29 agosto 2012

Em 7 dias e 11 minutos. Ou foram 7 bilhões de anos e 8 horas e meia?


1° dia. “Estou deitado no sonho/ não perturbes o caos que me constrói” (Gastão Cruz). 
No princípio, o primeiro dia, era o caos. Tudo era escuridão e silêncio. O caos estava condensado, gestando luz, ruídos e violência dentro dele. Mas não havia ninguém que percebesse o caos condensado ali naquele pontinho minúsculo. Mesmo os que estavam envolvidos no caos não notavam que ele existia, tão envolvidos estavam, fazendo parte dele. No fim do primeiro dia o caos comprimido explodiu, lançando partículas e energia para todo lado, uma explosão imensa, intensa, e já não havia como ignorá-lo. 

2° dia. “De amor não vi senão breves enganos/ Oh! quem tanto pudesse, que fartasse/ Este meu duro gênio de vingança” (Camões) 
No segundo dia partículas começaram a se aglomerar, chocando-se umas contra as outras, formando matéria. Shiva dançava furiosamente em torno de Nanã Burukê, que moldava o barro incansavelmente, criando o Universo. Da mãe do tempo, Mnemosine, nasceram nove filhas musas. Foram criadas a Eloquência (que se chamou Belavoz ou Calíope), a História (Clio), a Poesia Lírica (Érato), a Música (Euterpe), a Tragédia (Melpômene)), os Hinos Sagrados (Polímnia), a Dança (Terpsícore), a Comédia (Talia)) e a Astronomia (denominada de Urânia). A matéria criada era fervente, fumegante, prenhe de energia e calor. O caos gerou as Fúrias (chamadas Castigo, Rancor e Interminável) que voavam raivosas ao redor da Terra, assolando e punindo. Lilith e Hera, revoltadas, repletas de raiva, se dilaceravam com cortes, arrancavam-se os próprios cabelos e clamavam: Vingança, Vingança! 

3° dia. “É eu estar existindo/ E também o mundo, Com tudo aquilo que contém, Como tudo aquilo que nele se desdobra/ E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.” (Fernando Pessoa) 
No terceiro dia, quando as Fúrias foram contidas e aprisionadas, apareceu a desilusão, um mundo meio sem jeito, um universo ateu, descrente de tudo, onde nada tinha garantias e não se podia – ou devia – esperar nada. Buda aprendeu que não desejar era melhor para sobreviver nesse mundo. 

4° dia. “E a vastidão do Mar, toda essa água/ Trago-a dentro de mim num mar de Mágoa!/ E a noite sou eu própria! A Noite escura!!” (Florbela Espanca) 
Então, no quarto dia, começaram as chuvas primordiais, que eram lágrimas de Tristeza, e chorou-se durante 65 milhões de anos, mas a Terra não era limpa nem lavada por elas, pois o calor era tão intenso que as chuvas mal se precipitavam já evaporavam, apenas servindo para resfriar o planeta. 

5° dia. “E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda/ No alvo busto de Atená que há por sobre os meus umbrais/ Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha/ E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais/ E a minh´alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,/ Libertar-se-á... nunca mais!” (Edgar Allan Poe) 
No quinto dia, vendo aquele Universo instável, perigoso, sem segurança, grassou a incerteza, e o Medo foi gerado. O pavor passou a ser constante e sem esperança de cessar, como um prognóstico reservado. Tudo era aterrorizante, o mundo estava atolado no pânico, e Pan, o deus, sentia-se muito à vontade em sua casa, disseminando o temor e o terror. Coisas horríveis podiam acontecer a qualquer momento e sem qualquer aviso ou sentido, e o único deus que se podia conceber era o Acaso. 

6° dia. “Tenho dó das estrelas/ Luzindo há tanto tempo,/ Há tanto tempo…/ Tenho dó delas./ Não haverá um cansaço/ Das coisas,/ De todas as coisas/ Como das pernas ou de um braço?/ Um cansaço de existir,/ De ser,/ Só de ser...” (Fernando Pessoa)
Era o sexto dia e o Medo foi cedendo, nem ele podia ser eterno, já que nada era, e foi-se abrindo lugar para um cansaço enorme, extremo, uma vontade de não-ser, que tudo que já havia sido estava sendo devorado pelo Nada. Shiva e Nanã jaziam mortos de exaustão, com os membros decepados espalhados pelos quatro cantos da Terra. Ao final do sexto dia surgiu Amnésia, e já nada importava, Mnemosine e suas Musas estavam mortas, cremadas, as cinzas desintegradas, o passado não existia mais, nem o presente nem o futuro. Foi o dia do enfado completo. 

