11 maio 2012

Canção sem estribilho (ou Madalena foi pro mar)

MARAVILHA-TE, memória!
Lembras o que nunca foi,
E a perda daquela história
Mais que uma perda me dói.

(Fernando Pessoa)


"Feliz  é o destino da inocente vestal
Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida
Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Toda prece é ouvida, toda graça se alcança.
(Alexander Pope)

Lembrar é trabalho interessante – tantas vezes as mágoas exsudam, mas outras tantas as alegrias é que pulam ao nosso redor, gritando e batendo palmas: valeu a pena!
Madalena não tinha mais lembranças, ou tinha, mas rapidamente se esquecia delas. Os fatos ou sentimentos que formariam sua memória não chegavam a ser gravados. Era, pois, uma desmemoriada.
Mais grave, ainda, nesse mundo machista, ser mulher desmemoriada. Homem sem memória ainda possuía a possibilidade de fundar-se na ação, mesmo que mil vezes repetida e mil vezes esquecida. Mas num mundo em que a ação cabe ao homem e a introspecção à mulher, como ter identidade sem memória alguma?
O que a fundaria como ser humano e mulher? Sem memória que una as lembranças num fio, colar de pérolas falsas, mesmo que algumas contas caiam e alguns trechos do fio se esgarcem. Mas há algo palpável que dê unidade à pessoa.
Madalena era uma canção sem estribilho. Como as longas e sem rimas canções de Bob Dylan e Leonard Cohen, em que as coisas acontecem e se sucedem, mas nada se repetiria. Tudo era novo, cheirando terra recém chovida, e nada tinha outra chance, não podendo ser reinterpretado. Nada poderia se repetir. O que aconteceu, foi. Daquele jeito vivido, mas nunca re-vivido, recriado. Nada tem outra chance quando não há memória.
Madalena começou a perceber que estava perdendo a memória quando acabava de virar a página de um livro e já não se lembrava do que tinha lido. Estou cansada, pensava meio desconfortável, preciso de férias. Já não consigo me concentrar nem na leitura. Depois, notou que as palavras desapareciam, queria falar algo específico, sabia que tinha uma palavra perfeita para descrever o que queria dizer, mas não a encontrava dentro de si. Passou a perguntar aos filhos, ao marido, que palavra a gente usa quando quer dizer tal coisa, ah, é isso, e vinha a resposta com tanta facilidade. É estresse, pensava. Mente cansada.
Mais um pouco, e esquecia o nome dos filhos, trocava o nome deles, eu não sou o ele, mãe, eu sou o eu, claro, sei que você é o você, foi só confusão. Mais tarde começou a reler os livros que já tinha lido tantas vezes que antes até se lembrava de cor de passagens inteiras, mas agora era tudo novidade novamente, tudo de novo no front, brincava de parafrasear, relia um por um, arrumava numa ordem inventada para não se esquecer das histórias, “Otelo” junto com “O amor nos tempos do cólera”, porque, afinal, ciúme é ciúme, mas como falam de amor, então vai ao lado “A odalisca e o elefante”, porque, afinal, amor é amor, e já que se fala de odaliscas coloca junto “As mil e uma noites”, porque, afinal, oriente é oriente, então cabe “A noite”, do Érico Veríssimo, junto com “Estorvo”, que se passa de noite, e, se não se passar, as noites nos deixam mais frágeis e estorvados como o personagem do Chico. E assim, ia compondo uma ordem na sua biblioteca, por temas, palavras, nomes, personagens, uma ordem desesperada para tentar não se esquecer do que tinha lido. Leda esperança. Continuou a esquecer uma coisa atrás da outra.
Até que um dia, em que havia chegado mais cansada que sempre, naquele dia a fadiga era imensa, ultrapassando qualquer limite do bom tom, era uma fadiga sem sensatez nem educação alguma, era um cansaço pesado, carrancudo, um algoz, se me entendem, e que sono nenhum recuperava, dormia e acordava mais cansada ainda, nesse dia deitou e sonhou.
Vai saber com o que Madalena sonhou, nem ela se lembrava quando acordou, e não estou aqui pra inventar sonhos alheios, e quando acordou é que Madalena deu por si, ou pela falta de si, acordou sem lembrar de nada, estava oca da memória.
Ficou ali sentada na cama, matutando um pouco, mas nem referências pra saber que estava oca ela tinha, ficou ali como fica um gato na janela, um corvo num pedestal, uma alface sobre a pia esperando pra virar salada, ficou ali respirando, se mexendo de vez em quando (Madalena, não a alface, claro), sentindo cheiro de alguma coisa que não sabia como chamava, era café quente, mas ela não lembrava.
