10 outubro 2013

Labirinto

“Eu sentia que o mundo é um labirinto, do qual era impossível fugir, pois todos os caminhos, ainda que fingissem ir ao norte ou ao sul, iam realmente a Roma.”
"À impressão de enorme antiguidade juntaram-se outras: a do interminável, a do  atroz, a do complexamente insensato. Eu havia cruzado um labirinto.  
(Jorge Luiz Borges)  
Foi ela própria quem se ofereceu como voluntária. Uma das virgens mais bonitas e inteligentes da cidade, de família próspera, com excelentes pretendentes a um casamento ideal.
A cidade toda reunida na praça, virgens e moços com os corações desembestados como os touros que criavam no curral, tentando domá-los – tanto os touros quanto o medo que crescia dentro deles, medo de ser um dos doze escolhidos.
E ela simplesmente caminha até o rei, ajoelha-se e diz: eu vou.
Partida. O óbvio... choro, abraços, adeus desconsolados... navio içando as velas – negras, sinal do luto da cidade pelos doze jovens levados para portos distantes, para a ilha amaldiçoada por mães e odiada por pais e irmãos deixados para trás... até mesmo o nome do rei Minos lhes enchia de terror e revolta... revolta que nunca se concretizava, afinal o futuro aos deuses pertence... um dia... um dia alguém derrotará o inominável ser que lhes assola as noites com pesadelos, e os dias com imperceptíveis sobressaltos...
Foram sendo descidos do navio e colocados dentro do Labirinto... um a um, soltos das amarras, abandonados nas desveredas e salões onde ficariam até serem encontrados por ele e... e o quê, exatamente?... ninguém sabia o quê, sabiam apenas que ouviam o estridente silêncio depois de gritos calados, e nunca nenhum dos jovens tinha encontrado a saída e voltado para contar o que quer que fosse. Fantasiavam, portanto, já que à imaginação cabe o que falta à vida de cada um.
Para ela foi um alívio ver-se à entrada do Labirinto, saboreou o prazer de missão cumprida, e entrou. Pela primeira vez na vida sentia a sensação de fatalidade, maktub, teria dito se fosse Sheerazade...  falou baixinho algo como: estava escrito, e cumpro.
De início, e como devia ser, perdeu-se nos labirintos... vagou por tempos incontáveis, perdendo aos poucos a noção dele, já não sentia frio ou calor, nem a aspereza do chão em seus pés descalços... apenas sentia os cheiros, cada vez mais fortes à medida que perdia os outros sentidos, urina velha, fezes, suores de pavor, sangue seco... cada odor era absolutamente perceptível, distinguível dos outros, e ela ia se acostumando a compreender seus labirintos por eles... aqui uma das vítimas urinou aterrorizada... aqui outra morreu, mas já estava desmaiada, não há cheiro de medo nesse sangue... Também aperfeiçoou a audição...  ouvia cada pequeno som, gemidos, soluços que alguém tentava conter mas escapavam, gritos e urros de dor e pavor... sabia que seu algoz também ouvia cada um desses sons, e sentia os cheiros com a mesma intensidade que ela, e isso a deixava inquieta e satisfeita ao mesmo tempo... estavam próximos e logo estariam juntos... Deitava-se nas pedras do chão e despertava com gritos que desapareciam minutos depois... mais um, ela contava, sabia que seriam onze antes do encontro definitivo com seu senhor.
Uma vez, ao acordar de um sono vazio, intuiu que aquele seria o dia do encontro... cada corda de si estava retesada, qualquer mínimo som ou odor a fazia fremir, seus nervos todos em compasso de espera... mas não havia medo nem angústia, apenas uma excitação do momento pelo qual esperara e se preparara a vida toda.
Há tempos já não ouvia choros, nem gritos, e sabia que os outros tinham encontrado seus destinos; faltava somente o dela, agora, e sentia alívio por ter chegado seu dia de ser resgatada.
Resgatada de quê? Não sabia... De si mesma? – mas se nem havia tido tempo de chegar a ser a si própria... Ou resgatada de uma vida sem sentido, dos labirintos e descaminhos que desembocaram em seu destino? Só sentia que aquele era o seu dia, pelo qual há milênios e encarnações esperava, tremendo em cada uma delas, sabendo que só seria ela mesma quando o olhasse nos olhos... o resto seria fácil, seria simples, seria aceitável e desejável, por que era seu instante único pelo qual sempre suportara cada uma de suas existências, buscando, procurando, mas só achando naquele momento, naquele Labirinto.
Quando finalmente se olharam, o tempo rompido, suspenso neles, compreenderam tudo... compreenderam a busca, a inquietação constante, o choro, os sorrisos, a espera... compreenderam sobretudo a espera, e já não importava mais o tempo perdido, gasto, pois ali, naquele olhar, já não havia espera nem procura...
O Minotauro deitou-se no colo da virgem e chorou... ela cantou canções para ele, contou-lhe histórias... e adormeceram o sono que repousa nos braços um do outro. E ela soube como uma virgem é engravidada por um deus.
Eloisa Helena Maranhão