7° dia. “Seja bem vindo, amigo Nada”. 
Na manhãzinha do sétimo dia começou a desintegração de tudo que havia sido, o Nada avançou rapidamente, todo o caos fora extraído e agora restava a Ordem, a ordem do Vazio. O Vazio não ocupou lugar algum, era apenas a ausência total, ausência do som, ausência de calor, ausência de luz. O mundo mergulhou no silêncio, no frio e tudo ficou absolutamente branco, pois o Vazio não tem cores nem formas nem luz que possam projetá-las. Agora quando tudo era vazio e silêncio o Universo sossegou, com um prognóstico fechado, o ciclo encerrado, e não havia outra chance de recomeço, de um novo ciclo, pois até o Caos gerador de vida fora aniquilado. Tudo era paz.

Eloisa Helena Maranhão.

18 agosto 2012

Berenice de A a Z

“Meu tempo é agora. Eu não vivo no passado.
Mas o passado vive em mim.”
(Paulinho da Viola)

“Há uma rachadura, uma rachadura em tudo
E é por ela que a luz entra”
(Anthem, Leonard Cohen)


Berenice caminhava. Não para quieta, não?, perguntavam quando era criança. Tem fogo no rabo, diziam uns. Tem rodinhas nos pés, diziam outros. O que Berenice tinha eu não sei, mas o que não tinha era patente.
Não tinha siso, nem depois dos dezoito anos, quando se espera que os viventes o criem, junto com os tais dentes. Nem depois dos vinte e nove quando Saturno retorna e estava previsto no seu mapa astral que enfim criaria juízo, ela não enjuizou.
Não tinha calma. Não tinha paciência. Não tinha sossego tranqüilidade paz de espírito compostura serenidade, nada do que desejavam e esperavam que tivesse um dia que fosse. Se não para seu próprio bem, ao menos para o dos outros. Ela sabia recitar o alfabeto de cor, mas, pasmem, de trás pra frente, de Z para A, Z, X, V, U, T, S, R, Q... Tinha esperteza e sensibilidade de sobra, mas estamos falando do que não tinha, e não do que tinha.
Não tinha parada – como já disse – vivia andando pra cá e pra lá, correndo, de preferência, pensando demais, sentindo demais, falando demais, ouvindo de menos.
Berenice era uma irregular. Como uma superfície, um polígono, um verbo, um veículo, uma galáxia, uma trajetória, satélite, conta, construção, curso, ocupação, condomínio, procedimento, plural, loteamento, cartório, área, superfície. Era irregular como uma coisa qualquer, atípica, incomum, desigual, descontínua, anômala. E, superlativo da irregularidade, mesmo sabendo disso pouco se importava de ser ou não irregular, pouco se importava, na verdade, com a opinião de quem quer que fosse, mãe, pai, irmãos, avós, tias, primos, e mais tarde namorados, filhos, vizinhos, colegas. Amigos, não, que ela não se portava nem se importava, por que não os tinha.
Era, portanto, extremamente agitada, irregular e sozinha. Não uma sozinha anatômica, pois estava sempre cercada de humanos, mas sozinha fisiológica, se me entendem.
Berenice não era compreendida, ou não se achava – o que dá na mesma – que externo e interno se confundiam nela, que não sabia muito bem diferenciar realidade e fantasia.
Era, portanto, agitada, irregular, sozinha e confusa.
Mas sua confusão era especial, pois ela não se perdia dentro dela, seu caos era um lugar onde se encontrava com conforto e ali tinha extrema facilidade de viver no seu tempo e espaço.
Se Einstein estivesse vivo e a conhecesse ia notar com alegria isso, que Berenice era um ser que vivia num continuum tempo-espaço, onde tudo era, passado, presente, futuro, e os espaços não se confundiam, pois que eram uma coisa só, dentro fora, externo interno, frente lado trás, em cima embaixo, amanhã ontem hoje, lá cá aqui ali acolá. Aprender línguas, para ela, era muito simples, já que uma só palavra significava muitas das dos outros, e meia dúzia delas servia para todo seu mundo. Interno e externo. Além disso, era uma pessoa muito direta e assertiva, absolutamente curta e grossa, diziam pais tios primos namorados filhos, sem papas na língua, falando pelos cotovelos e assuntos dos mais díspares e, com o passar do tempo, insanos, assuntos que não diziam respeito a ninguém nem a nada, mas a ela, sim.
Era, portanto, agitada, irregular, sozinha, confusa, direta e insana.
