30 março 2013

Carta da Meia-Noite

"Não é muda a morte. Escuto o canto dos enlutados 
selar as rachaduras do silêncio. Escuto seu dulcíssimo 
 pranto florescer meu silêncio gris." (Alejandra Pizárnik)



Que hora para escrever, não é? Mais de meia-noite. Hora dos lobisomens, hora das almas penadas, hora em que os fantasmas saem de dentro dos cemitérios, e saem de dentro de nós, e nos vêm assombrar.

Hora em que as crianças estão dormindo, e nossa criança abre os olhos assustada, e chora, e grita, cheia de pesadelos, e não sabe o que fazer, o que pensar, vazando sentimentos que não consegue sentir de dia.

Por que de dia, ah!, de dia as sombras se dissolvem, os medos calam suas boquinhas, aquelas em forma de ovo, bem em oh, com sobrancelhas arqueadas; de dia o sol ilumina e seca as preocupações insolúveis, e elas param de supurar, de verter sua água doente que deixa a alma úmida à noite; de dia a vida dança e a gente esquece que não dança para todos; de dia a gente esquece que o realmente importante está dormindo, e faz  um barulho que o torne surdo, e canta canções de ninar, bem baixinho e suavemente, pra que durma, e bem, e só vá acordar de madrugada, depois da meia noite, quando então, sem barulhos ensurdecedores, o relevante acorde, não bocejando e melado de preguiça, mas se levante de um salto pra nos apavorar; e acordou, meu amigo, não nos deixa mais dormir.

Que hora pra te escrever! Queria que você acordasse também, perdesse o sono para sempre, também, se angustiasse e atolasse no medo; queria socializar a angústia, a dor, o pavor de viver. Pra que todo mundo que fosse respingado, à meia noite, nunca mais dormisse, e não tivesse mais paz, e de insônia profunda tivesse que desinverter a vida, pra poder de novo dormir e novamente descansar.

Queria que na inação da madrugada todos os gritos e urros e berros dos que sofrem fossem ouvidos pelos que dormem, e não conseguindo mais repousar se levantassem, saíssem pelas ruas, olhos arregalados e braços esticados, exército de sonâmbulos desesperados, e só voltassem a ter sossego no dia em que não houvesse mais nenhum, mas nem um só, que gritasse, urrasse, ou berrasse de sofrimento. De qualquer tipo de sofrimento.

Queria a dor dividida entre todos, mas tão dividida, e tão entre todos, que ela se tornaria ínfima, micro-sofrimento que, retalhado desse jeito, já nem poderia ser chamada de dor. E assim estilhaçada em pedacinhos, repartida como o pão cristão, não doeria mais, e cada um nem sentiria sua porção, pois que as fracas dorzinhas sentidas não teriam capacidade de incomodar mais ninguém.

É isso que eu queria à meia-noite, de hoje, dos outros dias, até que aprendêssemos que meia-noite é hora de enfraquecer, todos juntos, os lobisomens, as mulas-sem-cabeça, os fantasmas, e então até as almas penadas teriam paz, pois que tomaríamos também suas penas, dividindo-as entre todos, e tão divididas, e tão entre todos.

(Para Marco, o sub-comandante, e para João Pedro Stédile, que não têm medos. Mas, mesmo que os tenham, vencem o medo e sabem falar as palavras e fazer os atos que espantam os demônios da meia-noite.)

Eloisa Helena Maranhão.

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