30 setembro 2013

Coisas do mundo, minha nega

Amarildo não apareceu - nem seu corpo. Não só ele... 
Dadá - moradora de rua - foi morta apedrejada defendendo seus cães.
Cachorros - vivos - têm anzol colocado no nariz e são usados como isca para pescar tubarões.
Monsanto empesteia a terra - e a Terra - com seus transgênicos e herbicidas.
Coca-cola destrói os rios do planeta - vide o Ganges, polui a terra com seus pesticidas e lixo tóxico e contrata assassinos para matarem líderes sindicais.
Quase 3 bilhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza (com U$2 por dia). Quase 2 bilhões vivem na indigência (menos de U$1 por dia). Juntos, dá metade da população mundial.
Síria se autodestruindo.
África idem.
Palestina sendo destruída por Israel + EUA.

#eeuquesouloucadenãomeadaptaraessemundo?
#eunãocarregonascostasasdoresdomundo #elasquepulamnimim

De preguiça, psicologia, deus e o demo.

"Ai que prazer 
Não cumprir um dever
Ter um livro para ler 
E não o fazer." (Fernando Pessoa)

"Na ribeira desse rio
Ou na ribeira daquele
Passam meus dias a fio.
Nada me impede, me impele,
Me dá calor ou dá frio." (Fernando Pessoa)


Uma muié doida, aí (só podia ser psicóloga), escreveu dizendo que "Preguiça é o maior sinal da falta de autoconfiança", e, portanto, conclui: "Oriente-se pela psicologia e cultive sua autoestima".

Dona (estou respondendo pra ela), a preguiça é a mãe de Deus. A mãe do demo é o trabalho, principalmente o trabalho destituído de criação, o trabalho alienante, o trabalho-mercadoria, que vendemos pra comprar o básico da vida: comida, transporte, moradia, roupas. Saúde de qualidade, educação idem e lazer não dá pra pagar com o fruto do nosso trabalho, por que ele é apropriado pelo patrão. Isso a gente tem que usar do pior e mais porco, dado pelo Estado bonzinho. Amém.

A família de Deus é assim: mãe = preguiça; pai = ócio; avó = vagabundagem; tia = vadiagem; irmão = corpo-mole. Bela e feliz família, que está sempre juntos, sempre realizados com seu não-ter-o-que-fazer. Ou, tenho-mas-não-quero-fazer-e-não-faço.

A preguiça é o maior sinal de que estamos bem, satisfeitos com a vida que levamos, que não precisamos correr atrás de nada fora de nós mesmos, enfim, que atingimos o nirvana em vida, que alcançamos o ápice da evolução espiritual. Amém de novo.

Pra terminar: "oriente-se pela psicologia". Ãhn? Eu, hein, rosa! Cai fora, dubadubá-do-cientificismo-psicológico. Que Nossa-Senhora-da-sensatez e o Bom-Jesus-do-pensamento-mágico venham em nosso auxílio e nos orientem. Amém³. 

Cantando pra psicologia: "aqui nesse barco ninguém quer a sua orientação/ não temos perspectiva/ mas o vento nos dá a direção/ a vida que vai à deriva é a nossa condução/ mas não seguimos à toa." (Bom, o Arnaldo Antunes pode não seguir à toa, mas eu sigo. Completamente à toa).

#EssaPsicologiaNãoMeRepresenta
#NãoTravistaSuperstiçõesMoralistasComPsicologiaPorqueNãoEnganaNemTranformaEmCiência

07 setembro 2013

Vândalos, ostrogodos e visigodos.


"Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague" (Chico Buarque)





Noooooossa, queimaram a bandeira do Brasil!