E tinha uma imaginação fértil. A bem da verdade, fertilíssima. Era uma terra escura muito bem adubada com húmus, esterco dos mais variados espécimes, e dali nascia todo tipo de fantasias e realidades, heras subindo pelas paredes nuas, plátanos, rabanetes, hortelãs forrando cerquinhas de madeira, todo tipo de matinhos, plantas verdes de vários tons, ervas daninhas. Era uma belezura a terra fértil, úmida e quente de Berenice.
Tudo que lhe faltava de sossego, regularidade, companhia e sanidade lhe sobrava e transbordava em imaginação. A imaginação supria suas carências, seus defeitos, seus crimes e pecados e isso havia de ser um consolo. Isso se Berenice, além de agitada, irregular, sozinha, confusa, direta, insana e cheia de imaginação também não fosse uma radical, que tinha de viver tudo que pensava, lia e imaginava.
Por uma questão de total honestidade, de odiar a hipocrisia, de aspirar à completa integridade, Berenice tinha que viver também o que escrevia, além do que pensava, lia e imaginava.
Tudo tinha começado em criança, lá pelos cinco anos, quando ouviu uma história de uma menina cega e passou dias andando pela casa com uma venda nos olhos, pra sentir exatamente o que era ser cega. Apenas ouvir ou ler não lhe bastava, ela tinha que sentir em si, no seu próprio corpo.
Mais tarde ouviu a história de Jacó em Betel e gastou latas de azeite de oliva em cima do altar de pedra que tinha construído no quintal, depois de dormir com a cabeça na pedra, mas não ter sonhado absolutamente nada nem ter visto anjos, o que foi sua primeira grande decepção com os relatos orais e religiosos.
Mais tarde, quando ouviu sobre as santas Hildegard de Bingen e Juana Inês de La Cruz, Berenice gostou tanto daquelas experiências de êxtase que se jogava no chão e ficava tentando se desprender do corpo, vivenciar outras esferas, visitar outras dimensões, pelo menos ser visitada por anjos arcanjos íncubus súcubus mas também aí se decepcionou, percebendo que surtar é pra quem pode, não pra quem quer.
Quando aprendeu a ler e escrever, passou então a anotar os sonhos que tinha, para vivê-los depois, de dia e acordada, na mais suprema realidade, fosse lá isso o que fosse – alguma coisa suprema. E a realidade. Berenice não sabia nada bem, já nessa época, diferenciar realidade e fantasia, o si e os outros, dentro e fora.
Fez um diário e começou a escrever o que vivia, o que sentia, mas o que desejava era sempre muito maior que sua vidinha de Berenice, que era um tédio sem fim, uma realidade pequena e deprimente, uma chatice em forma de fatos. Se se contentasse com aquela vida que tinha ia se tornar o ser mais infeliz e espremido do universo, então passou a inventar e experimentar, a posteriori, o que inventava para sua vida.
E foi com a imaginação, devidamente provocada pelos livros, filmes, quadros e músicas que Berenice passou a construir sua vida, presente, passado e futuro, forjando uma identidade que era ela; e sem livros filmes quadros músicas Berenice não era mais nada, e sua vida não conseguia se individualizar nem ser capaz de ser suportada.
Os livros passaram a fazer parte dela, com Berenice se construindo por palavras. As palavras substituíram suas células, os genes foram substituídos por sílabas, seu DNA eram letrinhas organizadas – esperamos que sim, que houvesse uma organização qualquer ali no cerne de Berenice, já que isso não existia na sua macro-constituição.
Mas, como já contei antes, ela convivia bem com seu caos, se encontrava com facilidade dentro dele, e não teve, portanto, muita dificuldade de ir vivendo, o tempo passando, o tempo de fora, que o de dentro, como também já contei, era um continuum que não se diferenciava em passado, presente, futuro, como para os humanos normais. Sorte de Berenice que seus hormônios a salvaram, e assim pôde ela viver, namorar, engravidar, parir, enfim, cumprir aquela sina das espécies, nascer, se reproduzir, morrer. Morrer ainda não, que até onde sei Berenice continua viva – ou vivendo, o que dá na mesma.
