sua função e os afetos de Ismália.
Mas isso não solucionava o problema de trazer de volta ao menos meia dúzia de frases, de preferência de efeito, que servem para se comunicar, para educar filhos, para mostrar cultura, para desfazer silêncios constrangedores – e os não constrangedores também. Muitas utilidades têm as frases de efeito, pensou Ismália, vamos escolher algumas e treinar.
Passou a mirar-se na lua do mar, quando cheia e clara, um verdadeiro espelho para treinar seus trejeitos, suas expressões, que ficam melhores, as frases de efeito, quando acompanhadas de efeitos especiais. Já sabia George Lucas, intuitivamente. Ismália sabia intelectualmente, o que dá na mesma, o sabido é sabido de que forma for, em poesia, em prosa, em receita culinária, em rol de agenda.
Treinou, treinou e treinou. Exatamente seis frases, as melhores, as mais sábias, as do tipo “cachorro mordido de cobra tem medo até de lingüiça”, que podia ser usada em ocasiões como “por que você está muda?”, ou “o que está acontecendo, Ismália?”. Não vou falar das outras cinco, que nem precisa, sabões entendem de tudo.
Treinou, treinou e treinou, e num dia em que olhou pro céu, a lua não estava mais lá. Nem a do mar. Caracas, sentiu um frio derradeiro por dentro, que é isso, deustodopoderoso, cadê minhas luas? (Nem estava chovendo nem era fase de lua cheia, não vão os incautos levantando hipóteses fáceis, plausíveis demais). Sob tal pressão interior, sob tal desespero em seu ser mais autêntico (aquele que nem Sartre previu), era hora de Ismália descer da torre com suas seis frases de efeito.
O único porém é que ela resolveu descer pela janela, não pelas escadas do lado de lá.
Foi isso. Ficamos sem Ismália e sem saber o destino das duas luas nem as frases de efeito, o que não é grande prejuízo, que o mundo tem tantas delas, em todas as línguas e lábios. E, se olharem o céu em noite sem chuva nem nuvens demais nem fase de lua nova, verão a lua, também, ta lá, sosseguem. Hãn.

11 maio 2012

Canção sem estribilho (ou Madalena foi pro mar)

MARAVILHA-TE, memória!
Lembras o que nunca foi,
E a perda daquela história
Mais que uma perda me dói.

(Fernando Pessoa)


"Feliz  é o destino da inocente vestal
Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida
Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Toda prece é ouvida, toda graça se alcança.
(Alexander Pope)