Noooooossa, quebraram bancos e a Companhia Telefonica de España!

Grande coisa! Símbolos de um nacionalismo arcaico que só gerou guerras, e do capitalismo cada vez mais selvagem e excludente. 

Símbolos de um povo, principalmente uma juventude, que não tem projeto político e não se reconhece nas Instituições do seu país, daquele conceito, que se ensina nas escolas, chamado “nação”. 

Pessoas sem lugar numa sociedade que não acolhe a não ser as elites e os submissos, que se vendem a qualquer preço. Mesmo que sejam altos preços, como em algumas – poucas - profissões. Mas para serem acolhidos, fazerem parte, serem considerados “cidadãos” do Império têm que ser subservientes ao Sistema. 

Querem se opor? Fazer oposição? Mas que seja dentro das regras. Das regras que estão aí já postas há décadas, quiçá séculos. Não pode quebrar. Não pode depredar. Não pode destruir os bens. Não vale puxar cabelo, nem beliscão. 

Mas matar – ou deixar que matem - pode. 

Mas matar – ou deixar que morram de fome – pode. 

O humano, como bem previu Marx, virou mercadoria. E as mercadorias foram fetichizadas. 

Aí aparecem uns mascarados – oh, horror dos horrores, máscaras! – como se políticos, governos, as Instituições todas não vivessem escondidas atrás de máscaras. Ou, pior, não fossem eles próprios apenas... máscaras. De rostos muito bem protegidos. 

Pois aparecem uns mascarados que depredam, quebram, destroem, arrasam, não deixam pedra sobre pedra por onde passam. Ainda não, mas vão chegar nesse ponto, se mudanças não forem feitas para acolher a todos, no Brasil e no mundo. E por “mudanças” não entendam repressão, polícia, espancamento, assassinatos, prisões, torturas, como tem sido feito com eles. 

Aparecem esses bárbaros, vindos sabe-se que deus de onde, os sem lugar certo, os que não se encaixam nos lugares a eles reservados, ou não se contentam ao não-lugar em que habitam, e acham que podem perverter a Ordem. (Sim, aquela mesma que prometeu trazer Progresso com ela, mas só gestou o Nada que devora o planeta). 

Pois podem, mesmo. E estão mostrando isso. Podem quebrar, depredar, desconstruir, perverter, inverter, mudar os polos. Podem. E devem. 

Nossa, mas eles queimaram a bandeira do Brasil! 

Nossa, mas eles quebraram bancos e a Companhia Telefonica de España! 

Grande coisa! Símbolos de um nacionalismo arcaico que só gerou guerras, e do capitalismo cada vez mais selvagem e excludente, que merecem e precisam ser desmoronados para, quem sabe, coisas mais humanas sejam criadas e valorizadas em seu – podre - lugar. 



Eloisa Helena Maranhão

25 agosto 2013

Médicos cubanos: uma outra medicina é possível. Ou: o buraco é mais, mas muito mais embaixo.


"O melhor médico é aquele que recebe os que foram
desenganados (ou abandonados) por todos os outros". (Aristóteles) 


Esse debate todo sobre os médicos cubanos, para mim, é de grande importância, muito relevante, por que desvela exatamente a questão principal, que não se discute na mídia (nem interessa discutir): que a medicina ocidental curativa, baseada em diagnósticos a partir de aparelhos e instrumentos caríssimos, e apoiada na e pela indústria farmacêutica e os planos/seguros de saúde privados não é a única forma de praticar medicina.

Existe uma outra medicina possível, e de muito melhores resultados para a população mundial em geral: a medicina preventiva, humanitária, apoiada nos profissionais da saúde e em práticas de custo bem menor com resultados excelentes para a saúde pública. É essa medicina que os médicos cubanos esfregam diariamente, há décadas, na cara da medicina capitalista, e que faz os grandes empresários dessa indústria da doença, dos remédios e tratamentos de altíssimos custos espernearem desesperadamente (os grandes e renomados hospitais, geralmente privados, a indústria farmacêutica, os planos e seguros de saúde privados, os governos que também lucram com isso, e também os médicos, os doutores “ricos e cultos” – segundo eles mesmos – que enriquecem servindo e sendo servidos pela indústria da medicina de alto custo).