Foi então, mais ou menos nessa época remota de sua infância, que o passado tomou conta dela e nunca mais a deixou. De início passou a freqüentá-la nos relatos e histórias que ouvia, que lia, que assistia, que inventava. Depois o passado a incorporou, como as palavras, livros, personagens, até que a dominou por completo, ou melhor, nem podemos dizer que houve um domínio, pois ela era o passado, seu e da humanidade toda, até das eras geológicas quando ainda não havia humanos, e nem o passado a dominava nem ela ao tempo, pois que eram uma coisa só, indefinida. Ou seja, Berenice não vivia no passado, mas vivia num presente onde passado e futuro viviam também, e no qual Berenice e o tempo eram felizes. Acho. Espero. Desejo.
A primeira vez que assistiu O Mágico de Oz ela precisou de um sapatinho vermelho todo bordado de strass e brilhante de purpurinas, sim, era uma necessidade ter um sapatinho vermelho de Doroty, e, mais necessário ainda se fez quando leu o conto dos Sapatinhos Vermelhos; ela queria por que queria por que precisava por que necessitava por que ansiava ter sapatinhos vermelhos brilhantes e lindos, e fabricou um par para si, devidamente paramentados de todo brilho, fitas de cetim, strass, purpurinas, miçangas e lantejoulas e usou seus sapatinhos até que se gastaram e não serviam mais nos seus pés crescidos, e só não fez outros por que aí já não se importava mais com sapatos vermelhos, agora gostava de sapatinhos com laços cor de rosa, como Celly Campello cantada pelo namorado; meu sapatinho eu vou, com laços cor de rosa enfeitar, tchu ru ru ru; já tinha tido os seus vermelhos e sido feliz com eles, nada de dançar sem parar e ser castigada por isso. Nem sempre os desejos são perniciosos e punidos, ela aprendeu, ao contrário do que lia em Nelson Rodrigues.
Quando assistiu Os Sete Gatinhos passou a desenhar caralhinhos voadores no banheiro, nos azulejos das paredes, na porta, no espelho, até que cansou e parou. Daí tinha lido Tibicuera, e queria ser índia, andava pelada pela casa, com o corpo todo pintado de urucum, mas aí foi o pai que cansou, deu-lhe uma boa bronca e mandou-a colocar roupa; foi então que descobriu que índios não conseguem se manter índios na civilização, vejam Diacuí e Yarima. E Pocahontas.
Contos de fadas eram o pior da lista, deviam se chamar contos de monstros, ela pensava dentro do guarda-roupa com medo do lobo, debaixo da cama com medo do outro lobo, totalmente debaixo do edredom com medo da bruxa, trancada no banheiro com medo da fera, atrás da porta com pavor da madrasta. Nunca chegava a se contorcer de terror, era um medo pesado, básico, clássico, um medo centradinho, ficava muda, paralisada, quase sem respirar quando escutava a música jardineiro do meu pai, não me corte os cabelos, que minha mãe me penteava, minha madrasta me enterrou, pelos figos da figueira que o passarinho bicou... recusou-se a cortar os cabelos a partir dali, foi deixando as madeixas compridas e enroladas, sem pentear, era uma esquisita, diziam, eita menina esquisita...
Das histórias de igreja não tinha medo, nem do diabo, aquela coisa vermelha com chifres e rabo pontudo, tinha era um supremo desprezo por um ser que sempre acabava – ou acabaria - se fudendo; ela não tinha aprendido, ainda, que no frigir dos ovos mesopotâmicos o bem nem sempre vencia o mal, isso ia depender da luta final apocalíptica entre o Bem e o Mal; sorte dela – no quesito apocalipse - que foi educada cristã, com um final hollywoodiano feliz e do bem, senão teria passado a vida inteira com medo do satã vermelho.
Mas o que Berenice nem ninguém sabia, quando era criança, era que o desprezível satã vermelho voltaria para lhe assombrar no futuro, em forma de um semi-deus hindu, metade humano, metade deus, de olhinhos orientais encobertos por cílios negros, gordo e sentado de pernas cruzadas, com longos, finos e imensos braços passíveis de lhe atingir onde estivesse, debaixodacama dentrodoguardaroupa atrásdaporta enfiadasoboedredom internadanumaenfermariapsiquiátrica...
E era esse ser horrível e pavoroso que lhe mandava desastres, desgraças, tragédias... Tragédias na mais pura acepção grega da palavra, aquelas coisas que lhe aconteciam sem ser desejadas, e, pior que isso, sem que ela tivesse a mínima responsabilidade ou influência sobre elas, acontecimentos nefastos que só podiam ser atribuídos ao destino mais ateu, ao acaso. Berenice soube, desde o início, que o único deus em que poderia crer era o acaso.
