23 outubro 2012

Capa de retalhos.


“Tudo é uma questão de manter a  mente quieta,
a espinha ereta e o coração tranquilo.”
(Walter Franco)

“Sou humano,  nada do que é humano me é estranho.”
(Terencius, séc. II a.C.)


Angelina, apesar do nome, era ateia. E anarquista. Não tinha Rei, nem Deus, nem Lei. Não vivia de acordo nem acreditava em nada sobrenatural, espiritual, transcendental. Tudo para ela era ali no chão, na terra, no corpo, matéria e energia. Também não gostava de regras, regulamentos, nenhum tipo de certezas que davam aura de absoluto às coisas – que, ela sabia muitíssimo bem, eram sempre relativas, as coisas, os sentimentos, as sensações, as relações. Tudo relativo e humano.
Ia vivendo e abandonando a fé cristã que lhe haviam ensinado na infância, bem como todas as certezas políticas, ideológicas, filosóficas que porventura tivesse aprendido. Ia vivendo como uma aranha, sempre dependurada numa teia tênue e frágil, mas que era suficiente para lhe dar suporte.
Era uma mulher forte, que agarrava o touro à unha (mesmo que não tivesse unhas, de tanto roê-las, que viver não é fácil, mesmo para os fortes), enfrentava a vida como esta viesse, considerava tudo que ocorria, lucro, e vivia como dava. Aprendera desde cedo que viver não aguenta muito pensamento, que pensar é doença da alma.
Tudo parecia estar em ordem, mesmo que a ordem fosse ilusória, que ordem, em última análise, não existe, e que, também em última análise, tudo é ilusão, menos a existência a que estamos condenados.
Mas como nem tudo que parece, é, a desordem existia, não era ilusão, e fora-se instalando aos poucos, sem que ela se desse por conta, enquanto tentava agarrar os touros à unha e viver o que considerava vida. A desordem foi crescendo, tomando conta, insidiosamente, até que causou a devastação.
Tinha ventado demais, chovido demais, feito sol demais, o chão estava empedrado e esturricado, as árvores desenraizadas, as praias batidas por ondas fortes demais, os jardins inundados, as falésias desgastadas pelos ventos e marés.
Um dia Angelina acordou totalmente atolada pelo inconsciente, sufocada pela descrença e desesperança, abandonada pelas incertezas, sem teia que lhe acolhesse o corpo. Angelina estava erodida. Tentou voltar a ter alguma fé, esperança, mas deuses, reis e leis já não lhe podiam dizer nada. Havia destruído a raiz de tudo e ilusão nenhuma lhe poderia servir de alívio ou conforto. Mesmo atolada pelo inconsciente continuava consciente demais que tudo era ilusão e invenção humana para suportar a vida.
Mas precisava desesperadamente de alívio, de tranquilidade, de alguma coisa que lhe desse descanso e servisse de pouso. Não tinha como viver sem teia que lhe desse suporte, jogada por si mesma de lado para lado, ora boiando, ora afundada, quase sem respiração, ora lançada no espaço sem nada que lhe servisse de âncora.
Passou a ter medo. De início eram medos concretos, de objetos, pessoas, animais. Depois esses medos foram-se transformando num pavor sem objeto e sem descrição, um sentimento inimaginável para quem não o tivesse vivido.
Pequena lista dos grandes medos de Angelina:
coisas de garrafa pet reciclada; crochê; toalhinhas de plástico tipo renda; coisas de gesso e de biscuit; "objetos" de jornal reciclado e envernizado; pregos não enferrujados; facas enferrujadas; gnomos de jardim; cachorro bravo (e grande); flores de plástico; cachorro de camurça de colocar no carro e que fica balançando a cabeça; borboleta e mariposa; nossa senhora aparecida sem cabeça; braços e pernas de ex-votos; cores marrom e cinza; broca de dentista; brinquedos de playcenter; caminhão desgovernado; esportes radicais; peruca de nobre francês (de inglês também); comida verde; boca banguela mascando chiclete; quadro de jesus com coração exposto lágrimas e suor de sangue e coroa de espinhos; tirar mandi do anzol; gatos, cobras e coelhos albinos; óleo de fígado de bacalhau; senhor scott da emulsão do bacalhau; cavanhaque e sobrancelhas grossas formando taturanas; pelos no nariz e orelha; mártires quando estavam - ou estão - vivos; carneirão de chifres enrolados; rebanho de ovelhinhas mudas pastando olhando pra baixo sem ver nada; música carneirinho carneirão, olhai pro céu, olhai pro chão; manada de porcos selvagens devoradores de pés humanos (e do resto também); anjinhos nordestinos, aqueles olhinhos vidrados, aquelas roupinhas e asas azuis e brancas de cetim e renda (talvez as roupinhas sejam pra procissão, não pro enterro, o que não difere), parece cena de auto do Suassuna, livro da cachorra baleia, filme de severina... tinha medo de boneca de porcelana, de olhos vidrados de bonecas de porcelana; jardinzinho florido e bem cuidado, sebe inglesa; as bailarinas do Degas também passaram a ser um pavor. Medo medo medo. Dela mesma. Mas não tinha medo do corvo do Poe nem da Virginia Woolf... ela tinha medo de placas de bronze em sinagogas, escrito "lembre-se de"; tinha medo de bifes de fígado, verdes depois de um tempo; de sandálias altíssimas de plataforma; bota de bandeirante; uniforme de escoteiro; botox no rosto deformado; xuxa, adriane galisteu, hebe camargo, luciana gimenez; música sertaneja, axé e pagode; perna peluda; cabeça com bobbies. Bobbies sem cabeça.
Notaram o beco? A sinuca de bico? Era medo demais e sossego de menos. Ar e água demais e corda de menos. Folhas demais e raízes de menos. As fúrias e harpias soltas, rondando-a. Cercada por uma matilha de lobos, na estepe, a chuva gelada, o escuro, sozinha, e os lobos furiosos, acuando-a. E menstruada, pro cheiro de sangue atrair, não deixar disfarce nem escape algum. Era a espera da dilaceração, de ser estraçalhada.
Não conseguia mais sair à rua. Medo. Barulhos, buzinas, carros. Medo. Escadas e túneis de metrô. Medo. Gente. Humanos. Que deveriam ser como ela, mas não eram. Sabiam conversar, mostrar o olhar certo, dar a resposta correta, fazer a ação perfeita, os gestos esperados. Estava sem laços. Pavor.
Não tinha como continuar vivendo dessa forma. Teve que inventar. Teceu uma capa de retalhos, cortou-os simetricamente, costurou-os, colocou sobre os ombros, enrolando-se nela. Capa mágica. Sentiu-se protegida, ao menos pra sair à rua, enfrentar o enxame de humanos sem rumo, com seus olhares e pensamentos cegos. Quem a poderia julgar? Os crentes em Deus? Os que andavam com patuás e amuletos na bolsa, na carteira, no pescoço? Os que enchiam a casa de cristais, duendes, incensos, imagens de santos ou fadinhas? Os que recitavam salmos ou cantavam mantras? Os protegidos pelas orações?
Sim, sua capa de retalhos era tão inútil quanto qualquer ideia de deus, tão gerada pelo pensamento mágico quanto qualquer criação religiosa. Mas era o que podia de si, era sua invenção que lhe trazia alívio. Pelo menos a invenção era sua. Quem a poderia julgar?

Eloisa Helena Maranhão.