Nem preciso dizer que não sou contra a medicina “de ponta”, de alto custo, que salva muitas vidas. Mas salva vidas de ricos e alguns poucos pobres a quem estende suas mãos, para dar a parecer que atende a qualquer um. Todos sabemos que não é assim que a medicina funciona no capitalismo. Ela funciona para ricos que podem pagar por ela.

Por isso é que a medicina humanitária e preventiva, representada pelos médicos cubanos, é de extrema necessidade no Brasil e em qualquer lugar do mundo pobre; por que ela salva vidas prevenindo doenças evitáveis, doenças da pobreza, que, não tratadas desde o início, desenvolvem-se em doenças mais graves e que vão necessitar de intervenções muito mais complicadas e caras. E essas pessoas não terão acesso à medicina de ponta.

Outra questão da maior importância: estamos julgando os médicos cubanos – e sua medicina – pelos critérios da medicina capitalista e do trabalho capitalista. Chamando-os de escravos do governo cubano, que exporta mão-de-obra e fica com o dinheiro que advém dela. Mas os médicos cubanos, que vão a outros países e aceitam ficar com uma parte apenas do que recebem, enquanto outra fica com seu governo, pensam assim? Creio que seria interessante e justo ouvir o que os médicos cubanos têm a dizer a respeito: "Somos médicos formados com base no humanismo e na solidariedade. Viemos trabalhar para a melhoria da saúde do Brasil". Essa fala diz tudo. Coloca o dedo na ferida dessa pendenga toda, mostrando que há pessoas no mundo que não enxergam pela ótica capitalista e que não vivem pelo dinheiro apenas. 

Eu, particularmente, como professora – assim como muitos outros professores que conheço – sempre trabalhei na periferia, com a população mais pobre, e não foi por falta de opção. Foi por acreditar na educação pública, gratuita e de qualidade. E que meu trabalho poderia fazer diferença. Como conheço muitos profissionais da saúde – enfermeiras(os) e técnicos – que trabalham nas periferias, em cidades de fronteira, em locais absolutamente isolados e não se importam com isso, por que sentem – sabem – que são úteis. E trabalharia até de graça se soubesse que meu trabalho serve à população mais pobre do país, que vai ser usado para melhorar a qualidade de vida do povo e das próximas gerações.

E esses profissionais que se dedicam à saúde, à educação, não tiram dinheiro por fora (como os médicos dos grandes centros, que ganham extra para pedir exames de altíssimo custo para qualquer doencinha, que ganham dos laboratórios farmacêuticos para receitar seus remédios – muitas vezes nem sabendo exatamente como funcionam e se serão mesmo úteis para aquele paciente). Infelizmente, os “cultos e ricos” doutores servem ao capital, mesmo que se escondam atrás de uma máscara de sensibilidade e preocupação com a saúde da população. 

Só que, agora, com a vinda dos médicos cubanos, essa máscara caiu. Eles próprios tiraram as máscaras e mostraram ao Brasil e ao mundo o que são, realmente: escravos do capitalismo, da indústria privada da medicina. Dizem que Cuba vai ficar com 60% dos salários dos médicos cubanos. E o lucro que os médicos brasileiros/capitalistas dão aos hospitais e seus proprietários, à indústria farmacêutica e de equipamentos de diagnósticos, aos laboratórios de análises clínicas? 

Os “ricos e cultos” doutores são, eles sim, escravos do capital, reproduzindo e servindo a injustiça social, a desigualdade social, a insensibilidade com os pobres, o descompromisso com a saúde pública, a total falta de preocupação com 80% da população mundial que não tem acesso à medicina de ponta.

Por isso digo: bem vindos, doutores cubanos, o povo brasileiro precisa de vocês. E os médicos brasileiros deveriam aprender com vocês a “trabalhar para a melhoria da saúde no Brasil”.


Eloisa Helena Maranhão.

30 março 2013

Carta da Meia-Noite

"Não é muda a morte. Escuto o canto dos enlutados 
selar as rachaduras do silêncio. Escuto seu dulcíssimo 
 pranto florescer meu silêncio gris." (Alejandra Pizárnik)



Que hora para escrever, não é? Mais de meia-noite. Hora dos lobisomens, hora das almas penadas, hora em que os fantasmas saem de dentro dos cemitérios, e saem de dentro de nós, e nos vêm assombrar.