Era, portanto, travestido de semi-deus hindu que o acaso se lhe apresentava e dominava, exigia coisas, dava-lhe ordens esdrúxulas, e ai dela se não as cumprisse. Doenças, acidentes, afogamentos, atropelamentos, catástrofes naturais de todo tipo, terremotos, tsunamis, deslizamentos, desabamentos, e as sociais, também, balas perdidas, bêbados na direção, patrões exploradores condenando os pobres a morrer de fome, loucos no metrô empurrando incautos para os trilhos, tudo poderia acontecer nesse mundo entregue ao acaso e às forças desordenadas impostas pelo humor do seu semi-deus hindu de braços compridos. Bastava-lhe esticar um braço e as coisas começavam a acontecer. Os mudos carneiros do rebanho saíam em debandada, pisoteando quem por perto estivesse, os porcos partiam para cima de sua vítima mastigando-lhe o corpo aos poucos, devagarinho, começando pelos pés e mãos, subindo pelos braços e pernas, para que a morte fosse lenta e bem sofrida.
Por sentir medo dessa morte em vida, lenta e bem sofrida, e também de uma vida morta, também lenta, também sofrida, mesmo que parecesse rápida demais (a vida, não a morte), abandonada ao humor – altamente instável, fique aqui documentado - de um semi-deus hindu qualquer, Berenice passou a trancar-se em casa, preferindo a casa à rua, o quarto ao resto da casa, a cama ao resto do quarto. Debaixo da cama enrolada num edredom era ideal.
Ficou mais esquisita ainda, abandonando o trabalho, os encontros, desobrigando-se de interagir socialmente, as reuniões de qualquer tipo, as atividades na rua, o que ocorria no mundo, que absolutamente não lhe interessava mais, televisão, rádio, jornais, revistas, notícias na internet, nada mais lhe dizia respeito, na verdade nunca lhe dissera, ela apenas conseguira fingir por um tempo, mundo paranóico onde vivia e onde todos cuidavam de todos, intrometiam-se como vermes à cata de podridão, observando e sendo observados, julgando e sendo julgados, condenando-se a si mesmos e aos outros, mais raramente absolvendo, tudo ao sabor do mesmo humor instável de um deus hindu. Ou babilônio, grego, romano, judeu, árabe, africano, japonês, índio, tailandês, de que etnia nação ou cultura fosse, todos instáveis, gerados e geridos pela mais completa instabilidade humana.
Por conta desse mundo paranóico é que Berenice assim também se tornou, apavorada com medo de ovelhas silenciosas, manadas de porcos devoradores, carros desembestados, bestas descarrilhadas, humanos abestalhados, velhos imbecilizados, mulherzinhas histéricas em seu culto ao corpo, crianças tiranas que não paravam de gritar e exigir o que quer que fosse, homenzinhos com seus falos sempre eretos a qualquer custo à caça de um buraco qualquer, sempre violentos, vazando testosterona, e armados, então, sai da frente.
Berenice desenvolveu um medo estúpido e irracional, mas não absurdo, de qualquer pessoa armada, com farda era ainda muito mais devastador, soldados, policiais, milícias de quaisquer gênero ou senhores, grupos de punks, metaleiros, neo-nazistas, alunos fazendo bullying, torcidas uniformizadas, que mesmo sem armas tinham seu corpo e sua agregação de grupo como arma. Não podia ver um PM na rua que fugia correndo para o outro lado, tentando e nem sempre conseguindo não gritar, vomitando e se urinando toda, como as vítimas das feras selvagens e dos humanos armados faziam ao longo da pré e da história.
O corpo de Berenice passou a reagir completamente aos filmes, quadros, músicas, livros e histórias sobre as ditaduras, as tiranias, os torturadores e seus torturados, os ratos, porcos e ovelhas, os assassinos, facínoras, autoridades, mesmo os que pareciam mais doces e dotados de razão, que esses eram os piores. E ela já não sabia o que era arte, o que era realidade, o que era fantasia, o que inventava ou inventavam e ela fazia parte. Vigiar e punir, gritava Foucault dentro dela, corra, Lola, corra, mas não para mudar nada, e sim apenas safar-se seja lá do que for, que a vida é apenas isso, correria e tentativa de salvamento, e tudo termina na morte, a correria e a salvação que nunca vem, pois que não existe. Não há como fugir pras colinas.
E era exatamente ali, naquele Z final de Berenice, o único lugar onde a luz podia entrar. Quando luz ou treva já não fariam mais nenhuma diferença.

Eloisa Helena Maranhão