Então o filho pequeno disse, vamos jogar xadrez, mãe, isso ela lembrava, que aquele menino magro de cabelos escorridos era seu filho e ela gostava de estar com ele, além de ter obrigações, tipo dar atenção ou jogar xadrez, vamos, então, ele trouxe o tabuleiro e colocou na cama.
Rapidamente Madalena contou as casas, 64, colunas de 8 por 8, casas brancas e pretas alternadas, então isso se chama xadrez, ela pensou, por que xadrez, o que é xadrez, para que serve um xadrez, e aquelas coisinhas brancas e pretas, de formas diferentes, vamos, mãe, coloca as peças, ah, são peças, foi colocando seguindo o que o filho tinha feito, mãe, rainha branca na casa branca, rainha preta na casa preta, troca a sua, claro, e foi logo trocando, pra começarem o jogo. Ela sabia mover as peças, cavalo em L, bispo em diagonal, rei só no fim, peão só uma casa. Não sabia como tinha aprendido aquilo, nem conservado aquela lembrança, já que tinha esquecido todo o resto.
Madalena nem pensou o que mais eu esqueci, por que um desmemoriado não se lembra de que teve lembranças, presume-se.  Ela foi vivendo daquele jeito de alface de gato de corvo, no começo estranharam, resolveram levar no neurologista, mas acabaram se acostumando, fazer o que, é estresse, uma hora ela melhora, vamos fazer uns exames, ressonância, tomografia, e seria bom psicoterapia também, que não tem nada melhor pra fazer relembrar do que terapia. Ou pra fazer se adaptar a viver sem lembranças, se fosse o caso. Ou seja, com ou sem terapia, com ou sem neurologia, com ou sem psiquiatria, com ou sem qualquer coisa ela teria de viver com ou sem lembranças, e viver como desse, de preferência da melhor maneira possível. Esse negócio de ficar descascando o passado é igual cebola, só faz chorar.
E assim o tempo foi passando e Madalena continua oca, e, o que é mais grave e perturbador, o oco foi aumentando, isso é cheiro de café, café, olha, café, mostravam o pó de café, o café coado, ela bebia, achava muito bom, queimava a língua, e dali a algumas horas tinha que começar tudo de novo, olha aqui, arroz, é branco, os grãos nas mãos, o arroz na boca, achava muito bom, não queimava a língua, e dali a pouco tinha de começar tudo de novo, isso é café, olha aqui, pó de café, cheiro de café, café quente, língua queimada, arroz, feijão, batata frita, água, banho, cocô, xixi, menstruação, sofá, televisão, telefone, xadrez. Gato, corvo, alface.
De tanto esquecer Madalena acabou se acostumando com aquela desmemória, a gente se acostuma com tudo na vida, dizia uma semi filósofa dentro dela, viver é assim mesmo, assumir o que vier, e o que vier é melhor tomar como lucro, já que há coisas que independem de quem quer ou de quem corre (dizia Paulo, o apóstolo), de quem vive ou de quem morre (completava Madalena, apocrifa e hereticamente).
E, depois do costume, não tinha mais o que a segurasse na casa, na família, já que também havia se esquecido dos filhos, do marido, dos poucos vínculos que ainda a haviam prendido à sociedade, e mesmo à vida. Com a perda das lembranças foram-se também os vínculos esfacelando, desfarelando, puindo, esfiapando-se.
Nem o suicídio resolveria isso, por que suicídios são para desesperança total e dores intensas e incuráveis (ou que se presumem incuráveis) e nem isso Madalena tinha – junto com a memória foram-se as dores, o sofrimento, qualquer ligação com coisa qualquer que pudesse fazer sofrer, e até mesmo foi-se a desesperança, ficando apenas um imenso vazio e  uma indiferença completa.
Por isso Madalena, um dia, simplesmente acordou, levantou-se da cama e, de pijama mesmo, saiu para a rua, andando e andando, e perdeu-se nesse abismo sem fim a que chamamos mundo.
Dissolveu-se na cidade, tornou-se mais uma anônima, nunca mais sendo encontrada ou encontrando-se, apesar dos esforços do marido, que não parava de procurá-la e repetir, como mantra: Madalena foi pro mar e eu fiquei a ver navios... e não parava de perguntar, a quem encontrasse, você viu Madalena por aí?; o sujeito continua a perambular procurando-a, ele que não esqueceu de nada, mas que não tem mais nada de que se recordar, também, pois que se vida sem memória – gato, corvo, alface - não é nada, memória sem vida também não é.

Eloisa Helena Maranhão

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