Hora em que as crianças estão dormindo, e nossa criança abre os olhos assustada, e chora, e grita, cheia de pesadelos, e não sabe o que fazer, o que pensar, vazando sentimentos que não consegue sentir de dia.

Por que de dia, ah!, de dia as sombras se dissolvem, os medos calam suas boquinhas, aquelas em forma de ovo, bem em oh, com sobrancelhas arqueadas; de dia o sol ilumina e seca as preocupações insolúveis, e elas param de supurar, de verter sua água doente que deixa a alma úmida à noite; de dia a vida dança e a gente esquece que não dança para todos; de dia a gente esquece que o realmente importante está dormindo, e faz  um barulho que o torne surdo, e canta canções de ninar, bem baixinho e suavemente, pra que durma, e bem, e só vá acordar de madrugada, depois da meia noite, quando então, sem barulhos ensurdecedores, o relevante acorde, não bocejando e melado de preguiça, mas se levante de um salto pra nos apavorar; e acordou, meu amigo, não nos deixa mais dormir.

Que hora pra te escrever! Queria que você acordasse também, perdesse o sono para sempre, também, se angustiasse e atolasse no medo; queria socializar a angústia, a dor, o pavor de viver. Pra que todo mundo que fosse respingado, à meia noite, nunca mais dormisse, e não tivesse mais paz, e de insônia profunda tivesse que desinverter a vida, pra poder de novo dormir e novamente descansar.

Queria que na inação da madrugada todos os gritos e urros e berros dos que sofrem fossem ouvidos pelos que dormem, e não conseguindo mais repousar se levantassem, saíssem pelas ruas, olhos arregalados e braços esticados, exército de sonâmbulos desesperados, e só voltassem a ter sossego no dia em que não houvesse mais nenhum, mas nem um só, que gritasse, urrasse, ou berrasse de sofrimento. De qualquer tipo de sofrimento.

Queria a dor dividida entre todos, mas tão dividida, e tão entre todos, que ela se tornaria ínfima, micro-sofrimento que, retalhado desse jeito, já nem poderia ser chamada de dor. E assim estilhaçada em pedacinhos, repartida como o pão cristão, não doeria mais, e cada um nem sentiria sua porção, pois que as fracas dorzinhas sentidas não teriam capacidade de incomodar mais ninguém.

É isso que eu queria à meia-noite, de hoje, dos outros dias, até que aprendêssemos que meia-noite é hora de enfraquecer, todos juntos, os lobisomens, as mulas-sem-cabeça, os fantasmas, e então até as almas penadas teriam paz, pois que tomaríamos também suas penas, dividindo-as entre todos, e tão divididas, e tão entre todos.

(Para Marco, o sub-comandante, e para João Pedro Stédile, que não têm medos. Mas, mesmo que os tenham, vencem o medo e sabem falar as palavras e fazer os atos que espantam os demônios da meia-noite.)

Eloisa Helena Maranhão.

27 fevereiro 2013

Ininteligível Ainda


"Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada." (Fernando Pessoa)