Lembrar é trabalho interessante – tantas vezes as mágoas exsudam, mas outras tantas as alegrias é que pulam ao nosso redor, gritando e batendo palmas: valeu a pena!
Madalena não tinha mais lembranças, ou tinha, mas rapidamente se esquecia delas. Os fatos ou sentimentos que formariam sua memória não chegavam a ser gravados. Era, pois, uma desmemoriada.
Mais grave, ainda, nesse mundo machista, ser mulher desmemoriada. Homem sem memória ainda possuía a possibilidade de fundar-se na ação, mesmo que mil vezes repetida e mil vezes esquecida. Mas num mundo em que a ação cabe ao homem e a introspecção à mulher, como ter identidade sem memória alguma?
O que a fundaria como ser humano e mulher? Sem memória que una as lembranças num fio, colar de pérolas falsas, mesmo que algumas contas caiam e alguns trechos do fio se esgarcem. Mas há algo palpável que dê unidade à pessoa.
Madalena era uma canção sem estribilho. Como as longas e sem rimas canções de Bob Dylan e Leonard Cohen, em que as coisas acontecem e se sucedem, mas nada se repetiria. Tudo era novo, cheirando terra recém chovida, e nada tinha outra chance, não podendo ser reinterpretado. Nada poderia se repetir. O que aconteceu, foi. Daquele jeito vivido, mas nunca re-vivido, recriado. Nada tem outra chance quando não há memória.
Madalena começou a perceber que estava perdendo a memória quando acabava de virar a página de um livro e já não se lembrava do que tinha lido. Estou cansada, pensava meio desconfortável, preciso de férias. Já não consigo me concentrar nem na leitura. Depois, notou que as palavras desapareciam, queria falar algo específico, sabia que tinha uma palavra perfeita para descrever o que queria dizer, mas não a encontrava dentro de si. Passou a perguntar aos filhos, ao marido, que palavra a gente usa quando quer dizer tal coisa, ah, é isso, e vinha a resposta com tanta facilidade. É estresse, pensava. Mente cansada.
Mais um pouco, e esquecia o nome dos filhos, trocava o nome deles, eu não sou o ele, mãe, eu sou o eu, claro, sei que você é o você, foi só confusão. Mais tarde começou a reler os livros que já tinha lido tantas vezes que antes até se lembrava de cor de passagens inteiras, mas agora era tudo novidade novamente, tudo de novo no front, brincava de parafrasear, relia um por um, arrumava numa ordem inventada para não se esquecer das histórias, “Otelo” junto com “O amor nos tempos do cólera”, porque, afinal, ciúme é ciúme, mas como falam de amor, então vai ao lado “A odalisca e o elefante”, porque, afinal, amor é amor, e já que se fala de odaliscas coloca junto “As mil e uma noites”, porque, afinal, oriente é oriente, então cabe “A noite”, do Érico Veríssimo, junto com “Estorvo”, que se passa de noite, e, se não se passar, as noites nos deixam mais frágeis e estorvados como o personagem do Chico. E assim, ia compondo uma ordem na sua biblioteca, por temas, palavras, nomes, personagens, uma ordem desesperada para tentar não se esquecer do que tinha lido. Leda esperança. Continuou a esquecer uma coisa atrás da outra.
Até que um dia, em que havia chegado mais cansada que sempre, naquele dia a fadiga era imensa, ultrapassando qualquer limite do bom tom, era uma fadiga sem sensatez nem educação alguma, era um cansaço pesado, carrancudo, um algoz, se me entendem, e que sono nenhum recuperava, dormia e acordava mais cansada ainda, nesse dia deitou e sonhou.
Vai saber com o que Madalena sonhou, nem ela se lembrava quando acordou, e não estou aqui pra inventar sonhos alheios, e quando acordou é que Madalena deu por si, ou pela falta de si, acordou sem lembrar de nada, estava oca da memória.
Ficou ali sentada na cama, matutando um pouco, mas nem referências pra saber que estava oca ela tinha, ficou ali como fica um gato na janela, um corvo num pedestal, uma alface sobre a pia esperando pra virar salada, ficou ali respirando, se mexendo de vez em quando (Madalena, não a alface, claro), sentindo cheiro de alguma coisa que não sabia como chamava, era café quente, mas ela não lembrava.
Então o filho pequeno disse, vamos jogar xadrez, mãe, isso ela lembrava, que aquele menino magro de cabelos escorridos era seu filho e ela gostava de estar com ele, além de ter obrigações, tipo dar atenção ou jogar xadrez, vamos, então, ele trouxe o tabuleiro e colocou na cama.
Rapidamente Madalena contou as casas, 64, colunas de 8 por 8, casas brancas e pretas alternadas, então isso se chama xadrez, ela pensou, por que xadrez, o que é xadrez, para que serve um xadrez, e aquelas coisinhas brancas e pretas, de formas diferentes, vamos, mãe, coloca as peças, ah, são peças, foi colocando seguindo o que o filho tinha feito, mãe, rainha branca na casa branca, rainha preta na casa preta, troca a sua, claro, e foi logo trocando, pra começarem o jogo. Ela sabia mover as peças, cavalo em L, bispo em diagonal, rei só no fim, peão só uma casa. Não sabia como tinha aprendido aquilo, nem conservado aquela lembrança, já que tinha esquecido todo o resto.
Madalena nem pensou o que mais eu esqueci, por que um desmemoriado não se lembra de que teve lembranças, presume-se.  Ela foi vivendo daquele jeito de alface de gato de corvo, no começo estranharam, resolveram levar no neurologista, mas acabaram se acostumando, fazer o que, é estresse, uma hora ela melhora, vamos fazer uns exames, ressonância, tomografia, e seria bom psicoterapia também, que não tem nada melhor pra fazer relembrar do que terapia. Ou pra fazer se adaptar a viver sem lembranças, se fosse o caso. Ou seja, com ou sem terapia, com ou sem neurologia, com ou sem psiquiatria, com ou sem qualquer coisa ela teria de viver com ou sem lembranças, e viver como desse, de preferência da melhor maneira possível. Esse negócio de ficar descascando o passado é igual cebola, só faz chorar.
E assim o tempo foi passando e Madalena continua oca, e, o que é mais grave e perturbador, o oco foi aumentando, isso é cheiro de café, café, olha, café, mostravam o pó de café, o café coado, ela bebia, achava muito bom, queimava a língua, e dali a algumas horas tinha que começar tudo de novo, olha aqui, arroz, é branco, os grãos nas mãos, o arroz na boca, achava muito bom, não queimava a língua, e dali a pouco tinha de começar tudo de novo, isso é café, olha aqui, pó de café, cheiro de café, café quente, língua queimada, arroz, feijão, batata frita, água, banho, cocô, xixi, menstruação, sofá, televisão, telefone, xadrez. Gato, corvo, alface.
De tanto esquecer Madalena acabou se acostumando com aquela desmemória, a gente se acostuma com tudo na vida, dizia uma semi filósofa dentro dela, viver é assim mesmo, assumir o que vier, e o que vier é melhor tomar como lucro, já que há coisas que independem de quem quer ou de quem corre (dizia Paulo, o apóstolo), de quem vive ou de quem morre (completava Madalena, apocrifa e hereticamente).
E, depois do costume, não tinha mais o que a segurasse na casa, na família, já que também havia se esquecido dos filhos, do marido, dos poucos vínculos que ainda a haviam prendido à sociedade, e mesmo à vida. Com a perda das lembranças foram-se também os vínculos esfacelando, desfarelando, puindo, esfiapando-se.
Nem o suicídio resolveria isso, por que suicídios são para desesperança total e dores intensas e incuráveis (ou que se presumem incuráveis) e nem isso Madalena tinha – junto com a memória foram-se as dores, o sofrimento, qualquer ligação com coisa qualquer que pudesse fazer sofrer, e até mesmo foi-se a desesperança, ficando apenas um imenso vazio e  uma indiferença completa.
Por isso Madalena, um dia, simplesmente acordou, levantou-se da cama e, de pijama mesmo, saiu para a rua, andando e andando, e perdeu-se nesse abismo sem fim a que chamamos mundo.
Dissolveu-se na cidade, tornou-se mais uma anônima, nunca mais sendo encontrada ou encontrando-se, apesar dos esforços do marido, que não parava de procurá-la e repetir, como mantra: Madalena foi pro mar e eu fiquei a ver navios... e não parava de perguntar, a quem encontrasse, você viu Madalena por aí?; o sujeito continua a perambular procurando-a, ele que não esqueceu de nada, mas que não tem mais nada de que se recordar, também, pois que se vida sem memória – gato, corvo, alface - não é nada, memória sem vida também não é.

Eloisa Helena Maranhão