27 fevereiro 2013

Ininteligível Ainda


"Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada." (Fernando Pessoa)

Ainda já tinha mais de meio século e sempre tinha vivido o que as pessoas chamam de normalmente – seja lá normal o que for. Seu passado tinha sido trabalhar, estudar, amar, ser amada, desamar, ser desamada, olhar, ouvir, falar, pensar, comer, dormir, transar, enfim, fazer tudo que os humanos fazem em suas vidas com seus corpos.
Seu presente também costumava ser do mesmo jeito, até que um dia Ainda percebeu, assim num insight, tipo caiu a ficha, que ela não sabia o que queria dizer (quando dizia), o que queria ouvir (quando ouvia), o que queria fazer (quando agia), o que significava.
Sim, pensou ela, o que Ainda significa? O que passou esse meio século tentando expressar, ou construir de si?
Ainda sabia como viver, sabia se usar a si mesma nas situações em que deveria, sabia colocar-se razoavelmente bem nas circunstâncias da vida. Ou pelo menos tinha sabido. Sabia dizer sim, quando sim era preciso, dizer não, quando não era inevitável, muitos talvez, ali dependurada, equilibrando-se quando absolutamente necessário – e geralmente quase tudo era absolutamente necessário. Os talvez eram imprescindíveis no mundo em que Ainda ainda vivia.
Olhava pro passado, e percebia que ele ainda fazia parte da vida dela, aquele passado com tantos fatos, memórias, esquecimentos (sim, até os esquecimentos ainda faziam parte do passado), pessoas, fantasias, e que tudo que tinha criado, fosse real ou fantástico, era – não, não via que tudo era bom, por que Ainda não era deus, mas ela olhava pro passado e via que tudo tinha sido como podia ter sido, como conseguiu que tivesse sido, como aguentou que fosse. Nada tinha a mudar ali, que passados não se mudam. Podem ser reinterpretados, mas, pensava Ainda, reinterpretar pra quê? Pra que serve ressignificar o que já foi, e, se voltar a ser, será diferente? Será um passado incrustrado no presente, como cracas nos navios. Só servem para rasgar o casco e afundar a embarcação.
Olhava pro futuro, aquele lugar onde moravam (ou deveriam morar, mas nem sempre) as expectativas, sonhos, desejos, promessas, esperanças, projetos – ou o contrário de tudo isso -, e também não via por que viver lá, naquela casa inabitável por que ainda não existia. E nem sabia se existiria. Ainda não tinha como morar num lugar ainda por vir, ou que nunca viria. No caso, ainda não era concreto, mas apenas promessa. Ou ameaça. Pra que projetar o que porventura nunca viesse a ser? E por que não projetar o que poderia ser, perguntava-se Ainda, ainda se fazendo perguntas talvez sábias. Talvez.
De qualquer forma, Ainda acabou descobrindo, ou pelo menos vislumbrando, que Ainda era alguém em continuidade, em movimento e incompleta, por isso mesmo. Sempre por terminar, e era essa incompletude que definia Ainda.
No passado, futuro ou no presente, Ainda significava estar sempre se acontecendo, mas nunca se terminando. E isso era sua salvação. Ou não. Ainda.

Eloisa Helena Maranhão