Ainda já tinha mais de meio século e sempre tinha vivido o que as pessoas chamam de normalmente – seja lá normal o que for. Seu passado tinha sido trabalhar, estudar, amar, ser amada, desamar, ser desamada, olhar, ouvir, falar, pensar, comer, dormir, transar, enfim, fazer tudo que os humanos fazem em suas vidas com seus corpos.
Seu presente também costumava ser do mesmo jeito, até que um dia Ainda percebeu, assim num insight, tipo caiu a ficha, que ela não sabia o que queria dizer (quando dizia), o que queria ouvir (quando ouvia), o que queria fazer (quando agia), o que significava.
Sim, pensou ela, o que Ainda significa? O que passou esse meio século tentando expressar, ou construir de si?
Ainda sabia como viver, sabia se usar a si mesma nas situações em que deveria, sabia colocar-se razoavelmente bem nas circunstâncias da vida. Ou pelo menos tinha sabido. Sabia dizer sim, quando sim era preciso, dizer não, quando não era inevitável, muitos talvez, ali dependurada, equilibrando-se quando absolutamente necessário – e geralmente quase tudo era absolutamente necessário. Os talvez eram imprescindíveis no mundo em que Ainda ainda vivia.
Olhava pro passado, e percebia que ele ainda fazia parte da vida dela, aquele passado com tantos fatos, memórias, esquecimentos (sim, até os esquecimentos ainda faziam parte do passado), pessoas, fantasias, e que tudo que tinha criado, fosse real ou fantástico, era – não, não via que tudo era bom, por que Ainda não era deus, mas ela olhava pro passado e via que tudo tinha sido como podia ter sido, como conseguiu que tivesse sido, como aguentou que fosse. Nada tinha a mudar ali, que passados não se mudam. Podem ser reinterpretados, mas, pensava Ainda, reinterpretar pra quê? Pra que serve ressignificar o que já foi, e, se voltar a ser, será diferente? Será um passado incrustrado no presente, como cracas nos navios. Só servem para rasgar o casco e afundar a embarcação.
Olhava pro futuro, aquele lugar onde moravam (ou deveriam morar, mas nem sempre) as expectativas, sonhos, desejos, promessas, esperanças, projetos – ou o contrário de tudo isso -, e também não via por que viver lá, naquela casa inabitável por que ainda não existia. E nem sabia se existiria. Ainda não tinha como morar num lugar ainda por vir, ou que nunca viria. No caso, ainda não era concreto, mas apenas promessa. Ou ameaça. Pra que projetar o que porventura nunca viesse a ser? E por que não projetar o que poderia ser, perguntava-se Ainda, ainda se fazendo perguntas talvez sábias. Talvez.
De qualquer forma, Ainda acabou descobrindo, ou pelo menos vislumbrando, que Ainda era alguém em continuidade, em movimento e incompleta, por isso mesmo. Sempre por terminar, e era essa incompletude que definia Ainda.
No passado, futuro ou no presente, Ainda significava estar sempre se acontecendo, mas nunca se terminando. E isso era sua salvação. Ou não. Ainda.

Eloisa Helena Maranhão

28 janeiro 2013

Oração por Santa Maria/RS.


"Quem é essa mulher, que canta sempre o mesmo arranjo, só queria agasalhar meu anjo e deixar seu corpo descansar." (Chico Buarque)


Deus, Deusa, conhecido ou desconhecido, traz paz para essas mães, pais, irmãos, avós, filhos, tios, primos, namorados, amigos, aqueles que amam e perderam seus amores.
Manda um vento suave de consolo, passa sua mão divina nos cabelos deles, enxuga as lágrimas com as pontas dos dedos, mas muito, muito delicadamente, por que qualquer toque, qualquer palavra, qualquer pensamento deve estar doendo, doendo desesperadamente.
Envia um prato de sopa quentinha, uma caneca de vinho também quente, cubra seus corpos, dos vivos, com cobertores macios que esquentem o frio completamente absurdo que devem estar sentindo.
Conforta, alivia, nem que seja com álcool, remédios, soníferos, derrama sobre cada um deles um sono profundo, mas que seja leve, que não pese. E que, nesse sono, lhes venham os mortos visitá-los e consolá-los com momentos felizes juntos, que é apenas isso que lhes resta para diminuir um pouco a saudade e o sofrimento.
Não deixe que ninguém, mas ninguém mesmo, principalmente essa mídia e repórteres insensíveis e embrutecidos, lhes magoe mais do que já estão sofrendo, que lhes tirem as migalhas de esperança e de fé que ainda consigam resistir, se manter vivas dentro de cada um deles.
Mantenha, Deus, Deusa, qualquer coisa que lhes sirva de amparo, de âncora, de fresta, de luz, de luz, de calor, de calor. Afasta a escuridão e o frio, por que não existem escuridão nem frio maiores que lidar com a morte de quem se ama.
Não importa que não acreditem, faz pelos descrentes o mesmo que fariam por seus crentes, pois na dor somos todos tão iguais, tão frágeis, tão terrivelmente desamparados, e é justamente essa dor que arrasa com qualquer fé. Abençoados aqueles que ainda conseguem manter fé e esperança no meio de um sofrimento tão devastador.
Faça com que compreendam, mas muito mansamente, sem mais dor nem horror, que os atos divinos são randômicos, e que o que estão passando não é fruto de culpas, nem de pecados, nem de descaso, nem de nada que eles próprios, familiares e amigos, possam ter feito em qualquer lugar ou tempo.
Que essas pessoas tão sofridas, esses nossos irmãos humanos consigam consolo e tranquilidade, Deus, mesmo que somente crendo no deus que se chame Acaso, ou na deusa que se denomine Aleatória.